O peso da estola sobre os ombros de um padre novo é muito maior do que o sonho daquele jovem que desejava colocá-la, pela primeira vez, no dia de sua ordenação. Certa vez, ouvi de um sacerdote experiente que trazer a estola sobre os ombros não é tarefa fácil. Hoje, com pouco mais de um ano de ordenação, consigo refletir profundamente sobre isso.
Com o passar do tempo, compreendo que o peso da estola equivale ao peso do mundo, tamanha é a responsabilidade diante da comunidade. Sob o título recebido na ordenação, repousam muitos julgamentos, mas também brotam agradecimentos e o reconhecimento sincero do povo santo de Deus. No entanto, há que se confessar uma dor silenciosa: muitas vezes, os julgamentos mais severos partem daqueles que estão perto ou longe, de leigos e até mesmo de outros religiosos, coirmãos que partilham do mesmo ministério, mas que esquecem a fragilidade do padre jovem. Como lembrava o Papa Bento XVI, "ser sacerdote é mergulhar a própria existência no mistério da Cruz, tornar-se com Cristo uma oferenda viva"(BENTO XVI apud SOUZA, 2024). O significado da estola transpassa completamente a beleza estética. Ela é, fundamentalmente, um símbolo de serviço à Igreja e ao povo de Deus.
Na tradicional oração de paramentação, rezamos: "Restitui-me, Senhor, a estola da imortalidade, que perdi na prevaricação do primeiro pai, e, ainda que não seja digno de me abeirar dos Vossos sagrados mistérios, fazei que mereça alcançar as alegrias eternas" (HOMILIAS, 2022). Nesta prece, reconhecemos nossa profunda indignidade; contudo, pela misericórdia do Senhor, a vestimos em prol de um bem maior: o de presidir a Santa Missa e santificar o povo. O simbolismo se torna ainda mais belo nos sacramentos da Confissão e da Unção dos Enfermos, quando o paramento se aproxima daqueles que buscam o padre para o alívio de suas dores e culpas. No confessionário, a estola não evoca a toga de um juiz perverso que visa apenas punir os crimes, mas traduz o abraço do Pai Amoroso que acolhe o filho arrependido. Ela não é símbolo de condenação, mas a própria extensão da misericórdia divina. Nela, ressoa o convite do Evangelho de São Mateus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei... porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11, 28-30).
A estola nos ombros carrega também uma autoridade. Uma autoridade que jamais impõe poder humano, mas que aponta e conduz o olhar da comunidade para aquele que verdadeiramente é o centro de tudo. O padre se torna um novo homem, configurado a Cristo Sacerdote. Muito além de oferecer o santo sacrifício no altar, ele é chamado a doar-se continuamente nos atendimentos, nas visitas e na acolhida aos que buscam encontrar o Senhor.
Porém, essa entrega cobra o seu preço. O preço da solidão e do sentir-se excluído, por vezes, até mesmo pelos próprios confrades. A estola que, na ordenação presbiteral, era puro motivo de júbilo, com o tempo converte-se em preocupação constante com o rebanho confiado: o andamento das pastorais, os movimentos e a própria saúde financeira da paróquia. Esse fardo, por vezes, impõe um divisor de águas doloroso entre o pastor e o administrador, roubando o sono, gerando o desânimo e a tentação de desistir de prosseguir.
Afinal, como o Catecismo da Igreja Católica citou o Santo Cura d'Ars, "se o padre entendesse plenamente o que ele é na terra, morreria, não de medo, mas de amor" (CIC, n. 1589). Esse peso só se torna leve quando a resposta ao chamado permanece forte. A confiança naquele que lançou o convite torna o fardo confortável, agradável e perfeitamente suportável. É na oração diária que o cansaço se mitiga. É no convívio com o povo de Deus que o sentido de ser um servidor, aos moldes de Jesus Cristo, ganha uma nova essência, que não reside nos bordados do paramento, mas na profundidade de sua missão. Enfim, o peso da estola nos ombros para este jovem padre é, de fato, muito maior do que o sonho que um dia ele acalentou. A beleza da peça litúrgica vai além da estética: envolve a sublime missão de anunciar Jesus Cristo aos pobres e desamparados. Quem fez a promessa é fiel; é Ele quem agirá (2Ts 5,24). Se Ele chamou, é porque Ele confia.