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Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM O êxodo do Verdadeiro Israel No dia 18 de fevereiro, a Igreja iniciou o tempo santo da Quaresma, para ajudar o povo de Deus no seu profundo caminho de conversão pessoal-comunitária, pastoral-missionária. Com o Evangelho de Mateus (Ano A), vivemos um itinerário catequético-formativo que ensina, ao Novo Povo de Deus, a sua missão: tornar-se discípulo- missionário do Reino dos céus, cumprindo toda a justiça, a exemplo das palavras e ações de Jesus de Nazaré. Como identificar esses elementos considerando as celebrações e reflexões ao longo da Quaresma, rumo à Páscoa? O Primeiro Domingo da Quaresma apresentou a chave de leitura, não só para cada tempo litúrgico, mas para toda a vida do discípulo: “Deus todo-poderoso (...), concedei-nos progredir no conhecimento do mistério do Cristo e corresponder-lhe por uma vida santa”. Portanto, a Quaresma nos veio como Kairós, isto é, “o momento favorável” (2Cor 6,2b) para que o discípulo realize um autêntico exame de consciência e busque converter-se, segundo a proposta catequético-dominical que lhe é apresentada neste ano: o itinerário batismal. Ora, pela graça do batismo, “porta dos sacramentos (...), pelo qual os homens são libertos dos pecados, se regeneram como filhos de Deus e, configurados por um caráter indelével, se incorporam à Igreja” (Cân 849), é que o discípulo-missionário construiu, segundo Mateus, o seu caminho penitencial, por meio dos símbolos da água (3º DQ), da luz (4º DQ) e da vida nova (5º DQ). Independentemente do ano litúrgico, os dois primeiros domingos da Quaresma apresentam os relatos evangélicos da tentação no deserto e da transfiguração, proclamando a fidelidade do Messias Jesus, contrária à rebeldia do povo no deserto rumo à terra prometida (cf. Êx 16; 17,1-7; 32,1-35; Sl 95). A perseverança no amor do Pai e o propósito de cumprir toda a justiça (cf. Mt 3,15), revelam a imagem do Cristo glorioso após a morte violenta na cruz, prefigurada no episódio da Transfiguração (cf. Mt 17,1-9). As palavras dirigidas aos discípulos de outrora, e a nós hoje, “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5b), reforçam a centralidade do Tríduo Pascal, no qual vemos Jesus, humilde Servo do Senhor (Is 50,4-7; Domingo de Ramos), e sacerdote que institui o sacramento do amor, a Santíssima Eucaristia cujo mistério revela a verdade na ação do Filho, pela qual Corpo e Sangue se transformarão em alimento para a caminhada do povo que Ele veio libertar dos pecados (cf. Mt 1,21; Quinta-feira Santa). A morte na Cruz (cf. Jo 19,30; Sexta-Feira Santa) manifesta a identidade do próprio Messias e do Deus de Israel, que transformará um conceito do Antigo Testamento (cf. Dt 21,22-23; Gl 3,13), visto até então como maldição, em verdade teológica e amor absoluto ao Filho e para com todos os que serão capazes de doar a sua vida em favor do Reino dos céus: o Filho do Homem, suspenso na cruz, é o “bendito de Deus” (VITÓRIO, 2019, p. 26). Portanto, a ressurreição de Jesus é a resposta do Pai, manifestando um profundo amor pelo Filho, já confirmado no batismo (cf. Mt 3,13-17), na transfiguração (cf. Mt 17,1-13), na crucificação (cf. Mt 27,27-44) e ressurreição (cf. Mt 28,6 – Domingo da Páscoa). Os períodos da Quaresma e da Páscoa, durante seis domingos, evidenciarão a caminhada do Verdadeiro Israel constituído pela ação de Deus na história, desde a Encarnação até à Ascensão para Ele (VITÓRIO, 2019, p. 71). O Novo Povo de Deus, termo que expressa, com veemência, o objetivo do presente ano litúrgico, é a nova família de Jesus que, dispensando os laços sanguíneos, incorpora à fecunda raiz de Jessé todos os que estão dispostos a acolher a justiça divina como projeto de vida, horizonte e meta do discípulo do Reino (cf. Mt 5,48; 12,50; Is 11,1.10; Rm 15,2), contido no relato das Bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), estabelecidas por Jesus como “ as bases do Reino dos céus” (VITÓRIO, 2019, p. 69). presente ano litúrgico, consiste na nova família de Jesus que, dispensando os laços sanguíneos, incorpora à fecunda raiz de Jessé, todos os que estão dispostos a acolher a justiça divina como projeto de vida, horizonte e meta do discípulo do Reino (cf. Mt 5,48; 12,50; Is 11,1.10; Rm 15,2), contido no relato das Bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12), sobre as quais Jesus “lança as bases do Reino dos céus” (VITÓRIO, 2019, p. 69). O Cristo ressurreto envia novo sopro de vida, colocando o perdão como critério que configura o novo nascimento dos que foram chamados “para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não se mancha nem murcha, e que é reservada para vós nos céus” (1Pd 1,3-9; 2º DP). Neste sentido, os apóstolos serão convocados a percorrer o caminho de Jesus, com ponto de partida em de Jerusalém “até os confins da terra”. O Espírito concedido “no dia de Pentecostes” fará com que as testemunhas da ressurreição anunciem, cheios de alegria, “o caminho para a vida” (3º DP), por meio de uma sincera conversão para o perdão dos pecados, aceitando o Batismo e o Espírito Santo, enviado como primeiro dom à comunidade pelo ‘Belo Pastor’ - ?γ? ε?μι ? ποιμ?ν ? καλ?ς (cf. Jo 20,22; 4º DP). Seguindo o Mestre, papel de todo discípulo-missionário (cf. Mt 16,23), como “caminho, verdade e vida”, a comunidade dos escolhidos ficará atenta às necessidades e demandas da missão (cf. Mt 18,6-10), sem permitir que quaisquer desafios causem divisões na comunidade (cf. Mt 18,15-20), pois todos os ministérios, poderes e autoridades, concedidos em vista do anúncio do Evangelho (cf. Mt 10,8-10; At 6,1-7), comportam um propósito comum: “proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9; 5º DP). Por fim, antes de sua Ascensão, Jesus Ressuscitado, no qual se cumprem as promessas do Deus de Israel (cf. Is 44,3; Ez 36,26-27; Jl 2,28-29; Zc 12,10), reforça o mandamento novo do amor, em que a acolhida do Espírito Santo ajudará os discípulos a integrar o perfil da comunidade do Novo Povo eleito: “quem acolhe os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei nele” (cf. Jo 14,21; 6º DP). Assim, compreendemos este caminho catequético-formativo, pois as palavras colhidas nas teofanias do Novo Testamento são enviadas aos discípulos do Reino, hoje: o Deus de Israel ama a cada um que se tornou discípulo e discípula de Jesus, fortalecido pelo Espírito Santo, para que caminhem segundo o projeto de vida revelado no Filho do Homem (cf. Mt 13,52). Ele é a realização das promessas contidas no Antigo Testamento (cf. Mt 1,22.23; 2,15.17.18.23), esperança do povo de Deus, cuja forma de relacionar-se com o Pai e com os irmãos, constitui o Verdadeiro Israel. Este povo não marcha mais para Canaã, terra prometida por Yhwh, mas para “o novo céu e a nova terra” (Ap 21,1), inaugurados no mistério do Christus totus, encarnado, ressuscitado e elevado à glória de Deus Pai (cf. At 2,36; Fl 2,6-11). Todo este caminho de conversão, pessoal e comunitária, interpela-nos a acolher os pobres, com os quais Jesus se identificará no Juízo Final (cf. Mt 25,31-46), para que possamos, confiantes na bondade de Deus, corresponder ao seu amor por uma vida santa, servindo aos pequeninos com verdade, alegria e sinceridade de alma e coração. A todos vós que fostes chamados a seguir Jesus, estimo um crescimento na fé, na esperança e na caridade, porque sois o “sal da terra e a luz do mundo” (Mt 5,13-14).   Referências bibliográficas BÍBLIA: palavra viva. São Paulo: Paulus, 2022. CELEBRAÇÕES e orações diversas. Liturgia Diária, Umuarama, ano 35, n. 410, p. 98, fev. 2026. São Paulo: Paulus. SANTA SÉ. Código de direito canônico: com o novo livro VI das sanções penais na igreja. 2. ed. Brasília, DF: Edições CNBB, 2022. VITÓRIO, J. Lendo o Evangelho Segundo Mateus: o caminho do discípulo do Reino. São Paulo: Paulus, 2019.
Pe. Vandeir Barbosa de Oliveira, CM
Pe. Vandeir Barbosa de Oliveira, CM Quaresma e Reconciliação: caminho de conversão e renovação da vocação vicentina Em meio à sobriedade penitencial do caminho quaresmal, a liturgia da Igreja nos anima e convida a perseverar nesta estrada que sobe ao monte santo da Páscoa, permitindo-nos entrever e experimentar a alegria (Domingo Laetare, Sacramento da Reconciliação etc.) para a qual nos conduzem os exercícios da Quaresma. Para os batizados, participar do Sacramento da Reconciliação, como penitentes — inclusive nós, padres e religiosos leigos consagrados — é renovar a graça da própria vocação. É deixar-se revitalizar no seguimento comunitário de Cristo, Evangelizador dos pobres (cf. Lc 4,16s), e no amor à Igreja, como se deu com S. Vicente de Paulo. O Sacramento da Reconciliação é como esse “raio X” que mostra, à luz da Palavra de Deus, a qualidade de nossa vida interior; ali acontece o perdão dos pecados do penitente arrependido, o retorno à comunhão, e uma graça peculiar lhe é dada como proteção e defesa contra o pecado, para que cresça no amor. A Reconciliação pessoal e comunitária repõe o amor do Espírito Santo derramado em nossos corações, tornando-nos mais aptos a viver a fé, a esperança e a praticar a caridade; e, como o amor engendra amor, uma vez dado o primeiro passo, o fascinante é que o segundo se torna mais fácil e nos encoraja a perseverar na boa direção, apesar de nossos corações, do mundo, de nossas Comunidades Religiosas e de nossas famílias ainda serem atravessados por conflitos e tensões. A Reconciliação pessoal e comunitária, sobretudo durante a Quaresma, toca e renova em nós o “primeiro amor”, esse lugar de encontro singular com o Senhor, sem mérito de nossa parte, ao qual respondemos com amor, liberdade e generosidade. Essa renovação/conversão age, portanto, na direção de nossa vocação e missão vicentina, firmando-nos nesse norte, religando-nos às nossas origens fontais, interpelando-nos a rever e fortalecer os vínculos de pertença vicentina (e a soltar de vez os falsos vínculos que podem nos tornar “mundanos” e que, à primeira vista, parecem muito atrativos), a abraçar com maior fidelidade as referências imediatas, seguras e específicas da Congregação da Missão. Entre estas, somos convidados a abraçar, com renovado amor, as virtudes vicentinas — simplicidade, humildade, mansidão, mortificação e zelo apostólico —, pois elas nos conferem um rosto próprio na Igreja e constituem a profundidade da alma do missionário e da Congregação, uma vez que nos levam a viver um estilo de vida fraterna e missionária marcante, perceptível e reconhecido pelas pessoas. Outra referência imediata, segura e própria da Congregação da Missão são os votos, notadamente o voto de estabilidade: os votos são um dom de Deus e fundamento de nossa vida espiritual, e seu objetivo é sustentar nossa vocação de evangelizar os pobres, de colaborar na formação do clero e dos fiéis cristãos leigos, para que todos participem mais plenamente do serviço aos pobres (cf. Constituições da CM, n. 28). Recebemos, com alegria, a visita do Assistente Geral à nossa Província (de 30 de janeiro a 27 de fevereiro), Pe. Abdo Eid, enviado do Padre Superior Geral, Tomaz Mavric. Esse tempo forte da graça de Deus concedido à nossa Província, e a todos os que colaboram conosco na missão, anima-nos vocacionalmente também, pois a visita revitaliza em nós a força e a beleza da vocação vicentina, às vezes despertada novamente, recuperada e fortalecida neste encontro de escuta, olhar diferente vindo de outra cultura, partilha e convivência missionária fraterna no mesmo ideal. E convida-nos a recuperar o gosto de trabalhar todos os dias na própria perfeição, segundo os exercícios e exigências de nossa vocação, para evangelizar melhor e com renovado ardor os nossos irmãos mais pobres. Que esta imensa graça nos impulsione a construir Comunidades Vicentinas vocacionais, por meio da acolhida, da fraternidade e da alegria, da oração e do serviço comprometido com os necessitados. E que, com maior ousadia, inflame em nós o desejo de apresentar, com mais intensidade, S. Vicente e seu projeto de vida a todos, mormente aos jovens, convencidos de que esse testemunho coerente de vida missionária vicentina tem potencial para ajudar a renovar toda a Igreja missionária. Dentro do espírito vicentino, continuemos, com criatividade missionária, a dar mais passos no compromisso da promoção e no serviço aos pobres, principalmente por meio do Projeto Aliança da Família Vicentina com os sem-teto (e outros existentes), neste ano de 2026, em sintonia também com a temática da Campanha da Fraternidade: Fraternidade e Moradia — “Ele veio morar entre nós”. Nos passos de São Vicente de Paulo, sigamos, na alegria, a estrada da Quaresma, itinerário de conversão propício para talhar nosso espírito segundo o carisma e a espiritualidade vicentina, renovando-nos no compromisso de assumir o desafio e a aventura de viver nosso carisma missionário em nossas obras e nos diversos ministérios, em estado de missão e de caridade/comunhão contínuos. E, assim, enriqueceremos, com o dom do carisma e da espiritualidade vicentina, todos os lugares onde trabalhamos e aonde o Senhor se dispuser a nos enviar. Tenham todos uma abençoada caminhada de Quaresma rumo à Páscoa do Senhor.
Sem. Carlos Francis Diniz
Sem. Carlos Francis Diniz Admissão à Congregação da Missão marca nova etapa na vocação vicentina A admissão à Congregação da Missão constitui um momento de particular profundidade espiritual e carismática no itinerário vocacional vicentino. Por meio desse ato, a Congregação acolhe oficialmente aquele que, após um tempo de discernimento, manifesta o desejo de “seguir a Cristo, evangelizador dos pobres” (cf. Constituições, C. 1), e reconhece nele sinais de uma vocação que pode ser cultivada no seio da comunidade vicentina. Trata-se, portanto, de um momento significativo não apenas para o candidato, mas para toda a Congregação, que se compromete a acompanhar, sustentar e orientar esse caminho vocacional à luz do carisma recebido de São Vicente de Paulo. A Congregação reconhece que “os pobres são os destinatários privilegiados da missão” (cf. C. 12) e que toda a formação deve preparar o candidato para esse serviço evangelizador. Assim, ser admitido significa assumir, de maneira mais explícita, o compromisso de deixar-se evangelizar pelos pobres e de servi-los com criatividade, disponibilidade e zelo apostólico. Sim, os pobres ensinam mais a nós do que nós a eles. De fato, São Vicente foi profundamente sábio ao afirmar que os pobres são nossos mestres e senhores. Como verdadeiros maestros da fé, vivem o Evangelho de maneira clara, simples e sem complicações. São professores formados na escola da vida, que transmitem, a partir de seu testemunho cristão, ensinamentos profundos de fé, esperança e amor, muitas vezes mais eloquentes do que longos discursos teóricos. No dia 20 de janeiro, abertura do Seminário Interno do ano de 2026, durante a celebração da Santa Eucaristia, memória litúrgica de São Sebastião, mártir, presidida pelo Missionário Vicentino Padre Vandeir Barbosa, CM, Superior da Província Brasileira da Congregação da Missão, a homilia, proclamada pelo presidente da celebração, destacou a necessidade de compreendermos profundamente a espiritualidade vicentina e de aplicá-la em todas as nossas ações enquanto missionários. Ele ressaltou que não é possível exercer a missão sem ter como referência a razão fundamental de nossa vocação, que, antes de qualquer tarefa ou ofício, consiste em revestir-se do Espírito de Jesus. Quando se perde essa referência essencial, já não se trabalha para o Reino de Deus, tampouco para a verdadeira evangelização. O Espírito de Jesus deve ser o guia de nossos trabalhos, pensamentos e obras; sem Ele, não há evangelização, tal como foi vivida e pensada por São Vicente de Paulo. Essas palavras, e tantas outras dirigidas a nós, seminaristas admitidos, que podem ser associadas  à figura religiosa dos noviços, soaram como um alerta e uma chamada à fidelidade ao projeto salvífico de Jesus. Recordaram-nos que, antes de qualquer atividade pastoral ou compromisso social, nós, enquanto cristãos e missionários, devemos cultivar uma vida profunda de oração. Como insistia o Fundador, essa atitude não se restringe a uma etapa formativa específica, mas deve acompanhar toda a vida, até o dia em que o Senhor nos chamar. Uma vida marcada por muitas atividades e pouca vida espiritual enfraquece o espírito, esvazia o carisma e faz perder o sentido profundo da missão confiada pela Igreja. Por isso nós, seminaristas admitidos, manifestamos profunda gratidão pelas palavras dirigidas e pelo cuidado espiritual demonstrado pelo Padre Vandeir para com esta nova comunidade, formada por jovens provenientes de diversas regiões do Brasil e do mundo. Os seminaristas admitidos foram: da Província Brasileira da Congregação da Missão (PBCM), Carlos Francis Diniz, CM, e Jakson Lopes, CM; da Província de Fortaleza (PFCM), Anderson Gomes de Souza, CM, Arival Vasselechen Júnior, CM, e Erick Glaysom Câmara, CM; da Província do México, Miguel Andrés García Juárez, CM, e Carlos Alberto Yánhez Juárez, CM; e da Província da Argentina (APU), Álvaro Juan González Figueroa, CM, e Fredy Benítez Molinas, CM. Estiveram presentes na acolhida desses seminaristas e concelebraram a Eucaristia os missionários vicentinos: Padre Gentil Silva, CM, Padre Sebastião Carvalho, CM, Padre Erick Gonçalves, CM, Padre Allyson Garcia, CM, Padre Weliton Martins, CM, Padre Louis Francescon, CM, Padre Eli Chaves, CM, e Padre Paulo Alves, que exerce seu ministério na Paróquia Santa Terezinha, pertencente ao clero da Arquidiocese de Belo Horizonte. A celebração contou ainda com a presença das Filhas da Caridade e de convidados leigos, expressão da comunhão e amizade ao longo destes anos de preparação para o Seminário Interno. A admissão é vivida, assim, como um tempo de gratidão e esperança. À luz das Constituições e Estatutos, ela recorda que a fidelidade ao carisma de São Vicente de Paulo passa por uma formação paciente, por um discernimento contínuo e por uma sincera docilidade ao Espírito Santo, que conduz a Congregação da Missão no serviço aos pobres e à Igreja, ontem, hoje e sempre. Termino este texto da mesma forma como São Vicente encerrou a carta de apresentação das Constituições Comuns da Congregação da Missão: “Finalmente, pois, Irmãos, vos rogamos e conjuramos, pelo amor de Jesus Cristo, que vos apliqueis à exata observância das mesmas regras, tendo por certo que, se as guardardes, elas vos guardarão, e, por último, vos conduzirão seguros ao fim desejado, isto é, à celeste bem-aventurança. Amém.” Rezem por nós!
Ir. Miguel Maria Generoso, CM
Ir. Miguel Maria Generoso, CM Testemunho de um missionário vicentino Minha primeira colocação foi no Engenho. Trabalhei uns três ou quatro anos, na administração. Depois fui para o Rio de Janeiro. Fiquei alguns meses. Fui para Petrópolis e depois, para o Caraça. Daí falei “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Adaptei-me muito bem ao sertão da Bahia*, fiz muita amizade. Povo muito bom. Simples, mas muito positivo, muito legal. As comunidades eram muito distantes umas das outras. O povo dizia: “eu quero é o padre da voz grossa”. Deixei muitos amigos lá. Trabalhei em uma missão no Rio de Janeiro, nas proximidades do Cristo Redentor. Trabalhei no Sumidouro, Santana do Morro, Brumadinho, São Gonçalo do Rio Acima, preguei missão em um muitos lugares. Onde eu chegava, falavam “Ah, o padre preto chegou! Eu gosto mesmo é de ir à missa do Padre Preto!” O povo é santo mesmo, nós é que não prestamos. Padre não é pra mim, não. Mas eu fazia muitas celebrações. Aí depois vinham me falar: “Eu casei com o senhor.” Eu respondia “Ei, comigo, não!” (risos) A melhor parte das missões eram as refeições. Serviam uma galinha caipira ótima, eu passava até vergonha! Era um povo muito amigo, um povo de Deus. Quando vai pregar a gente modifica muita coisa, revê muita coisa da gente mesmo. Aí, às vezes pedem para confessar comigo: aí não, não sou padre não. Não perdoo ninguém. (risos) Me colocaram para ajudar na disciplina no colégio falei “não isso não é pra mim não!” Mas fui. E fiz amizade com a turma toda. Foi bom! * Foto: Ir. Miguel em missão na comunidade Mata Verde, em Serra do Ramalho, Bahia, 1999. * Depoimento concedido à Sacha Leite, na Casa Dom Viçoso (Belo Horizonte - MG), em 2021.
Pe. Allan Júnio Ferreira, CM
Pe. Allan Júnio Ferreira, CM Vocação e pertencimento A vocação é uma dinâmica entre o chamador e o chamado e nesta relação acontece o paradigma da liberdade da pessoa chamada frente à proposta daquele que chama. Ao considerar o chamado de Deus como uma proposta, entendemos que, mesmo que a vocação seja uma iniciativa divina, cabe ao vocacionado decidir se acolhe ou não o dom da vocação dispensado a ele. A resposta, ainda que negativa, não anula a possibilidade de a pessoa vocacionada seguir o seu caminho, mas o seu chamado é intransferível e, por isso mesmo, a sua vocação estará à espera de uma abertura àquela voz que um dia o chamou. Quanto aos que responderam o seu sim, conscientes da responsabilidade da missão confiada, surge um desafio do qual pouco falamos: o sentido de pertencimento. A pessoa vocacionada, que decide livremente seguir a Jesus Cristo em uma especial consagração, deve possuir um profundo amor e estima pela própria vocação. Aquele que ama verdadeiramente a sua vocação será capaz de entender que uma das dimensões da vocação é o pertencimento. Pertencimento a que ou a quem? Primeiramente pertencimento ao autor do chamado, o próprio Jesus Cristo, “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28). A nossa missão primeira, pelo batismo, é sermos criaturas novas, discípulos do Mestre e colaboradores do seu reinado. O seguimento a Jesus Cristo deve ser a máxima da animação vocacional, pois Ele é, nas palavras de São Vicente de Paulo, a “Regra da Missão” e a “única pretensão do coração”. Assim como o chamado de Deus é gratuito, também a nossa resposta e adesão ao seu projeto de amor deve ser acolhido na gratuidade, sem esperar nada em troca (cf. Mt 19, 27-29). Dessa forma, entendemos que o primeiro pertencimento é a Jesus Cristo, o chamador por excelência. A pessoa vocacionada é também discípula e, portanto, corresponsável pela construção do Reino, a partir da sua resposta sincera ao chamado de Deus. Quando nos afastamos dessa verdade, corremos o sério risco de cairmos no esvaziamento do sentido do chamado vocacional. Não somos chamados primeiramente para fazer coisas, mas para estar com Ele (cf. Mc 3, 14). O segundo pertencimento desdobra-se naturalmente do primeiro. Somos membros da grande comunidade cristã, ou seja, da Igreja. A nossa vocação não caminha sozinha, ela se une a milhares de outras pessoas que também responderam o sim à missão. A Igreja é a comunidade dos chamados que depois se tornarão chamadores graças ao testemunho de cada um. “A própria Igreja se define como comunidade de chamados e chamadas, como instrumento de Deus. A Igreja, Povo de Deus, assembleia reunida, tem consciência de ser o lugar onde o apelo de Deus se faz vivo” (OLIVEIRA, 1999, p. 47). A dimensão comunitária da vocação é um forte apelo frente à realidade crescente do individualismo, do comodismo e do narcisismo. Estes “ismos” denotam um entrave nas relações comunitárias e a Igreja age com profetismo ao anunciar que “a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão”. (DAp. 163). Podemos pensar por último, mas não menos importante, o pertencimento à comunidade carismática. Aqueles que ingressam em nossas congregações e institutos foram atraídos de alguma forma pelo carisma e espiritualidade que decorrem daquele santo fundador. Por isso os vocacionados devem se sentir membros, mesmo que juridicamente ainda não sejam, participando ativamente da vida e da história da congregação ou instituto. O jovem que chega aos nossos seminários já possui outras experiências espirituais e devoções particulares, por vezes herdadas da família ou da comunidade paroquial em que estava inserido. Ao chegar em nossas casas se depara com um outro tipo de vivência espiritual e pastoral, e aqui está um desafio para os formadores: como apresentar a novidade carismática da congregação sem deixar de lado a beleza da espiritualidade e devoção popular de cada um? O sentimento de pertença a uma família religiosa virá com o tempo, mas também com o esforço do vocacionado e da comunidade formativa. É tarefa do vocacionado se abrir a novidade que se apresenta e ver o carisma e a espiritualidade do fundador como um valor e um tesouro a ser descoberto a cada dia. Além disto, descobrirá que a nova comunidade em que está inserido é a sua família e por isso deve se interessar pelos assuntos e pela dinâmica própria dos membros dessa família. Da parte dos formadores, deverão apresentar ao vocacionado a beleza do carisma e a riqueza que é fazer parte de uma congregação que não se resume somente aquela comunidade local. Portanto, o sentido de pertença é a chave para uma relação duradoura do vocacionado com a comunidade da qual fará parte. Pertencimento à Jesus Cristo que chama, à Igreja que confirma o chamado e ao Carisma que o acolhe. Nessa relação o vocacionado terá uma base sólida para viver a sua vocação de forma consciente e madura. do ativamente da vida e da história da congregação ou instituto. O jovem que chega aos nossos seminários já possui outras experiências espirituais e devoções particulares, por vezes herdadas da família ou da comunidade paroquial em que estava inserido. Ao chegar às nossas casas, depara-se com um outro tipo de vivência espiritual e pastoral, e aqui está um desafio para os formadores: como apresentar a novidade carismática da congregação sem deixar de lado a beleza da espiritualidade e devoção popular de cada um? O sentimento de pertença a uma família religiosa virá com o tempo, mas também com o esforço do vocacionado e da comunidade formativa. É tarefa do vocacionado se abrir à novidade que se apresenta e ver o carisma e a espiritualidade do fundador como um valor e um tesouro a ser descoberto a cada dia. Além disto, descobrirá que a nova comunidade em que está inserido é a sua família e por isso deve se interessar pelos assuntos e pela dinâmica própria dos membros dessa família. Da parte dos formadores, deverão apresentar ao vocacionado a beleza do carisma e a riqueza que é fazer parte de uma congregação que não se resume somente àquela comunidade local. Portanto, o sentido de pertença é a chave para uma relação duradoura do vocacionado com a comunidade da qual fará parte. Pertencimento a Jesus Cristo que chama, à Igreja que confirma o chamado e ao Carisma que o acolhe. Nessa relação, o vocacionado terá uma base sólida para viver a sua vocação de forma consciente e madura.
Pe. Vandeir Barbosa de Oliveira, CM
Pe. Vandeir Barbosa de Oliveira, CM Natal: convite a entrarmos todos na maravilhosa aventura da Salvação São Vicente de Paulo acolhia e contemplava profundamente o Mistério da Encarnação do Filho de Deus no acontecimento do Natal. Para o Santo, colocar-se diante do Mistério do Natal era colocar-se diante do mistério do sentido da vida, era experimentar a humilde grandeza do acontecimento do nascimento do Menino Jesus, e sentia-se impelido a comunicar a alegria de conhecer Jesus Misericordioso, a alegria do Evangelho a todos, particularmente aos mais Pobres: “Mas não vemos também que o Pai eterno, enviando seu Filho à terra para ser a luz do mundo, o fez aparecer como uma criancinha, como um desses pobrezinhos que vedes chegar até as nossas portas? Mas como! Ó Pai eterno, enviastes vosso Filho para iluminar e ensinar o mundo inteiro e, no entanto, ei-lo que nos parece nada menos que isso! Esperai um pouco, porém, e vereis o desígnio de Deus; porque resolveu não abandonar o mundo (...), mas dele se compadece, esse mesmo Filho dará por ele a sua vida” (S. Vicente, Partilha de oração de 15 de novembro de 1656, XI, p.387). No meio do ritmo acelerado do mundo atual que tende a nos atrair no mesmo frenesi, sobretudo com o aumento da intensidade das atividades e correrias de fim de ano, desejo que todos possamos viver de modo consciente, intenso e profundo a preparação para o nascimento de Jesus, o Salvador. Na fragilidade do Menino Jesus, Deus tornou-se tão próximo de cada um de nós, que podemos manter uma relação de afeto profundo com Ele, abrir nossos corações a uma nova esperança que nos é oferecida. Abramos nossos corações e nos façamos peregrinos na aventura rumo ao encontro do Menino, à exemplo dos “Reis” Magos vindos do Oriente que deixaram seus palácios, riquezas, estilos de vida e cultura, entraram na periferia da vida e na simplicidade do presépio adoraram, contemplaram e ofereceram seus mais preciosos dons e presentes. Aquele que, gratuitamente, iluminou suas vidas revelando-se para eles como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo14, 6): pois, os três “Reis”, transformados, naquele encontro, voltaram por outro caminho, mudando de rota (cf. Mt 2, 1-12). À exemplo dos Pastores de rebanhos (cf. Lc2, 8-11) que foram os primeiros a participar do Natal de Jesus, junto com Maria e José, abramos novamente nossos corações à surpresa da revelação de Deus no amor escondido no presépio, longe de toda grandeza: ali, Deus quis esconder seu mistério aos sábios e entendidos deste mundo e manifestá-lo aos simples, humildes e “pequeninos” (cf. Mt 11, 25; Lc 10, 21). Com alegria, acolhamos também nós, o convite divino do Natal do Senhor a entrarmos na maravilhosa aventura da Salvação, renovando a fé, a esperança e a caridade, renovando o estilo de vida vicentino expresso na prática das virtudes vicentinas da humildade, simplicidade, mansidão, mortificação e zelo pela salvação de todos. Caros coirmãos – padres, irmãos e seminaristas vicentinos –, colaboradores, afiliados, juntos, supliquemos a Deus neste tempo de Natal, nos passos de São Vicente de Paulo, para que nos conceda a simplicidade de reconhecer no Menino, o Senhor, o Salvador da humanidade, Aquele que nos “envia para evangelizar os pobres” e nos ensina um novo modo de viver, amar e servir ao próximo capaz de dar sentido e felicidade às nossas vidas doadas para o bem de toda a humanidade. Estendemos nossos votos de feliz e abençoado Natal a todos e todas que se unem a nós por meio deste site e de nossas redes sociais, somando forças no serviço de caridade e de evangelização dos mais necessitados, particularmente aos vários ramos da Família Vicentina. Bom Natal a todos. Fraternalmente, Pe. Vandeir B. de Oliveira, cm Visitador Provincial da PBCM
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM Jesus veio ao mundo como um sem-teto Jesus veio ao mundo como um sem-teto. Maria e José estavam em Belém por ocasião do recenseamento imposto pelos romanos e não conseguiram um quarto de pousada ou um cômodo de amigos para passar a noite. Quando Maria, grávida de nove meses e tanto, começou a sentir as dores do parto, José ainda buscava um abrigo que fosse. Ele só conseguiu um curral de vacas, onde Jesus nasceu e em seguida foi posto em uma manjedoura. Hoje, esta conhecida cena tem a sua dor e dificuldade amenizadas pela candura dos presépios, reproduzidos sem que haja uma reflexão sobre seu real significado. Porém, não é bonito, nem ao menos confortável, nascer em um curral. Naquele local não havia luzes de pisca-pisca ou música natalina, ali havia a dor e a incerteza de uma família desabrigada. A campanha da fraternidade do próximo ano, cuja temática é “Fraternidade e Moradia”, nos convida a pensar sobre as pessoas que, assim como o recém-nascido Jesus, vivem a incerteza de não ter um local seguro onde repousar a cabeça. No nosso cotidiano, encontramos muitos destes irmãos e irmãs, são nossos vizinhos, dividem conosco a mesma rua, o mesmo bairro. Pouco fazemos para aliviar a dor que eles sentem, e, muitas vezes, até desejamos que se distanciem de nós. Eles dormem embaixo das marquises dos nossos prédios, subsistem em grande sofrimento físico e mental. Não têm cama ou lugar para um banho digno, tampouco a garantia de uma refeição diária. Estas pessoas vivem como Jesus nasceu. E poucos se dispõem a oferecer-lhes qualquer ajuda, mínima que seja. Neste momento, devemos mirar a atitude dos Magos e Pastores, que, ao verem o Menino e sua família, não se afastaram deles. Mas ajudaram, cedendo espaço e acolhendo - como fizeram os Pastores - e oferecendo presentes - como fizeram os Magos. Respondendo à nossa vocação como Agentes de Transformação Social, precisamos ser Magos e Pastores para os nossos irmãos e vizinhos em situação de rua. Por isso, neste Natal, convido nossa comunidade a olhar para o presépio de uma maneira diferente, para além dos bibelôs, das vaquinhas fofas e pequenas estátuas felizes, mas olhar como um espaço simples e pobre, onde nasceu o Filho de Deus. Que o presépio nos ensine a ser gratos pelo pouco que temos, inclusive o privilégio de ter uma casa. Vicentinos que somos, sabemos que a melhor maneira de demonstrar gratidão é ajudando a quem precisa. Sejamos Magos e Pastores! Um feliz e abençoado Natal para todos.
Pe. Allan Júnio Ferreira, CM
Pe. Allan Júnio Ferreira, CM Novena em honra a São Vicente de Paulo   Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.  Amém. Vinde Espírito Santo...   HINO DE SÃO VICENTE DE PAULO 1-Glória e louvor ao ínclito Vicente/ Oh, meu bom pai e Santo protetor!/ Sois na Igreja um Sol resplandecente/ Louvar-vos-ei alegre e com fervor A nosso Deus, glória e louvor/ Eternamente ao Deus de São Vicente!/ Glória e louvor! Glória e amor!/ Por nos ter concedido, protetor tão querido! 2-Glória e louvor a Quem formou tal alma/ E a encheu de Seu divino Amor!/ Desde a infância, um vivo fogo inflama/ A São Vicente! É luz! É chama ardente!   ORAÇÃO INICIAL PARA TODOS OS DIAS Oração a São Vicente de Paulo Apóstolo e testemunha da caridade de Cristo junto aos pobres, fazei-nos amar a Deus com a força dos nossos braços e com o suor dos nossos rostos. Ajudai-nos a nos abandonar à sua Divina Providência, fieis em descobrir a sua ação em todos os acontecimentos de nossa vida. Sustentai-nos no nosso desejo de discernir e realizar a vontade de Deus. Obtende-nos um coração terno e compassivo com as misérias e os sofrimentos dos outros, especialmente dos mais necessitados deste mundo. Acompanhai-nos no nosso serviço aos homens e às mulheres e intercedei junto ao Filho de Deus, para que nos tornemos no nosso trabalho, na nossa família, no nosso bairro, na nossa paróquia, nas nossas comunidades, os apaixonados de seu Evangelho do Amor. Amém São Vicente de Paulo – Rogai por nós!   PRIMEIRO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, SEGUIDOR DE JESUS CRISTO O EVANGELIZADOR DOS POBRES   Motivação: “Veio Nosso Senhor e foi enviado por seu Pai para evangelizar os pobres: ‘O Senhor me enviou para evangelizar os pobres’. Pauperibus, aos pobres! Meus Senhores, aos pobres! [...] Que felicidade, meus Senhores, que felicidade! Fazer aquilo que trouxe Nosso Senhor do céu à terra e mediante o que, iremos também nós da terra ao céu; continuar a obra de Deus, que fugia das cidades e ia aos campos procurar os pobres! Eis em que nos ocupam as regras: em ajudar os pobres, nossos mestres e senhores.”  (SV, br, XII, 3) Evangelho: Lc 4, 16-21 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Senhor, amigo da vida, que te revelaste a nós com rosto providente. Pai de ternura e compaixão, Filho que morreu por amor, Espírito que incomoda e anima”, ajuda-nos a seguir e a amar Jesus Cristo, o evangelizador dos pobres e a reconhecer-Te nos rostos dos mais pobres e sofredores. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai. Após segue-se a oração final para todos os dias   SEGUNDO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, FIEL A DIVINA PROVIDÊNCIA   Motivação: “O verdadeiro missionário não deve preocupar-se com os bens deste mundo, mas confiar sempre na Providência do Senhor, ficando certo de que, enquanto estiver bem estabelecido na caridade e bem fundado nessa confiança, estará sempre sob a proteção de Deus e, por conseguinte, nenhum mal lhe acontecerá e nenhum bem lhe faltará, ainda quando pensar que, segundo as aparências, tudo se vai perder. Não digo isso por meu próprio espírito; é a Sagrada Escritura quem no-lo ensina: ‘O que se abriga sob a bandeira da confiança em Deus será sempre favorecido com uma especial proteção de sua parte’.” (SV, br, XI, 40). Leitura: Sl 90 (91) Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Divina Providência, que convocaste Vicente de Paulo, que nos convoca hoje”, ensina-nos a depositar a nossa confiança em Deus e abandonarmo-nos nos braços da sua providência. Amém Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   TERCEIRO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, MISSIONÁRIO DA ESPERANÇA   Motivação: “Senhor, atraí-nos ao vosso seguimento, concedei-nos a graça de entrar na prática de vosso exemplo e de nossa regra, que nos leva a procurar o Reino de Deus e sua justiça e abandonar-nos a ele quanto a tudo mais. Fazei que sobre nós impere vosso Pai e aí reinai vós mesmo, fazendo-nos reinar em vós, pela fé, pela esperança, pelo amor, pela humildade, pela obediência e pela união com vossa divina Majestade. Agindo desse modo, temos razão de esperar que reinaremos, um dia, em vossa glória, que nos foi merecida por vosso precioso sangue.” (SV, br, XII, 150). Leitura: Rm 5, 1-5 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: Deus de amor e esperança “ensina-me a acolher tua vontade, a obedecer-te, a ser fiel ao teu projeto de amor” e a trilhar um caminho de fé, esperança e caridade, colocando os meus passos em vossos passos e nos passos de São Vicente de Paulo. Amém Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   QUARTO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, MULTIPLICADOR DAS VOCAÇÕES   Motivação: “Se perseverarmos na nossa vocação, será graças à oração. Se tivermos bom êxito em nossos encargos, será graças à oração. Se não cairmos no pecado, será graças à oração. Se permanecermos na caridade, se nos salvarmos, tudo isso será graças a Deus e à oração. Assim como Deus nada recusa à oração, quase nada concede sem a oração: Rogai ao Senhor da messe. Não, nada, nem mesmo a propagação de seu Evangelho, coisa que mais interessa a sua glória: Rogai ao Senhor da messe. Mas, Senhor, isso vos diz respeito e vos pertence. Não importa! Rogai ao Senhor da messe. Peçamos, pois, com toda humildade, a Deus, que nos faça entrar nesta prática.” (SV, br, XI, 417-418). Evangelho: Lc 10, 1-12 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Deus de nossa vocação. Que sondas nosso íntimo. Que transformas nosso vazio em potencial de caridade. Que me olhas, me compreendes e simplesmente me amas”, que a exemplo de São Vicente de Paulo, possamos ouvir o chamado de Deus e assumirmos a vocação a que formos chamados. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   QUINTO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, REFORMADOR DO CLERO E DA VIDA CONSAGRADA Motivação: Aos padres: “Ocupar-se alguém na formação de bons padres e para isso concorrer como causa segunda eficiente instrumental é fazer o ofício de Jesus Cristo que, durante sua vida mortal, parece ter tomado a peito formar doze bons padres que são os seus apóstolos, tendo querido, para esse efeito, permanecer vários anos com eles, para instruí-los e formá-los nesse divino ministério.” (SV, br, XI, 8). Às irmãs: “[...]e conhecereis se sois verdadeiras Filhas da Caridade, se fordes muito humildes, se não tiverdes ambição nem presunção, se não vos julgardes mais do que sois, nem mais do que os outros, quer quanto ao físico, quer quanto à inteligência, família ou bens, ou ainda quanto à virtude, que seria a mais perigosa ambição. Fazei uso dos bens de Deus na simplicidade. Se vos lembrardes de ter feito alguma coisa boa, atribuí a glória a Deus” (SV, Conferência às Filhas da Caridade, 1960, p. 53) Evangelho: Mc 4, 10-12; 33-34 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Senhor, ensina-me a acolher tua vontade, a obedecer-te, a ser fiel ao teu projeto de amor”, para que multiplicando os dons e talentos que distribuís, possa a Igreja ser uma verdadeira comunidade de vocacionados e vocacionadas, a serviço do Reino de Deus. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   SEXTO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, ANUNCIADOR DO EVANGELHO Motivação: “A Igreja é comparada a uma grande messe que requer operários que trabalhem. Nada há mais conforme o Evangelho do que acumular luzes e forças para a própria alma, na oração, leitura e solidão, e ir em seguida repartir com os homens este alimento espiritual. É fazer o que fez Nosso Senhor e os apóstolos depois dele, é juntar o oficio de Marta ao de Maria, é imitar a pomba que digere a metade do alimento que tomou e coloca o resto, com o próprio bico, no bico dos filhotes, para alimentá-los. Eis como devemos fazer, eis como devemos testemunhar a Deus, por nossas obras, que o amamos: ‘o amor verdadeiro se prova na ação’.” (SV, br, XI, 42). Evangelho: Mt 16, 15-20 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: Deus de Jesus Cristo, “converte-me em instrumento de tua providência, em construtor de uma sociedade mais justa, em irmão privilegiado do pobre, do leigo, da criança, da mulher, do prisioneiro, do retirante, do humilhado e cada um dos prediletos de São Vicente”. Que a exemplo do pai da caridade possamos anunciar o Evangelho com alegria, fazendo chegar aos confins do mundo, a certeza do vosso amor. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   SÉTIMO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, CARIDADE EM AÇÃO Motivação: “Nossa vocação é, portanto, ir, não a uma paróquia nem só a um bispado, mas por toda a terra; para fazer o quê? Abrasar os corações dos homens, fazer o que fez o Filho de Deus, que veio trazer fogo ao mundo, a fim de inflamá-lo com o seu amor. O que devemos querer senão que esse amor a tudo queime e consuma? Meus caros irmãos, reflitamos nisso por favor. É, por conseguinte, verdade que sou enviado não só para amar a Deus, mas para fazer que o amem. Não me deve bastar amar a Deus, se meu próximo não o ama. Devo amar meu próximo como a imagem de Deus e o objeto de seu amor e agir de modo que, por sua vez, os homens amem seu criador, que os conhece e os reconhece como seus irmãos, e os salvou.” (SV, br, XII, 267). Evangelho: Mt 25, 31-46 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Deus de São Vicente. Que teu amor, ‘inventivo ao infinito’, nos torne resposta fiel e diária ao teu Reino de Vida”. Que a caridade seja a marca fundamental do verdadeiro vicentino e que o amor aos pobres seja afetivo e efetivo. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   OITAVO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, UMA VIDA DE VIRTUDES Motivação: “Ora, meus irmãos, como teremos esse espírito de simplicidade, de humildade e mansidão, se não temos a mortificação que nos faz achar tudo bom? E como teremos a mortificação, sem o zelo que nos impele a levar de vencida toda sorte de dificuldades, não só pela força da razão, mas pela força da graça, [...] O espírito da Missão é, sem dúvida, um espírito de simplicidade, de humildade, de mansidão, de mortificação e de zelo. Temos esse espírito ou não? [...] Mas, Senhor, que fazer para isso? É preciso que essas cinco virtudes sejam como as faculdades da alma de toda Congregação. É preciso que, como a alma, pelo entendimento, conhece, pela vontade, quer, e, pela memória, se lembra, assim também não proceda um missionário senão por meio dessas virtudes.” (SV, br, XII, 313-314). Leitura: Cl 3, 1-17 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos: “Deus do amor infinito, envolve-nos em teu abraço, aconchega-nos em teu regaço, ampara-nos com tua mão”, afim de que revestidos das virtudes evangélicas, possamos testemunhar o amor de Deus no mundo. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.   NONO DIA: SÃO VICENTE DE PAULO, UM SANTO PARA NOSSOS TEMPOS Motivação: “Dizem dos religiosos que eles estão no estado de perfeição. Nós não somos religiosos mas podemos dizer que estamos em um estado de caridade, pois vivemos constantemente entregues à prática real do amor ou em prontidão para sê-lo. [...] Ó Salvador, como sou feliz por permanecer em um estado de amor para com o próximo, em um estado que vos fala por si mesmo, rogo-vos e apresento-vos, incessantemente, o que faço em seu favor! Dai-me a graça de entender minha felicidade e de amar profundamente esse bem-aventurado estado. Possa eu contribuir para que brilhe essa virtude na Companhia agora, amanhã e sempre. Amém.” (SV, br, XII, 280) Leitura: 1Pd 1, 13-16 Momento de meditação, silêncio. Partilha. Todos:  Senhor, “confiamos em Ti, como São Vicente, o pai dos pobres, como Maria, Senhora das Graças. Abandonamo-nos à tua providência, a ela entregamos nossas mãos, nossos pés, nossa mente, nosso coração, nossos lábios, para que a humanidade te reconheça, Senhor amigo da vida”. Amém. Pai Nosso. Ave Maria. Glória ao Pai.       ORAÇÃO FINAL PARA TODOS OS DIAS Oração da Família Vicentina Senhor Jesus, Vós que vos fizestes Pobre, fazei que tenhamos os olhos e o coração voltados para os Pobres e que possamos reconhecer-vos neles, em sua sede, em sua fome, em sua solidão e em sua dor. Suscitai em nossa Família Vicentina a unidade, a simplicidade, a humildade e a chama da caridade que inflamou o coração de São Vicente de Paulo. Dai-nos força para que, fiéis à prática destas virtudes, possamos contemplar vos e servir-vos na pessoa do Pobre e um dia nos unirmos a Vós e a eles no vosso reino. Amém.   CANTO FINAL São Vicente, amigo dos pobres/Amigo da gente, amigo de Deus (bis) Coração humilde, sem marcas de ambição/ Sempre ajudando seu irmão/ Sempre ajudando seu irmão. (refrão) Coração que acolhe, o pobre e o sofredor/ Cheio de ternura e de amor /Cheio de ternura e de amor. (refrão)    
Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM Papa Leão XIV, mensageiro da paz Dance de alegria, filha de Sião. Grite de alegria, filha de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de jumenta. Ele destruirá os carros de guerra (...) e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações, e seu domínio irá de mar a mar (...) até os confins da terra. (Zc 9,9-10) Pierre est parmi nous! Pedro está entre nós. Com a alegre notícia da eleição do Sumo Pontífice, toda a Igreja Católica se felicita e se sente grata a Deus, pela ação do Espírito Divino em nossa caminhada pastoral-missionária. Tal eleição se mescla ao feliz anúncio da Ressurreição de Jesus, a qual, nesta terceira semana da Páscoa, canta a alegria da sua misericórdia que “nos torna mais firmes em vossa verdade” [1]. O Pai nos enviou o seu servo Leão XIV para conduzir a barca de Pedro. Frade Agostiniano, vimos que se encontra disposto a continuar o caminho aberto por Francisco, a fim de melhor expressar a tradição viva da Igreja, que se concretiza no amor infinito de Deus, pela humanidade inteira. Na imagem ilustrativa deste artigo, o Sumo Pontífice aparece montado num pequeno animal, enquanto vivia os dias das Santas Missões Populares Vicentinas, no Peru, onde viveu como bispo. Tal imagem, recorda-nos a profecia de Zacarias, que faz memória ao tempo novo de Deus, ao enviar o Messias Cristo. Em hebraico, a palavra mashiach significa “ungido”, “eleito”, escolhido”, “enviado”. No capítulo 9, o profeta recorda à Cidade Santa que o eleito do Pai vem para restaurar Israel, com as ferramentas de trabalho que o Pai lhe deu: a humildade, pequenez na dinâmica do amor e cuidado integrais. Por quê? Ao citar o jumento como transporte para ele, Zacarias recorda que o Messias vem anunciar um tempo de paz. Segundo a tradição bíblica, o tempo messiânico seria um período de paz. O cavalo é o animal para a guerra, preferido do Império Romano para impor a sua “pax romana”. A violenta “pax romana”, melhor dizendo. O jumento é transporte dos humildes, dos simples, dos justos, cuja salvação vem de Deus, e não da força, da imposição e da opressão. É bonito e expressivo pensar que Jesus, ao entrar em Jerusalém, escolheu como transporte o jumentinho (Lc 19,28-40) [2]. O humilde Servo Senhor opta pelas coisas simples, para que as pessoas se aproximem d’Ele e experimentem sua compaixão e amor infinitos. Ele vem a Jerusalém para “salvar o seu povo de seus pecados” (Mt 1,21). E a salvação que vem de Deus é a expressão máxima de seu amor ao renovar a criação, por meio do mistério pascal de seu Filho amado. Jesus quebra a espiral da violência e caminha na contramão das ideologias do Império: integra e não descarta; ajuda os pobres a carregar seus fardos, num fardo leve e suave (Mt 11,28-29); dialoga e não impõe; ama e não oprime; compartilha, não explora; apresenta-se como “Homem da paz”, deixando de lado gestos e sentimentos de violência. Por isso, Ele é proclamado o restaurador de Israel, cuja base para a sua missão é manifestar um Deus “indulgente, favorável, paciente, bondoso e compassivo” (Sl 103[102],8-9). No seu primeiro discurso, em 8 de maio de 2025, o Papa Leão XIV, iniciou com as seguintes palavras: “Queridos irmãos e irmãs, a paz esteja com todos vós.” O nome do Sumo Pontífice apresenta seu horizonte de trabalho. ‘Leão’ é nome de fortaleza, coragem, ousadia! Uma fortaleza que se manifesta na fraqueza, na pequenez, na sobriedade, em suma, no amor (Jo 13,35). O Papa Leão, ao escolher este nome, quer mostrar-nos a fortaleza da graça de Deus e a humanidade de sua pessoa, como ‘Vigário de Cristo’ na terra. Ao aparecer na sacada da Basílica de São Pedro, ontem, mostrou-nos a sua humanidade ao conter suas lágrimas. Eleito pela ação do Espírito, mostra-se disponível ao apresentar a grandeza do ministério petrino mesclado à pequenez de sua humanidade – “feita de homens, a Igreja é divina, pois o Espírito Santo a conduz” [3]. Assim como Pedro, assim com Leão XIV. Durante as atividades das Santas Missões Populares Vicentinas, numa paróquia lazarista, no Peru, escolheu o transporte dos simples, para anunciar a Boa-Nova que vem ao mundo para restaurar, curar, interpelar, impulsionar e ‘vocacionar’ os discípulos de Jesus, para se transformarem na expressão da misericórdia divina, arautos e mensageiros da paz. A conquista da paz foi umas das balizas do ministério de Francisco, e será também de Leão XIV, a nosso ver. Nós podemos repetir as palavras de Zacarias: Dança de alegria, filha de Sião. Grita de alegria, filha de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de jumenta. Ele destruirá os carros de guerra (...) e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações, e seu domínio irá de mar a mar (...) até os confins da terra. Deixemos que o espírito da alegria nos envolva neste tempo de feliz anúncio da Ressurreição e da grata saudade de Francisco. Leão vem a nós como homem justo e vitorioso, porque “o bem prevalecerá”. A violência dos homens, que se culminou na morte de Jesus, foi calcada pela Vida plena. A Vida sai vitoriosa, e, junto a Jesus ressuscitado, toda a humanidade experimenta a salvação que vem do nosso Deus. O servo eleito anunciou o amor do Pai, segundo o carisma vicentino, montado num jumentinho, cuja primeira expressão, como Bispo de Roma, saúda toda a terra com a paz. Urbi et orbi (à cidade [de Roma] e ao mundo). Na sua última aparição, Francisco desejou aos fiéis “Buona Pásqua”; Leão XIV repete o gesto de Jesus, quando apareceu, pela primeira vez, aos seus discípulos, que se sentiam tristes pela morte d’Ele, e com medo dos judeus: “A paz esteja com vocês”. Nesta mesma aparição, o Bispo de Roma abençoou a Cidade Eterna e todo o mundo, concluindo, tal qual o Escolhido do Pai, após a saudação do Shalom: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20,19-20). Leão se colocou disponível para anunciar a paz a todas as nações até os confins da terra, inaugurado a partir de seu discurso, que foi acompanhado por todos os países do mundo, por inúmeros cristãos católicos e até mesmo por pessoas de outras denominações religiosas. Vivemos um tempo de graça e de muita esperança, que não decepciona os filhos de Deus (Rm 5,5), que ouviu as nossas muitas preces e as atendeu na eleição do dia de ontem. Peçamos, meus irmãos, a virtude da humildade, a lógica da coerência e a força consoladora da paz, conquistada em meio à muitas dores, mas sempre vitoriosa, segundo as palavras do Sumo Pontífice, “esta é a paz de Cristo ressuscitado, uma paz desarmada, uma paz desarmadora, humilde e perseverante, que provém de Deus. Deus que nos ama a todos, incondicionalmente”. Sigamos perseverantes no caminho da justiça, do direito e da paz, com aquele que, para nós, é Bispo, mas conosco é cristão [4]. Viva Leão XIV! Notas [1] Coleta da quinta-feira da terceira semana da Páscoa; [2] Textos e citações conforme a tradução da NOVA BÍBLIA PASTORAL – Paulus; [3] Trecho da música “Nós estamos aqui reunidos”, para, e sobretudo, a Solenidade de Pentecostes; [4] Frase de Santo Agostinho, citada por Leão XIV, em seu discurso de apresentação como bispo de Roma, em 8 de maio de 2025.
Pe. Cléber Fábio Teodósio
Pe. Cléber Fábio Teodósio 2025, um ano de esperança e encontro com o Senhor Neste ano de 2025 a Igreja Católica celebra seu ano Santo, com a temática “Peregrinos da Esperança”. Jesus, segundo o Evangelho de Lucas (4,18-19), anunciou a Sua missão como uma proclamação do "ano da graça do Senhor", ecoando os ideais do Jubileu. A partir disso, a Igreja Católica adotou o Jubileu como um Ano Santo, repetido a cada 100, 50 ou 25 anos, como um período para experimentar a transformação pela santidade de Deus. O primeiro Jubileu oficial foi instituído em 1300 pelo Papa Bonifácio VIII. Inicialmente, essa celebração ocorria a cada 100 anos, mas sua frequência foi diminuindo ao longo dos séculos, chegando a ser realizada a cada 25 anos. Esses anos santos incluem rituais como a peregrinação e o ato simbólico de atravessar a Porta Santa, representando a conversão e o perdão. Participar do Jubileu permite aos fiéis obter indulgência plenária, promovendo a reconciliação com Deus e com o próximo. Na bula papal de proclamação do Jubileu ordinário do ano de 2025, datada de 9 de maio de 2024, Papa Francisco nos diz: “Spes non confundit – ‘a esperança não engana’ (Rm 5, 5). [...] Penso em todos os peregrinos de esperança, que chegarão a Roma para viver o Ano Santo e em quantos, não podendo vir à cidade dos apóstolos Pedro e Paulo, vão celebrá-lo nas Igrejas particulares. Possa ser, para todos, um momento de encontro vivo e pessoal com o Senhor Jesus, porta de salvação (cf. Jo 10,7.9); com Ele, que a Igreja tem por missão anunciar sempre, em toda a parte e a todos, como sendo a ‘nossa esperança’” (1Tm 1,1). Em Roma, as celebrações jubilares tiveram início em 24 de dezembro de 2024 e vão até 6 de janeiro de 2026. Porém, nas demais igrejas particulares, o tempo jubilar começou em 29 de dezembro de 2024, com a abertura das Portas Santas, em todas as catedrais e concatedrais, durante a Festa da Sagrada Família e será encerrado no dia 28 de dezembro de 2025, também na Festa da Sagrada Família. Cada comunidade local terá sua própria cruz jubilar. São símbolos típicos do Jubileu a peregrinação, a porta santa, a reconciliação, a oração, a liturgia, a profissão de fé e a indulgência. Esta última se refere à remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados, isto é, para os quais a absolvição já foi obtida pela confissão, que o fiel, devidamente disposto e em certas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos.Numa comparação simples: Se o pecado é uma erva daninha no campo da vida, com a confissão, corta-se a erva, deixando o campo limpo, mas a raiz (pena temporal) fica sob a terra do coração. Com a indulgência, arranca-se a raiz, de modo que se limpa o exterior e o interior.     Conforme orientações da Penitenciária Apostólica, indulgências plenárias serão concedidas durante o ano santo - Jubileu 2025 - a todo fiel que: . Peregrinar a qualquer lugar sagrado do Jubileu (Roma, Terra Santa e em outras circunscrições eclesiásticas, catedrais diocesanas ou santuários) e participar devotamente da Santa Missa. . Visitar os lugares sagrados (Roma ou outros lugares sagrados para o jubileu), adorar a eucaristia e meditar, concluindo com o Pai-Nosso, a Profissão de Fé e Invocações à Maria, Mãe de Deus. (Se alguém está impedido de peregrinar por motivo de doença, clausura ou similar, é possível participar do movimento espiritual que acompanha este ano, oferecendo seu sofrimento e seu cotidiano e participando da celebração eucarística localmente). . Realizar obras de misericórdia e de penitência: Obras de Misericórdia- Corporal ou Espiritual, participando de missões populares, exercícios espirituais, encontros de formação sobre o Concílio Vaticano II e Catecismo da Igreja Católica ou visitas aos necessitados, vendo neles Jesus Cristo. Penitência: Guardar as sextas-feiras (abstendo-se de futilidades, jejuando e devolvendo uma soma proporcional em dinheiro aos pobres, obra social ou religiosa) ou Sacramento da Reconciliação (Confissão). Apesar da regra geral segundo à qual só se pode lucrar uma Indulgência Plenária por dia a instrução da Penitenciária Apostólica com as normas para receber Indulgências Plenárias durante o Ano Jubilar 2025 determina que “os fiéis que terão praticado o ato de caridade a favor das almas do Purgatório, caso se aproximem legitimamente do sacramento da Comunhão uma segunda vez, no mesmo dia, poderão obter duas vezes, no mesmo dia, a Indulgência plenária, aplicável apenas aos defuntos (entende-se no âmbito de uma celebração eucarística)". A ideia é que, uma vez alcançada a indulgência, o fiel continue na graça de Deus e faça essa bênção chegar aos demais por meio do seguimento fiel a Jesus Cristo. Em síntese, é necessário praticar as seguintes ações para se conseguir a indulgência plenária jubilar: 1) Peregrinação à Porta Santa, 2) Confissão, 3) Oração pelas intenções do Papa, 4) Comunhão eucarística e 5) Praticar a Caridade. O Projeto 13 Casas, da Família Vicentina Internacional, foi eleito pelo Papa Francisco exemplo de gesto concreto de caridade do ano jubilar. Ele apoiará os esforços da FHA para devolver a esperança a treze famílias na Síria, construindo casas, destacando uma crise esquecida que continua a afetar tantas famílias.Que saibamos aproveitar as iniciativas desse jubileu para nos aproximarmos mais de Jesus, sendo sal da terra e luz do mundo e um sinal de esperança para todos.
Pe Michel Araújo Silva, CM
Pe Michel Araújo Silva, CM No Coração do Evangelho Estamos nos aproximando do final do tempo comum e a liturgia da palavra nos convida a fazer uma revisão de vida, tomando consciência de que tudo passa, mas a Palavra de Deus permanece (Lc 17,26-37; Mc 13,24-32). Infelizmente temos muita facilidade em nos determos em coisas frívolas, efêmeras. Com isso acabamos vivendo na superfície da existência. Chegando ao final do ano litúrgico e confrontando o nosso modo de proceder com o ideal evangélico, somos interpelados a uma mudança no estilo de vida, afim de que esse possa ser mais autêntico e coerente. No coração do Evangelho, sabemos, estão os pobres e, a busca por uma vida autenticamente evangélica, traz consigo, inevitavelmente, a dinâmica da caridade. O amor operoso. Também é próprio de um estilo de vida em sintonia com o Evangelho, a pobreza. O desapego aos bens temporais. Assim, o serviço aos pobres e a atitude de liberdade interior diante das "coisas que passam" nos ajudam a viver com os olhos e o coração concentrados naquele que é nosso sentido nesta peregrinação: Cristo Jesus. Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, a Igreja nos convida a celebrarmos, também, o dia do pobre, cujo lema é “a oração do pobre eleva-se até Deus” (cf. Sir 21, 5). Tempo oportuno para avaliarmos a nossa conduta cristã: 1) No meu quotidiano, valorizo as pessoas, especialmente os pobres, procurando enxergar neles o próprio crucificado, ou as minhas relações são meramente utilitárias?2) Num mundo marcado pela cultura do acúmulo, vivo buscando acumular coisas, posses, para me sentir seguro e importante, ou sou capaz de viver livremente com o coração indiviso e os olhos fixos em Cristo?3) Disperso-me avaliando se as pessoas vivem ou não com coerência essa dimensão da fé, esquecendo-me que devo ser o primeiro interpelado a viver a pobreza? A oração do pobre eleva-se ao Senhor e, com certeza, agrada-O porquê tudo que o pobre tem é o próprio Deus. Quem vive como pobre descobre que Deus é a única segurança e só ele basta porque é dele que vem a salvação. Rezemos, a fim de que o Espírito Santo nos ilumine e nos ajude a vivermos numa atitude de vigilância e liberdade com os olhos voltados para Deus e os braços abertos para servir os que sofrem.  
Pe. Denílson Matias, CM
Pe. Denílson Matias, CM Por uma teologia negra Olá, meus queridos e queridas. Mês de novembro chegando e como cada ano eu tenho feito, às vezes por vídeo ou outras vezes por outros tipos de postagem, eu venho trabalhar com vocês durante quatro semanas algumas questões relacionadas à negritude e também à fé. E hoje eu parto de algo interessante, que no mês de agosto eu participei do Congresso da Sociedade Brasileira de Teologia Moral, e numa mesa redonda me foi perguntado se eu acredito na possibilidade de uma teologia negra na Igreja Católica. Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer para vocês que essa expressão “teologia negra”, que foi cunhada por James Cone, inclusive, como Black Theology of Liberation, a teologia negra, da libertação. Ela foi cunhada nos Estados Unidos. James Cohen é um dos grandes expoentes dessa teologia. Aqui eu até trago o livro dele. Teologia Negra, Black Theology. E, hoje em dia, no ambiente da igreja católica, eu vejo isso com uma certa reticência e com um pouco de dificuldade. A primeira é que faltam interlocutores, ou seja, pessoas que estejam dispostas a assumir, a fazer, a construir, a elaborar teologias que, de fato, venham tratar da questão das negritudes. Teologias que são verdadeiras a partir da experiência, da vivência das pessoas negras. Durante muito tempo, a nossa teologia foi um tanto embranquecida, ou ela nasceu branca. De certo modo, não nos compreendemos nela e nem a partir dela. Cohen vai dizer algo muito interessante. A teologia negra busca criar uma norma teológica em harmonia com a condição das pessoas negras e uma revelação bíblica. Por um lado, a norma não deve ser particular de quem está fazendo a teologia, mas deve ter a sua origem na própria comunidade negra. Isso significa que não pode existir norma para a comunidade negra que não leve a sério sua realidade no mundo e as implicações disso em uma sociedade branca e racista. Às vezes parece que nos ambientes de fé, inclusive no próprio ambiente eclesial, nós negros estamos à margem. Nós fomos, além de colonizados, traficados, escravizados e, muitas vezes, não nos sentimos contemplados pela palavra de Deus, porque o discurso é, de certo modo, embranquecido. Advém da questão da compreensão de um Deus branco, como se nós não pertencêssemos a este corpo humano que Deus cria. É como se a gente tivesse pegado carona e sobrou ali a rebarba, um pouquinho, para nós. E eles dizem, então, vocês podem usufruir desse espaço de salvação a partir do seu sofrimento, a partir da sua dor. E é isso que nós temos para vocês. Então fazer teologia negra, hoje, é um sentido mais amplo, seria que as nossas comunidades negras tivessem em primeiro lugar acesso à academia. A gente dá uma olhada nos mestrados, nos doutorados em teologia, e nós vemos que o número de pessoas negras é muito pequeno, e que, de certo modo, quando fazem teologia ou quando se dispõem a fazer teologia, fazem em outras áreas e não tem esse espaço de interlocução com as próprias questões da comunidade negra, com os sofrimentos da comunidade negra. E isso, para nós, se torna um espaço onde nós não temos fala, onde nós não temos uma produção acadêmica expoente, grande, no ambiente católico. A gente vê que os protestantes estão à nossa frente há muito, muito mais tempo. Então, um exercício que nós pensamos fazer hoje, a partir da Igreja daquelas pessoas que gostam de teologia, que se identificam com a teologia, procurar as academias, procurar as universidades e se embrenhar nesse caminho de reflexão. Por quê? Estamos perdendo várias áreas do saber, várias ciências já estão ocupadas com a questão das negritudes, e nós vemos que cada vez mais aparecem expoentes, seja na sociologia, na psicologia social, nós temos exemplo da Cida Bento, por exemplo, que trata a questão do pacto narcísico da branquitude. Outros nomes que vão surgindo em outras áreas, na filosofia etc. Mas a teologia na Igreja Católica ainda está muito aquém. Aquém de trazer à tona reflexões pertinentes que tocam na questão das pessoas negras e que tem, de fato, incidência na vida prática dessas pessoas. Então, precisamos fazer uma autocrítica da teologia e começar a pensar em produções que sejam antirracistas. Por isso, hoje eu digo com muita tranquilidade que a teologia precisa passar por um letramento racial. Visto que conhecemos vários recortes teológicos, várias interfaces da teologia, mas, no que diz respeito à questão das negritudes, ainda estamos muito, muito silenciosos. E por faltar, principalmente, pessoas que se dedicam a esse fazer científico, criar um caminho epistemológico no qual a teologia também tenha a tonalidade de pele negra, onde ela tenha traços negros no seu rosto, na sua fala, no seu incidir na vida das comunidades.
Pe. Salvatore Fari, CM
Pe. Salvatore Fari, CM Mãos para a oração A oração do pobre Em 2017, o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, com a intenção de conceder uma resposta de toda a Igreja aos pobres quanto à dor, marginalização, opressão, violência, tortura, prisão, guerra, privação de liberdade e dignidade, ignorância, analfabetismo, emergência sanitária, falta de trabalho, tráfico, escravidão, exílio e miséria. Isto para não pensarem que o grito deles teria caído no vazio. Eis os temas das Jornadas Mundiais dos Pobres: . Não amemos com palavras, mas com ações (2017) . Este pobre clama e o Senhor o ouve (2018) . A esperança dos pobres não será decepcionada (2019) . Estende tua mão aso pobres (2020) . Você sempre terá os pobres com você (2021) . Jesus Cristo se tornou pobre por você (2022) . Não desvie o olhar dos pobres (2023) No dia 13 de junho de 2024, na memória litúrgica de Santo Antônio de Pádua, padroeiro dos pobres, o Papa Francisco enviou uma bela mensagem à Igreja universal para o VIII Dia Mundial dos Pobres, intitulado: “a oração dos pobres sobe a Deus” (Sir 21,5). O texto bíblico põe em evidência como os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus, tanto que, diante do seu sofrimento, Deus fica “impaciente” até que lhes faça justiça. Ninguém, absolutamente ninguém, está excluído do seu coração! O Dia Mundial dos Pobres tornou-se um evento anual que convida cada fiel e cada comunidade a ouvir a oração dos pobres, tomando consciência da sua presença e de suas necessidades. Ouvir os pobres significa também ser discípulos dos pobres; sim, podemos acudir à escola dos pobres! Numa cultura que colocou a riqueza em primeiro lugar e muitas vezes sacrifica a dignidade das pessoas no altar dos bens materiais, vão contra a corrente, enfatizando que o que é essencial para a vida é outra coisa. Na sua mensagem, o Papa Francisco convida-nos, no caminho do Ano Santo de 2025, a cuidar “dos pequenos detalhes do amor" na fidelidade cotidiana: parar, aproximar-se, prestar um pouco de atenção, um sorriso, um carinho, uma palavra de conforto… Um aspecto que, na minha opinião, é muito importante é mencionado no n. 5 da mensagem do Papa: a oração. “Precisamos fazer nossa a oração dos pobres e rezar ao lado deles. É um desafio que devemos aceitar e uma ação pastoral que precisa ser alimentada. Na verdade, a pior discriminação que os pobres sofrem é a falta de atenção espiritual. A grande maioria dos pobres tem uma abertura especial à fé; Eles precisam de Deus e não podemos deixar de lhes oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta de um caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se principalmente numa atenção religiosa privilegiada e prioritária”. Mãos para a oração O quarto centenário de fundação da Congregação da Missão não é só para os missionários vicentinos, mas para toda a Igreja e para todos os fieis, um convite à oração, a ter mãos para oração. Nesta segunda reflexão proponho também uma pintura sobre tela, Homem em Oração, do artista O bósnio Safet Zec, que fugiu do cerco de Sarajevo durante a guerra dos Balcãs na década de 1990. O artista retrata um homem que, precisamente na oração, encontra luz e esperança na escuridão. Esta imagem pode ser acompanhada pela iconografia bíblica da cura dos surdos (Marcos 7,32-37): "Jesus levou-o à parte, longe da multidão, colocou-lhe os dedos nos ouvidos e, com saliva, tocou-lhe a língua; Então, olhando para o céu, suspirou e disse-lhe: 'Effatá', isto é, 'Abra-te'". O texto bíblico revela que o vínculo profundo entre o amor a Deus e o amor ao próximo deve também entrar em nossa oração. Em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, a atenção ao outro, sobretudo se está necessitado e sofrendo, leva-o a recorrer ao Pai, naquela relação fundamental que guia toda a sua vida. Mas também acontece o contrário: comunhão com o Pai, diálogo constante com Ele estimula Jesus a estar atento de modo único às situações concretas do homem, para levá-las o conforto e o amor de Deus. A relação com o homem orienta-nos para a relação com Deus, e a relação com Deus nos guia de volta ao próximo. Vicente de Paulo entre o serviço e a oração Vicente, comovido pela sua proximidade aos pobres, olhou para eles com um olhar teológico, isto é, com o olhar que Deus demonstrou ter para com o povo da aliança, reduzido a condições miseráveis ??na história da salvação: o olhar compreensivo do amor misericordioso, que se tornou transparente de maneira inequívoca no olhar com o qual Jesus acariciava os pecadores, os infelizes e os fracos. Os pobres tornaram-se para Vicente o ponto mais sensível da sua consciência, em cujo contato  seus espírito vibrava. Jean Calvet (um biógrafo seu) escreve: “Ele sentiu e acreditou que realmente, sem metáfora, o mendigo, o maltrapilho, era seu irmão. Se todos os dias ele fizesse dois pobres da rua sentarem à sua mesa e quisesse servi-los ele mesmo foi porque viu neles Jesus Cristo, mas antes de tudo porque viu neles os seus irmãos. E como eram irmãos infelizes, ele achava que mereciam aquele olhar particular: considerava-os seus “amos e senhores”. Traduzindo para outra língua uma de suas exortações em favor dos pobres, podemos escuta-lo novamente com estas palavras: “Olhai para os pobres, observai-os bem. Eles são rudes, desfigurados pela dor e fome. Sujos. Eles mal parecem humanos. E ainda assim, vire a moeda e você verá nela a imagem do Filho de Deus, que na sua paixão na cruz assumiu aquele rosto desfigurado e humilhado”. Para Vicente, cada pobre era um rosto carregado de história. Um rosto que teve que ser decifrado e amado com ternura e cordialidade, reconhecendo o mesmo mistério do Deus que se fez homem e compartilhou o sofrimento humano. A este respeito, lembro-me de um texto retirado do Regulamento da Caridade Feminina de Montmirail, onde Vicente educa no serviço e na oração: “Ao entrar na casa de um doente, cumprimentá-lo-á com gentileza, então, aproximando-se da cama com uma cara modestamente alegre, ele o convidará para comer, ajeitará o travesseiro, arrumará a manta, põe a mesa, a toalha, o prato, a colher, limpa a tigela, serve a sopa, coloca a carne na prato, fará com que o doente abençoe a comida e tome a sopa, cortará a carne em pedacinhos, o ajudará a comer dizendo alguma palavra santa, alegre e reconfortante para animá-lo, ele lhe dará de beber, ele o convidará novamente para comer. Por fim, ao terminar a refeição, depois de lavar os pratos e talheres, você dobrará a toalha e Ele vai tirar a mesinha, mandar o doente fazer a oração de agradecimento e imediatamente cumprimentá-lo para ir servir outro.” Não esqueçamos que os pobres, as pessoas, as “coisas para fazer” não separaram Vicente do coração da sua experiência com Deus, na oração: Dedicado continuamente à oração, não se distraia nem mesmo com a contemplação de mistérios divinos, nem com as pessoas, nem com os assuntos, nem com as coisas felizes ou tristes: na verdade, ele sempre teve Deus presente em sua mente, e com muito esforço e estratégias sagradas ele conseguiu fazer com que tudo que aparecia diante de seus olhos se lembrará de seu Criador; expressando à sua maneira a glória de Deus e os louvores divinos, conduziram-no ao contemplação da beleza celestial. Por isso sempre foi modesto, manso, dócil e benevolente, preservando em todas as coisas uma maravilhosa serenidade de espírito: não se exaltava com as coisas felizes nem se perturbava com as adversidades, pois podia diga com o profeta: “Tenho sempre Deus diante dos meus olhos porque Ele está à minha direita para que eu não seja abalado” Conclusão Que o Senhor nos conceda a capacidade de uma oração cada vez mais intensa, para fortalecer a nossa relacionamento pessoal com Deus Pai, alargar o nosso coração às necessidades de quem nos rodeia e sentir a beleza de ser “irmãos no Filho” (Lumen gentium, 62) para construir a fraternidade e amizade social (Fratelli tutti, 6). Il Signore ci conceda di essere capaci di una preghiera sempre più intensa, per rafforzare il nostro rapporto personale con Dio Padre, allargare il nostro cuore alle necessità di chi ci sta accanto e sentire la bellezza di essere «fratelli nel Figlio» (Lumen gentium, 62) per costruire fraternità e amicizia sociale (Fratelli tutti, 6). * Esta é uma livre versão em português, o texto original em italiano, intitulado "Mani ter la preghiera" encontra-se disponível no site da Cúria Geral da Congregação da Missão.  
Mariano Pereira Lopes
Mariano Pereira Lopes Caraça Os anos 60 e 70 do século XVIII testemunham o início de uma trajetória vitoriosa de um cidadão português, o Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Sua vida talvez seja a mais misteriosa de quantas se descrevem na história eclesiástica brasileira. Eclesiástica devido ao contexto de religiosidade, espiritualidade e mística em que ele se envolveu. “Vindo de outras terras e outras eras”, ele se arranjou bem financeiramente graças aos negócios com diamantes na região do Tijuco, hoje Diamantina, seara rica nessas preciosidades. Apesar de pesquisas variadas sobre a origem e real identidade do Irmão Lourenço, nunca se soube sequer seu verdadeiro nome, apenas um processo de conversão e ingresso na Ordem Terceira de São Francisco, adotando para sempre o nome de Irmão Lourenço de Nossa Senhora, com a intenção explícita de se consagrar à Mãe de Deus e o voto de erguer-lhe, em algum tempo e lugar, um templo, uma ermida. Referindo-se às hipóteses da procedência do Fundador do caraça, o Padre Antônio da Cruz, em seu livro “O Centenário do Caraça”, de 1920, diz que “o mais plausível é que era (o eremita) um simples colono que, no comércio de diamantes, adquiriu fortuna regular e depois, tocado pela graça divina e melhor compreendendo a vaidade do mundo, recolheu-se à solidão, para consagrar-se ao serviço de Deus.” ¹ (O Centenário do Caraça, Padre Antonio da Cruz,1920) Nesse novo estado de vida, Lourenço deixa o arraial do Tijuco pelos idos de 1763 e, após alguns percalços da viagem, chega a uma região montanhosa, até então totalmente inóspita, nas redondezas da pequenina Catas Altas, região que lhe parece propícia para erguer uma ermida à Mãe de Deus, cumprindo sua antiga promessa. Devido à semelhança de um dos montes com um grande rosto humano, aquele local já era conhecido como Caraça ou o próprio Lourenço assim o tenha cognominado. Construída a pequena ermida e seu pequeno complexo hospedeiro, nasce um ideal ainda maior, o desejo de conseguir missionários, religiosos que se dediquem a pregar missões e a educar crianças e jovens. No dia 10 de agosto de 1779, dia de São Lourenço, mártir, onomástico de Lourenço, celebra-se a primeira missa na nova capela que o fundador dedica à devoção de Nossa Senhora Mãe dos Homens. O Irmão Lourenço viveu ainda 40 anos durante os quais tentou, em vão, continuadores para sua obra. Conseguiu apenas a presença de uns poucos eremitas que com ele foram conviver e a frequência de muitos romeiros, instituindo-se uma confraria religiosa, nos moldes de outras já existentes na Igreja e que se denominou Irmandade Nossa Senhora Mãe dos Homens. Só em 1820, seis meses após a morte do Irmão Lourenço, o Caraça recebeu novos habitantes, cumprindo-se o desejo do fundador, expresso em testamento enviado à Coroa Portuguesa na pessoa do Rei D. João VI, residente no Brasil desde 1808. Tendo chegado de Portugal, os padres Leandro Rebello Peixoto e Castro e Antonio Ferreira Viçoso, da Congregação dos Padres Lazaristas, fundada por São Vicente de Paulo, aceitaram a oferta que lhes fizera S. Majestade do referido testamento do Fundador do Caraça. A Congregação da Missão torna-se, então, a realizadora do sonho do Irmão Lourenço e proprietária das terras, construções e bens do Caraça. Após a posse legal junto às autoridades, os dois padres pioneiros iniciaram o processo das Santas Missões na região e, ao final do ano de 1820, já estava organizado o Colégio para funcionamento em janeiro do ano seguinte. Em pouco tempo, a seriedade e a qualidade do ensino fizeram com que o nome do Caraça se difundisse Brasil afora e para lá afluíssem jovens de todos os recantos do país. “O Caraça é joia nacional. O Irmão Lourenço conquistou. São Vicente com arte lapidou.” Sucessivamente, por quase 150 anos, os padres da Congregação da Missão formaram, no Caraça, padres para a Igreja e um sem-número de jovens cidadãos para Minas e o Brasil. Para cada jovem que por lá passou, o Caraça é “palavra mágica, galvanizada no tempo, educandário saudoso, fonte de sabedoria, formador de caracteres, história de vidas.” Desde os pioneiros, Leandro e Viçoso, os padres Miguel e Bartolomeu Sípolis, Júlio Clavelin, Luiz Gonzaga Boavida, Mariano Maller, Francisco Silva, Guilherme Vaessen, Pedro Sarneel, Antonio da Cruz e toda a plêiade de filhos de São Vicente que os sucederam até 1968 foram luminares da educação, formando milhares de jovens em um processo de humanismo sadio, com ênfase em temas enriquecedores da cultura e das letras. A par das obrigações curriculares, o hábito da leitura crítica (leitura durante as refeições), da formação oratória (Academias literárias) completava a caminhada educativa, permeada, ininterruptamente, pela construção e vivência de uma espiritualidade séria e profunda. Resultado desse processo educativo é a quantidade de alunos que se destacaram, quer na sequência da formação para o sacerdócio, quer em outros cenários da vida nacional, ocupando os mais altos cargos da república, com dois presidentes da república, vários ministros de estado, governadores de províncias/estados, bem como cadeiras no Senado Federal, nas Assembleias Legislativas, no Ministério Público e atuantes nas áreas jurídica e docente em variadas instâncias. Cada padre lazarista que trabalhou no Caraça lá deixou sua marca de cultura, educador, cientista, músico e outras tantas habilidades. D. Francisco Silva, em sua obra “Caraça Apontamentos históricas e notas biográficas”, assim se refere a um dos grandes mestres do Caraça, o padre Miguel Sípolis, francês, vindo para o Brasil no início da década de 1850: “O educador é o lapidador que faceta as pedras preciosas, mas ainda brutas. Seu trabalho é lento, cuidadoso, minucioso mesmo, sempre calmo, mas sempre polindo, desbastando, até obter as facetas que despendem feixes de luz. E isso não vai sem muita paciência, dedicação, energia não vulgar, próprias de poucos verdadeiros educadores.” ¹ O padre Antonio da Cruz, notabilizado pelos 38 anos de trabalho contínuo no Caraça, assim se expressa em sua despedida do Caraça, em 1948: “...atrás desta carantonha severa e carrancuda como as serras do Caraça, está um coração de sacerdote, de professor amigo, que sempre quis acertar na formação da juventude. Se houve erros, e certamente os houve, foram filhos do grande amor a esta casa e do interesse pelos que aqui estudaram.” História afora, muitos outros filhos de São Vicente se destacaram por sua simplicidade, espiritualidade, humanismo e competência no fazer pedagógico. Minas Gerais e o Brasil enriqueceram-se culturalmente com a educação/formação proporcionada aos jovens que passaram pelo Caraça. Refulgiram nomes famosos e honrados que se espraiaram pelo solo nacional. Segundo o presidente Juscelino Kubitscheck: “A influência decisiva dos padres lazaristas sobre a formação moral e intelectual de Minas é profunda e indiscutível. Foram eles os primeiros a atirar sobre o solo quase virgem da inteligência mineira as melhores sementes. Caraça, Mariana e Diamantina são marcos definidores de uma civilização.” (J.K., apud Barros, 2002, p.237) Evidentemente, a história do Caraça conhece ex-alunos “célebres” e “não célebres”. Sob essa ótica, personifico, aqui, minha trajetória como ex-aluno do Caraça, onde, em 6 (seis) anos, fiz o curso chamado de Humanidades, correspondente aos cursos ginasial e secundário de então. Minha história no Caraça foi fundamento de uma vida plena de sentido, com desafios, dificuldades, carências, angústias, mas também de gratidão profunda, alegrias e, sobretudo, de vivência e transmissão de valores que, por dom de Deus, eu consegui assimilar e consigo praticar. Hoje, tenho a felicidade e o orgulho de ser contemporâneo das comemorações dos 250 anos de história, educação e espiritualidade do Caraça e participar, como presidente da AEALAC – Associação dos Ex-alunos dos Lazaristas e Amigos do Caraça – da Comissão de organização e coordenação das celebrações.  Segundo o Padre Sarneel, “Como nasce a saudade, assim nasceu a AEALAC.” O carinho, a gratidão e a devoção ao Caraça, a generosidade e o espírito cristão transformaram-se em ousadia e desafios. Ex-alunos e amigos dos padres Lazaristas se propuseram unir forças para buscar recursos não só para aquele momento crítico de dificuldades advindas do período pós Segunda Guerra Mundial, em 1945, mas para a continuidade de ajuda financeira e material ao Caraça, bem como custeio de futuros alunos. Celebrando, agora, 250 anos das primeiras construções do Irmão Lourenço no Caraça, orgulho-me com cada ex-aluno lazarista de ser caracense, de fazer o nome do Caraça louvado e reverenciado em todos os locais por onde passamos. “Salve, salve, Irmão Lourenço Tu és o anjo do Caraça Por ti arde eterno incenso De lembrança e devoção.” (Hino do Caraça) Parabéns, Congregação da Missão!
Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Pe. Louis Francescon Costa Ferreira, CM A nova ordem de Herodes contra a vida dos santos inocentes “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre todo habitante de Jerusalém um espírito de graça e de súplica, e eles olharão para mim. Quanto àquele que eles transpassaram, eles o lamentarão como se fosse a lamentação de um filho único; eles o chorarão como se chora sobre o primogênito.” [Zc 12,10] No mês de setembro de 2023, o Superior Tribunal Federal debateu sobre a descriminalização do aborto, a interrupção voluntária da gestação. Uma das possibilidades é permitir que se realize o procedimento até a 12ª semana de gravidez. Agora, o assunto volta à tona, por meio do PL 1904/2024. Em que ela consiste? “Equipara o aborto realizado após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio simples, inclusive nos casos de gravidez resultante de estupro” [2]. Ora, a ciência nos ensina que no exato momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo, há uma vida nova em formação. Como cristãos, de que modo nós reagimos a tal decisão? Certamente, encontramos diversas opiniões entre os fiéis católicos, sobretudo diante do contexto eclesial, cultural, socioeconômico e político atuais. Vivemos num tempo de grandes desafios, onde aqueles que se dizem seguidores de Jesus deveriam sentir-se interpelados pelo amor do Crucificado (cf. 2Cor 5,14), que veio até nós, trazendo-nos a vida em abundância (cf. Jo 10,10). Cremos que seja o momento ideal de unirmos nossas vozes e nossas forças para darmos testemunhos da fé que professamos, uma vez que somos chamados para em qualquer situação dar razões de nossa esperança (cf. 1Pd 3,15). Como Igreja, temos uma grande responsabilidade em defesa da vida. Em tempos de Papa Francisco, que nos chama a uma conversão integral, se faz necessário um autêntico caminho de mudança de vida e de estruturas. Não queremos aqui fazer um discurso político, ‘comunista’ (nome dado a qualquer interpelação em defesa da vida dos mais necessitados). A mensagem de Jesus, portanto, o seu ministério, passou também pelas estruturas de seu tempo: a forma de governo do Império Romano, a geografia da Palestina, a tradição e a cultura judaicas, a resistências aos povos denominados ‘pagãos’ ou ‘gentios’, e outros elementos mais. Portanto, vivemos no hoje de nossa história cercados por muitas estruturas: governamental, religiosa, cultural, política, econômica etc., e somos convocados a anunciar o Evangelho também aí. Assim, a interrupção voluntária da gravidez é um tema muito sério para os cristãos. Para ajudar-nos em nossa reflexão, faremos memória à Liturgia da Palavra dos Santos Inocentes (28 de dezembro) e da homilia do Papa Francisco, no dia 24 de dezembro de 2016, na qual o pontífice faz uma clara referência a este tema em questão. É urgente tomarmos consciência de que o aborto fere a dignidade humana e trará graves consequências para a sociedade brasileira. Como homens de fé, gostaríamos de reforçar a clareza e a lucidez necessárias para que, como cristãos, busquemos o caminho da vida, pois este é o ideal de Jesus, em comunhão com o Pai, na força do Espírito Divino. Não deixemos morrer a profecia que há na espiritualidade cristã! 1. “Nossa alma como um pássaro escapou do laço que armara o caçador.” (Sl 124|123|,7) O Deus da Sagrada Escritura é o Deus da revelação, isto é, ele se mostra e dialoga com os seus interlocutores. Na plenitude dos tempos, conforme a Cartas aos Hebreus, Deus nos falou através de seu Filho, o qual constitui Senhor para a glória do seu nome. Este mistério, a verdade revelada e transmitida, tem sua gênese na encarnação. Deus se fez homem (cf. Jo 1,14), tomou a nossa condição mortal (cf. Fl 2,6-11), para revelar ao ser humano o seu plano de amor, a mensagem da alegria, da qual os pobres (personificados nos pastores de Belém) são os primeiros destinatários (cf. Lc 2,8-12). Sim, Jesus será para nós o ‘Bom Pastor’: aquele que dará sua vida e gastará o seu tempo para resgatar as ovelhas perdidas de seu redil, a Igreja (cf. Jo 10,1-42). O fato de os pastores de ovelhas serem os primeiros destinatários da grande alegria do nascimento do Senhor, enche-nos de esperança para confiarmos na providência de Deus: o Senhor que vem a nós, que nasce entre nós, tornar-se-á o ‘Pastor por excelência’, levando suas ovelhas para pastos verdejantes e águas correntes, sem que lhes falte o essencial para viver (Sl 23|22|,1-6). Jesus, como Bom Pastor, tem um cuidado integral para com aqueles que denomina ‘os seus’. E desde criança, ainda um bebê indefeso, ele enfrenta o ódio dos poderosos, cujo projeto de governo fere, descarta e mata. O Rei Herodes, ao saber que havia nascido um Menino, “rei dos judeus”, por meio da pergunta dos Magos, consulta “os chefes dos sacerdotes e doutores do povo”, os quais lhe confirmam que o Messias deveria nascer em Belém da Judeia, para que se cumprisse a escritura do Profeta Isaías: “Eles responderam: ‘Em Belém da Judéia, pois é isto que foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és o menor entre os clãs de Judá, pois de ti sairá um chefe que apascentará Israel, o meu povo’" (Mt 2,2.4-6). Depois destas informações, os Magos partem ao encontro do Menino, guiados pela estrela que ilumina seu caminho, mas recebem o convite de Herodes para retornar ao palácio, a fim de que ele possa adorar o Menino, depois de saber precisamente onde Ele se encontra. Os Magos, ao verem o Menino e sua mãe (cf. Mt 2,9.11), Lhe oferecem os presentes: ouro, incenso e mirra. O metal simboliza que este Menino terá um reino, o qual caminhará na contramão dos ideais de Herodes. O Reino de Deus anunciado por Jesus diz respeito à justiça do Pai que está nos Céus: Cristo perdoa, salva e integra, sobretudo os descartados pelo Império Romano e pelas lideranças religiosas do Templo, que os definem como pecadores que foram castigados por Deus, com a cegueira, paralisia, mudez, surdez etc. O incenso simboliza que sua missão está plena da graça divina, a saber, o Espírito consolador, o qual está sobre o Messias Jesus, para anunciar a Boa-Nova aos pobres e perdoar o seu povo de seus pecados (cf. Lc 4,18; Mt 1,21). A mirra é uma prefiguração da unção que lhe será feita, após o desfecho violento da sua missão (cf. Mc 16,1; Lc 24,1). Quando terminaram a visita, os Magos foram avisados para tomarem outro caminho (cf. Mt 2,12), isto é, se eles encontraram o Autor da Vida, por que se dirigir àquele que gera a morte? Após esta notícia, Herodes se enfureceu e “mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, exatamente conforme o tempo indicado pelos magos” (Mt 2,16). Deste evento fatídico surge a memória dos Santos Inocentes [3]. A Igreja celebra a vida plena daqueles que tiveram o seu sangue derramado por causa da ganância política do imperador tirano, que teve medo de perder seu trono, seu status e seu conforto, porque desconcertou-se com a pergunta dos Magos: “Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer?” Ora, quem mais seria o rei dos judeus senão o próprio Herodes, o filho de Herodes I, que recebeu o trono como herança de seu pai e que o transmitirá para Arquelau (cf. Mt 2,22)? Quem mais seria o rei dos judeus senão aquele que pesava sua mão contra os pobres, obrigando-lhes a pagar altos impostos, por meio do pouco sustento para sua sobrevivência? O Reino de Jesus é o oposto de tudo isso! Sua nova família se concretiza não pela linhagem do sangue, mas é membro da família de Jesus aquele que ouve sua Palavra e a coloca em prática (cf. Lc 8,19-21; Mt 12,50). De graça Ele recebeu do Pai, e, de graça, Ele distribui o amor aos pequeninos, com os quais se identificará no juízo final (cf. Mt 25,40). Nesta mesma liturgia, rezamos o Salmo 124|123|. Ele se encontra no Livro V do Saltério, onde recordamos a reconstrução do país, após a triste experiência do exílio. O salmista, que personifica todos os exilados, entoa um hino de gratidão a Deus, porque fez sua alma escapar do laço que armara o caçador. Qual? Nabucodonosor e todos os seus submissos (cf. 2Rs 24,10-17; 2Rs 25,8-21)! Por isso, o salmista está convicto de que “se o Senhor não estivesse ao nosso lado, quando os homens se investiram contra nós, com certeza nos teria devorado no furor de sua ira contra nós”. Até mesmo as águas teriam submergido ao povo cativo, e as correntezas, sempre mais impetuosas, lhes teriam arrastado, minando suas vidas. Porém, o laço arrebentou-se de repente e assim conseguiram libertar-se do mal (Sl 124|123|,7b). O salmista conclui com a afirmação de que se tornou uma jaculatória católica: “O nosso auxílio está no nome do Senhor, do Senhor que fez o céu e fez a terra.” O Reino de Jesus supera os reinos de Herodes e de Nabucodonosor, porque nele se celebra a comunhão universal (“Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus” – Sl 97|98|,3b), a liturgia cósmica, porque tudo foi criado por, com e para Ele, e nós fomos predestinados para sermos, segundo a benevolência de Deus, o louvor da glória do Seu nome (cf. Jo 1,3; Cl 1,16). Livre das pompas do palácio, Jesus caminha nas periferias da Galileia, onde se encontram os marginalizados, isto é, os que se refugiaram nas margens, porque foram descartados dos benefícios do centro cultural, social, político-econômico e religioso. No Evangelho segundo Marcos, a missão do Mestre se inicia na Galileia; após a sua ressurreição, os discípulos precisam voltar para lá e refazer o caminho do Messias Jesus, morto e crucificado, aquele que era verdadeiramente ‘Filho de Deus’ (cf. Mc 1,9.14.16; 15,39.41). Ser cristão é transparecer, com palavras e ações, “os mesmos sentimentos que havia no Cristo Jesus” (Fl 2,5). Pobre, mas cheio da graça e do Espírito divino; manso e humilde para quebrar a espiral da violência (cf. Mt 11,29), lógica abraçada pelo Império e pelas lideranças fanáticas de Israel. Fiel ao Pai em tudo, desde a sua origem até o último grito da cruz. Como cristãos, por qual lógica optamos? Talvez à que se encontra no banquete de Herodes, ‘festa’ na qual foi derramado o sangue de um inocente (cf. Mc 6,14-29)? Ou talvez nós aderimos à lógica do senhor rico que se fartava de banquetes luxuosos e roupas finas, enquanto Lázaro sofria suas penas, tendo por companhia os cães que lambiam suas feridas (cf Lc 16,19-31)? “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19c). Eis um convite do próprio Deus que deve ressoar mais forte, hoje, nestes tempos sombrios, enquanto nos deixamos seduzir pelas trevas, e nos esquecemos do horizonte no qual brilha a luz (cf. Jo 1,9). A liturgia da Palavra da memória dos Santos Inocentes traz ainda, como Primeira Leitura, 1Jo 1,5-2,2: nesta passagem tão breve, o autor nos interpela a caminharmos segundo a verdade, porque Deus é luz e n’Ele não há trevas, isto é, a mentira (v. 5-6). E a luz, que é o próprio Cristo, nos faz entrar em comunhão uns com os outros, pois o sangue derramado na cruz “nos purifica de todo o pecado”, não apenas os nossos, mas o pecado do mundo inteiro (cf. 1Jo 2,2). Portanto, o martírio do Cristo é o sinal da Nova e Eterna Aliança, constituindo uma comunidade de irmãos, onde não se permite, em comunidades genuinamente cristãs, o descarte do inocente, negligenciando a vida. Necessitamos viver como “homens perdoados”. Se Cristo nos livrou da morte, destruindo-a em sua entrega na cruz, por que eu aprovaria a morte do meu irmão, do pequenino indefeso? O martírio é o mais alto testemunho de seguimento a Jesus; mas, quem provocá-lo e\ou permiti-lo prestará sérias contas, não para os homens, mas para Deus, Autor e finalidade da Vida. O Evangelho desta mesma liturgia, recorda uma passagem do profeta Jeremias, a saber, “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais” (Jr 31,15; Mt 2,18). Raquel presenciou também a fúria dos opressores no exílio, ao ver o sangue derramado de seus filhos inocentes. Uma ação de Jesus exemplifica como ele reage à dor de uma mãe. Em Lucas, Jesus tem sua identidade construída sobre a figura do Profeta Elias; logo, para este evangelista, Jesus é o ‘Novo Elias’, o grande profeta que anuncia o direito e a justiça, na unção do Espírito (cf. Lc 7,11-17). Jesus vai à cidade de Naim e se depara com um cortejo fúnebre, no qual levavam o filho único de uma viúva. Ora, Elias também visitara uma viúva em Sarepta, no tempo em que houve grande fome naquela região (cf. 1Rs 17,7-16). Ele pede de comer, mas a mulher tem apenas o suficiente para preparar um pequeno pão, com farinha e azeite, o qual será dividido com a criança, e depois o que lhes resta é esperar a morte. Elias intervém nesta situação, pede à mulher para preparar-lhe o alimento e depois ela verá o sinal de Deus, que cumpre suas promessas. Houve tamanha fartura e lhes foram restituídas a vida, em todas as dimensões. Esta cena é relida pelo catequista Lucas, na qual Jesus supera a ação de Elias. A criança morreu, e a mulher ficou só. O que seria dela se partiu sua única esperança, a saber, o fruto das suas entranhas, e se ela não tem marido? Jesus se aproximou, “encheu-se de compaixão e lhe disse: ‘Não chore’. Toca a urna e diz: ‘Jovem, eu lhe ordeno, levante-se’. O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe” (v. 13-15). A perícope se conclui com a admiração da multidão que diz: “Um grande profeta apareceu entre nós. Deus visitou o seu povo”. Qual a relação do pão pedido por Elias e Jesus? Ele é a vida em abundância, o qual nos deu um alimento salutar, para que todos os que se sentam à mesa para tomar a refeição com ele, tenham a vida em abundância; portanto, é Jesus o verdadeiro pão descido do céu (cf. Jo 6). No banquete de Jesus há alimento para todos; no banquete de Herodes vidas inocentes lavam a terra com seu sangue (Mc 6,14-29 || Mc 6,30-34) [4]. Jesus mostra, desde a sua concepção até a sua paixão, por quem ele opta como “enviado do Pai” (Messias). O anúncio do Reino, instaurado em suas palavras e ações, tem sua gênese nas bases, nas minorias, na abertura de coração dos chamados ‘insignificantes’, circunscritos aos limites geográficos de Israel, mas que tem a pretensão de abarcar o mundo inteiro; a liturgia do Natal e o Tempo da Páscoa esclarecem bem essa afirmação. Para aderir-se ao Reino de Deus, Jesus convida à conversão; o início do ministério de Jesus é marcado por uma mudança radical, porque Ele vai à raiz da lei mosaica, buscando o espírito que se encontra em cada preceito da norma. Neste processo de conversão, Jesus exorta aos discípulos a se tornarem como criança, pois delas é o Reino dos Céus. Mas qual a intenção do Mestre? Em Mt 19,13-15, Jesus fala do Reino e das criancinhas. Segundo Vitório, a sociedade da época rejeitava tanto as mulheres quanto as crianças, pelo fato de os pequeninos não conseguirem colocar-se na forma da lei. Jesus ordena que deixem vir a eles os pequeninos, porque refletem a imagem ideal do discípulo mateano: “[...] ao olhar para uma criancinha os discípulos devem refletir sobre sua relação com o Pai dos Céus e se esforçar para serem simples, confiantes e apegados a Ele, como os pequenos seres que têm diante de si” [5]. Se o discípulo dinamiza sua vida para o encontro definitivo com Deus (cf. Mt 5,48), a criança é o melhor exemplo de quem nutre uma confiança irrestrita aos progenitores e pode servir como modelo na fiel relação com o Pai. Portanto, eliminar esta imagem de nossa caminhada, como discípulos de Jesus, ferirá nossa humanidade e nossa fé, pois ela carrega o sopro vital do poder divino e se tornam exemplos das mais caras virtudes cristãs. No próximo ponto, nos debruçamos sobre a mensagem do Papa Francisco, no Natal de 2016. Segundo o pontífice a imagem do Menino deitado na manjedoura se constitui de um sinal, que pode despertar algo de bom e de belo em nós, ainda que as ‘manjedouras existenciais’ exijam dos cristãos reflexão e gestos concretos da luta contra a desigualdade, a indiferença e o descarte. 2. “Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”: este é o sinal de sempre. «Manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens» (Tt 2, 11). Estas palavras do apóstolo Paulo revelam o mistério desta noite santa: manifestou-se a graça de Deus, o seu presente gratuito; no Menino que nos é dado, concretiza-se o amor de Deus por nós. É uma noite de glória, a glória proclamada pelos anjos em Belém e também por nós em todo o mundo. É uma noite de alegria, porque, desde agora e para sempre, Deus, o Eterno, o Infinito, é Deus connosco: não está longe, não temos de O procurar nas órbitas celestes nem em qualquer ideia mística; está próximo, fez-Se homem e não Se separará jamais desta nossa humanidade que assumiu. É uma noite de luz: a luz, profetizada por Isaías e que havia de iluminar quem caminha em terra tenebrosa (cf. 9,1), manifestou-se e envolveu os pastores de Belém (cf. Lc 2,9). Os pastores descobrem, pura e simplesmente, que «um menino nasceu para nós» (Is 9,5) e compreendem que toda aquela glória, toda aquela alegria, toda aquela luz se concentram num único ponto, no sinal que o anjo lhes indicou: «Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). Este é o sinal de sempre para encontrar Jesus; não só então, mas hoje também. Se queremos festejar o verdadeiro Natal, contemplemos este sinal: a simplicidade frágil dum pequenino recém-nascido, a mansidão que demonstra no estar deitado, a ternura afetuosa das fraldas que O envolvem. Ali está Deus. E com este sinal, o Evangelho desvenda-nos um paradoxo: fala do imperador, do governador, dos grandes de então, mas Deus não Se apresentou lá; não aparece no salão nobre dum palácio real, mas na pobreza dum curral; não nos fastos ilusórios, mas na simplicidade da vida; não no poder, mas numa pequenez que nos deixa surpreendidos. E, para O encontrar, é preciso ir aonde Ele está: é preciso inclinar-se, abaixar-se, fazer-se pequenino. O Menino que nasce interpela-nos: chama-nos a deixar as ilusões do efémero para ir ao essencial, renunciar às nossas pretensões insaciáveis, abandonar aquela perene insatisfação e a tristeza por algo que sempre nos faltará. Far-nos-á bem deixar estas coisas, para reencontrar na simplicidade de Deus-Menino a paz, a alegria, o sentido luminoso da vida. Deixemo-nos interpelar pelo Menino na manjedoura, mas deixemo-nos interpelar também pelas crianças que, hoje, não são reclinadas num berço nem acariciadas pelo carinho duma mãe e dum pai, mas jazem nas miseráveis «manjedouras de dignidade»: no abrigo subterrâneo para escapar aos bombardeamentos, na calçada duma grande cidade, no fundo dum barco sobrecarregado de migrantes. Deixemo-nos interpelar pelas crianças que não se deixam nascer, as que choram porque ninguém lhes sacia a fome, aquelas que na mão não têm brinquedos, mas armas. O mistério do Natal, que é luz e alegria, interpela e mexe connosco, porque é um mistério de esperança e simultaneamente de tristeza. Traz consigo um sabor de tristeza, já que o amor não é acolhido, a vida é descartada. Assim acontece a José e Maria, que encontraram as portas fechadas e puseram Jesus numa manjedoura, «por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2,7). Jesus nasce rejeitado por alguns e na indiferença da maioria. E a mesma indiferença pode reinar também hoje, quando o Natal se torna uma festa onde os protagonistas somos nós, em vez de ser Ele; quando as luzes do comércio põem na sombra a luz de Deus; quando nos afanamos com as prendas e ficamos insensíveis a quem está marginalizado. Esta mundanidade fez refém o Natal; é preciso libertá-lo! Mas o Natal tem sobretudo um sabor de esperança, porque, não obstante as nossas trevas, resplandece a luz de Deus. A sua luz gentil não mete medo; enamorado por nós, Deus atrai-nos com a sua ternura, nascendo pobre e frágil no nosso meio, como um de nós. Nasce em Belém, que significa «casa do pão»; deste modo parece querer dizer-nos que nasce como pão para nós; vem à nossa vida, para nos dar a sua vida; vem ao nosso mundo, para nos trazer o seu amor. Vem, não para devorar e comandar, mas alimentar e servir. Há, pois, uma linha direta que liga a manjedoura e a cruz, onde Jesus será pão repartido: é a linha direta do amor que se dá e nos salva, que dá luz à nossa vida, paz aos nossos corações. Compreenderam-no, naquela noite, os pastores, que se contavam entre os marginalizados de então. Mas ninguém é marginalizado aos olhos de Deus, e precisamente eles foram os convidados de Natal. Quem se sentia seguro de si, autossuficiente, ficara em casa com as suas coisas; ao contrário, os pastores «foram apressadamente» (Lc 2, 16). Deixemo-nos, também nós, interpelar e convocar nesta noite por Jesus, vamos confiadamente ter com Ele, a partir daquilo em que nos sentimos marginalizados, a partir dos nossos limites, a partir dos nossos pecados. Deixemo-nos tocar pela ternura que salva. Aproximemo-nos de Deus que Se faz próximo, detenhamo-nos a olhar o presépio, imaginemos o nascimento de Jesus: a luz e a paz, a pobreza extrema e a rejeição. Entremos no verdadeiro Natal com os pastores, levemos a Jesus aquilo que somos, as nossas marginalizações, as nossas feridas não curadas, os nossos pecados. Assim, em Jesus, saborearemos o verdadeiro espírito do Natal: a beleza de ser amado por Deus. Com Maria e José, paremos diante da manjedoura, diante de Jesus que nasce como pão para a minha vida. Contemplando o seu amor humilde e infinito, digamos-Lhe pura e simplesmente obrigado: Obrigado, porque fizestes tudo isto por mim. [6] 3. “O nosso auxílio está no nome do Senhor” (Sl 124|123|,8) Numa certa ocasião, eu encontrei com um conterrâneo, que me disse as seguintes palavras: “Não é necessário a religião para sermos bons. O fato de sermos humanos já me responsabiliza para ser íntegro, honesto e bom”. Não seria esse um caro exemplo daquilo que o teólogo jesuíta Karl Rahner denomina “cristãos anônimos”, isto é, aqueles que não optaram pela lei (a-nomos) de Jesus, mas que dão sinais do que Ele viveu e ensinou? Chamamos a atenção para este detalhe, porque é significativo o Papa Francisco dizer acima que “o sinal de sempre” é encontrar “o Menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Quando encontramos uma criança ou um bebê é impossível segurar o movimento dos músculos do nosso rosto, que tendem a formar um sorriso, e da ação dos braços em querer segurá-la. Encantamo-nos pela sublime simplicidade que há nesta criatura frágil, que Deus escolheu como ‘sinal’ para os homens. Na Sagrada Escritura, sobretudo na catequese joanina, o sinal tem a pretensão de suscitar a fé em quem ainda não crê. Por isso, na primeira parte deste livro, o autor anota sete sinais, cujo último e o maior deles é a cruz, sobre a qual Jesus se encarna (Jo 1,19-12,50) [7]. Aquele que fora sujado pelo sangue do parto, por isso Maria precisa purificar-se (cf. Lc 2,22), é lavado com o batismo de sangue, derramado em favor da humanidade inteira; o humano que havia sido reclinado à manjedoura, encontra-se agora pregado no lenho da cruz; o que estivera envolvido em faixas, é tomado para ser mais uma vez envolto em panos e ungido (com a mirra?), para ser depositado no túmulo. Neste grande sinal, “na linha direta do amor que nos dá e nos salva” [8], nós temos a maior humanidade. Segundo Grün, “a cruz é a imagem do ser humano redimido” [9]. Se optamos pela fé, então nós temos uma responsabilidade a mais diante daqueles que não fizeram adesão pelo humano Jesus; mas aderindo à lógica do descarte, não compreenderam nem mesmo o que significa ‘ser humano’, viver como tal, nas palavras do meu saudoso conterrâneo: “íntegro, honesto e bom”. É lamentável deixar que este tipo de reflexão tome o tempo de nossos líderes políticos, enquanto ainda não se trata do assunto de políticas públicas que possam erradicar a pobreza, onde a alimentação, o acesso à saúde, à educação, à moradia e transporte façam parte da vida de todos os brasileiros. Creio que este seja o momento de antecipar a contemplação da imagem do Deus-Menino. Venerar este “sinal de sempre”, do qual parte a história da salvação, quando “manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). O Deus de Jesus faz uma clara opção por todos. Se como cristão somos interpelados a viver “à altura do Evangelho” (Fl 1,27a), isto é, a Boa-Notícia que dá vida e forma ao Reino de Deus, no qual todos têm vida em abundância, então o aborto não pode ser uma opção dos cristãos. O debate presente exige de nós sabedoria, inteligência e maturidade, à luz da fé, que nos dá o horizonte para a nossa vida íntegra, verdadeira, honesta e boa, deixando transparecer o sinal de nossa clara opção pelo Evangelho da Vida, na pessoa dos pequenos, marginalizados e pobres. Rezemos pela nossa conversão pessoal e comunitária. Cremos que na liturgia dos Santos Inocentes e na homilia de Francisco há elementos para a nossa oração, nestes dias em que há uma tentativa para descriminalizar o aborto ou considerá-lo como crime. A ‘nova ordem’ de Herodes será o sinal desta “sociedade do cansaço” [10]? A ‘nova ordem’ de Herodes desencadeia e revela quão decadente está o ser humano? Jesus, como humano, carregou sobre si as nossas dores, no momento crucial de sua vida (cf. Is 53,4). Os não-nascidos (nonatos) carregam, tal qual o Messias Jesus, um grande pecado da humanidade: a rejeição “por alguns e a indiferença da maioria”. Por isso, são santos e inocentes, porque não cometerem nenhum mal!  Não permitamos que este trágico acontecimento histórico se repita no hoje de nossa sociedade. Vivemos, por ora, um ano tão significativo, onde somos interpelados a viver a vocação cristã como “peregrinos da esperança”. Neste Ano B, a palavra de Deus nos traz belos textos que confirmam nosso projeto de vida: nós somos os que foram chamados para “estar com Jesus” (Mc 3,14) e o dom que nos é dado, “a multiforme graça de Deus” (1Pd 4,9-10), é para que cada batizado também se torne o sinal, porque, como amados e redimidos de suas faltas por Deus, “sejam bons e misericordiosos uns para com os outros” (Ef 4,32), como age Deus mesmo (cf. Ef 2,4). A oração de São Francisco de Assis, o primeiro a contemplar o presépio, nos ajuda em nossa missão de ‘arautos da paz’. Eu me arrisco a fazer o acréscimo: Onde houver desejo de aborto, que eu leve a esperança, o cuidado integral e a vida. Maria, a Mãe das vocações, continua a ser este sinal de fidelidade ao plano salvífico de Deus, quando recebeu a nobre missão de tornar-se a Mãe do Salvador da humanidade inteira.   À Maria da Conceição Guedes, pelo seu exemplo de fé e maternidade, e a todos os não-nascidos que tiveram suas vidas ceifadas.     Notas [1] Texto escrito pelo Padre Louis Francescon Costa Ferreira, CM, missionário vicentino, graduado em Filosofia, pela Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), e graduado em Teologia, pela Faculdade Jesuíta (FAJE); pós-graduado em Espiritualidade Cristã e Orientação Espiritual pela FAJE. [2] Disponível em <<OAB cria comissão para elaborar parecer sobre PL 1904/2024>>. Acesso em 16 de junho de 2024. [3] As leituras estão disponíveis em <<Liturgia Diária – Santos Inocentes, mártires, Quarta-feira (28/12/2022) | Mundo dos Católicos (mundodoscatolicos.com.br)>>. Acesso em 25 de setembro de 2023. [4] Optamos pelos símbolos || para que o leitor seja capaz de fazer a comparação que se encontra na catequese de Marcos. Logo após o relato da morte de João Batista, o autor introduz o texto da primeira distribuição dos pães. Ora, é clara a mensagem do evangelista em exprimir que o alimento de Jesus é dado para que se faça comunhão e partilha, contrapondo à ‘festa’ do imperador tirano e da sua corte. [5] VITÓRIO, Jaldemir. Lendo o evangelho segundo Mateus: o caminho do discipulado do Reino. São Paulo: Paulus, 2019. [6] Disponível em <<24.12.2016 - Missa do Galo - Santa Missa da Noite de Natal - YouTube>>. Acesso em 26 de setembro de 2023. [7] A estrutura literário-teológica do Evangelho de João foi colhida na obra de KONINGS, Johan. O Evangelho do Discípulo Amado: um olhar inicial. São Paulo, Loyola, p. 25-38. [8] Trecho colhido na homilia do Papa referida acima. [9] GRÜN, Anselm. A Cruz: a imagem do ser humano redimido. São Paulo: Paulus, 2022. [10] HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2016.
Pe. Cléber Fábio Teodósio
Pe. Cléber Fábio Teodósio Vicentinos no Brasil: Uma missão que mudou a história De Paris a Pernambuco A jornada começou em 1640, quando São Vicente de Paulo sonhava em enviar seus missionários para Pernambuco, Brasil, então conhecido como Índias Ocidentais. Embora seus planos iniciais não tenham se concretizado, a chama da missão permaneceu viva. Em 1807, três corajosos padres lazaristas chegaram ao Brasil com a corte de Dom João VI, fugindo de  Napoleão. Esses pioneiros foram o Padre Manoel de Brito, o Padre José Cardoso de Brito e o Padre Alexandre Macedo. Os primeiros passos em Minas Gerais Finalmente, em 1819, a missão foi oficialmente estabelecida com a chegada dos padres Leandro Rebelo Peixoto e Castro e Antônio Ferreira Viçoso. Minas Gerais tornou-se o epicentro de suas atividades, dando origem à Província Brasileira da Congregação da Missão (PBCM). Os vicentinos não apenas pregavam, mas também educavam. Em 1821, fundaram o Colégio do Caraça, em Minas Gerais. Essa instituição tornou-se uma referência educacional, formando futuras figuras proeminentes do país, incluindo presidentes como Artur Bernardes e Afonso Pena. Embora um incêndio em 1968 tenha devastado parte do colégio, o espírito educacional continuou no Colégio São Vicente de Paulo, no Rio de Janeiro - RJ, inaugurado em 1959. Os missionários também dirigiram escolas em Congonhas do Campo - MG, Campina Verde - MG e o Seminário de Jacuecanga - RJ, deixando uma marca educacional indelével nas regiões. Especialistas na Formação A partir de 1850, o relacionamento com o Império Brasileiro permitiu a expansão da missão. Os lazaristas empreenderam a formação do clero em vários seminários diocesanos, moldando a face da Igreja no Brasil. Com o tempo, eles formaram milhares de padres, bispos e cardeais, estabelecendo um legado duradouro. O número total de seminários diocesanos administrados pela Congregação foi de 19, em 12 dioceses, formando uma média de 2.600 padres, dos quais 156 foram nomeados bispos e seis cardeais. Na educação da juventude, além dos colégios do Caraça e de Campina Verde, foram fundados colégios em Petrópolis (1897-1909), Irati (1950-2001) e Rio de Janeiro (1959). Com a chegada do século XX, os missionários franceses deram lugar a padres treinados localmente, que continuaram a missão com dedicação e adaptabilidade. Evangelização em Movimento Para pregar as missões populares, foram fundados vários centros em Minas Gerais, começando principalmente pelo Caraça e por Campina Verde, de onde saíram equipes para missões em várias localidades de diferentes estados brasileiros. Da mesma forma, os colégios e seminários onde os lazaristas trabalhavam tornaram-se centros missionários, de onde partiram para a evangelização popular. As missões populares impregnaram toda a permanência dos lazaristas no Brasil com conteúdo e metodologia típicos da herança vicentina. Entretanto, a partir da década de 1960, as reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II tiveram grande impacto na Província e o modelo dos  grandes seminários foi questionado, assim como o modelo das missões populares. Os seminários entraram em crise. Vários padres deixaram a Congregação. Desde então, foi realizada uma renovação e atualização dos métodos e da Congregação: na formação, foi adotada uma pedagogia libertadora; nas missões, estão sendo transmitidas experiências missionárias renovadas; a organização interna está buscando um novo modelo de vida comunitária, uma atualização administrativa e teológico-missionária, a fim de responder aos desafios do tempo presente. Um Compromisso Contínuo Atualmente, a PBCM realiza todo mês de janeiro as Missões Populares Vicentinas em conjunto com os ramos do Movimento da Família Vicentina dos Regionais Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Em outras épocas do ano, as missões populares costumam ser realizadas, mas restritas aos padres, irmãos e estudantes, a saber: Semana Santa, Mês Vocacional (agosto), Mês Vicentino (setembro) e Mês Missionário (outubro). Assim, os 60 missionários vicentinos da PBCM continuam a viver o carisma, servindo aos pobres em mais de 20 obras: paróquias missionárias, formação de seminaristas vicentinos e alguns serviços ao clero, missões populares, formação de leigos, educação de jovens no Colégio e Escola SVP e evangelização baseada na cultura, no turismo e na ecologia (Santuário do Caraça), colaboração com a Família Vicentina e promoção de serviços sociais entre os pobres nos diferentes estados brasileiros: Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rondônia e São Paulo. O Encontro Nacional de Estudantes Vicentinos (ENEV), iniciado em 1983, é um testemunho do compromisso dos lazaristas com a formação e o desenvolvimento das novas gerações, integrando estudantes das três províncias brasileiras (Curitiba, Fortaleza e Rio de Janeiro), em um diálogo contínuo sobre missão e sociedade. A história da Congregação da Missão no Brasil é uma saga de fé e dedicação. Desde os primeiros passos incertos até sua consolidação e expansão, os missionários vicentinos deixaram uma marca indelével na história do país, sempre guiados por sua missão de evangelizar e servir.   Texto original publicado no site da Cúria Geral da Congregação da Missão. 
Pe. Michel Araújo Silva, CM
Pe. Michel Araújo Silva, CM Jubileus Descortinam-se diante de nossos olhos duas celebrações importantes. Dois jubileus (os jubileus representam sempre um grande acontecimento de nível eclesial: tempo especial de graça, perdão dos pecados e indulgencia plenária). Dos dias 17 de abril de 2023 a 17 de abril de 2025, estaremos celebrando os 400 anos de fundação da Companhia. No mesmo período (2023 e 2024)  a Igreja Universal estará celebrando uma preparação para o ano jubilar dos peregrinos da esperança, portanto, 2025 será um ano de bênçãos e alegrias. Jubileu da congregação e jubileu da Igreja. Como Congregação da Missão, cheios de gratidão a Deus, iremos celebrar 400 anos de história. Desde aquela tarde do dia 17 de abril de 1625 até hoje, nossa companhia pode continuar a Missão de Cristo por muitos lugares. E podemos dizer, cheios de gratidão a Deus: os que nos precederam nas fileiras da missão, fizeram muito bonito. O tema para a celebração do quarto centenário da “Pequena Companhia” é “Revestir-se do Espírito de Cristo”. Destacam-se algumas dimensões de nossa espiritualidade na vivência do jubileu: a missão, a profecia e a sinodalidade. A espiritualidade vicentina é marcada pelo dinamismo da missão. Os que bebem da fonte da experiência mística de São Vicente de Paulo dentro da Congregação da Missão, independente do encargo que são convidados a desempenhar, são missionários. “O estado dos missionários é um estado conforme às máximas evangélicas, que consiste em tudo deixar e abandonar, como os apóstolos, para seguir a Jesus Cristo e fazer, à sua imitação, o que convém” (SV XI, 01). A espiritualidade vicentina é profética. Por sua própria natureza, a espiritualidade vicentina é profundamente profética e, nos tempos hodiernos, onde aqueles que nada de lucro material podem oferecer são descartados, esta espiritualidade se torna ainda mais profética e evangélica. Cada missionário vicentino, com seu jeito de ser, agir e viver, no labor discreto, silencioso e fecundo; na vida de pobreza, evitando o supérfluo e optando pela sobriedade; na liberdade diante das coisas, livres da procura de títulos de honra e de autoridade. Anunciam e denunciam os esquemas antievangélicos. Nossa espiritualidade é sinodal, afinal, trabalhamos juntos, de mãos dadas, com a profunda consciência de que a missão não é nossa, mas de Deus. Vivemos em comunhão de vida, missão e bens. Caminhamos juntos como irmãos, em diálogo uns com os outros, com a Família Vicentina e com toda Igreja. No entanto, além da ação de graças celebrada pela Congregação da Missão e por todo o movimento da Família Vicentina, celebramos, em toda a Igreja, o jubileu do ano 2025, cujo tema é: “Peregrinos da Esperança”. A abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro está marcada para 24 de dezembro de 2024, abertura oficial do jubileu. Esse jubileu nos indica a grande importância que essa virtude teologal ocupa neste momento da história. Sem os óculos da esperança (e da fé) fica impossível ler a realidade complexa em que estamos inseridos. Ela não nos decepciona (Rm 5,5). Os dois anos precedentes serão voltados para a preparação do ano jubilar, em 2023 a Igreja dedicou-se a estudar de maneira mais aprofundada os ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano II e no dia 21 de janeiro deste ano, quando a Igreja celebrava o quinto Domingo da Palavra de Deus, o Santo Padre anunciou o começo do ano da oração. Deseja o Papa Francisco que este ano seja dedicado a uma “sinfonia” de oração. É interessante notar como os temas estão em sintonia. Evidentemente, em primeiro lugar, a oração. Por meio dela estaremos em comunhão com Deus. Através dela entenderemos a vontade do Senhor. A oração nos amadurece. Como Família Vicentina seria interessante, talvez, buscarmos enfatizar mais o nosso método de oração (Cf. Carta do Advento a todos os membros da Família Vicentina – Pe. Tomaž Mavri?, 2018). Por meio da oração será possível revestir-nos do Espírito de Nosso Senhor. Por ela, também, conseguiremos anunciar a Esperança do Evangelho, tornando-nos místicos da caridade e da missão. Em tempos como os nossos, em que, facilmente, nos dispersamos nas inúmeras atividades do cotidiano, deixando a oração em segundo lugar. Onde o fazer e o produzir vão parecendo ser mais importantes do que a comunhão com Deus. Tempos em que as ideologias (sejam elas de centro, esquerda ou direita) multiplicam-se e de maneira sútil vão se impregnando... Que por vezes acaba contaminando a lúcida vivência da fé e Cristo vai perdendo a centralidade é preciso recuperar a esperança. Rezemos com muita humildade, sem moralismos. Que esse tempo de graça na vida da Igreja e, especialmente na vida da Congregação da Missão, ajude-nos a sermos homens mais entregues à oração. Homens de comunhão com o Absoluto. Que livres de tantas tendências ideológicas, redescubramos a cada dia a centralidade de Jesus Cristo evangelizador e servidor dos pobres. Que redescobrindo a beleza de sua centralidade em nossas vidas, vocação e missão, possamos nos revestir de seu Espírito, tornando-nos verdadeiros peregrinos da esperança.  
Sem. Jose Alonso Zambrano Delgado
Sem. Jose Alonso Zambrano Delgado Testemunho missionário Num mundo envolto em sombras de incerteza e desafios, a Semana Santa emerge como um farol de esperança e renovação espiritual. É um tempo sagrado no qual, como comunidade de fé, nos imergimos na profundidade e no mistério da paixão, morte e ressurreição de nosso amado Senhor Jesus Cristo. Mas para alcançar esse momento de celebração e redenção, tivemos que percorrer um caminho de preparação e reflexão, o tempo da Quaresma. Durante os quarenta dias que antecedem a Semana Santa, como cristãos, somos chamados a nos imergir em um profundo processo de introspecção e conversão. É um tempo no qual confrontamos nossas fraquezas e limitações, e nos preparamos espiritualmente para celebrar os mistérios de nossa fé de maneira mais profunda e significativa. Num mundo repleto de distrações e barulho, a Quaresma nos permitiu parar para refletir e renovar nosso compromisso com Deus e com os outros. Este ano, os membros que fazemos parte da comunidade do Seminário Interno tivemos a graça de experimentar a Semana Santa de uma maneira excepcional no Curato de Brumal. Lá, entre as cinco comunidades que compõem este belo curato, encontramos um santuário de fé e amor. Durante oito dias intensos, compartilhamos momentos de oração, reflexão e serviço com aqueles que generosamente nos abriram as portas de seus lares e corações. No entanto, essa jornada não esteve isenta de desafios pessoais. Desde o primeiro dia, enfrentei obstáculos, especialmente devido à barreira do idioma local. Mas à medida que os dias passavam, descobri que a verdadeira linguagem do amor e da fé transcende qualquer fronteira linguística. Através de gestos simples e sinceros, encontrei formas de me comunicar e me conectar com as pessoas ao meu redor. Participar da Semana Santa no Curato de Brumal foi uma experiência profundamente transformadora para mim. Ao ouvir as histórias e preocupações das pessoas, ao compartilhar a Palavra de Deus e ao caminhar ao lado delas em sua jornada espiritual, experimentei uma comunhão profunda de coração a coração. Foi um lembrete vivo de que a fé é vivida e celebrada em comunidade, e que cada encontro é uma oportunidade para crescer em amor e compreensão mútua. Mas o mais tocante dessa experiência foi o tempo que passei confrontando minhas próprias sombras. Durante a Semana Santa, pude me aprofundar nas profundezas do meu ser, confrontando meus medos, minhas fraquezas e meus pecados. Foi um processo de purificação e transformação interior, um renascimento no qual deixei para trás minhas cargas e renasci na luz e no amor de Cristo. Ao final desta semana santa inesquecível, emergi com um coração renovado e uma fé fortalecida. No Curato de Brumal, encontrei um refúgio de paz e esperança em meio a um mundo turbulento e cheio de perguntas sem resposta. Levei comigo o amor e a bondade das pessoas que conheci, assim como o profundo sentido de propósito que encontrei em meu serviço a Deus e aos outros. Foi um testemunho vivo de que, através do amor e do serviço, somos evangelizados por aqueles a quem servimos. Que esta profunda experiência nos inspire a todos a buscar a renovação espiritual em nossas vidas, e a encontrar na Semana Santa não apenas uma celebração religiosa, mas um tempo sagrado de transformação e redenção para todos aqueles que anseiam pela verdade e pela plenitude em Deus. Neste tempo litúrgico, somos chamados a abandonar nossas cargas e a ressuscitar com o Senhor, renovados em seu amor e sua graça.
Pe. Michel Araújo Silva, CM
Pe. Michel Araújo Silva, CM Dar a vida... Há pouco mais de um ano, recebi de Deus, por meio da Igreja, a maior graça, depois do Santo Batismo. A ordenação presbiteral. Não me esqueço daquilo que o bispo disse em sua homilia no dia de minha ordenação: “O Sacerdócio é uma alegria tão grande, mas tão grande que a gente não consegue viver em um dia. É preciso uma vida para saboreá-lo”. Agora, passado um tempo, vou entendendo o que o bispo estava dizendo. A cada dia a alegria e a gratidão aumentam. Ao mesmo tempo, em que a alegria e a gratidão vão aumentando, aumenta também a consciência da responsabilidade. Paralelo ao texto de Ezequiel 34, encontramos o Evangelho segundo João 10, 11-18. Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Diferente daqueles que trabalham por obrigação ou por compensação. Jesus é aquele que dá a vida por amor. Ele é aquele que se entrega, desgasta-se e morre para conduzir e salvar as ovelhas de seu redil. O Pai do Céu enviou seu Filho Jesus para pastorear a terra e reunir todos os povos num único povo. Seu filho, único e verdadeiro Pastor, multiplicou-se nos primeiros apóstolos, depois se multiplica pelas gerações, naqueles que continuam sua missão. O mesmo foi pastoreando seu povo no mundo, através da Igreja, no decorrer da história; assim a missão do Salvador foi se desenvolvendo até hoje. O redil de Jesus não é pequeno e, no decurso dos séculos, iluminados pela presença do Espírito Santo, muitos imitaram, seguiram e comprometeram-se com o Verdadeiro Pastor, conduzindo almas para Ele. Muitos foram aqueles que de modo abnegado e fiel gastaram suas vidas, derramaram seu sangue por amor ao pastoreio do rebanho de Cristo. Hoje nós somos chamados a sermos continuadores dessa caminhada que muitos percorreram antes de nós. Continuar a Missão do Bom Pastor, Jesus. É bem certo que a Missão é de Jesus e não nossa. Todavia, depois de Jesus e antes de nós, existiram homens abençoados por Deus que, como dissemos, souberam continuar muito bem a missão. E nós que temos a missão de sermos pastores, hoje?! É certo que um jovem não tem as respostas de um ancião, mas é bom lembrar o que diz o apóstolo (1Tm4,12-13). Com oração e entusiasmo. Com o coração aberto para escutar os mais experimentados e para ler a realidade que nos interpela, vamos procurando avançar para águas mais profundas (Lc 5,4). Como missionário vicentino não há, para mim, um modelo mais edificante de presbítero, de pessoa que soube seguir os passos do bom e verdadeiro pastor, Jesus, do que o padre Vicente de Paulo. Seguindo suas pegadas podemos encontrar balizas para viver bem o ministério presbiteral, hoje. Como os santos votos, as máximas evangélicas e os exercícios de piedade próprios da tradição vicentina. Em tempos de individualismo temos a graça e o desafio da vida comunitária. Marcados pelo frenesi do cotidiano, não percebemos a beleza de nossa fé em alguns elementos que nos parecem ser muito comuns, mas que para a sociedade, já deixaram de ser. E o ideal da vida fraterna em comunidade é um deles: homens vivendo juntos, numa fraternidade, apoiando-se mutuamente, em comunhão de bens e em vista de um ideal comum, como vivem os missionários, é um sinal profético, hoje. Pessoas que são capazes de romper com o individualismo e com egoísmo para viver em comunidade, com sobriedade e simplicidade numa vida de pobreza para servir os vulneráveis é verdadeiramente caminhar na contramão do mundo. Gosto de aplicar a mim o conselho que São Vicente ofereceu ao Pe. Antônio Portail: “Lembrai-vos, Padre, de que vivemos em Jesus Cristo pela morte de Jesus Cristo e que devemos morrer em Jesus Cristo pela vida de Jesus Cristo e que nossa vida deve estar oculta em Jesus Cristo e plena de Jesus Cristo e que, para morrer como Jesus Cristo, é necessário viver como Jesus Cristo” (SV I, 295). Cristo é o sentido da vida e da morte, é o modelo a ser configurado, o ideal ser anunciado. Os tempos se revelam cada vez mais complexos. As exigências para a pregação do Evangelho não são as mesmas de séculos atrás, mas nem por isso são menores, pelo contrário. Diante de tanta exigência e complexidade, o sentimento que pode nos invadir é o de impotência (Jr 1,6). Parecem-nos faltar ferramentas necessárias para a missão. Na realidade, deparamo-nos com nossas limitações. Não temos respostas para tudo. Por outro lado, se chegamos aqui pela via da honestidade (se diferente do assalariado referido no texto bíblico, nós aqui chegamos por sentir uma inclinação interior e não por busca de recompensa material, ou coisa do tipo) é porque o Senhor nos quer nesse serviço. É verdade que diante dele realmente somos pequenos e incapazes e nossa realidade pessoal está muito distante do ideal do Pastor, mas Deus escolhe trabalhar com instrumentos ineficazes. É sua lógica (Mt 9,9-13). A Igreja vai oferecendo-nos muitos meios para o crescimento. Vão surgindo muitas oportunidades, em vários sentidos; no entanto, é sempre bom pensar que diferente do mundo dos negócios, na Igreja de Jesus o que conta não são os títulos (sejam eles acadêmicos ou eclesiásticos). O importante é sempre a busca pelo serviço (Mc 10, 32-45). Fazer-se pequeno para elevar os outros. Não se perdendo na vã competição pelo ter e pelo poder, mas abrindo-nos sempre à Graça Divina. Assim, mesmo com as limitações pessoais que todos temos, poderemos ser continuadores da missão que não é nossa, mas do Senhor. O ministro ordenado é alguém tirado do meio do rebanho de Cristo, do qual sempre será uma ovelha. Ser presbítero não é, evidentemente, algo como buscar privilégios, holofotes, cair no ridículo populismo, ou coisas como se vê (embora, graças a Deus, seja minoria). Quem é autocentrado não se centrou em Cristo, não encontrou nele sua referência. O centro é sempre aquele que anunciamos (Jo 3,30). Sempre, em momentos oportunos, ou não, convidados a anunciar a Palavra de Deus. Anunciar a verdadeira palavra, ao invés de discursos longos, fastidiosos que mais parecem exibicionismo em cima dos textos sagrados e que a ninguém interessam. É alguém que busca cultivar no coração os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. O ministério ordenado realmente é uma grande graça e de uma grande beleza, uma vez que é um sacramento de serviço. Nunca estaremos à altura desse sacro dom, mas auxiliados pela graça e cheios de humildade, podemos nos aproximar cada vez mais do ideal. Há uma plêiade de santos que iluminam o céu da Igreja e nos encorajam  nesse bom propósito. Bendito seja Deus pela vida doada de cada um que, ao longo da história da Igreja, cooperou com a missão de seu Filho. Que Ele abençoe os que já se encontram no fim de sua peregrinação e nos encoraje a nós que estamos começando. Bendito O seja, também, por ter inspirado aquele Padre Francês em 25 de janeiro de 1617. E sentindo o sopro de seu Espírito iniciado uma obra nova, diferente, para homens que desejassem seguir de maneira mais radical o estado de missão do Divino Salvador.
Fagner da Silva Marques, CM
Fagner da Silva Marques, CM Testemunho Missionário: Semana Santa 2024 É com grande satisfação que compartilho as alegrias vividas na missão da Semana Santa, no distrito de Brumal, no Curato de Nossa Senhora das Graças, ainda que tenha sido designado a outro distrito de nome Barra Feliz, para a Comunidade Imaculada Conceição. Chegamos no dia 25 de março em Brumal ao final da tarde. Em seguida fomos acolhidos pelo Pe. Hélio, CM, com um jantar. Logo após o jantar, três coirmãos admitidos, sendo eles Pablo Hernán Barreira, CM, Marcelo Mudrei Stefaniak, CM eu, Fagner Marques, CM,  que, unidos ao Pe. Francisco Ermelindo, CM, servimos na comunidade onde ele ofereceu assistência aos doentes que precisavam dos santos sacramentos. Para facilitar nossa movimentação pastoral na comunidade, ficamos no próprio distrito de Barra Feliz, na Comunidade Imaculada Conceição. A decisão de pernoitar por aqueles dias na própria comunidade foi salutar e nos ajudou a estar muito mais perto do povo, no que tange à necessidade da Missão. Rapidamente a população percebeu que a casa paroquial estava sendo habitada novamente, então o povo de Deus, curioso, a saber quem éramos, vinha nos cumprimentar e conhecer os missionários que estavam designados para a missão naquela pequena localidade. Ao decorrer dos dias, a população foi tomando ciência de que os missionários que estavam no território da comunidade estavam fazendo visitas às famílias, especialmente para aquelas pessoas que estão impossibilitadas de frequentar a Igreja, por várias situações. Neste período de visita missionária na Semana Santa, nossa missão foi muito mais escutar do que falar. A escuta é fundamentalmente importante para aquelas pessoas que muitas vezes não têm a oportunidade de conversar em casa. Isto é um ponto que me toca e deixa uma reflexão: por que nós, enquanto família, em nossa casa, não conversamos? Dar atenção é tão sofrido que não conseguimos? Cuidar dos que estão próximos pesa, de alguma forma, para nós? Estes são questionamentos que me fizeram refletir e colocar em oração as inúmeras famílias que foram visitadas. “É salutar refrigério que vai dando vigor a todas as vossas ações” (SV IX, 402). É tão belo ver a singeleza das pessoas a nos acolher! É salutar quando escutamos da boca do povo venham em minha casa! A simplicidade de oferecer o melhor que se tem para os missionários. Como escutei em várias visitas, meus pais sempre recebiam estas visitas: Meus pais sempre recebiam estas visitas! Como também, eu já caminhei com seminaristas que vinham fazer missão em tempos em que atuava na pastoral. Viver é recordar! Revisitar o passado é viver! Há dentro de nós uma chama, um ardor missionário que não devemos apagar porque é dom de Deus em nossa vida. O que completa a minha vocação é a Missão, é o que revigora a nossa vida na comunidade, na Congregação, alegra e fortalece a minha caminhada na graça do Senhor a continuar este longo caminho. O ressuscitado nos interpela a viver a missionariedade, de viver a sinodalidade, caminharmos juntos em nossa vida e missão, no respeito e na transparência. Viver esta semana santa rodeado de pessoas e de histórias que vão ser respeitadas até o último dia de minha vida é fundamental para a minha formação como missionário e consequentemente, de candidato ao sacerdócio, um alicerce bem edificado para minha caminhada missionária. O fim da Congregação da Missão deve primeiramente chamar a minha atenção, pois é o que devo fazer “Seguir Jesus Cristo, Evangelizador dos Pobres” assim como Jesus fez, O próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles (Lc 24, 15). Assim, caminhar juntos e ensinar o povo de Deus a escutar, acolher e agir em comunidade. Desejo a todos os leitores e à nossa Família Vicentina uma Feliz Páscoa! Que Jesus Ressuscitado possa ressuscitar no coração de cada um dos filhos de Deus. Coirmão admitido, Fagner da Silva Marques, CM.
Pe. Wander ferreira, CM
Pe. Wander ferreira, CM A grandeza do serviço da caridade “Não há absolutamente nada mais importante para a Igreja que a caridade. Ela é o amor e o mandamento supremo, que se concretiza em obras: se não fosse assim estariam mortas, como nos diz o Apóstolo Paulo.” (Antônio Frederico Ozanam) Em nossa sociedade, de modo geral, a caridade, na cabeça de muitas pessoas, simplesmente se reduz a alguns gestos de ajuda e auxílio aos irmãos e irmãs carentes. E isso acontece quando damos esmolas a pedintes, cestas básicas a quem está passando fome, pagamos conta de água ou de luz para não serem cortadas, doamos material de construção para construir, terminar ou melhorar as simples residências etc. É claro que essas ações fazem parte da caridade, mas não é a caridade propriamente dita, como muitas pessoas pensam. Então, para aprofundarmos este tema da caridade, é importante para nós, em primeiro lugar, buscarmos a sua origem, ou a sua etimologia. A palavra caridade vem da palavra latina “caritas”, que significa amor sobrenatural ou amor incondicional. E para nós cristãos, sobretudo católicos, é uma virtude que é infundida em nós pelo Espírito Santo (Rm 5,5). É relatada no mesmo pé de igualdade do amor. Não só é a primeira das virtudes, mas é de uma ordem diferente, superior (1Cor 13, 1-13). Na ordem do definitivo, as outras virtudes valem unicamente enquanto ajudam no incremento da caridade ou estão informadas por ela, já que esta configura no modo de ser do próprio Deus e nos faz participar de sua própria riqueza e felicidade, de modo semelhante como, por amor a outra pessoa, fazemos nossa a sua riqueza, sua felicidade ou sua dor. São Vicente de Paulo, na Conferência de 1659 sobre a Caridade afirmou: “A caridade é um preceito divino que abrange vários outros. Cada qual sabe que no amor a Deus e ao próximo estão compreendidas a lei e os profetas. Tudo tende a isso. Converge tudo para esse ponto. E tem esse amor tanta força e privilégio que todo aquele que o possui cumpre as leis de Deus, porque todas se referem a esse amor, e esse amor nos leva a fazer tudo o que Deus nos pede: “Quem ama o próximo cumpriu plenamente a lei.” Ora, isso não diz respeito apenas ao amor para com Deus, mas à caridade para com o próximo por amor de Deus. Isso é tão grande que o entendimento humano não pode compreender (Lc 10,25-37). É preciso que nos esclareçam as luzes do alto para nos demonstrar a altura e a profundidade, a largura e a excelência desse amor.” A caridade faz com que não possamos ver alguém sofrer, sem sofrer com ele; não possamos vê-lo chorar, sem chorar também. “É um ato de amor que nos faz entrar nos corações uns nos outros, e sintamos o que sentem os demais, bem diferentes que nada sentem diante da dor dos aflitos, ou do sofrimento dos pobres. Todo ser humano constitui o corpo místico da Igreja. Somos todos membros um dos outros. Jamais se ouviu dizer que um membro, nem mesmo nos animais, sejam insensíveis à dor de outro membro; uma parte do homem seja machucada, ferida ou violentada sem que as outras não sofram. Isso é impossível. Tem todos os nossos membros tanta simpatia e ligação entre si que o mal de um é o mal de outro. Com maioria de razão, os fiéis, sendo membros de um mesmo corpo e membros um dos outros, devem alimentar a compaixão recíproca. Ser cristão de verdade, ver o irmão aflito e não chorar com ele, e não sofrer com ele, é não ter caridade! É ser cristão de aparência. É não ter humildade. É ser pior que os animais” (Coste, XII, P. 275-276). A caridade também nos faz alegrar com os que se alegram. Ela faz com que entremos nos motivos de alegria dessas pessoas. “Nosso Senhor com suas máximas teve a intenção de nos tornar perfeitos em unidade de espírito, unidade de alegria e tristeza. É desejo seu que entremos nos sentimentos um dos outros. O evangelista São João afirma que, São João Batista, falando de si mesmo e de Jesus Cristo, afirma que o amigo do Esposo se enche de alegria ao ouvir sua voz. ‘Esta minha alegria, foi portanto, realizada. É preciso que ele cresça e eu diminua’ ( Jo 3,27-30). Alegremo-nos da mesma forma, ouvindo a voz de nosso próximo que se alegra, pois representa Nosso Senhor para nós. Alegremo-nos pelos bons êxitos que lhe advêm, e porque nos excede na honra e estima do mundo, em talentos, graças e virtudes. Eis como devemos entrar em seus sentimentos de alegria” (Coste, XII, P. 276-277). Uma importante filha da caridade, que são Vicente afirma que é fundamental para vivermos no amor é a humildade. O santo nos diz que ela, vivida no coração da caridade nos possibilita: “Prevenir-nos com os títulos de honra, porque de outro modo, parece que nos evitamos, e queremos bancar pessoas de importância, altaneiros (Soberbos, ambiciosos, buscas de altos interesses) e indiferentes uns para com os outros. Isso tranca o coração. O contrário, porém, o abre e dilata o coração. É a humildade um verdadeiro produto da caridade, que, na ocasião, nos faz cumular o próximo de respeito e honra, e por, esse meio, nos concilia sua afeição. Portanto, se entre nós pusermos em prática o respeito, praticaremos também atos de humildade que, sendo a humildade filha do amor, fomenta a união e a caridade” (Coste, XII, P. 278). Outra filha muito importante da caridade é a justiça. Não é possível ser homens e mulheres que exercem a caridade se não lutarmos pelo cumprimento da justiça no seio da Igreja e no seio da sociedade. É um ato de nobreza. Neste quesito, São Vicente afirma: “Não há caridade que não seja acompanhada de justiça. Por isso, a caridade abre os caminhos da justiça. Deus lhe dará a graça de entender que, socorrendo os indigentes, fazemos justiça e não misericórdia. (Boissinot, P. 31). Dois séculos mais tarde, fiel ao pensamento vicentino, Frederico Ozanam declara com toda propriedade: “A justiça já supõe muito amor; pois é preciso amar muito o ser humano para respeitar seu direito que limita nosso direito e sua liberdade que incomoda a nossa. No entanto a justiça tem limites; a caridade não os tem” (Boissinot, P. 36). Caminhando para o final desta abordagem, e sintetizando vários pensamentos do nosso texto, vamos trazer presente uma pregação de São Vicente aos seus missionários onde ele insiste para os mesmos colocarem em prática sete atos de caridade que, no seu pensar faz a diferença. São eles: “1º Fazer aos outros o bem que razoavelmente queríamos que fizessem a nós; 2º A ninguém contradizer, e considerar tudo bem em Nosso Senhor Jesus Cristo; 3º Suportar-se mutuamente sem murmurações; 4º Chorar com os que choram; 5º Alegrar-se com os que se alegram; 6º Prevenir-se de honras; 7º Testemunhar aos outros e prestar-lhes serviço, cordialmente. Em suma, fazer-se tudo para todos, a fim de a todos ganhar para Jesus Cristo. Tudo isso se compreende quando nada exista contrário aos mandamentos de Deus ou da Igreja. (Coste, XII, P. 279) Ao praticarmos tais atos de caridade, assumimos o lugar de Nosso Senhor, que foi o primeiro a praticá-las. Escolheu o último lugar. Escolhamo-lo igualmente. Pois Ele veio testemunhar seu amor à humanidade. Cumulou-nos de bênçãos. Previnamos assim nosso próximo com testemunhos de nossa afeição, com moderação e cortesia. E assim, praticar todos os outros atos em seu tempo e lugar, contanto que jamais sejam tais atos, diz a regra, contrários a lei de Deus. Além disso, façamos sempre e por toda parte, o bem, conforme as ocasiões que para isso tivermos, coisa que será muito frequente. E quanto mais fizermos isso no espírito de Nosso Senhor, tanto mais agradáveis seremos a seus olhos". (Coste, XII, P. 279-280). Por fim, colocamos aqui uma reflexão muito incômoda para muitas pessoas, mas a fazemos com muita tranquilidade, e sem o desejo de ofender ninguém, mas de nos questionar com relação ao essencial de nossa fé. Infelizmente, nossa Igreja, de modo geral, vive um catolicismo muito privatizado, onde se incentiva muito a salvação pessoal, sem muito compromisso com o próximo e consequentemente, sem a vivência profunda da caridade. Hoje, é considerado bom católico aquele que está nas Missas, participa dos sacramentos, dos atos devoções e dos vários rituais. A pessoa pode ser a mais complicada na sociedade (desonesta, corrupta, mal caráter, dissimulada, hipócrita etc.), mas se contribui com o dízimo “generosamente” e cumpri todos os atos citados acima, é um católico bem visto. Aqui, o objetivo não é fazer julgamento ou juízo de valores, mas é chamar a atenção para o que realmente nos dá a tônica de Cristãos, e também dizer que, o que vai nos salvar de verdade, de acordo com o Evangelho, é a Caridade e o Amor. E isto fica bem claro no texto do Juízo Final, texto este que será lido e refletido na Solenidade de Cristo Rei desde ano de 2023 (Mt 25,31-46). Portanto, quando o Mestre se manifestar na sua glória, não vai nos perguntar: quantas vezes nós fomos ao templo para rezar ou participar dos rituais, quantas vezes contribuímos com o dízimo, quantas vezes jejuamos, quantos terços nós rezamos, quantas novenas nós rezamos ou participamos. Na verdade ele vai nos perguntar: em que tudo isso nos ajudou a viver com profundidade e intensidade a vivencia da caridade e amor. Pois nós já sabemos que os fariseus, no tempo de Jesus, eram os mais piedosos, os mais participantes dos rituais nos templo, os mais fieis no dízimo, os que mais jejuavam, no entanto Jesus os chamava de hipócritas, porque não transformavam estas ações em gestos de caridade e de amor. Que o nosso Pai, especialista na Caridade, São Vicente de Paulo, interceda sempre por nós para sermos féis aos apelos da missão, principalmente na prática da caridade e do amor a todos os irmãos e irmãs.
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM Quais guerras escolhemos lutar? As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. (Carlos Drummond de Andrade) Por ocasião da benção Urbi et Orbi deste Natal, o Papa Francisco demonstrou toda sua preocupação com os conflitos armados e guerras que assolam a humanidade nos tempos atuais. “O povo, que não quer armas mas pão, que tem dificuldade em acudir às despesas quotidianas, ignora quanto dinheiro público é destinado a armamentos. E, contudo, devia sabê-lo! Fale-se disto, escreva-se sobre isto, para que se conheçam os interesses e os lucros que movem os cordelinhos das guerras”, declarou o Sumo Pontífice. Segundo a Organização das Nações Unidas, em 2023 encontram-se ativos dezenas de conflitos armados em todo o mundo, especialmente na Ásia e na África. Destes conflitos, oito são classificados como guerras. São Vicente se tornou o Grande Santo do Grande Século a partir da sua diligente atuação durante as guerras que dizimaram boa parte do interior da França, no século XVII. Durante a Guerra dos Trinta Anos e também durante as Frondas, o Pe. Vicente atuou como um verdadeiro general cujas tropas compunham um poderoso exército, que marchava empunhando tão somente as armas da fé e da caridade. É certo que Vicente não era um comandante de escritório, atuava na linha de frente junto aos padres, irmãs e voluntários leigos que compunham suas fileiras de bravos soldados. Sua mais importante batalha era minimizar o sofrimento dos pobres mediante às graves consequências dos conflitos. Um grande exemplo disso é que Vicente fez da sua própria casa, São Lázaro, um verdadeiro centro de atendimento aos refugiados de guerra. Isso pode ser confirmado a partir de uma carta que São Vicente escreveu em junho de 1652, a um de seus padres na região da Alsácia-Lorena, quando ele descreve algumas das ajudas prestadas em Paris: “Sopas distribuídas diariamente a quinze ou dezesseis mil pobres; oitocentas ou novecentas moças recolhidas em boas casas e alimentadas; em São Lázaro são hospedados os vigários, coadjutores e outros padres que tiveram de abandonar as paróquias e fugir para Paris; chegam novos padres, todos os dias, e aqui são exercitados nos deveres, que devem saber e praticar. Eis como Deus permite que participemos em tantas boas obras. As pobres Irmãs de Caridade trabalham mais do que nós no serviço corporal dos pobres. Elas distribuem sopas, diariamente, a mais de mil e trezentos pobres, na casa-mãe. Na paróquia de Saint-Denis a oitocentos refugiados, e na paróquia de São Paulo a quinhentos pobres, além de oitenta doentes. Em outros lugares fazem o mesmo. Peço-vos que rezeis por elas e por nós.” No Brasil não há guerra. Mas há conflitos armados e desarmados que exigem nossa atenção como vicentinos. Nossa principal batalha é contra a pobreza. A insegurança alimentar atinge milhões de famílias em todo país, a falta de moradia é outro problema grave, não podemos esquecer da situação precária de boa parte da nossa educação pública. Também precisamos estar atentos aos preconceitos e discriminações de toda ordem, que matam tanto quanto as guerras declaradas, é nosso trabalho atuar contra essas práticas. As perguntas que ficam para nós hoje são: Quem somos nós no exército vicentino hoje? Quais guerras escolhemos lutar? * Texto originalmente publicado no Informativo São Vicente Ed. 325, leia a edição completa aqui.
Pe. Cléber Fábio Teodósio
Pe. Cléber Fábio Teodósio Missão do Japão Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Além desse mandado de Jesus, também São Vicente nos orienta: "Não sou daqui, nem dali, mas de qualquer lugar onde Deus aprouver que eu esteja" (SVP, Es, IX, 30). No decorrer de toda minha história vocacional, passagens como essas têm me motivado a testemunhar o Evangelho de Jesus onde Deus me envia. Na segunda metade de janeiro de 2024, tive a alegria de visitar a Missão do Japão, onde junto ao coirmão filipino Pe. Rogélio Cardenas II, CM, pude servir nas paróquias Santa Terezinha, em Iwata, e Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Kakegawa. Encontrar os irmãos brasileiros e de outras nações que fazem parte da Igreja de Cristo em terras nipônicas foi gratificante. A fé do povo, sua entrega e serviço confirmaram minha vocação missionária.    O Japão é o quinto país do mundo com maior presença de imigrantes brasileiros. Conforme dados do Itamaraty, de 2022, a comunidade brasileira ali presente chegava a 207 mil habitantes. As razões para imigrar são diversas: família, trabalho, estudo... E nada melhor que, mesmo em outro país, possa-se celebrar sua fé em vernáculo (Sacrosanctum Concilium 36 § 2). Pe. Rogélio trabalha na Diocese de Yokohama, no Japão, há 15 anos. Atualmente, serve na Província de Shizuoka, onde é responsável pelas duas paróquias. Hamamatsu, pertencente a Shizuoka, é a cidade com maior presença de nipo-brasileiros no país. Ali atuam os Salesianos, de onde provém o único padre que fala português na região, Pe. Ambrósio da Silva, natural de Timor Leste. A missão vicentina fica nas cidades supramencionadas, que são vizinhas de Hamamatsu. “O amor é inventivo até o infinito” (SVP, br, XI, 102). Pe. Rogélio, descobrindo o grande número de brasileiros em sua área paroquial, e percebendo que alguns tinham dificuldade em compreender na íntegra o japonês, resolveu fazer algo para atender-lhes com mais zelo. Por meio do Facebook, entrou em contato comigo e pediu que traduzisse sua homilia, do inglês ao português, e de posse do texto traduzido acompanhado de áudio, na quarta ou quinta-feira, Pe. Rogélio poderia escutar e treinar a pronúncia, para no fim de semana pregar em japonês, inglês e português. O que agradou aos ouvidos dos brasileiros que passaram a frequentar mais as missas do Padre.    Em janeiro de 2024, convidado para participar da Conferência Internacional da FHA, em Manila, Filipinas, vi como oportunidade singular esticar o passo até o Japão, e uma vez autorizado pelo Visitador Provincial, Pe. Vandeir Barbosa, CM, estive na Missão do Japão, onde pude celebrar o Santo Sacrifício com o Povo, reunir-me com o grupo de jovens “Rosas de Tereza”, fazer bênçãos de casas, visitar famílias, atender confissões, confraternizar e encontrar o jovem mariano vicentino Jhonatan Muryllo, de Curitiba, que estava passando uns dias com a sua mãe no país, e foi celebrar seu aniversário na missa especial rezada para os brasileiros da Comunidade de Iwata. Foi uma experiência de Deus, algo que ficará marcado em minha vida e missão. Japão é outro mundo, as diferenças culturais são realmente marcantes, a distância do Brasil é enorme, estava longe, mas pelo carinho, cuidado e alegria do povo me senti acolhido, próximo, em casa. Muito obrigado é pouco, Deus os pague por tamanha generosidade. A vocês minha gratidão e orações.        “A messe é grande, mas os operários são poucos” (Lc 10,2). O tempo passou rápido e já estou de volta, para continuar minha missão na Paróquia Pai Misericordioso, em Belo Horizonte , Minas Gerais, Brasil. Desde aqui, seguirei colaborando, como tenho feito há mais de três anos, com os nossos irmãos do Japão, a partir de agora, com mais propriedade. Pe. Rogélio já contava: “Embora o pequeno esforço que faço pelas comunidades brasileiras seja muito apreciado por elas, ainda acredito que muito mais precisa ser feito. O que faço na minha homilia é nada diante de tudo que as comunidades precisam: missas em português, confissões em sua própria língua e outros sacramentos, sessões de formação, aconselhamento etc. Eu realmente espero que este esforço do Pe. Cleber e meu evolua a uma oportunidade maior de ajudar e fazer missões reais aqui no Japão, especificamente na Diocese de Yokohama. Há anos venho solicitando e buscando maneiras de encorajar um coirmão do Brasil para vir e se juntar a nós na missão do Japão, mas obviamente ainda não aconteceu. Todavia, não perdi as esperanças. Acredito que chegará o dia em que um coirmão de língua portuguesa e espanhola fará parte de nossa missão aqui no Japão”. Oxalá mais jovens se deixem encantar pela missão e possamos fazer crescer a parceria missionária entre a PBCM e as demais províncias no Brasil e no mundo, de modo que, especialmente os pobres, nossos mestres e senhores, recebam a mensagem de salvação de nosso Deus, seja-lhes anunciado que o Reinado de Deus já chegou e que esse Reino é para eles (SVP, br, XII, 82).
Pe. Jean Rolex, CM
Pe. Jean Rolex, CM Os Desafios da Congregação da Missão para um futuro promissor Ao iniciar um novo ano, todos nós, a nível pessoal, geral ou grupal, costumamos traçar novos caminhos e colocar novos desafios para as nossas vidas que vão desde pequenos objetivos até grandes ideais. Também hoje, a humanidade enfrenta desafios urgentes para um futuro melhor, desafios que incluem problemas ecológicos[1] e conversão ecológica global[2], bem como a necessidade de eliminar as causas estruturais responsáveis pelas disfunções da economia mundial e de corrigir modelos de desenvolvimento que parecem incapazes de garantir o respeito pelo ambiente[3]. Precisamos também enfrentar as alterações climáticas, o aquecimento global; o fraco acesso à água potável para todos, a perda de biodiversidade na natureza[4] e o fosso crescente entre as classes sociais, dentre outras situações sociais extremas que exigem atenção. Da mesma forma, no início do ano, a Congregação da Missão, que peregrina no mundo a serviço dos pobres, estabelece objetivos e propostas que a mantém motivada, criativa, entusiasmada e fortalecida. Esta reflexão resume e explica os desafios mais importantes que entendemos que a Congregação deve enfrentar e superar para avançar e melhorar o seu futuro. Recentemente, a Congregação da Missão realizou a sua 43ª Assembleia Geral, sob o tema: “Revitalizando a nossa identidade no início do quinto centenário da Congregação da Missão”. Parece-nos essencial voltar ao Documento Conclusivo da referida Assembleia, pois ele nomeia os grandes desafios que a Congregação pretende superar para avançar para um futuro promissor. O primeiro desafio é “revitalizar a nossa identidade vicentina”, ou seja, dar vida à nossa espiritualidade, ao nosso estilo de vida e aos nossos ministérios. Mas, a revitalização da nossa identidade passa necessariamente pela reconexão com as nossas raízes, com as origens da nossa espiritualidade e carisma [5]. O que significa então nos reconectarmos com nossas raízes? Significa: interessar-se novamente, ler e rezar com as nossas Regras Comuns, as nossas Constituições e Estatutos. Estes são documentos fundamentais na vida de um missionário. Refletem a espiritualidade e o carisma que Vicente de Paulo nos deixou. São livros qualificados para nos inspirar e nos guiar para um futuro promissor. Agora: até que ponto, como Congregação, nos deixamos inspirar e guiar por eles? Reservamos tempo para lê-los? Quanto sabemos sobre eles? Hoje em dia, e por diversas razões, muitos missionários não leem o suficiente, fazendo com que muitas vezes se esqueçam da beleza da nossa espiritualidade, da nossa identidade e da nossa missão. É urgente, portanto, recuperar o gosto pela leitura entre os missionários, especialmente entre os mais jovens. Ninguém ama o que não conhece. Portanto, se quisermos nos apaixonar pelo nosso carisma, temos que conhecer bem as nossas Regras Comuns, as nossas Constituições e Estatutos. Estas respondem ao que a Congregação pensa de si mesma e como quer apresentar-se hoje na Igreja: uma Congregação que busca a perfeição na caridade. Que eles nos guardem e nos conduzam com segurança ao fim desejado! O segundo desafio é a necessidade de redescobrir a beleza da missão e a sua importância na vida da Igreja e da “Pequena Companhia”. Nossa Congregação nasce e vive da missão. Mas, à medida que o nosso mundo se torna cada vez mais secularizado, individualista, permissivo, relativista, materialista, hedonista e consumista, vemos tristemente que a “Pequena Companhia” é consideravelmente atenuada na sua tarefa de evangelizar o mundo. Atualmente, há na nossa Congregação um enfraquecimento da convicção missionária e uma escassez de santidade entre os nossos missionários[6]. Sem darmo-nos conta, estamos sendo absorvidos pelo mundanismo, pelo pessimismo e pela preguiça espiritual[7] que contaminam os missionários. O que fazer sobre esse problema? O Santo Padre nos aconselha: urgente conversão missionária e compromisso com a santidade[8]. A missão continua urgente. O mundo precisa de Cristo evangelizador dos pobres. A missão pode salvar a nossa vocação e a nossa identidade. A missão tem o poder de transformar. Recuperamos, então, entre nós o mesmo amor e desejo de São Vicente pela missão. Um terceiro desafio diante da Congregação é recuperar a beleza da nossa vocação diante de uma cultura muitas vezes controlada pelo que é externo, pelo que é imediato, pelo que é visível, pelo que é rápido, pelo que é superficial, pelo que é provisório. Em que consiste essa beleza da nossa vocação? A beleza da nossa vocação consiste no fato de que a missão de Cristo é a nossa própria missão, o seu carisma é o nosso próprio carisma e a sua espiritualidade é a nossa própria espiritualidade (cf. XI, 383). Uma vocação de tamanha beleza deve ser encorajada, protegida e promovida, especialmente entre os mais jovens. Não há dúvida de que Deus continua chamando. Mas, como Congregação, temos que cultivar as vocações e construir “uma cultura vocacional”. A cultura vocacional é um conceito que está em voga na nossa Congregação. No entanto, o que especificamente fazemos para criá-lo? Que mudança profunda estamos dispostos a fazer para favorecê-lo? O sucesso e o crescimento das vocações dependerão das mudanças profundas que a nossa Congregação estiver disposta a fazer, não apenas mudanças estruturais, mas também mudanças que influenciem a forma como vivemos a nossa fidelidade a Cristo evangelizador dos pobres e a nossa identidade vicentina. Sem a fidelidade da Congregação à sua própria vocação, qualquer esforço ou mudança na pastoral vocacional não daria verdadeiros frutos. Os desafios mencionados são complementares e conhecidos pela maioria dos missionários. Agora, como queremos enfrentá-los? Que papel pode desempenhar o fator tempo nesta revitalização da nossa identidade? Como o fator tempo condiciona a qualidade da nossa espiritualidade, do nosso estilo de vida e da nossa missão? Reservamos um tempo para parar e realmente encontrar Deus e os outros em oração? O que fazemos realmente nos leva a um relacionamento mais profundo com Cristo? Reservamos tempo suficiente para conhecer a vida intercultural da nossa Congregação?  Aceitamos bem outras pessoas que vêm de uma cultura diferente? Será que nos preocupamos o suficiente para tentar reler a história das pessoas que compõem a nossa Congregação? Definitivamente, se quisermos realmente superar os desafios colocados, devemos dedicar tempo a eles e parar para refletir, a partir de Cristo e do carisma vicentino, sobre o que estamos fazendo e como estamos fazendo. É importante também que recordemos aqueles momentos do nosso encontro com a Congregação da Missão e dela conosco. A recordação desses momentos será a fonte da qual obteremos forças para continuar dedicados à missão de Cristo, evangelizador dos pobres. Notas  [1] Paulo VI (1971). Carta Apostólica Octogesima adveniens, em https://www.vatican.va/. [2] João Paulo II (2001). Catequese sobre o compromisso de evitar a catástrofe ecológica, em https://www.vatican.va/. [3] Bento XVI (2007). Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, em https://www.vatican.va/. [4] Francisco (2015). Carta Encíclica. Laudato Sì, em https://www.vatican.va/. [5] Tomas Mavric (2022). Reflexão para a Assembleia Geral de 2022, Vicentina, 66 (3a 4), 375-387. [6]Rolando Santos (2022). A Missão Ad Gentes e a Identidade da Congregação da Missão. Vicentina, 66 (3a4), 409-417. [7] Francisco (2013). Exortação Apostólica. Evangelii Gaudium, em https://www.vatican.va. [8] Ibid. * Texto original publicado em cmglobal.org * Versão em português por Padre Eli Chaves dos Santos, CM
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