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Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, CM
Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, CM A Identidade da CM no início de seu 5º centenário O tema da identidade volta com frequência às nossas reflexões e discussões, ainda mais em tempos de mudanças radicais nos mais distintos âmbitos: antropológico, cultural, social, religioso, eclesial, etc. Vivemos, na verdade, um momento histórico de fortes incertezas e instabilidades. Por um lado, a crise global ocasionada pela pandemia da COVID-19 ressaltou a realidade de um mundo fraturado, fazendo crescer a insegurança ante o presente e o futuro. Por outro lado, esta crise nos ajudou a despertar para a necessidade e a urgência de voltar ao essencial da vida, de recuperar valores talvez esquecidos, de redescobrir princípios e atitudes capazes de humanizar o humano, qualificar as relações e recriar a harmonia na Casa Comum. O Papa Francisco, com a lucidez que o caracteriza, soube recordá-lo naquela inesquecível oração do dia 27 de março de 2020, na Praça de São Pedro completamente vazia: “A tempestade desmascara nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos nossos programas, nossos projetos, nosso hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade”. Seja como for, o assombroso e desconcertante do Cronos não nos impedem de reconhecer o fecundo e o promissor do Kairos que despontam em nosso horizonte existencial e histórico. O momento requer oração mais constante, reflexão mais profunda, discernimento mais atento, decisões mais audazes. Um bom começo pode ser mergulhar no tema da identidade que nos constitui, posto que, sem saber quem somos ou a que somos chamados, não podemos viver com sentido, atuar com entusiasmo e falar com convicção. Faltar-nos-iam densidade, consistência e dinamismo. A CM se vê interpelada a percorrer este caminho de apropriação e reconfiguração de sua identidade espiritual e apostólica diante dos desafios e apelos do momento presente. Trata-se, então, de escutar a voz do Espírito que lhe diz: “Mantém com firmeza o que tens, para que ninguém arrebate sua coroa” (Ap 3,11). Nesta linha, situa-se a 43ª Assembleia Geral (AG), convidando-nos a rezar e a refletir sobre o tema: Revitalizar nossa identidade no início do V centenário da CM. Com esse propósito, exortou-nos o Padre Tomaž Mavri?: “Nossa próxima Assembleia Geral será celebrada, se Deus quiser, 405 anos depois do momento inspirado por Deus em Folleville. Precisamos ter sede, aspirar e dispor-nos nada menos que ao fogo interior e ao zelo missionário que levou nossos primeiros Coirmãos a seguir Jesus, evangelizador dos pobres. Precisamos esforçar-nos para uma nova primavera, um novo Pentecostes”. Dentro dos limites impostos pelo espaço de que dispomos aqui, trataremos do assunto a partir de três pontos: apresentaremos alguns pressupostos metodológicos da identidade vicentina (I), recordaremos seus aspectos nucleares (II) e aludiremos a alguns riscos ou tendências que nos podem deter no esforço de atualizar nossa identidade (III). Em tudo isso, vale recordar que a revitalização da identidade da CM exige e integra os âmbitos pessoal, comunitário e institucional (Província e Congregação em geral), já que toda mudança estrutural tem seu ponto de partida na vida daqueles que intuem sua necessidade e a promovem com retidão e esperança. I – Três pressupostos da identidade vicentina Convém começar por um esclarecimento a respeito do tema da identidade, de seu significado e de seu alcance. Fixaremos nossa atenção em três pontos que encontram respaldo na experiência do próprio São Vicente de Paulo, em seu grande esforço de definição do perfil de suas fundações. 1. Identidade é a manifestação visível do que nos constituí essencialmente, é a realização histórica do que somos chamados a ser. Valendo-nos de uma sugestiva imagem do próprio São Vicente, poderíamos dizer que a identidade se assemelha ao rosto, “que é o testemunho do coração” (ES IX-A, 398 | SV IX, 435). Dirá, pois, o fundador, em outra ocasião, recorrendo à mesma imagem: “os rostos são sinais da disposição do coração, já que, ordinariamente, dão testemunho do que existe em seu interior” (ES IX-B, 892 | SV IX, 304).  Aplica a mesma lógica ao explicitar as virtudes que definem o espírito das Filhas da Caridade: “Aqueles que vos vejam, devem conhecer-vos por essas virtudes” (ES IX-A, 537 | SV IX, 596). Isso significa que as intenções, sentimentos e disposições que abrigamos em nosso interior devem refletir-se na exterioridade de nossa conduta, em nossas palavras e ações, em nossas opções e compromissos. Dessa forma, a identidade nos distingue dos demais, realçando e tornando palpáveis nossos traços característicos. Como toda identidade espiritual e apostólica, a identidade vicentina possui uma dupla estrutura: interior ou carismática, que se centra em uma experiência fundante – a do encontro com Jesus Cristo, evangelizador dos pobres – da qual brotam valores, convicções e motivações; e exterior ou profética, a qual se traduz em um modo de ser e agir, em um estilo de vida marcadamente caritativo e missionário. O fundador soube explicitá-lo ao delinear a fisionomia da CM com estas palavras: “Seu específico é dedicar-se, como Jesus Cristo, aos pobres” (ES XI-A, 387 | SV XII, 79). A dimensão interior alimenta e impulsiona a exterior, assim como a dimensão exterior concretiza e atualiza a interior. Vale aqui, bem entendido, o que escreveu o filósofo cristão E. Mounier, ao referir-se à existência da pessoa encarnada na história: “Sem a vida exterior, a vida interior seria incoerente, tal como, sem a vida interior, aquela não seria mais que delírio”. Esta é, pois, a primeira noção de identidade que podemos colher das intuições de Vicente de Paulo: nossa vocação possui uma fisionomia própria, um rosto que a define e visibiliza, uma maneira específica de situar-se na Igreja e no mundo, segundo o carisma que o Espírito nos comunicou através do fundador. 2. A identidade vicentina se configura em um processo dialético, em uma permanente e saudável tensão entre fidelidade e criatividade. Trata-se, portanto, de uma “trajetória traçada entre duas rochas: a da essência herdada e a da existência historicamente construída”. Somos, ao mesmo tempo, herdeiros e artesãos de nossa identidade. Falando, certa vez, às Filhas da Caridade, São Vicente se mostrou muito consciente desse dinamismo que caracteriza o espírito ou a identidade de uma comunidade apostólica: “Eis, minhas filhas, qual foi o começo de vossa Companhia. Como não era naquela hora o que é atualmente, é de se acreditar que ainda não é o que será, quando Deus a tiver colocado no ponto onde a quer, pois, minhas filhas, não deveis pensar que as comunidades se fazem de uma vez por todas” (ES IX-A, 234 | SV IX, 245). A identidade vicentina se apresenta como dom e tarefa; não apenas um testamento recebido do passado, mas também uma meta que temos que alcançar, um propósito que precisamos assumir, dia após dia, sempre em busca da unidade que lhe dá sentido e consistência. Assim como uma planta requer a seiva que lhe vem de suas raízes e que a robustece, também a identidade necessita alimentar-se continuamente da inspiração que a fez nascer e que a mantém dinâmica, ou seja, aberta a oportunas adequações, e atual, capaz de responder eficazmente aos desafios de cada momento histórico. Quando a herança se impõe como algo hermético ou quando a construção do novo descuida das raízes, a identidade se empobrece e se esfuma. O novo que desejamos oferecer aos pobres e à Igreja, como herdeiros e artesãos da identidade vicentina, não pode prescindir da riqueza da herança que o fundador nos legou e que tem suas raízes no Evangelho que emoldurou toda sua existência. Com efeito, para ser originais, temos que voltar às origens, ao que temos de mais genuíno. O Papa Francisco quis atualizar essa convocação: “Repassar a própria história é indispensável para manter viva a identidade e também robustecer a unidade da família e o sentido de pertença de seus membros. Não se trata de fazer arqueologia nem cultivar inúteis nostalgias, mas de repercorrer o caminho das gerações passadas para nele captar a centelha inspiradora, os ideais, os projetos, os valores que as moveram, a começar dos fundadores e das primeiras comunidades”. Quem quiser estar em dia com a identidade vicentina, tem que voltar às fontes para imbuir-se da riqueza original e criativa do carisma e, assim, avançar com mais perspicácia e vigor na direção dos desafios e exigências da missão nos diferentes contextos atuais. 3. Construir uma identidade aberta, dialogal e interativa. Em muitas ocasiões, nosso fundador se mostrou convicto da importância de uma apropriação ampla e profunda do específico de nossa vocação. Entretanto, sabia que isso não implicava em nenhum complexo de superioridade ou isolamento narcísico. Ao contrário, São Vicente insistia para que seus Padres e Irmãos soubessem reconhecer os méritos das diferentes famílias espirituais existentes na Igreja, preconizando assim o que se entende hoje como complementariedade e convergência entre os carismas e ministérios que enriquecem a missão compartilhada do povo de Deus: “Deus suscitou esta Companhia, como todas as outras, por seu amor e beneplácito. Todas tendem a amá-lo, mas cada uma o ama de maneira distinta: os Cartuxos pela solidão, os Capuchinos pela pobreza, outros pelo canto de seus louvores, e nós, meus irmãos, se temos amor, temos de demonstrá-lo levando o povo a amar a Deus e ao próximo, amar ao próximo por Deus e a Deus pelo próximo” (ES XI-B, 553 | SV XII, 262). O próprio Vicente de Paulo orientou e acompanhou de perto a fundação e o florescimento de várias comunidades religiosas, ajudando-as a discernir e assimilar suas respectivas identidades. Sabia que, por desígnio de Deus, a cada identidade carismática corresponde uma visão de Jesus Cristo e uma dimensão de sua missão salvífica: “As Companhias existentes na Igreja de Deus consideram diferentemente a Nosso Senhor, consoante os vários atrativos da graça, as luzes e as considerações diversas que lhe apraz dar-lhes, esta num estado, aquela em outro. Assim o imitam e honram de maneiras diferentes” (ES XI-B, 571 | SV XII, 284). A conclusão é óbvia: somos distintos, mas não distantes. Nenhum carisma por si mesmo abarca todas as necessidades do povo de Deus. Os diferentes carismas que impulsionam a vida da Igreja são identidades em permanente relação e devem interagir em vista da missão comum de difundir o Reino na história, cada uma mantendo íntegro o que lhe é peculiar. Neste campo, não é necessário demarcar rígidas fronteiras de separação, cedendo a comparações superficiais e a clichês pejorativos, que procedem por generalização. É o que ocorre, por exemplo, quando se associa, sem mais, o individualismo e a acomodação ao estilo de vida do clero diocesano. Sabemos, entretanto, que não são poucos os sacerdotes diocesanos comprometidos com as exigências de sua vocação, exemplares no cultivo da vida espiritual, da caridade pastoral e da fraternidade presbiteral. No diálogo e na colaboração com outras identidades, a identidade vicentina se aprofunda e enriquece, oferecendo sua contribuição específica à missão da Igreja. Como sublinhou o Papa Francisco: “A experiência mais bonita é descobrir quantos carismas diversos e quantos dons do seu Espírito o Pai confere à sua Igreja! Isto não deve ser visto como um motivo de confusão e de transtorno: são todos presentes que Deus oferece à comunidade cristã, para que possa crescer harmoniosa, na fé e em seu amor, como um único corpo, o corpo de Cristo”. ****** Nestes pressupostos, descobrimos um tríplice estímulo: submergir-nos sempre mais na rica singularidade desta herança espiritual e apostólica que constitui a identidade vicentina; apropriarmos do dinamismo que caracteriza nossa identidade, manifestando sua jovialidade carismática e missionária em nossas respostas aos desafios de cada momento e de cada realidade; e estabelecer pontes de diálogo e colaboração com outras identidades a serviço da missão comum de semear a Boa Nova com palavras e obras. Seremos, então, como aquele discípulo do Reino que tira de seu tesouro coisas novas e velhas (cf. Mt 13,52). II – Eixos da identidade vicentina da CM Antes de discorrer sobre os fundamentos da identidade vicentina na CM, é importante ao menos recordar os princípios de revitalização identitária sugeridos pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), em seu Decreto Perfectae caritatis (n. 2): a norma suprema do Evangelho, a inspiração e as intenções dos fundadores, a tradição e o magistério da Igreja, as legítimas esperanças e necessidades de nossos contemporâneos e, por fim, o primado da renovação espiritual que deve influenciar todas as outras dimensões da vida. É sempre bom refrescar o já conhecido para não deixá-lo cair na rotina. Esta volta ao essencial propugnada pelo Vaticano II constitui um elemento teológico irrenunciável. De fato, a raiz última de nossa identidade é essencialmente teologal e jamais se reduz a aspectos de ordem meramente filosófica, psicológica, sociológica ou operativa. Além disso, a identidade da CM está sintetizada nas páginas das Constituições (1984) – também elas já necessitadas de adequações para responder melhor aos desafios de um mundo que muda radical e vertiginosamente – especialmente na acertada formulação de sua finalidade (CC1). Voltar às fontes e traduzir essa essência de maneira significativa e relevante para nossos dias é o esforço mais importante que se deve empreender com o objetivo de revitalizar nossa identidade. Por isso, não estamos autorizados a dar por supostos valores e princípios que – ainda que muito lidos, estudados e debatidos – na prática não se revelam suficientemente assimilados e continuam sendo imprescindíveis e inclusive inadiáveis. A renovação e revitalização do carisma virão pela via de uma dupla fidelidade: aos valores essenciais que integram o projeto original do fundador e às transformações históricas de cada época. E essa dupla fidelidade se efetua mediante um cuidadoso discernimento e uma contínua conversão pessoal, comunitária e institucional. Só assim, a CM chegará a ser sempre a mesma em permanente novidade (semper idem in novitate), posto que, como dizia o grande místico e pastor, Dom Helder Camara: “É preciso mudar muito para continuar sendo o mesmo”, para viver e atuar a partir do essencial, ao qual necessitamos sempre voltar para recuperar nossa riqueza própria. Estamos, uma vez mais, frente ao desafio de conjugar fidelidade crescente e criatividade audaz, como recorda um recente documento da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica: “Aquilo que se quer conservar há de se atualizar continuamente. Fidelidade, portanto, conjuga-se com criatividade: algo deve mudar e algo deve manter-se. O importante é discernir o que deve permanecer na perseverança do que, pelo contrário, pode e deve mudar”. Cabe-nos, portanto, a tarefa de encarnar e irradiar o espírito evangélico e vicentino que define nossa identidade. E temos que fazê-lo a partir da maneira como vivemos os aspectos constitutivos de nossa forma de vida (oração, ministérios, obras, comunidades, virtudes, votos, eclesialidade, secularidade, etc.), dentro das múltiplas circunstâncias em que nos situamos como depositários e dispensadores do carisma recebido do Espírito através de São Vicente. Devido à exiguidade do espaço, mencionamos, a seguir, tão somente os três principais eixos ou núcleos da renovação identitária da CM, segundo a sabedoria do fundador atualizada nas Constituições: 1. A centralidade de Jesus Cristo. O primeiríssimo eixo da identidade vicentina não é outro senão a absoluta centralidade de Jesus Cristo em nossa vida de Missionários. Cristo é a rocha firme sobre a qual temos que construir o edifício de nossa vocação (cf. Mt 7,24). São Vicente o expressou de muitas e variadas formas, com uma insistência sem comparação, transmitindo assim sua própria experiência, a experiência de alguém que decidiu “consagrar toda sua vida, por amor a Jesus Cristo, ao serviço dos pobres”, segundo o propósito que assumiu ainda ao redor dos 30 anos, quando se achava envolto em uma tentação contra a fé. Aos Missionários, dirá, reiteradamente, que “Cristo é a regra da Missão” (ES XI-B, 429 | SV XII, 130), “o modelo verdadeiro e o grande quadro invisível com o qual temos de conformar todas as nossas ações” (ES XI-A, 129 | SV XI, 212). Por isso, “é necessário revestir-se do espírito de Jesus Cristo (...), a fim de viver e agir como viveu Nosso Senhor e fazer que seu espírito transpareça em toda a Companhia, em cada Missionário e em todas as suas obras” (ES XI-A, 410 | SV XII, 107-108). Dessa relação de comunhão e amizade com Jesus Cristo, cotidianamente aprofundada na contemplação e na missão, nasce uma nova maneira de relacionar-se com Deus e com os outros, uma nova visão de fé. Por tudo isso, Jesus Cristo é o princípio orientador da existência do Missionário e o critério iluminador de seus discernimentos e decisões: “Para bem dispor de nosso espírito e de nossa razão, devemos ter por regra inviolável julgar sempre como julgou Nosso Senhor, digo sempre e em tudo. E perguntar-nos nas ocasiões que se apresentam: ‘Como Nosso Senhor julgaria isso? Como se comportou em caso semelhante? Que disse sobre isso? É preciso ajustar meus procedimentos às suas máximas e exemplos’. Tendamos a isso, senhores, e andemos por esse caminho com segurança” (ES XI-A, 468 | SV XII, 178-179). Todo e qualquer esforço de revitalização identitária tem que partir de Jesus Cristo. E mais: do Cristo a quem Vicente de Paulo encontrou, contemplou e seguiu ao longo de sua trajetória, o Cristo enviado pelo Pai para evangelizar aos pobres, que consumiu toda sua existência histórica no cumprimento da vontade salvífica daquele que o enviou para espalhar as sementes do Reino no terreno da história. A 42ª AG (2016) quis recordá-lo expressamente: “Jesus Cristo é o centro de nossa vida e missão, regra para nossa identidade, conteúdo de nossa pregação, razão de nossa paixão pelos pobres” (n. 2.1.). Neste ponto, temos que nos perguntar como anda nossa relação de amizade e comunhão com o Senhor, como a nutrimos pessoal e comunitariamente. Trata-se, pois, do cultivo da vida interior que nos identifica como Missionários e que alenta nossa busca de santidade no cotidiano. Em muitos lugares, os membros da Congregação se tornaram conhecidos pela generosidade da entrega e pela disponibilidade para o serviço. Oxalá sejamos conhecidos também pela fecundidade de uma vida espiritual que se irradia e que contagia a quantos convivem e trabalham conosco. Permitimos que Cristo seja, de fato, a vida de nossa vida de Missionários? Asseguramos a circularidade entre o Evangelho que meditamos, a Eucaristia que celebramos e os Pobres a quem servimos, como mediações e privilegiadas de nosso encontro diário com o Senhor? Para nós, o seguimento de Jesus Cristo evangelizador dos pobres é realmente o impulso da mística e da ética que se expressam na vivência das cinco virtudes e dos votos?  2. Destinados aos pobres. Umas das mais firmes convicções de São Vicente se refere à evangelização integral dos pobres como razão de existir da Congregação. De fato, a fidelidade à vocação está intimamente associada à sua finalidade. Isso significa que, na perspectiva do carisma vicentino, a caridade e a missão têm uma direção inequívoca: os menores dos irmãos (cf. Mt 25,40), aqueles que carecem do indispensável a uma vida digna e feliz, os que não nos podem retribuir por aquilo que lhes fazemos (cf. Lc 14,12-13). Trata-se, pois, dos pobres reais e concretos, os preteridos e descartados da sociedade, aqueles que – além das pobrezas existenciais, psicológicas, morais, espirituais, etc. – enfrentam a privação do mínimo vital, vitimados pelo egoísmo e a injustiça que lhes ferem a dignidade. Junto a eles, através de uma presença compassiva, uma evangelização criativa e um serviço eficaz, continuamos a missão do filho de Deus: “Sim, Nosso Senhor pede que evangelizemos os pobres: foi o que Ele fez e o quer continuar fazendo através de nós” (ES XI-A, 386 | SV XII, 79). Como se pode inferir facilmente, a opção radical de Vicente de Paulo pelos pobres nada tem de ideologia sectária ou de mera estratégia operativa. Ela nasce de uma exuberante experiência de fé, do mistério de sua vocação, de seu encontro pessoal com Jesus Cristo que o remete sem cessar aos últimos deste mundo. O Evangelho é a regra suprema da vida de Vicente e a pauta de sua atuação na Igreja e na sociedade de seu tempo, a chave e o sustento de seu compromisso com os pobres no seguimento de Jesus Cristo. Em uma memorável conferência, o fundador alude a possíveis questionamentos ou objeções que poderiam surgir ao redor do tema da evangelização dos pobres como coração pulsante da identidade da CM na Igreja. E acrescenta uma claríssima descrição da originalidade da Companhia, constituída por Deus para prolongar a missão de Jesus Cristo. Uma graça que requer o compromisso da correspondência e da conformidade, cotidianamente renovadas: “Mas não há na Igreja de Deus Companhia alguma que tenha por partilha os pobres e que se dê totalmente aos pobres, a ponto de jamais pregar nas grandes cidades. É disso que os Missionários fazem profissão. Têm isso de particular: ser, como Jesus Cristo, aplicados aos pobres. Nossa vocação, portanto, é uma continuação da sua ou, pelo menos, é semelhante em suas circunstâncias” (ES XI-A, 387 | SV XII, 79-80). Na visão de fé que São Vicente nos oferece, o Missionário é chamado a redescobrir-se a cada dia como amigo, evangelizador e servidor dos pobres. A 42ª AG quis ressaltar essa verdade inscrita no coração da identidade vicentina: “Os pobres constituem nosso lote próprio, nossa herança. A eles, dirige-se nossa ação evangelizadora. Eles são também nossos primeiros interlocutores. No contato direto com os pobres, eles nos evangelizam (...). Nossa relação com os pobres, com os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, identifica-nos como Missionários (ao contrário de funcionários)” (n. 2.3). Para nós, a missão não é uma atividade profissional, é expressão privilegiada da conformidade com Jesus Cristo, de nossa entrega a Deus. Precisamos, pois, dedicar tempo e atenção ao discernimento sobre nossa presença missionária junto àqueles aos quais somos destinados por força de nossa vocação específica. É hora, pois, de rever o sentido atual, a relevância carismática e a atualidade profética de nossos ministérios, projetos e obras. Os lugares onde nos situamos, os serviços que prestamos e a maneira como o fazemos manifestam a verdade do que somos como evangelizadores dos pobres? Ou nos contentamos comodamente com a manutenção de estruturas rentáveis, limitando-nos a um pastoral de mera conservação? Cultivamos a liberdade interior e a lucidez espiritual para mover-nos em outras direções, descobrir caminhos novos e empreender ações criativas e eficazes de aproximação à realidade dos pobres e de resposta aos apelos das realidades onde se desenvolve nossa missão? O pontificado atual, tão concorde com nosso carisma, pede de nós a coragem de situar-nos nas fronteiras, nas margens, nas periferias, com autêntico sentido evangélico e vicentino. Que nos fale e anime a promissora Encíclica Fratelli tutti! 3. Formar o clero e os leigos em e para a caridade missionária. Assegurada a inigualável prioridade da evangelização dos pobres, como finalidade precípua da CM, a formação do clero e dos leigos se levanta como um aspecto irrenunciável da identidade vicentina. O próprio São Vicente o disse: “Ora, trabalhar na salvação do pobre povo do campo é o principal de nossa vocação e tudo mais é apenas acessório” (ES XI-A, 55 | SV XI, 133). Pelo bem dos pobres, para que a mensagem do Evangelho se consolidasse entre eles, Vicente de Paulo se comprometeu com a formação dos padres e com a animação dos leigos, convidando-os a reavivar o dom de Deus que lhes havia sido confiado (cf. 2Tm 1,6). Ainda que tacitamente, o Documento da 42ª AG não deixou de sublinhar este traço constitutivo de nossa fisionomia. E o fez no marco das Linhas de Ação e Compromissos: “Partilhar o sentido missionário e eclesial de nossa evangelização e de nosso serviço aos pobres na formação de clérigos e leigos, sobretudo para a liderança missionária” (n. 3.5.d). Hoje como ontem, a Igreja tem necessidade de leigos e presbíteros convictos, coerentes e comprometidos, virtuosos e capacitados para o serviço do Reino. Em sua florescente atividade apostólica, Padre Vicente intui que, para “tornar efetivo o Evangelho” (ES XI-A, 391 | SV XII, 84), era imperioso dotar a Igreja de pastores sábios e humildes, que estivessem a serviço do povo, ali onde este vivia, sofria e esperava, no campo e nas cidades. Por isso, estabelecerá a formação do clero como atividade própria de sua Congregação, um desdobramento necessário da evangelização dos pobres: “O terceiro fim de nosso pequeno Instituto é instruir os eclesiásticos, não apenas nas ciências de que devem ter conhecimento, mas também nas virtudes que devem praticar. Que faríeis, se lhes ensinásseis umas sem as outras? Nada ou quase nada. Eles têm necessidade de capacitação e de vida santa. Sem esta última, a primeira é inútil e perigosa. Devemos levá-los a amar igualmente a ambas, e é o que Deus pede de nós” (ES XI-A, 390 | SV XII, 83). Passados os tempos áureos da atuação da CM na formação dos eclesiásticos, cabe-nos agora identificar novas maneiras de concretização desta dimensão da finalidade da Congregação. Necessidade não falta, como também não faltam possibilidades, sobretudo onde há insuficiência de formadores, em Igrejas Particulares marcadas pela carência pastoral e econômica. Pensemos, por exemplo, na ajuda que podemos oferecer através de um sério e cuidadoso acompanhamento espiritual, da orientação de exercícios espirituais, do magistério seminarístico e acadêmico, de programas de formação inicial e permanente, da cooperação pastoral e sobretudo de nosso testemunho pessoal e comunitário. Talvez sem o mesmo protagonismo de antes (reitorias de grandes seminários, por exemplo), mas sem deixar a desejar na profundidade espiritual, na consistência intelectual e no zelo apostólico que a tarefa exige. Pensemos ainda na difundida experiência do diaconato permanente, que costuma suscitar vocações autóctones em lugares mais remotos (entre os povos indígenas da Amazônia, por exemplo). No exercício harmonioso da dupla ministerialidade (Matrimônio e Ordem), muitos diáconos se constituem em valiosos missionários em diversas periferias ou fronteiras. O campo da formação do clero continua sendo vasto e precisa ser redescoberto, ainda mais tendo em conta as crises que afetam o momento atual. O protagonismo dos leigos na vida e na missão da Igreja, que haveria de ser reconhecido e encorajado pelo Vaticano II, encontrou em Vicente de Paulo um autêntico e entusiasta precursor. Toda sua ação caritativo-missionária foi acompanhada e enriquecida pela colaboração qualificada de leigos verdadeiramente identificados com seu ideal apostólico e contagiados por sua coerência evangélica. Padre Vicente desperta mulheres e homens para enfrentar as misérias e necessidades de seu tempo, comunica-lhes uma vigorosa experiência de fé e compromete a inteligência e a sensibilidade deles com a evangelização e o serviço dos pobres. Desde o começo até o final de seu itinerário pastoral, Vicente será acompanhado de perto por leigas e leigos que partilham de sua paixão por Cristo e de sua compaixão pelos que sofrem. O laicato está, portanto, na origem e no desenvolvimento da caridade e da missão. Se, de fato, “a Igreja é como uma grande messe que requer operários que trabalhem” (ES XI-B, 734 | SV XII, 41), poucos souberam dinamizá-la tão fortemente em sua fidelidade ao Evangelho como Vicente de Paulo, reunindo pessoas decididamente orientadas à santidade no seguimento de Jesus Cristo e na solicitude para com os deserdados da história. Tinha razão São João Paulo II ao dizer a respeito de nosso fundador: “A vocação deste genial iniciador da ação caritativa e social ilumina ainda hoje o caminho de seus filhos e filhas, dos leigos que vivem de seu espírito, dos jovens que buscam a chave de uma vida útil e radicalmente consumida no dom de si mesmos”. Somos desafiados a proporcionar uma formação consistente aos leigos que colaboram conosco no serviço da caridade missionária, com particular atenção aos membros da Família Vicentina, mas também aos de nossas paróquias, colégios, universidades e obras em geral, abrindo caminhos para impulsionar o protagonismo dos leigos nos ministérios e nas instâncias eclesiais de decisão, bem como nos âmbitos da sociedade, da cultura e da política, de modo que trabalhemos todos juntos, em uma permanente complementariedade, na construção de um mundo mais fraterno e solidário, antecipação do Reino que é dom e responsabilidade. III – Tendências ou riscos Não há dúvida de que a árdua e apaixonante tarefa de revitalizar a identidade da CM requer ao menos três movimentos intimamente relacionados entre si: o crescente aprofundamento ou compenetração dos valores essenciais que integram a visão original do fundador, o olhar de fé sobre as mudanças e perspectivas que caracterizam o momento presente da história e o desenvolvimento de um novo projeto de vida e missão que abarque e atualize os aspectos constitutivos de nosso núcleo identitário. A Instrução sobre os votos resumiu, com lucidez e clareza, este desafio que temos pela frente: “Esta mesma inspiração original de São Vicente e de seus primeiros companheiros continua convocando hoje a CM. Jesus, o evangelizador dos pobres, continua chamando-nos hoje a segui-lo em sua caminhada entre os abandonados e marginalizados. A resposta da CM, fundamentada no compromisso radical de cada um a seguir a Jesus como discípulo, é uma ação comunitária. Durante a vida de São Vicente, as necessidades mais urgentes dos pobres, a missão apostólica, a vida comum, a vocação para ser discípulo de Jesus, assim como o exemplo do próprio São Vicente, foram capazes de criar um dinamismo que dotou a nascente CM de sua identidade específica. Fiel a essa tradição, a Congregação procura seguir o sopro do Espírito nos sucessos e situações de nosso tempo. Igual dinamismo, formado por elementos similares, impulsiona-nos hoje a encarnar o carisma vicentino em um novo contexto histórico e a responder com formas novas às necessidades urgentes dos pobres”. Todos sabemos que um trabalho dessa envergadura supõe algumas predisposições das quais não podemos prescindir: retidão de intenção, espírito de oração, discernimento profundo, estudo sério, sentido comum, sintonia eclesial, amor à Congregação, dialogo respeitoso, trabalho persistente, firmeza nos fins, flexibilidade nos meios, etc. Além disso, convém combater algumas tendências insidiosas que colocam em risco o processo de revitalização identitária, minando seus fundamentos e estreitando seu horizonte. A título de ilustração, tipificamos doze dessas tendências: o reducionismo ideológico, que consiste em apegar-se previa e estrategicamente a ideias, conveniências ou interesses parciais, sem levar em conta os princípios que vertebram a identidade e sem deixar-se interpelar pelas circunstâncias (os sinais dos tempos) e as necessidades (dos pobres, da Igreja, da Congregação...); a nostalgia do passado, de suas conquistas e glórias, como se fosse possível transportar de lá, sem mais nem menos, as respostas que devemos dar aos desafios concretos de hoje, com o risco de cair na involução; o afã das novidades, sem preocupar-se em robustecer-se com a seiva que provém das raízes e dando por descontado o que ainda não foi assimilado (ainda que tenha sido muito discutido), com o perigo de perder de vista os fundamentos e de mudar só por mudar (o que não implica necessariamente uma melhora); a tentação de baixar o nível, de nivelar por baixo, renunciando ao ideal evangélico-vicentino, minguando as exigências do carisma, contentando-se com o mínimo exigido, acomodando-se ao já conquistado e dispensando-se de esforços mais exigentes e iniciativas mais audazes; o otimismo oco, que oculta a realidade, contemporiza incoerências, camufla omissões, não impulsiona a conversão, não se importa com a fidelidade e não reconhece o que precisa mudar (vale lembrar aqui que o que não é assumido não pode ser redimido); o pessimismo destrutivo, que rouba a esperança, obscurece a alegria, fecha as possibilidades e solapa a criatividade que anda de mãos dadas com a fidelidade; a ausência de uma justa escala de valores, que não distingue entre o essencial e o acidental, o central e o periférico, o primordial e o secundário, como se tudo tivesse a mesma importância e a mesma urgência; o intelectualismo, que não sai do plano das ideias, diluindo-se em abstrações de pouca ou nenhuma incidência, sem aterrissar no concreto e sem deixar-se interpelar pelas situações; o legalismo, que absolutiza as normas, não se abre aos processos e não se dispõe a revisões, mostrando-se inclinado ao imobilismo; o subjetivismo, que se restringe aos sentimentos e reações primárias, instala-se nos apegos e não se lança na direção de novos desafios, condicionando as exigências da vocação às demandas individuais ou às comodidades; o praxismo, que desvaloriza o discernimento e a reflexão, podendo assim mascarar o vazio espiritual, encobrir deficiências não remediadas e degenerar em compulsão ou em ativismo desprovido de finalidade e transcendência; o pelagianismo, que não leva em conta o fato de que a revitalização da identidade da CM não se reduz a raciocínios, planos e estratégias, já que inclui um ato de fé, devendo, por isso, ser acompanhada e dinamizada pela entrega orante de nossos esforços àquele que é o autor e consumador de nossa vocação missionária. Outro documento da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica resume o que representam tentações como estas para uma Comunidade que deseja colocar-se em dia com sua identidade: “Todo sistema estabilizado tende a resistir à mudança e faz o possível para manter sua posição, por vezes ocultando incongruências, outras vezes aceitando aproximar pobremente o velho e o novo, ou negando a realidade e os atritos em nome de uma concordância que é fictícia, ou até dissimulando os próprios fins com ajustes superficiais. Lamentavelmente, não faltam exemplos nos quais se encontra uma adesão puramente formal, sem a necessária conversão do coração”. ****** Conclusão A arriscada travessia da pandemia do Coronavírus nos fez, ao menos em parte, deter o ritmo frenético e convulsivo da vida ordinária e nos interpelou a passar de um olhar superficial a uma consideração mais profunda da existência, de seu sentido, de seu valor, de suas relações. Instou-nos, portanto, a passar da dispersão à profundidade. Aqui, descobrimos um desafio para nós, membros da CM, no esforço contínuo de revitalizar nossa identidade, em meio a uma cultura líquida e light que se fixa na superficialidade, na provisoriedade e na agitação. Trata-se de fazer da profundidade a chave deste processo. Isso requer sedimentar nossas convicções, qualificar nossas vivências e impulsionar nosso testemunho em todas as dimensões que formam a identidade vicentina. Profundidade que se manifesta em uma humanidade madura, em uma afetividade equilibrada, em uma espiritualidade consistente, em uma formação sólida, em uma entrega missionária generosa, em uma convivência verdadeiramente fraterna, no esforço contínuo de ajustar-nos, livre e alegremente, às exigências do projeto de vida que abraçamos para seguir a Jesus Cristo evangelizador dos pobres, nas pegadas de São Vicente de Paulo. E estamos certos de que as ressonâncias desse empenho iluminado pela fé se expandem, como em círculos concêntricos, desde a vida de cada Missionário e de cada Comunidade até as estruturas de cada Província e de toda a Congregação. Esperamos, pois, que a 43ª Assembleia Geral nos comunique um novo impulso nessa direção, enquanto caminhamos rumo ao quinto centenário da CM. Notas 01 A vida após a pandemia. Vaticano: Libreria e Editrice Vaticana, 2020, pp. 20-21. 02 Carta do Superior Geral, de 25 de janeiro de 2020. A 43ª Assembleia Geral da CM se realizará entre os dias 27 de junho e 15 de julho de 2022. 03 Conferência sobre o espírito do mundo, de 28 julho de 1648. 04 Conferência sobre o uso dos bens colocados à disposição das Irmãs, de 5 de agosto de 1657. 05 Conferência sobre o espírito da Companhia, de 9 de fevereiro de 1653. 06 Conferência sobre a finalidade da CM, de 6 de dezembro de 1658. 07 O personalismo. São Paulo: Centauro, 2004, p.66. 08 SUESS, Paulo. Introdução à Teologia da Missão. Convocar e enviar: servos e testemunhas do Reino. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 186. 09 Conferência sobre o amor à vocação e a assistência aos pobres, de 13 de dezembro de 1646. 10 Sobre o caráter evolutivo de toda identidade, ver: BAUMAN, Zigmunt. Identidade. Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, pp.16-31. Na perspectiva cristã: BÜHLER, Pierre. A identidade cristã: entre a objetividade e a subjetividade. Concilium, 216 (1988/2), pp. 25-27. 11  Cf. SUESS. Introdução à Teologia da Missão, pp. 185-188. 12 Carta Apostólica às pessoas consagradas para proclamação do Ano da Vida Consagrada, n. 1. 13 Conferência sobre a caridade, de 30 de maio de 1659. Também às Filhas da Caridade, na conferência de 9 de fevereiro de 1653, dirá o fundador: “Todos os cristãos, minhas Irmãs, estão obrigados à prática destas virtudes (caridade, simplicidade e humildade), mas as Filhas da Caridade têm esta obrigação de uma forma especial (...). Os Cartuxos estão obrigados a prática de todas as virtudes, mas se dedicam muito especialmente a cantar os louvores de Deus. Os Capuchinos também têm obrigação de praticar todas as virtudes, mas a nenhuma estimam tanto como a virtude da pobreza. Da mesma maneira, Deus quer que as Filhas da Caridade se dediquem especialmente à prática de três virtudes, a humildade, a caridade e a simplicidade” (ES IX-A, 537 | SV IX, 596). 14  Sirva de exemplo o caso emblemático da União Cristã de São Chaumond, fundada em 1652, pela senhora Pollalion, fiel colaboradora de Padre Vicente de Paulo nas Confrarias da Caridade. Desde suas origens até hoje, esta congregação religiosa reconhece a São Vicente como seu fundador ao lado da mencionada senhora (cf. PEYROUS, Bernard; TEISSEYRE, Charles. Une tradition spirituelle: l’Union-Chrétienne de Saint-Chaumond. Poitiers: Union-Chétienne, 2000, especialmente as páginas 45-53). 15  Conferência aos Missionários sobre o bom uso das calúnias, de 6 de junho de 1659. 16 Neste ponto, o clero secular pode se beneficiar enormemente das chamadas Fraternidades, Associações ou Institutos Sacerdotais, como, por exemplo, os que seguem as espiritualidades do Beato Charles de Foucauld (Jesus Caritas), do Beato Antônio Chevier (Prado) e do Beato Tiago Alberione (Jesus Sacerdote). Quem sabe um dia possamos oferecer ajuda similar aos presbíteros diocesanos, transmitindo-lhes a riqueza da espiritualidade vicentina aplicada ao específico de sua forma de vida... 17  Audiência geral de 1 de outubro de 2014. 18 Cf. CODINA, Victor. Teologias da Vida Religiosa. In: CODINA; ZEVALLOS, Noé. Vida Religiosa: história e teologia. Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 122-125.?Ver também: VITÓRIO, Jaldemir. A pedagogia na formação: reflexão para formadores na Vida Religiosa, São Paulo: Paulinas, 2008, pp. 20-24. 19 Cf. QUINTANO, Fernando. Palabras y escritos esenciales. Madrid: CEME?La milagorsa, 2020, pp. 319-321. 20  El don de la fidelidad: la alegría de la perseverancia. Orientaciones (2020), n. 32. 21 Sobre o tema, há abundante bibliografía. Aqui, servimo-nos sobretudo de: RENOUARD, Jean-Pierre. Saint Vincent de Paul, maître de sagesse: initiation à l’esprit vincentien. Bruyères-le-Châtel: Nouvelle Cité, 2010, especialmente a segunda parte, pp. 79-107. | UBILLÚS, José Antonio. Volver a Jesús para evangelizar. Anales de la Congregación de la Misión y de las Hijas de la Caridad, Madrid, tomo 123, n. 3, mayo-junio 2015, pp. 251-265. 22 La vie du vénérable serviteur de Dieu Vincent de Paul, instituteur et premier supérieur général de la Congrégation de la Mission. Paris: Florentin Lambert, 1664, tomo III, p. 118. 23  Conferência sobre a busca do Reino de Deus, de 21 de fevereiro de 1659. 24  Repetição da Oração de 1 de agosto de 1655. 25 Conferência sobre os membros da CM e suas ocupações, de 13 de dezembro de 1658. 26 Conferência sobre a simplicidade e a prudência, de 21 de março de 1659. 27 Sobre este tema, em toda sua riqueza e amplitude, não conhecemos uma referência más sólida que esta: GROSSI, Getúlio. Um místico da Missão, Vicente de Paulo. 2ª ed. Belo Horizonte: PBCM, 2016, pp. 49-112. Ver também: FERNÁNDEZ, Celestino. El pobre en el corazón de San Vicente. VV.AA. La experiencia espiritual de San Vicente de Paúl. 35 Semana de Estudios Vicencianos. Salamanca: CEME, 2011, pp. 507-529. 28 Conferência sobre a finalidade da Congregação da Missão, de 6 de dezembro de 1658. 29 Sobre os dois temas, ver: FARÌ, Salvatore. La formazione iniziale al Presbiterato nell’esperienza vincenziana. Roma: CLV, 2009 | RENOUARD, Jean-Pierre. Los laicos y el Señor Vicente. In: VV.AA. Avivar la Caridad. Salamanca: CEME, 1998, pp. 71-94. 30 Repetição de Oração de 25 de outubro de 1643. 31 O item seguinte também se refere ao assunto: “Preparar entre os Nossos, assim como entre os leigos e o clero, agentes para a Mudança de Estruturas que a vivifiquem e promovam” (n. 3.5.e). 32 Conferência sobre a finalidade da Congregação da Missão, de 6 de dezembro de 1658. 33 Ver, por exemplo: Lumen gentium, n. 31?Apostolicam actuositatem, n. 8. 34 Esquema de uma conferência sobre o amor de Deus. Não datada. 35 Carta do Papa João Paulo II ao Superior Geral da CM. 12 de maio de 1981. 36 Instrução sobre Estabilidade, Castidade, Pobreza e Obediência na CM. Roma: Curia Geral, 1996, pp. 11-12. 37 A vino nuevo, odres nuevos. La Vida Consagrada desde el Concilio Vaticano II. Retos aún abiertos. Orientaciones (2017), n. 11. 38 Na inauguração do curso 2011-2012, da Universidade de Deusto, assim se expressou o recém-falecido Pe. Adolfo Nicolás (1936-2020), Prepósito Geral da Companhia de Jesus: “Hoje, a sabedoria não é moeda comum em nossos mercados. Na realidade, nunca o foi. Pela primeira vez, temos mais informações do que capacidade para digeri-las e processá-las. O que se vende não é sabedoria, mas sim superficialidade: soluções imediatas, explicações pré-fabricadas, culturas de usar e jogar fora, graça barata... Apesar disso, o ser humano tende incansavelmente ao ideal da sabedoria” (Citado na Revista anual da Universidade de Deusto: Deusto, n. 143, 2020, p. 47). * Tradução para o português brasileiro realizada pelo Pe. Hugo Barcelos, CM  ** Artigo originalmente publicado no site da Cúria Geral da Congregação da Missão (cmglobal.org)
Ramon Aurélio, CM
Ramon Aurélio, CM Juventudes e pobrezas Como toda estrela no céu, todo jovem na terra é sinal e esplendor. O percurso traçado pela juventude ao longo da história traz em si sonhos e lutas que não podem ser menosprezadas. Entender o caminho juvenil é essencial para a abordagem e o trabalho com os jovens. O mundo contemporâneo é, sem dúvidas, um espaço para entender e dialogar com as juventudes; ele é lugar de investigação que revela dinâmicas das juventudes hoje. Com o avanço da tecnologia  e da globalização, vivemos em um mundo que se encontra num cenário próprio e diversificado frente à realidade. Neste sentido, apresenta-se um cenário complexo com perspectivas e desafios próprios dos tempos hodiernos à cultura juvenil. Este artigo parte do objetivo do eixo central da temática: Juventudes e Pobrezas: uma problematização da realidade social hodierna. Nesta perspectiva, penso que podemos pensar a problematização a partir da compreensão de pobreza expressada no horizonte das periferias e do seu lugar. Em vista de uma melhor compreensão das questões que envolvem a temática, apresentar-se-á uma discussão a respeito da condição atual dos jovens pobres no mundo contemporâneo. Vemos que as perspectivas e desafios brotam da luta diária desprovida de condições básicas de sobrevivência, direitos, saúde, educação e oportunidades de emprego, dentre outras. Ensaio social da juventude: a juvenilidade como “lugar” A juventude deve ser entendida dentro de um longo processo histórico. Na sociedade contemporânea entende-se seu conceito a partir da reflexão social e do seu lugar. Neste sentido, a questão tangente à vida social dos jovens passou a ser concebida como uma abordagem de interesse da sociologia e tornou-se objeto de reflexão e análise acadêmica. O panorama dos estudos sociológicos da juventude abrange diversas expressões no Brasil e no mundo. Sabe-se que existe uma abordagem social e uma histórica por trás de cada geração à luz da sua expressão juvenil. Este ensaio busca neste primeiro tópico apresentar elementos que apresentam o panorama e a trajetória do conhecimento intitulado “sociologia das juventudes”, de modo específico, a relação juventudes e pobrezas. A constatação de que o meio social contribui significativamente para a formação das juventudes, sua história, formação e problemas direcionam a pesquisa da sociologia das juventudes. De acordo com a socióloga Helena W. Abramo (2005, p. 50) a noção de juventude pode ser considerada como uma categoria social. Traça-se quadros dos tipos de sociedade que permitem entender o fenômeno juvenil no contexto social. A formação e a fundação de grupos, tanto com influência nacional e internacional, no Brasil, marcaram profundamente as gerações juvenis com suas próprias trajetórias. De fato, tal influência parte do marco histórico de segmentação dos espaços na elaboração das identidades e das relações sociais dos jovens. Existem alguns elementos relevantes que podem ajudar-nos a compreender as juventudes. Em cada época e lugar, no seu contexto social, se apresentam caracterizadas com os seus apetrechos e os seus jeitos de falar. Neste artigo, pretendo falar das juventudes urbanas e pobres. Na visão do sociólogo Juarez Dayrell, no Brasil, pode-se considerar que a “parcela da juventude brasileira que, majoritariamente frequenta as escolas públicas é formada por jovens pobres que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos marcados por um contexto de desigualdade social” (DAYRELL, 2007, p. 1107). Fruto de um meio social, a juventude é entendida como um processo de transição “que processa a passagem de uma condição social mais recolhida e dependente à uma outra mais ampla: um período de preparação para ingresso na vida social adulta” (ABRAMO, 1994, p. 11). A autonomia e a percepção da juventude se deu à medida que ela passou a ser vista como uma categoria social. De fato, o meio social interfere na transição e no reconhecimento dos jovens, influenciando o estágio juvenil de transição antecedente à entrada do jovem na vida social. As condições precedentes à vida social dos jovens refletem significativamente suas relações, comportamentos e interação no mundo adulto. Ou seja, a juventude que provêm das pobrezas no mundo contemporâneo está marcada, mas não condicionada por seu lugar de origem. Ressalta-se que: Há no Brasil 49,8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos (26,54% da população), dos quais 29,8% é considerado pobre (vivem em famílias com renda per capta de até meio salário mínimo). Do total de jovens, 4,8 milhões se encontram desempregados (são 60,74% dos desempregados do país), 19,8% não estudam e nem trabalham e 7,7% das mortes violentas ocorrem com vítimas entre 15 e 24 anos (SILVA & ANDRADE, 2009, p. 45 apud Flavio Sofiati 2013, p. 3). Numa perspectiva geográfica social pode-se dizer que o lugar precedente da juventude está carregado de discursos e um modo próprio de se viver. Neste sentido, é importante também considerar a juventude como um lugar. Desta maneira, as mudanças trazidas pelo meio social marcam, mas não definem por completo, a personalidade juvenil. A ambiguidade do status social caracteriza uma série de elementos provocadores de crises nas juventudes. Um destes elementos é a cultura. Os jovens periféricos desenvolvem “rituais, símbolos, modas e linguagem peculiares, visando marcar suas identidades distintivas de outros grupos etários” (Ibid, p. 11) e outros grupos sociais. Na sequência, se faz importante entender a juventude como lugar de categoria social, conforme já mencionado, além de um lugar de moratória. Por fim, retomando os aspectos juvenis e o surgimento dos grupos, no Brasil e no mundo, sobretudo os periféricos, faz-se necessária uma reflexão mais específica das relações entre juventudes e pobrezas no intuito de transformar a ordem social. Desvinculando da infância, encontramos uma juventude que busca sair da invisibilidade, mas, às vezes perdida. A partir daí, encontraremos jovens que tentarão se desvincular dos limites familiares, das estruturas escolares e dos padrões da tradição; que tentarão romper com a infância, subjetivamente e socialmente, na qual não se enxergam mais no mesmo lugar de antes, vivem uma transição insegura, sem referência e mudanças sociais num ambiente hodierno frente a sociedade líquida, como nos diz o sociólogo Zygmunt Bauman. Adolescência e juventude na periferia: problematização da realidade social Dom Helder Câmara dizia que o segredo da Juventude é doar a vida inteira por uma causa que valha a pena lutar. Este é o sonho de um profeta que não só em palavras, mas em obras, expressou ao mundo inteiro o seu compromisso com as juventudes. O lugar e a formação do jovem Helder Câmara certamente influenciaram sua opção preferencial pelos mais pobres. Formado pelos lazaristas, na Faculdade Católica de Fortaleza, vivenciou e imbuiu-se do espírito de São Vicente de Paulo, pai da caridade. Notamos que o itinerário por ele traçado, ao longo de sua vida, emana sabedoria e compromisso com a causa dos mais desfavorecidos, sobretudo com a juventude popular das grandes periferias urbanas. Vivamente marcada pela desigualdade social, a juventude brasileira das periferias das grandes cidades é o objeto de estudo desta pesquisa. Como forma de identificação e luta, o lugar que ocupam na sociedade une os jovens. Os jovens produzem os seus projetos e suas intenções de acordo com a sua realidade e seu período histórico. Revestem-se de vocabulário próprio, estética e atitudes. Acredito que a juventude deva ser vista como espelho da sociedade, ou seja, olhar as juventudes é ver a sociedade e as tendências que existem no mundo.   Entre os anos de 1960 a 1970 vê-se uma juventude marcada pela pauta social. Buscava-se políticas públicas para a juventude brasileira no que se refere ao processo de introdução do jovem no mercado de trabalho. O sonho com a vida na metrópole oferecia carona aos pioneiros migrantes do êxodo rural. A predominância da proposta de emprego, as possibilidades de vida digna e a socialização das juventudes nas capitais do país engendrava o ideal juvenil moderno. Em contraponto ao sonho juvenil, a realidade e o lugar social em quem se projetavam os jovens idealistas era outro. Não contemplando e nem consumindo as promessas idealizadas oferecidas pela visão das capitais trabalhistas e a progressão financeira social, os jovens passaram a ocupar outros lugares. Consequentemente a frustração e a desigualdade promovida pela falsa promessa do sistema converteram-se na ocupação de localidades periféricas das grandes metrópoles. Os modelos atuais, frente às heranças sociopolíticas herdadas pelos jovens das periferias suscitaram a reflexão atual a partir da necessidade de resgatar o compromisso social e a vontade de recuperar a possibilidade dos jovens obterem o acesso básico a serviços e direitos próprios do tempo atual. É preciso enxergá-los como atores socialmente constituídos que trazem uma bagagem social e cultural. Neste sentido visibilizou-se amplamente as juventudes das periferias e a formação dos grupos diversos. A reflexão passou a ser a respeito da condição juvenil e a popularização da linguagem do cotidiano, sua psicologia e, sobretudo, o grau variado das culturas identitárias marcadas pelo capitalismo no mundo contemporâneo. Nos tempos hodiernos, a condição da juventude na periferia mudou. Cresceram-se os desencantos pela política e particularmente pela democracia [...] (Cf. DAp, n.77) diante das realidades sociais. Há um convite: enxergarmos a realidade juvenil. Neste ponto de vista, ao considerar as realidades juvenis não é possível excluir do discurso os seus lugares de fala. Por isso, considera-se negligente não abranger integralmente o processo de mudança e o percurso das juventudes pobres hodiernas. Nesse ínterim, temos a tecnologia como um fator contribuinte que aponta direções para pensar a juventude no século XXI. Esta realidade direciona a pesquisa para um espaço antropológico, onde as pessoas sentem-se o centro da história e, não meramente comunicadores, deslocam-se do anonimato social para a interatividade da cultura digital. As redes sociais tornaram-se lugares de visibilização. O acesso a smartphones e internet facilitaram a comunicação e as relações juvenis num espaço virtual. Contudo estes espaços virtuais tornaram-se lugares também de fundamentalismos sem diálogos, areópagos para o antropocentrismo juvenil e fomentação para o discurso de ódio e intolerância social. Acentua-se, publicamente, as diferenças sociais e a legitimação da polaridade entre os jovens ricos e pobres. A diversidade de rosto dos jovens como os camponeses, urbanos, indígenas, operários e marginalizados marcam o protagonismo juvenil brasileiro. Sabemos que alguns anos atrás permaneciam silenciados diante do contexto civil, social e eclesial. Com a tecnologia, emergiu o protagonismo jovem acentuado na cultura virtual. Se antes a juventude pobre e sua cultura era oprimida pela visão colonizadora, agora surge outro cenário. A cultura das periferias, sobretudo, o modo de ser das juventudes pobres negra, indígena, e outras expressões se tornam marcos deste século. O ano de 2020 certamente pegou muitas pessoas de surpresa, pois ninguém imaginava a crise sanitária, humanitária, institucional, psicológica, religiosa e social que o vírus da Covid-19 causaria no mundo. A repercussão que gerou em diversos países, a busca e a prevenção através do isolamento, não só físico, como também social, afetou milhares de pessoas, governos e instituições, assim como as juventudes no mundo contemporâneo. Muitas vidas foram afetadas por esta pandemia, inclusive as vidas jovens, sobretudo as que vivem nas mais diversas realidades de pobres. E ainda que se faz presente o nosso carisma, ser presente entre os jovens mais pobres. O vírus contribuição para a evolução da desigualdade social juvenil. Entre as pesquisas recentes ilustram que, “41% dos jovens sofreram com redução ou perda total em sua renda pessoal devido à pandemia. O dado acima preocupa-nos e apresenta-nos um panorama geral que tem efeitos específicos quando se observa as questões raciais. Atualmente, pudemos perceber que entre os jovens que se declaram pretos, 45% sofrem com a perda na renda pessoal, enquanto entre os brancos, esse percentual é de 37%” (1). A característica dos estudos juvenis, sobretudo para a juventude periférica latino-americana aponta para a urgência em reconhecer a Juventude como construtora da sua própria identidade. Estas juventudes requerem atenção e exigem participação. Luta nutritiva dos caminhos para o horizonte na história a partir de um acompanhamento juvenil. Isto abarca a investigação da conquista de direitos públicos, eclesiais, políticas e deveres dos jovens. Desta maneira, acredito que não podemos desconsiderar os estudos que analisem as violações e conquistas de direitos humanos das juventudes. Conclusão A intenção desta síntese, num primeiro momento, consistiu em apresentar um ensaio teórico a partir do tema exibido e de sua relevância para a pesquisa a respeito das juventudes nos tempos atuais. Os elementos abordados nesta pesquisa apontam para uma relevância teórica e prática necessária no campo dos estudos das juventudes, sobretudo com os mais pobres. O ensaio apoia-se na produção acadêmica bibliográfica da atualidade que permite dialogar com o perfil dos jovens e o lugar de fala (2) dos jovens na sociedade. Refletir sobre as situações das juventudes no mundo contemporâneo, como jovem vicentino, faz-me ressaltar a intenção da introdução desta escrita, sobre a necessidade da compreensão das realidades sociais e das pobrezas atuais, a partir da ótica juvenil. Em segundo plano, fizemos uma abordagem das questões voltadas para o lugar das juventudes no âmbito do trabalho, da educação e da formação das consciências das juventudes na periferia. Nesta mesma perspectiva, fizemos no fim um adendo, ou seja, na tentativa de atualização da pesquisa, consideramos importante trazer elementos contemporâneos para o trabalho diante do novo cenário juvenil mundial frente à Covid-19. Desta maneira, acredito ser necessário nos fazermos próximos dos jovens, “o agora de Deus”, como diz o Papa Francisco. Por isso, convido-os a olhar para o testemunho dos jovens santos da nossa Família Vicentina, fazer presença no itinerário mistagógico juvenil de nosso tempo, de maneira que sejamos um carisma jovem “que serve, que sai de casa, que sai dos seus templos, que sai das suas sacristias, para acompanhar a vida, sustentar a esperança, ser sinal de unidade (…) para lançar pontes, abater muros, semear reconciliação (FRATELLI TUTTI, n. 276). Sendo assim, acredito ser urgente o aprofundamento e a nossa compreensão do mundo dos jovens, estes que são membros importantes de nosso carisma. Notas (1) Disponível em: https://www.futura.org.br/juventudes-e-a-pandemia-do-coronavirus/ (2) DJAMILA, Ribeiro. O que é o lugar de fala? Ed. Letramento, Belo Horizonte-MG, 2017 Referências Bibliográficas .ABRAMO, Helena Wendel & LEÓN, Oscar Dávila. Juventude e adolescência no Brasil: referências conceituais. São Paulo: Ação Educativa: 2005. .DAYREL, JUAREZ L. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 1105-1128, out. 2007. .DEBERT, Guita Grin. A dissolução da vida adulta e a juventude como valor. Horizontes Antropológicos, v. 16(34), 2010, p. 49–70. .FRANCISCO, Papa. Fratelli Tutti. São Paulo, Paulus, 2020. .SOFIATI, Flávio M. (2013) Juventude e políticas públicas: os governos de FHC e LULA. In: Heloisa Dias Bezerra; Sandra Maria de Oliveira. (Org.). Juventude no século XXI: dilemas e perspectivas. Goiânia-GO: Cânone Editorial, p. 131-150. .GROPPO, Luis Antonio. Introdução à Sociologia da Juventude. Jundiaí: Paco Editorial, 2017, pp. 139-149. .PRADO, Antônio Ramos do Prado. Cultura Juvenil: perspectivas e desafios para novos tempos. Paulus, São Paulo: 2014. .SILVA, Enid R. A da & ANDRADE, Carla C. de (2009) A política nacional de juventude: avanços e dificuldades. In CASTRO, Jorge Abraão (et. all.) (org.) Juventude e políticas sociais no Brasil. Brasília: IPEA.  
Pe. Miles Joseph Heinen, CM
Pe. Miles Joseph Heinen, CM A paróquia à luz da cultura vocacional São Vicente se mostrou relutante em aceitar as paróquias(1), pois temia que pudessem impedir a mobilidade dos missionários. No entanto, acabou cedendo. Percebeu o valor das paróquias na formação de sacerdotes diocesanos e na manutenção das relações com benfeitores. Esta hesitação durou até os últimos dias de sua vida. Atualmente, mais de 35% dos nossos coirmãos estão envolvidos no ministério paroquial(2). Neste momento, a Igreja reflete seriamente sobre o ministério paroquial, como evidenciado pela publicação, em Julho de 2020, da instrução "A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja" (PC) da Congregação para o Clero (3). O documento tem as suas raízes na visão do Papa Francisco, afirmado no Evangelii Gaudium 27: “Sonho com uma "opção missionária"... capaz de transformar tudo, para que os costumes, as formas de fazer as coisas, os horários, a linguagem e as estruturas da Igreja sejam devidamente canalizados para a evangelização do mundo de hoje e não para a sua autopreservação”. O documento PC encarna este sonho do Papa Francisco quando afirma, no número 11: "É necessária uma vitalidade renovada que favoreça a redescoberta da vocação dos batizados como discípulos de Jesus Cristo e missionários do Evangelho, à luz do Concílio Vaticano II e do Magistério subsequente". Esta vocação dos leigos influencia significativamente o nosso trabalho como pastores. Isto nos move a ser responsáveis, a sermos colaboradores do Espírito Santo na realização do Reino de Deus (4). Parece que é isto o que 60 coirmãos, promotores vocacionais descobertos em uma reunião de um mês em Paris, em 2018, fazem em todo o mundo: o desenvolvimento da cultura das vocações. A atitude tem a ver com o nosso apelo para reposicionar as nossas relações, tal como descrito em CC §1, para nos revestirmos do Espírito de Cristo evangelizando os pobres (sendo discípulos), de modo que eles sejam a fonte e o centro de tudo o que fazemos. Uma sugestão útil é a de deixar as redes e seguir Jesus quando ele chama. A minha relação com Jesus organiza tudo o que faço em torno da vontade do Pai, em harmonia com uma expressão vocacional muito diversificada. Esta mudança envolve discernimento e conversão. Devemos fazer isto vigorosamente, individual e coletivamente. Devemos revestir o Espírito de Cristo de modo a aumentar o acesso dos pobres a Jesus Cristo. Convidamos o clero e os leigos a juntarem-se a nós para se tornarem discípulos, uma ação que é de enorme importância, dado o âmbito da Missão. Nas nossas CC §11, definimos a nossa tarefa principal como "tornar o Evangelho realmente efetivo", donde concluímos que “o nosso trabalho de evangelização por meio da palavra e das obras deve esforçar-se para que todos, através de um processo de conversão e celebração dos sacramentos, sejam fiéis ao Reino, ou seja, ao novo mundo, à nova ordem, à nova forma de ser, de viver, de viver em comunidade, que o Evangelho inaugura” (EN 23). Se nos permitirmos passar do significado de "comunidade" para "comunhão", então podemos facilmente estabelecer uma ligação com a evolução deste conceito na Igreja. Na encíclica do Papa S. João Paulo II, Sollicitudo Rei Socialis, a comunhão está associada à solidariedade (formação integral), ambas no nº 38 (uma determinação firme e perseverante em comprometer-se com o bem comum; ou seja, o bem de todos e de cada indivíduo, porque todos somos realmente responsáveis por todos), como no número 40, onde o “modelo supremo de unidade, que é um reflexo da vida íntima de Deus, um Deus em três pessoas, é o que nós cristãos queremos dizer com a palavra "comunhão". Esta comunhão especificamente cristã, zelosamente preservada, alargada e enriquecida com a ajuda do Senhor, é a alma da vocação da Igreja chamada a ser um ‘sacramento' no sentido já indicado”. (5) A comunhão é o centro do nosso trabalho, expresso em palavras e obras, que apresenta ramificações sociais concretas. No entanto, a fonte é a unidade em Deus, que produz resultados concretos neste mundo. Somos o "sacramento" da unidade, a partir do qual a paz é estabelecida. A respeito do conceito de “Reino": "Nem direis: 'Olhai, aqui está' ou 'Lá está', pois eis que o Reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17,21). O Reino é uma imagem que fala de autoridade e cuidado, unidos na noção de comunhão sob a influência da encarnação. Deus exprime autoridade no Amor que respeita a nossa liberdade. Somos batizados neste Amor e regressamos à vida no Espírito. Jesus respondeu e disse-lhe: 'Em verdade vos digo que, se alguém não nascer de novo, não poderá ver o reino de Deus'" (Jo 3,3). Sobre a noção de vocação: São Vicente lembrou-nos mais de uma vez que o nosso chamamento ou vocação vem da eternidade. (6) A vocação alcança a sua plenitude na visão salvífica, a unidade com Deus que é Amor. O caminho é a nossa fraqueza submetida ao amor de Deus através de nós. Não há amor se não houver livre arbítrio, por isso podemos ver que Deus nos criou de tal forma que nos é possível encarnar o Espírito livremente dado, mas que também somos livres de dizer não. (7) Quando dizemos sim comunitariamente, então o Espírito expressa a comunhão que manifesta a providência de Deus. Nós somos o corpo de Cristo, a quem o Espírito traz à unidade na manifestação dos carismas. Por este motivo, o discernimento é indispensável para qualquer sistema de planeamento que utilizemos. Ouvimos onde o Espírito está a chamar a Igreja local quando os seus membros dizem "sim" ao que o Espírito quer fazer através deles para o bem de todos. (8) Neste ponto, lembro-me que, como seres humanos fracos, precisamos do apoio de uma estrutura para manter a integridade no diálogo. Dependemos do Magistério para nos manter fiéis à Escritura e à Tradição à medida que amadurecemos no sensus fidei. (9) Paróquias Deixem-me agora sugerir uma aplicação prática. Como respondemos à secularização em massa mais proeminente no hemisfério norte, mas não ausente em outros setores? A estratégia é desenvolver uma cultura vocacional gerada na própria paróquia, ajudando todos a serem discípulos de Cristo. Recordemos que temos mais de mil confrades envolvidos neste ministério. No que se segue, vou recorrer aos conhecimentos adquiridos nos últimos vinte e cinco anos ou mais pelo Instituto Siena, um ministério liderado pelos dominicanos que promove o tornar-se discípulo de Jesus. Este ministério é liderado em coordenação com uma leiga chamada Sherry Weddell, cujo testemunho sobre a sua conversão ao catolicismo proporcionou o terreno fértil para nutrir este ministério.                                                                                                                   Constituições à luz da Cultura Vocacional na paróquia Qual é geralmente a experiência "normal" da missão na paróquia? Talvez o quadro seguinte nos possa ajudar a fazer um olhar crítico sobre a missão na paróquia à luz da Vocação (apelo de Deus), (10) onde "conservação" foi expressa como "autoproteção" na citação acima do Papa Francisco. A chamada ao seguimento de Jesus Cristo descrita em nossas Constituições §1, com a particularidade de "evangelizar os pobres”, continua a desafiar-nos. A tendência é a de associarmos a primeira parte do CC §1 diretamente ao CC §12 e esquecermos o resto do CC §1, §11 e §42. Isto desestabiliza o processo, desligando-o da sua fonte de vida. Cristo pode tornar-se uma imagem, talvez um valor, cujo espírito é equiparado a um ensino da moda. Desta forma, a nossa presença junto dos pobres pode ser limitada ao desenvolvimento social. O problema aqui é a limitação, não o desenvolvimento social. O Espírito de Cristo é a Terceira Pessoa da Trindade. Estamos no campo da encarnação, não do desenvolvimento de competências como é comumente entendido. A encarnação é o que vemos ao continuarmos com CC §1, "...os membros, individual e coletivamente: 1, façam todos os esforços para se revestirem do próprio Espírito de Cristo". Tal como o entendo, a noção aqui é fazer as coisas como Cristo as faria. Mais uma vez, poderíamos fazer de Cristo um modelo e usar a força de vontade para alcançar a virtude, mas este caminho não leva a lado nenhum. A base do significado é a encarnação. O Espírito de Cristo é uma pessoa da Santíssima Trindade. Colocar o Espírito é um processo de conversão que envolve confrontar a nossa visão pessoal do mundo com o Apocalipse, mediada pela Igreja Católica, e pedir humildemente a ajuda de Deus quando os dois não coincidem. Queremos pôr fim à nossa resistência para que o Espírito possa trabalhar através de nós, como os pais do deserto ensinaram. (13) É exatamente aqui que a visão captada em C. §42 lança uma luz clara: "O compromisso apostólico com o mundo, a vida comunitária e a experiência de Deus na oração complementam-se e fazem uma unidade orgânica na vida de um missionário”. (14) Missão não é apenas um compromisso apostólico. A missão é uma unidade orgânica de compromisso apostólico, vida comunitária e experiência de Deus na oração. (15) A imagem não é a construção de blocos que sugerem componentes pré-fabricados e individuais; a imagem é a unidade orgânica que sugere a vida como uma integração de elementos e processos cuja existência depende da integração. A nossa missão é viver o nosso próprio processo de evangelização, tal como definido em C. §11. É um processo de conversão ou "formação permanente" para toda a vida. Devemos ser fiéis em dar ao Espírito cada vez mais liberdade para responder através de nós e propiciar a comunhão de Deus conosco. Como agentes, então, na paróquia, teríamos duas linhas principais de ação: . Ajudar as pessoas a escutar sua experiência, a fim de perceber as pegadas do Espírito que nos chama a avançar no caminho e, por fim, dizer “sim”, deixando as redes e seguindo Jesus. . Ajudar as pessoas a ouvirem suas experiências para ver como o Espírito verdadeiramente age através deles para o bem do Corpo de Cristo e assim discernir seus carismas e comprometer a missão a partir dessa fonte. Na minha opinião, as linhas de ação, per se, ajudam a desviar o foco da paróquia ou de nós próprios. Somos discípulos. Partilhamos com pessoas a nossa própria experiência vivida, de discípulos que dão frutos. Fazemo-lo de uma forma que permite a esta comunidade paroquial em particular gerar as condições que chamam outros à mesma experiência e resposta. O foco está no Reino, permitindo que a vontade de Deus ganhe vida na nossa carne, como discípulos de Cristo. A organização paroquial é um instrumento e devemos ser hábeis na sua utilização. No entanto, é importante compreender que não estamos desenvolvendo o nosso reino na paróquia. Estamos ajudando a paróquia a tornar-se missionária e depois partiremos. O segundo efeito das linhas de ação é tornar-se distinto dos sacerdotes diocesanos, mantendo a nossa identidade itinerante ao serviço da Igreja, através da estrutura Paroquial. Com o tempo aprenderemos a reconhecer e a elaborar os critérios claros que determinam o fim da nossa missão numa determinada paróquia. A minha leitura atual sugere uma média de oito anos. O terceiro efeito das linhas de ação, e talvez não tão organicamente derivado como os dois primeiros efeitos acima mencionados, é encorajar-nos a partilhar a riqueza do que vai acontecer e como vai acontecer com os nossos irmãos sacerdotes diocesanos no espírito das Conferências de Terça-feira de São Vicente. Sem padres diocesanos que estejam dispostos a dirigir estas paróquias quando partirmos, o nosso ministério, como São Vicente claramente observou (16), não será tão eficaz. O quarto efeito das linhas de ação é ligar-nos ao Instituto Siena, dirigido pelos dominicanos, nos Estados Unidos, que tem mais de 25 anos de experiência na promoção das duas linhas de ação acima descritas.  Acredito que podemos desenvolver uma relação de trabalho com este centro que revigoraria o nosso ministério porque nos ajudaria a aprender a percorrer este caminho. Possibilidades Uma possibilidade, mencionada acima, é a de contatar o bispo para dirigir uma paróquia com o objetivo particular de criar uma cultura vocacional que favoreça o discipulado intencional e partir quando for estabelecido. Outra possibilidade seria colaborar, promovendo uma intervenção do Instituto Siena nas nossas missões ou dando seguimento após uma intervenção. Parece também que esta abordagem da cultura vocacional numa paróquia nos ajudaria na formação de sacerdotes diocesanos. Além disso, vejo nesta abordagem da cultura vocacional um método que cria um espaço para os jovens ouvirem um real apelo à vida consagrada, porque o obstáculo de se sentirem contra a cultura do mundo de hoje é superado pelo fato de toda a paróquia estar envolvida no discernimento de seu chamado em Cristo. Sugiro que a utilização da cultura vocacional para orientar a nossa participação no ministério paroquial nos dará um caminho firme a seguir na revitalização do nosso carisma no alvorecer do quinto centenário. Notas (1) Maloney, Robert P. C.M. (1997) "Sobre o envolvimento vicentino em paróquias", Vincentiana: Ano 41: No. 2, Artigo 10.em: https://cmglobal.org/en/files/2018/08/VT-1997-02-10-ESP-MALONEYPAR.pdf, primeiras quatro páginas. (2) Vincentiana, Ano 64, N° 1, página 3. (3) “Instrucción La conversión pastoral de la comunidad parroquial al servicio de la misión evangelizadora de la Iglesia”, de 29 de junio de 2020, disponível no site oficial do Vaticano em alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polaco e português. (4) Em Lumen Gentium 30: "Os pastores sabem ... que a sua função eminente é alimentar os fiéis e reconhecer os seus serviços e carismas de tal forma que todos, à sua maneira, cooperem unanimemente no trabalho comum. No Presbyterorum Ordinis 9: "Examinando os espíritos para ver se são de Deus, deixai-os descobrir com sentido de fé os múltiplos carismas dos leigos, tanto os humildes como os superiores; reconhecendo-os com alegria e fomentando-os com diligência". Em Pastores Dabo Vobis 40: "... a Igreja ... cumpre a sua missão quando guia cada um dos fiéis a descobrir e viver a sua própria vocação em liberdade e a realizá-la na caridade. ... Deus toca o coração de cada pessoa pelo seu chamado, e o Espírito, que habita no ser mais íntimo de cada discípulo (cf. 1 Jo 3,24), é infundido em cada cristão com diferentes carismas e manifestações particulares. Portanto, cada um deve ser ajudado a aceitar o dom que lhe foi dado em particular, como uma pessoa única e irrepetível, e a escutar as palavras que o Espírito de Deus lhe dirige". Também 74: "... o sacerdote é um membro do único corpo de Cristo (cf. Ef 4,16). Sensibilização para esta comunhão leva à necessidade de despertar e desenvolver a co-responsabilidade na missão comum e única da salvação, com uma apreciação diligente e cordial de todos os carismas e tarefas que o Espírito concede aos crentes para a edificação da Igreja". Em Christifidelis Laici 32: "... Dar frutos é um requisito essencial da vida cristã e eclesial. Quem não dá fruto não permanece em comunhão: "Todo o ramo em mim que não dá fruto, (meu Pai) corta-o" (Jo 15,2). A comunhão com Jesus, da qual deriva a comunhão dos cristãos uns com os outros, é uma condição absolutamente indispensável para dar fruto: "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). E a comunhão com os outros é o fruto mais belo que os ramos podem dar: é o dom de Cristo e do seu Espírito. ... É sempre o único e o mesmo Espírito que convoca e une a Igreja e que a envia a pregar o Evangelho "até aos confins da terra" (Actos 1,8). Pela sua parte, a Igreja sabe que a comunhão que lhe foi dada como presente tem um destino universal. Desta forma, a Igreja sente está em dívida, em relação a toda a humanidade e a cada pessoa, com o dom recebido do Espírito que derrama no coração dos crentes a caridade de Jesus Cristo, uma força prodigiosa de coesão interna e, ao mesmo tempo, de expansão externa". Em Evagelium Gaudium 3: "Convido cada cristão, em qualquer lugar e situação em que se encontre, a renovar agora mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, a tentar fazê-lo implacavelmente todos os dias". No PC 33: "Com os olhos postos no mínimo, a comunidade paroquial evangeliza e se deixa evangelizar pelos pobres, redescobrindo assim a implicação social da proclamação em sem esquecer a 'regra suprema' da caridade, com base na qual seremos julgados". (5) E porque a Igreja está em Cristo como um sacramento, ou seja, um sinal e instrumento de união íntima com Deus e da unidade de toda a raça humana, ..." Lumen Gentium 1 (6) alguns: VOLUME 1, 284 e 378; VOLUME 2, 235, 484. (7) Rhaner, Karl Foundations of the Christian Faith p 122. (8) I Cor. 12, 3-7. (9) Catecismo da Igreja Católica 67, 91-95, 904.                (10) Sherry Weddell, ed., Becoming a Parish of Intentional Disciples (Huntington, Indiana: Our Sunday Visitor, 2015), pp. 77-79. Weddell tem dois outros livros que destilam a sabedoria de décadas de trabalho: Formando Discípulos Intencionais e Discipulado Frutífero. Recomendo vivamente estes livros. (11) Parênteses adicionados pelo Padre Miles. Ver também nota de rodapé 4, CP 33. (12) Uma linguagem "de dentro" refere-se à utilização de termos que pessoas de fora do grupo não compreenderiam facilmente. (13) Tugwell, Simon O.P. Ways of Imperfection: An Exploration of Christian Spirituality. Springfield: Templegate. 1985. Capítulo sobre os Pais do Deserto (14) tradução inglesa do latim "in vita missionarii invicem complentur et in unum coalescunt". (15) Os meus agradecimentos ao Padre James Swift, CM, antigo Visitador da Província do Centroeste dos EUA, por ter promovido esta edição. (16) CR XI, 12. *Artigo originalmente publicado por cmglobal.org, em língua espanhola. Livre tradução para o português brasileiro por Sacha Leite e Stephany Oliveira.
Pe. Rolando Gutiérrez Zúñiga, CM
Pe. Rolando Gutiérrez Zúñiga, CM Como revitalizar a nossa vida comunitária O ditado de Voltaire sobre a vida consagrada é bem conhecido: "Eles se juntam sem se conhecerem, vivem sem se amarem e morrem sem chorar". Embora o pensador francês se refira diretamente aos monges (1), a crítica subjacente faz alusão à sua percepção referente às comunidades de homens eclesiásticos. Será que esta máxima volteriana teria alguma verdade? À primeira vista, poderíamos ter a reação defensiva de sacudir o pó dos nossos pés diante de tal insulto, por parte de um crítico ferrenho da Igreja. No entanto, no contexto de uma Assembleia Geral, convida-nos a revitalizar a nossa identidade em todas as suas dimensões. Seria bastante oportuno avaliarmos a nossa dimensão comunitária (2) e colocar sobre a mesa se, poderíamos dizer que na Congregação da Missão vivemos realmente em um ambiente onde nós, coirmãos, temos "sincero afeto "como amigos que se querem bem"" (C.25). A fim de fazer uma abordagem saudável sobre este tema, devemos considerar a particularidade bem notada pelo Instrumentum Laboris relativamente à vida comunitária como um meio importante para a Congregação da Missão, mas não um fim em si mesmo, como pode ser interpretado na teologia da vida religiosa. Além disso, é desejável assinalar muito claramente o papel da comunidade nas Sociedades de Vida Apostólica e a sua distinção dos Institutos Religiosos: "Mesmo que os institutos religiosos se assemelhem à vida comum, existem elementos diferenciadores. A própria natureza da sua vida apostólica (mobilidade, dedicação...) faz com que a sua vida em comunidade tenha características particulares. Nos institutos religiosos, a vida fraterna é, acima de tudo, "a vitalidade da comunhão que funda a Igreja e, ao mesmo tempo, profetiza o que tende como seu objetivo final". Em uma Sociedade de Vida Apostólica, por outro lado, é a missão apostólica que exige a vida fraterna e determina a sua forma. Nos institutos religiosos, a vida fraterna em comum é mais rigorosa na medida em que menos se dedicam às obras do apostolado; nas Sociedades de vida apostólica, o inverso é verdadeiro. A vida comum é uma testemunha da nova vida, da nova fraternidade que é vivida na filiação divina, da vocação comum. No SVA, por outro lado, para enfatizar mais a unidade que deve reinar entre os apóstolos como participantes na mesma missão " (3). Desafios atuais da vida comunitária Sem foi mais fácil culpar os mortos. Digamos, então, que foram personalidades como Descartes (1596-1650), pai do racionalismo moderno, ou os empiristas ingleses como John Locke (1632-1704) e Francis Bacon (1561-1626), ou talvez qualquer um dos idealistas alemães (4), a quem poderíamos responsabilizar pelas desgraças de uma cultura cheia de individualismo, que cria pessoas incapazes de viver o estilo comunitário das sociedades de outrora, que tinham como modelo a organização camponesa, tão valorizada por São Vicente (5). De fato, sabemos que a setorização excessiva de certos aspectos do ser humano, como objetos de estudo nos quais se concentraram as ciências humanas, e mais tarde, as ciências exatas, gerou grande número de antropologias parciais, todas elas defensoras de certos princípios humanos, mas incapazes de compreender a pessoa em sua integralidade. Assim, originou-se um sentido cada vez mais parcial, mais individual da pessoa, um sujeito que parecia cada vez mais um objeto sem rosto, impactado pelos efeitos da Revolução Industrial, que começou na segunda metade do século XVII, e que levou à cultura do consumo e do descarte, a qual o capitalismo conseguiu coroar, sob o sistema da globalização. Assim sendo, embora em muitos círculos eclesiais tenham tentado promover uma antropologia mais personalista (que tem muitas coincidências com a antropologia cristã), precisamos reconhecer que nós, missionários da Congregação da Missão, aparecemos no cenário do século XXI com fortes traços de individualismo, muitas vezes protegidos por uma suposta novidade trazida pelo Concílio Vaticano II, no que se refere à mudança que tirou do centro a hierarquia como garantia de fidelidade vocacional e colocou as pessoas no seu lugar. E então, com tal invocação, as iniciativas missionárias mais nobres podem ser justificadas, bem como as mais absurdas contradições com a vocação daqueles que escolheram viver numa comunidade para uma missão. Um reflexo disto são os problemas de estabilidade de um número significativo de missionários, muitos dos quais culpam as circunstâncias comunitárias como a causa da de tais dificuldades. Por exemplo, entre 2010 e 2016, quarenta e três coirmãos deixaram a Congregação e foram incardinados numa diocese. O problema não é novo e foi salientado pelos mais de 600 padres (6) que deixaram a Congregação nos anos imediatamente após o Concílio Vaticano II. "Em 1985, o P. McCullen, Superior Geral, enviou um questionário aos visitadores e aos seus respectivos Conselhos Provinciais. Entre as questões, contavam-se as seguintes: Quais são as razões para deixar a Congregação da Missão e ir para uma diocese? As respostas que chegaram indicaram como principal motivo as dificuldades de exercício dos ministérios dentro da comunidade" (7). Mais de 35 anos depois, dizer que o grande desafio da revitalização da comunidade vicentina, está em esclarecer a identidade de nossa comunidade para a missão, sem nos acomodarmos a reducionismos, em nome de supostas atualizações, que deformam a vocação, ou falsas fidelidades ao nosso fundador, que parecem querer embalsamar uma múmia. Seria o caso de irmos à essência do nosso ser e nos interrogarmos sobre o significado de comunidade em uma sociedade apostólica como a nossa, entendida a partir de uma antropologia que nos humaniza, como faz Cristo nos Evangelhos, e ao mesmo tempo nos faz viver o autêntico sentido de koinonia, como acontece naqueles que decidiram segui-lo, como nos dizem os Atos dos Apóstolos (cf. Atos 2, 42-47). Portanto, a fim de aprofundar o desafio da vida comunitária, devemos ir à "mente, coração e estômago" (8) das pessoas chamadas a seguir Jesus Cristo, evangelizador dos pobres. Isto porque é na comunidade que se tornam evidentes as consistências vocacionais (9) que permitem uma vida plena de homens que se dedicam comunitariamente, à missão. Ou, pelo contrário, onde as inconsistências geram grupos de pessoas frustradas, com muito trabalho, talvez, mas vazios de vida, paixão e amor, como Voltaire acusa. Comunidade para a Missão  São Vicente soube definir o espírito comunitário da Pequena Companhia com especial genialidade no Capítulo VIII das Regras Comuns, onde parte da inspiração na comunidade apostólica, para descer a uma série de recomendações úteis para uma Sociedade que, naquela altura, contava apenas três décadas de caminhada (10). Mas desde muitos anos antes, Vicente era claro quanto à valorização da comunidade e, ao mesmo tempo, o primeiro destinatário da missão para a qual fomos chamados. A comunidade não deve ser apenas um apoio à missão, mas sim uma imagem da Trindade que evangeliza pelo seu modo de vida: "Gostaria de ver esta prática sagrada espalhada entre nós: ver tudo bem; dizer que na Igreja de Deus existe uma companhia que professa estar muito unida, nunca falar mal dos que estão ausentes, dizer da Missão que é uma comunidade que nunca encontra nada a criticar nos seus irmãos. A verdade é que eu apreciaria isto mais do que todas as missões, a pregação, as ocupações com os ordenados e todas as outras bênçãos que Deus deu à companhia, tanto mais que ficaríamos então mais impressionados com a imagem do Santíssima Trindade" (SVP. XI, 45-46) (11).  Cinco anos depois, numa carta a Stephen Blatiron, ele dá a sua bela perspectiva sobre a vida comunitária: não somos simplesmente vizinhos que vivem na mesma casa e são obrigados a partilhar certos espaços, somos uma família que constrói uma grande história missionária ao ritmo das nossas histórias pessoais, onde cada um de nós tem muito a contribuir para o projeto de Cristo de evangelizar os pobres e tornamo-nos complementares na missão: "Divina bondade, une desta forma também os corações desta pequena Companhia da Missão, e pergunta-lhe o que quiseres! A fadiga será doce e todo o trabalho será fácil, o forte aliviará o fraco e o fraco amará o forte e obterá maior força de Deus; e assim, Senhor, o teu trabalho será feito ao teu gosto e para a edificação da Igreja, e os trabalhadores multiplicar-se-ão, atraídos pelo cheiro de tanta caridade" (SVP. III, 234) (12). Esta bela teologia vicentina deve ser compreendida quando dizemos que somos uma comunidade para a missão, especialmente quando, no início do V Centenário da nossa história, nos encontramos na necessidade de revitalizar a nossa identidade. Formação permanente para a vida em comum Amedeo Cencini identifica três níveis que progressivamente produzem um itinerário de formação em comunhão fraterna, nomeadamente: o material, o afetivo e o espiritual (13). É um movimento ascendente em que um grupo começa por partilhar espaço e recursos materiais, continua com a partilha afetiva entre eles, para concluir com a partilha da espiritualidade que identifica o projeto de vida mais profundo das pessoas. No dia em que tomámos a decisão de entrar numa casa de formação, assumimos um novo modo de vida. O nosso tempo e espaço pessoal foram invadidos por outros assuntos que partilham o mesmo ideal: seguir Cristo, evangelizador dos pobres. Esta chamada faz-nos olhar para além da cultura materialista que nos propõe como ideal de vida a metáfora consumista de um centro comercial. Este é o além que São Vicente exige como parte das condições para um missionário: "ninguém deve usar nada como se fosse seu" (RC III,5). Certamente, a Congregação da Missão tem o seu próprio Estatuto sobre o seu voto de pobreza, com importantes diferenças no que diz respeito a possibilidades que não se encontram na vida religiosa, no entanto, para além dos mínimos jurídicos que poderíamos defender com direito próprio, há uma necessidade profunda para aqueles que foram chamados à missão vicentina: "não é bom que um homem esteja só" (Gn 2,18), e o missionário não é um homem que permanece num estado de singeleza, mas que abraçou um casamento com uma missão que é vivida em comunidade. É por isso que somos obrigados a partilhar a vida quotidiana numa casa comum, onde as refeições, a recreação, os frutos do nosso trabalho, as finanças, as limitações, e todo o resto são compartilhados. Quando nos abstemos deste primeiro nível, coberto por mil e uma justificações, acabamos por nos fazer concessões incompatíveis com a nossa vocação e que podem facilmente levar-nos a cair numa inclinação escorregadia que nos leva a duplos, mediocridade e frustração e por vezes até escândalos dolorosos. O segundo nível é bem identificado pela expressão de Vicente: "como amigos que se querem bem" (RC VII, 2). De fato, o estilo de vida comunitário da Congregação da Missão não é apenas um meio que torna a missão possível, mas também, em grande medida, é o suporte da vida do missionário, tão vivo nos seus afetos como qualquer outro mortal, tão necessitado de dar e receber afeto que, se não levar uma vida familiar em sua comunidade, ele o fará fora dela. Aqueles de nós que são chamados à castidade não são homens livres de compromisso, pelo contrário, pertencemos a Deus, e este sentimento de pertença é manifestado em uma vida comunitária alegre, onde o tempo é partilhado, o descanso é partilhado, a vida é celebrada, momentos de dor são sofridos com os coirmãos, e passamos a amar-nos realmente uns aos outros. Na experiência de acompanhar muitos jovens em seu discernimento vocacional, é muito significativo que esta seja uma das razões que mais fortemente atraiam as vocações ou as afastem. No século XXI, ninguém está disposto a levar uma vida de heroísmo missionário pago com o preço da solidão, em uma instituição fria e dividida. Essa é uma mentira que hoje está em evidência, mas, de fato sempre foi uma questão controversa. Se os níveis material e afetivo forem assimilados de forma correta, sem dúvida o terceiro nível não será entendido como uma questão de simples partilha dos tempos de oração. "Podemos dizer que uma comunidade reza de verdade quando, em sua oração, cada um traz os outros perante Deus. E quando, para além disso, se deixa conduzir por ele perante o Pai comum. Não é simplesmente rezar juntos... mas sim fazermos com que as outras pessoas participem no nosso relacionamento com Deus de forma a perceberem, claramente, que formam parte desta relação. Eu não o amo só porque amo a Deus, mas sim porque ele faz parte da minha relação pessoal com Deus: eu amo o outro em Deus." (14). Em conclusão, a vocação para seguir Jesus Cristo, evangelizador dos pobres, não pode ser lida de um ponto de vista individualista, a ponto de reduzir a força missionária da Pequena Companhia. No entanto, a realidade de uma comunidade para a missão, só será um ideal se não formos capazes de construir itinerários de formação permanente que começam com o material para nos levar a ser não apenas companheiros de trabalho mas amigos que se querem bem, finalmente, irmãos e irmãs de uma família que proclama o Deus dos pobres com a pregação do seu modo de vida, caracterizado pelas práticas que o Instrumentum Laboris recolheu, com base nos números 19 a 27 das nossas constituições: trabalho em equipe, serviço de autoridade, projetos comunitários, diálogo e comunicação, discernimento comunitário, testemunho, sobriedade da vida comunitária, valorização da corresponsabilidade, correção fraterna, vida de oração e espaços de intimidade comunitária. Há quatro séculos que esta tem sido a vida da Congregação da Missão. Missionários são lembrados, com devoção, em muitas partes do mundo. Tantas belas histórias de companheiros no caminho que só conhecem "o Pai que se vê em segredo" (Mt 6, 6). Mas nós somos testemunhas, e portanto, "o que vimos e ouvimos é o que proclamamos" (1Jo 6,6). Portanto, sem medo, podemos dizer: Voltaire estava errado! Notas  (1) No francês original a frase completa diz: "A vida monástica, seja o que for que se diga, não é nada invejável. É uma máxima conhecida que monges são pessoas que se reúnem sem se conhecer, vivem sem amar e morrem sem se arrepender. "VOLTAIRE. O homem das quarenta coroas. Versão PDF. (2) A terceira das três dimensões que sustentam a nossa identidade: misticismo (chamado "espiritualidade" pelo Instrumentum Laboris), missão (com o Instrumentum Laboris), missão (com o Instrumentum Laboris), e finalmente comunidade, que caracteriza o nosso "modo de vida", que é o tema deste artigo. (3) BAHILLO RUÍZ, Teodoro. Significado das Sociedades de Vida Apostólica na Igreja. Publicado em O Vicencianismo e a Vida Consagrada. 39ª Semana de Estudos Vicentinos. Editorial CEME. Salamanca 2015. pp. 122-123. (4) Immanuel Kant (1724-1804), Friedrich Schelling (1775-1854), Johann Gottlieb Fichte (1762 -1814) entre outros. (5) "É entre eles, entre estas pobres pessoas, que a verdadeira religião, a fé viva, é preservada; eles acreditam simplesmente, sem se intrometerem; submissão às ordens, paciência nas misérias, que devem ser sofridas, enquanto Deus quiser, uns por guerras, outros por labuta o dia todo sob o sol ardente; pobres vinhateiros, que nos dão o seu trabalho; que esperam que rezemos por eles, enquanto eles labutam para nos alimentar" (SVP. XI, 120). (6) "Entre 1968 e 1986, 632 padres, 42 irmãos e 205 estudantes deixaram a Congregação de forma legal. Ilegalmente, 199 à esquerda, dos quais 5 são irmãos". PEREZ FLORES, Miguel. Veste-te com o Espírito de Cristo. Expressão da Identidade Vicentina. Editorial CEME. Salamanca 1996. p. 404. (7) PEREZ FLORES, Miguel. Revestirse of the Spirit of Christ. p. 405. (8) "Cabeça, coração e estômago são as três faculdades da alma a que outros chamam inteligência, sentimento e vontade. Pensa-se com a cabeça, sente-se com o coração e quer-se com o estômago. Isto é evidente"! UNAMUNO, Miguel. Niebla. Capítulo XXIV. Versão PDF. (9) "Entre a dialéctica que parece ser fundamental numa antropologia psico-social da vocação, há as que foram definidas como consistências ou inconsistências. Como veremos a seguir, são constituídos ou pelo acordo (consistências) ou pela oposição (inconsistências) entre o eu ideal e o eu real para um aspecto específico da pessoa". RULLA, Luigi M. - IMODA, Franco - RIDICK, Jocie. Antropologia da Vocação Cristã. Confirmações Existenciais. Sociedade de Educadores de Atenas. Salamanca 1994. p. 26 (10) Apesar de as Regras Comuns terem sido transmitidas pelo fundador em 1658, sabemos pela descoberta do Codex Sarzana encontrado pelo Pe. Codex Sarzana encontrado pelo Padre Angelo Coppo que publicou o seu estudo em 1957 (La prima stesura delle Regole e Constituzioni della Congregatione della Missione) que, pelo menos já em 1653, a primeira estrutura das Regras Comuns na mente de São Vicente, já incluía o tema da comunidade sob o título: "De mutua nostrorum conversatione". (11) Conferência de 27 de Junho de 1642, sobre a união entre as casas da Companhia. (12) Carta a Stephen Blatiron, Superior de Génova. Datado de 13 de Dezembro de 1647 (13) Cf. CENCINI, Amedeo. Vida Fraterna. Desafio e Maravilha. Vida Fraterna e Nova Evangelização. Edições Ediciones Sígueme. Salamanca 2011. pp. 219-261. (14) CENCINI, Amedeo. La Vida Fraterna. p. 241. *Artigo originalmente publicado por cmglobal.org, em língua espanhola. Livre tradução para o português brasileiro por Sacha Leite e Stephany Oliveira.
Pe. Lauro Palú, CM
Pe. Lauro Palú, CM O centenário de Paulo Freire I – O centenário de Paulo Freire Paulo Freire nasceu em Recife, Pernambuco, dia 19 de setembro de 1921. E faleceu em São Paulo, Capital, dia 2 de maio de 1997. Formou-se em Direito mas ampliou sua cultura, especialmente com os trabalhos de educação popular. Escreveu muitos livros, deu muitos cursos, publicou séries de documentários sobre as obras de educação que realizou em vários países da América Latina e da África.  Sua obra mais conhecida é Pedagogia do Oprimido. Tal livro foi proibido pelos governos militares, até que perceberam que a proibição tinha sido a melhor propaganda: alguém explicitou o pensamento assim: “Podem vender, expor à vontade. Esse livro é mais perigoso sendo proibido, copiado à mão, circulando em cópias mimeografadas (que foi como eu o li, em 1968), etc., é mais perigoso do que em pilhas de exemplares expostos numa livraria...” A prática mais conhecida de Paulo Freire é a educação libertadora. Seu método, que amadureceu e aperfeiçoou-se na educação de adultos, visa ajudar o adulto a ser sujeito do aprendizado que faz, na vida e na escola. Quando o Papa São João Paulo II foi baleado, na primeira tomada de consciência que teve, quando despertava de uma anestesia e ouviu os médicos cochichando o que fazer com ele, disse aos doutores “Quero ser, preciso ser sujeito de minha doença ou de minha enfermidade, e não objeto da medicina dos senhores”. E eu, quando terminei meus períodos de Assistente Geral em Roma, falei com o Visitador, que estava pensando no que fazer comigo: Quero ser sujeito de minha obediência e não objeto de sua autoridade... Para isso, o ensino deve começar da situação concreta de vida dos alunos adultos que estão no processo. Partir dos problemas que vivem, usando, sempre que possível, o vocabulário deles, mas tentando descobrir, desvelar, neutralizar as forças negativas que existem na maneira de encaminhar os assuntos, quando se faz o que ele caracterizou muito criticamente como educação bancária (o professor que sabe ensina ao analfabeto que não sabe: por isso, o professor pode “cobrar” nos exames o que ensinou e o aluno tem obrigação de saber...). Para interessar os Alunos, engajá-los no aprendizado, partia-se da experiência deles, que é original, diversa da dos Professores e dos Colegas. Usa-se a linguagem deles, com o que revela de sua personalidade.  Começando no Instituto Bom Jesus, em Aparecida, em 1969, fui tentando realizar o que lia, o que conversava com os outros professores, especialmente do nosso Colégio São Vicente, onde se estudava e discutia Paulo Freire habitualmente, no processo de educação de adultos, no curso Supletivo. Com outros formadores da Província, participei algumas vezes, de encontros, seminários, etc., sobre educação libertadora. Quando fui nomeado diretor do Colégio, participava dos encontros semanais e animei um grupo de professores que lia e discutia Paulo Freire.   II – A formação no Colégio São Vicente Um dos cuidados a tomar, quando se trabalham as intuições e as riquezas do método de Paulo Freire é a coerência entre o discurso e a prática. Uma vez aprendidas certas palavras, com o que significam no quefazer de cada dia, é preciso evitar que se usem as palavras por serem bonitas, vistosas, respeitadoras, estimuladoras. A consciência crítica vá aos poucos modificando os enfoques, levando a tratar sempre de modo muito adulto as pessoas, em suas necessidades e suas reações. A maior alegria dos educadores é ver aos poucos o surgimento da individualidade, a afirmação da identidade de cada um.  Como exemplo, se na primeira reunião dos Alunos novos do Supletivo de cada ano, ao perguntarmos quem era paraíba, nordestino, levantavam-se muitas mãos. Alguns meses depois, ao perguntarmos quem é paraíba, aparecia um ou outro, assim mesmo, dizendo: “não sou paraíba, sou paraibano”. Outros vão dizer: Sou de Alagoas, do Maranhão, de Sergipe. É inestimável essa riqueza da consciência do ser indivíduo e ter uma identidade. É nessas condições que começam a trazer suas ideias próprias, suas sugestões para as festas, a proposta de temas e problemas para o trabalho de cada dia. Nos Conselhos de Classe, os Representantes de Turmas são muito criteriosos e tentam ser absolutamente fiéis ao que a Turma falou, apresenta, reivindica, sugere, reclama, etc.  Como colégio católico, mantido por Padres e Irmãos vicentinos, é natural, de se esperar, que as práticas partam de uma inspiração já conhecida nos quatro séculos de história da Congregação fundada por são Vicente de Paulo. O caráter profético do agente pastoral vicentino nos leva a denunciar o que vai contra os desígnios de Deus, a anunciar as transformações que o Espírito Santo suscita nos que agem evangelicamente. E é o momento das ações transformadoras: Não sou paraíba, sou paraibano. A pedra de toque no trato com as pessoas se concretiza numa frase lapidar de São Vicente: Os Pobres são nossos mestres, nossos senhores. Não temos que rebaixar-nos para pôr-nos ao nível deles; pelo contrário, temos que subir para estar onde estão os Pobres, na sua eminente dignidade na Igreja, segundo a bela expressão que Jacques-Benigne Bossuet aprendeu nas conferências das terças-feiras animadas por São Vicente. Isto deve ser algo absolutamente adulto, livre de demagogias, mas fruto da fé. E assim entra em cena a transformação do processo educativo, à luz da missão. Resumindo essa missão, em palavras imensas, podemos dizer que a) o Professor trabalha com conteúdos; b) o Educador trabalha com atitudes e c) o Formador trabalha com valores, aprontando o campo para que d) o AGENTE PASTORAL TRABALHE PELO REINO DE DEUS. Algumas práticas se tornam necessárias:  À luz da dignidade dos Pobres, não podemos nunca pensar que a educação se faz impondo-se limites. Mas, ao contrário, de fato estamos educando quando toda a prática docente for conscientemente o esforço de estimular o crescimento das pessoas, em vez de lhes impor limites, seja do tipo que for.  Estes são alguns exemplos do que fica sendo a educação nas linhas sugeridas por Paulo Freire e cultivadas no espírito vicentino. Outras práticas são o falar com as pessoas, o diálogo, com o respeito absoluto ao direito de falar e expor-se, tratando-nos construtivamente. As Campanhas da Fraternidade cada ano fornecem um tema muito rico que deve desdobrar-se em conteúdos e práticas em cada disciplina.   III – Linhas vicentinas na formação dos Nossos As linhas de formação numa comunidade educativa, num seminário, foram explicitadas assim, as atitudes dos Formadores e de cada um: estima pessoal (não se trata de ser amigo de todo mundo, mas de ser amigo de cada  um), presença amiga (trata-se de estar presente junto às pessoas, com amizade, afeição, bem querer, não de estar junto aos outros como vigia, como controlador) e confiança absoluta entre todos nós (lembrando-nos de que a confiança somos nós que oferecemos, não são os outros que conquistam ou merecem).  As qualidades exigidas de cada um, quer já as tivessem, quer fossem ajudados a adquiri-las progressivamente, eram responsabilidade, liderança, bom senso, iniciativa, lealdade, abertura de coração. O processo formativo tinha duas instâncias independentes, mas fortemente correlacionadas de a) orientação de todo o grupo, nas meditações diárias, nas homilias, nas reuniões semanais para preparar os conteúdos das liturgias dominicais e os assuntos gerais, como a fé, a vocação, a sexualidade, a amizade, etc., e b) o trabalho particular, o atendimento de cada seminarista, nos encontros pessoais de formação. A dinâmica das reuniões comunitárias era fortemente ajudada por algumas técnicas, como falar com os colegas, em vez de falar dos colegas, o falar levando em conta o que os colegas acabaram de falar. Também o esforço para buscar o consenso, nos nossos interesses comunitários, sem nos permitirmos decidir as coisas por maioria de votos... A responsabilidade de cada um, na medida do seu crescimento, aparecia no modo de pedir as licenças: “posso ir à Rodoviária?” Sempre achei que não deveria tratar um adulto nessa base, se pode ou não pode fazer isso ou aquilo. Nosso esforço era o fato de o Seminarista ver o que tinha de fazer e me avisar ou avisar à Comunidade: “Estou indo à Rodoviária”. Muitas destas frases estão com os verbos no passado, porque estão datadas, dos anos que vivi em Aparecida, no Instituto Bom Jesus (1969-1976), e depois no Rio de Janeiro, como Diretor do Colégio São Vicente (1980-1986; 1999-2013). Sintetizando estas ideias, sei que as expressões e as intuições de Paulo Freire nos ajudaram imensamente, na medida em que passaram a fazer parte do nosso comportamento pessoal e comunitário. Por exemplo, passei uns vinte e tantos anos tentando evitar uma frase assim: você deve estudar ou você tem que estudar. Isso nunca adiantou a ninguém, penso que nunca moveu ninguém. Mas, se digo a meu filho: “Rapaz, você é inteligente, já provou que dá conta das coisas no estudo. Você não se sente bem quando consegue fazer uma coisa com empenho, esforço e bons resultados? Não gostaria de fazer isso mais vezes? E se eu ajudar, não topa se esforçar nessa linha?” Não me limitei a censurar e criticar o rapaz por não estudar. Lembrei que tem as condições. Recordei as experiências de realização que já viveu. E o desafiei a repetir essas experiências realizadoras mais vezes. E, especialmente, propus-me ajudá-lo para que consiga. Em vez de 3 ou 4 palavras, desenvolvi um processo de tomar consciência de suas capacidades, de lembrar que já fizemos coisas boas, e, sobretudo, ofereci a ajuda do adulto que estimule esse comportamento. Usei 40 palavras e ativei meu coração de educador, desafiando o adolescente a ser alguém. Isso é um resumo do modo de ser e educar que nos deixou Paulo Freire. Mas não foi só a frase que ficou     maior: agora se vê que instauramos um processo que nos levará aos bons resultados esperados e necessários, se formos coerentes, lúcidos, corajosos em nossa missão. *Publicado orginalmente no Informativo São Vicente ed. 315
Pe. Eli Chaves, CM
Pe. Eli Chaves, CM 35 anos do martírio do Pe. Josimo Tavares Já se passaram 35 anos do assassinato do Pe. Josimo Morais Tavares, no dia 10 de maio de 1986, em Imperatriz (PA), a mando de fazendeiros da região do Bico do Papagaio (no atual estado de Tocantins) por sua defesa dos trabalhadores rurais. Muita gente hoje não se lembra e nem sabe quem é este nosso irmão, de coração vicentino apaixonado por Cristo nos pobres, autêntico mártir da caminhada de amor e serviço aos mais pobres.  Tive a honra e a alegria de conviver com o Pe. Josimo como amigo e colega de estudos durante 10 anos em nossos seminários. Josimo, natural de Marabá (PA), seminarista da então Prelazia de Tocantinópolis (TO), estudou, de 1969 a 1971, no Seminário de Brasília, que era dirigido pelos lazaristas; de 1972 a 1978, residiu nos seminários vicentinos de Aparecida e de Petrópolis, por ocasião dos estudos de Filosofia e Teologia. Durante sua caminhada formativa, pobre e simples, inteligente e focado no ideal, Josimo deixou-se tocar, a exemplo de São Vicente, pelo amor compassivo de Cristo pelos mais necessitados. Ordenado padre, dedicou seus curtos, intensos e fecundos 7 anos e 4 meses de sacerdócio ao serviço dos lavradores, nas paróquias de Wanderlândia e de São Sebastião do Tocantins e como coordenador da Comissão Pastoral da Terra no Bico do Papagaio. Foi preso, sofreu ameaças, calúnias e atentado e foi covardemente assassinado por causa de sua firme atuação junto aos oprimidos na luta pela terra. É hoje um testemunho vivo de quem, a partir do amor de Cristo, nos chama a sair em direção aos pobres das periferias sofridas.  A memória viva do Pe. Josimo, aquele padre negro, de sandálias surradas, incansável na luta contra as cercas do latifúndio e cheio de santa e profética indignação contra a injustiça e a violência, nos convida, nos anima e nos convoca a assumir a opção evangélica pelos pobres, hoje lamentavelmente esquecida ou contestada por tanta gente na sociedade e na Igreja. O testemunho de fé, coragem e ousadia do serviço profético deixado pelo Pe. Josimo desperte-nos e anime-nos a caminhar com os mais necessitados na construção de um mundo sem as cercas da exclusão, mas todo irmanado na fraternidade, na justiça e no amor!
Pe. Wander ferreira, CM
Pe. Wander ferreira, CM O impacto da Fratelli Tutti na formação dos nossos missionários A encíclica “Fratelli Tutti”, do Papa Francisco, é um verdadeiro apelo profético para a sociedade mundial não perder de vista os valores que mais nos aproximam: a sensibilidade, a fraternidade e o amor mútuo, nesses tempos, em que inúmeros fatores provocam divisões. Segundo o Papa, vivemos num mundo altamente seletivo e excludente, onde “as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e cuidar, especialmente se são pobres, deficientes e idosos” (FT, 18). O que impera no mundo é uma mentalidade de mercado, em que explorar, descartar e até matar vidas humanas, em vista do lucro obsessivo, é um fato sem o mínimo de pudor ou escrúpulos. Como consequência disso, em muitas localidades, há rastros de guerras, de atentados, de conflitos raciais e religiosos que não só afrontam a dignidade humana, mas também são motivados por ideias homofóbicas e por políticas narcisistas. Em muitas partes do mundo, o relacionamento e a convivência com o outro está totalmente ameaçado, pois uma cultura do medo e da desconfiança é disseminada na sociedade. Assim, “reaparece a tentação de fazer uma cultura dos muros, de erguer muros, muros no coração, muros na terra, para impedir este encontro com outras culturas, com outras pessoas” (FT, 27). É duro dizer que, em muitos casos, esses muros criam uma separação tão radical, que, dificilmente, será desfeita. Contra tal mentalidade, o Papa afirma que a busca do fechamento e do isolamento não é caminho para uma vida autêntica e, ao mesmo tempo, não nos faz voltar à esperança: é pura ilusão e falsa segurança. O que real- mente nos traz esperança e nos humaniza é a proximidade e a cultura do encontro: “porque uma coisa é sentir-se obrigado a viver junto, outra coisa é apreciar a riqueza e a beleza das sementes de vida em comum que devem ser procuradas e cultivadas em conjunto” (FT, 31). Neste sentido, o Papa afirma que a pandemia que atualmente atinge praticamente o mundo inteiro nos permitiu reconhecer e valo- rizar muitas pessoas que, em suas lutas diárias, deram suas vidas para salvar muitas vidas. São vários os profissionais e os religiosos que “compreenderam que ninguém se salva sozinho” (FT, 54). O ser humano, em seu processo de desenvolvimento, de realização e de plenitude, está num sincero encontro consigo mesmo e com os outros. Por outro lado, uma autêntica comunicação consigo mesmo só será possível a partir do momento em que houver comunicação com os outros. É muito positiva e saudável a relação mais ampla, que vai além da família e de pequenos grupos, pois, além de nos enriquecer culturalmente, permite que nos conheçamos melhor e nos projetemos. “...o amor cria vínculos e amplia a existência, quando arranca a pessoa de si mesma para o outro.” “A hospitalidade é uma maneira concreta de não se privar desse desafio e desse dom que é o encontro com a humanidade mais além do próprio grupo” (FT, 88/90). Só poderemos acolher quem é diferente de nós a partir do momento em que nos sentirmos seguros e convictos das nossas raízes culturais. O amor, a terra natal e a cultura de origem são elementos fundamentais para um encontro sadio e fecundo. Esta ideia, o Papa fundamenta dizendo que: “não me encontro com o outro se não possuo um substrato no qual estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico” (FT, 143). Progredindo no objetivo fundamental da encíclica, o Papa aborda uma dimensão fundamental do ser humano, o diálogo. Segundo o pensamento do Sumo Pontífice a respeito do diálogo, “não é necessário dizer para que serve; é suficiente pensar como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades” (FT, 198). A autenticidade do diálogo está, sobretudo, em se respeitar o ponto de vista do semelhante, possibilitando maior abertura e a inclusão de convicções e interesses legítimos. O diálogo permite que sejamos fiéis aos nossos princípios e, ao mesmo tempo, que também o outro se mantenha fiel aos seus propósitos. Nesse contexto, o exercício do diálogo exige muita maturidade. Que seja sempre sustentado e apoiado por boas intenções, defensoras de verdades básicas, que garantam uma boa convivência e o esforço de se colocar em prática a amabilidade, característica e responsável por uma verdadeira fraternidade. Fratelli Tutti, percebemos que a encíclica não só reforça e atualiza o nosso carisma, mas também nos convida ser ousados no serviço aos nossos “Senhores e Mestres”, os pobres. Eles são, como disse o Papa, descartados, por causa dos interesses comerciais e econômicos; concomitante- mente, são o motivo da nossa existência. Nunca é demais revermos, contemplarmos e atualizarmos o fim ou o objetivo primeiro de nossa Congregação no mundo: “...seguir Jesus Cristo evangelizador dos pobres” (CC, 1). Portanto, devemos sentir-nos motivados e provocados a não per- dermos de vista o que é fundamental e essencial em nosso ser missionário: servir aos pobres. Por mais que tenhamos habilidades para outras realidades importantes na Igreja, como a formação do clero, a formação dos leigos, a direção espiritual, entre outras, o que realmente nos define como missionários da CM é o serviço aos pobres. "Ora, trabalhar na salvação dos pobres habitantes do campo é o principal de nossa vocação e tudo mais é apenas acessório” (Coste XI, 137). No percurso da história da humanidade, os pobres sempre foram descartados, privados de pertencerem à história e de fazerem história. Foram taxados de lixo social, estorvo e de repugnantes. São Vicente só conseguiu enxergar os pobres estando no meio deles. Enquanto esteve nos palácios, envolvido com os nobres, a iluminação carismática não lhe foi dada. Mas, convivendo com os pobres, em suas dores e em suas alegrias, não só recebeu do Senhor o Carisma da CM, mas também passou a transitar nos palácios e no meio dos nobres como servidor dos pobres. Aqui, muda-se todo o enfoque de interesses e de percepção da Igreja, na vida de São Vicente. Ele dirá: “Mas não se encontra na Igreja de Deus Companhia alguma que tenha por partilha os pobres e se dê, totalmente, aos pobres, a ponto de não pregar nunca nas grandes cidades. É disso que fazem profissão os missionários. Têm isso de particular, ser, como Jesus Cristo, aplicados ao serviço dos pobres” (Coste XII,81-82). No processo formativo, além de nos empenharmos em deixar bem claro aos nossos seminaristas o carisma da Congregação, estamos insistindo muito no cultivo das relações interpessoais. No mundo de hoje, é inviável um missionário que, além de ter dificuldades de conviver com seus coirmãos, não consiga se aproximar dos pobres e interagir com eles. Pode-se dizer que passou o tempo todo da formação fechando-se em si mesmo e, não sendo confrontado, enveredou-se neste contra-valor e se tornou um problema. Uma coisa é ser tímido, outra coisa é ser fecha- do. Na Fratelli Tutti, o Papa Francisco nos dá dicas muito importantes sobre essa cultura do encontro, da proximidade e do diálogo. Deste modo, não basta aos nossos seminaristas se sentirem bem em nossas casas e terem uma boa bagagem intelectual, se não abrirem a mente e o co- ração para uma sincera convivência e um salutar relacionamento com o semelhante. Seu ministério, certamente, estará comprometido. Este requisito da dimensão humana é fundamental; caso contrário, todas as outras dimensões da formação ficarão comprometidas. São Vicente, ao escrever a primeira regra da Congregação, expôs os atos de caridade em relação ao próximo que jamais poderemos perder de vista. São eles: “1. Fazer aos outros o que razoavelmente gostaríamos que eles nos fizessem; 2. acatar suas opiniões e aprová-las diante do Senhor; 3. antecipar-nos em demonstrações de cortesia e respeito; 4. aceitar-nos mutuamente sem murmurar; 5. alegrar-nos com os que se alegram; 6. chorar com os que choram; 7. mostrar-nos amáveis e atenciosos para com os outros; 8. enfim, fazer-nos tudo para todos para ganhar todos para Cristo” (RC II, 12). Por fim, uma grande riqueza presente em nossas casas de formação, que não podemos perder de vista, são as raízes culturais. Cada seminarista que chega a nossas casas de formação traz uma bagagem cultural riquíssima que enobrece e dinamiza muito a nossa realidade. Deve- mos fomentá-los e incentivá-los a terem orgulho e a não perderem jamais o que é específico de suas origens. Como dizem nossas diretrizes, nosso processo formativo é “existencial e progressivo: leva em conta a história e a situação concreta das pessoas, respeita as diferentes idades, as etapas e a caminhada de cada um” (PFPBCM, P. 10).   Artigo originalmente publicado no Informativo São Vicente ed. 314
Pe. Dejair de Rossi, CM
Pe. Dejair de Rossi, CM A missão do formador de presbíteros hoje Se perguntarmos a um leigo ou leiga qual a missão do formador no Seminário, certamente, responderiam que é formar padres. Mas, se perguntarmos o que é o padre, qual a sua identidade, a sua mis- são, com certeza teriam dificuldades em responder. É que para falar da missão do formador de presbíteros é preciso que antes saibamos qual a sua identidade, sua missão e qual a função do seminário na formação sacerdotal. Por isso, nesta breve reflexão sobre a missão do formador de presbíteros, vamos, inicialmente, ater-nos à identidade do padre como servidor de Deus e dos ir- mãos; depois, falaremos da formação presbiteral como um caminho de configuração a Cristo. Em seguida, abordaremos alguns elementos fundamentais da espiritualidade sacerdotal. Por fim, falaremos da missão do formador e de alguns desafios que se colocam para o exercício de sua missão hoje.   1. A identidade sacerdotal como serviço a Deus e aos irmãos De acordo com o documento da Congregação para o Clero, O Dom da Vocação Presbiteral (DVP), publicado em 2019, todo candidato ao sacerdócio apresenta-se como um mistério no qual se entrelaçam e coexistem dois aspectos de sua humanidade que precisam ser integrados. De um lado os dons e qualidades; de outro, os limites e fragilidades (n. 28). O compromisso formativo consiste, então, em integrar esses aspectos, sob o influxo da graça, num caminho de fé e de progressivo e harmonioso amadureci- mento dos mesmos, evitando fragmentação, polarização, excessos, superficialidade e parcialidade. O seminarista é chamado a sair de si para caminhar em Cristo, empenhando-se, sob a ação do Espírito Santo, para realizar uma síntese interior, serena e criativa, entre força e fraqueza, a fim de conduzir todos os aspectos de sua personalidade a Cristo, de modo a servir a Deus e ao próximo com liberdade (n. 29). Embora todo o Povo de Deus seja um Povo sacerdotal (LG n. 17; PO n. 2) e cada fiel batizado possa oferecer “um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12,1), foi da vontade de Deus instituir dentre os fiéis, alguns como ministros que possuíssem o sagrado poder da ordem para oferecer o sacrifício, perdoar os pecados e exercer o ofício sacerdotal. Assim, ao mesmo tempo que são parte inseparável da comunidade eclesial, os sacerdotes são também constituídos pastores e guias do mesmo povo (n. 31). Em vista desta graça e desta missão, o sacerdote é, então, chamado a cultivar o seu espírito missionário, exercendo a função pastoral de guia, dotado de autoridade; de mestre da Palavra e de ministro dos sacramentos; praticando ao mesmo tempo a paternidade espiritual (n. 33). Portanto, em sua natureza específica, o ministério sacerdotal é interpretado como “serviço à glória de Deus e serviço aos irmãos, no seu sacerdócio batismal” (n. 31), e a identidade presbiteral, fundamentalmente, é servir a Deus e aos seus desígnios, e ao próximo em suas necessidades.   2. A formação presbiteral como caminho de configuração a Cristo Segundo a Carta aos Hebreus, Cristo realizou a missão que lhe foi confiada pelo Pai junto à humanidade de maneira sacerdotal. Sendo santo, inocente e sem mancha, Ele, cheio de misericórdia e compaixão, inter- cedeu por nós (Hb 7,26), com extrema docilidade, selou uma nova e eterna Aliança com o Pai, assumindo na mente e no coração a sua vontade (Hb 8,10), e, com clamor e lágrimas, ofereceu-se a si mesmo como sacrifício (Hb 9,14-15), tornando-se “causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”(Hb 5,9), e constituindo-se no “sumo sacerdote eminente e eterno” (Hb 5,10). Como sumo e eterno sacerdote, Jesus realiza uma proximidade singular tanto junto de Deus, como dos homens, apresentando-se ao mesmo tempo como Pastor, Servo e Dom. Como Pastor, Ele reúne, cuida, acompanha e segue as ovelhas perdidas da casa de Israel, conduzindo-as ao redil da casa do Pai (Mt 9,36; 15,24). Como Servo, lava os pés dos discípulos, pede- lhes que façam a mesma coisa, e partilha da nossa dor e sofrimento até a morte na cruz (Jo 13,4-5; Lc 22,24-27). Como Dom, faz-se oferta total de si à Igreja: “Tomai e comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim. (...) Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,19-20). Segundo São João Paulo II, a ordenação presbiteral exige de quem a recebe assumir os mesmos sentimentos e atitudes de Cristo, como bom Pastor, Servo generoso e Dom total a serviço do Povo de Deus, tornando-se “capaz de amar com um coração novo, grande, puro, com um autêntico esquecimento de si mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de ciúme divino, com uma ternura que reveste inclusivamente os matizes do afeto materno”(PDV, n. 22). Então, o presbítero, “uni- do intimamente a Cristo, poderá anunciar o evangelho e tornar-se instrumento da misericórdia de Deus; guiar e corrigir; interceder e ter a seu cuidado a vida espiritual dos fiéis que lhe estão confiados, escutar e acolher, correspondendo também às experiências e às questões profundas do nosso tempo”(DVP,n.40).   3. Interioridade e Comunhão, elementos fundamentais da espiritualidade presbiteral De acordo com O Dom da Vocação Presbiteral (PDV), para realizar o cuidado pastoral junto ao povo de Deus, com grande liberdade e espírito evangélico, o presbítero precisa de “sólida formação e maturidade interior”, que vá além de um simples revestimento de hábitos virtuosos e mera obediência formal aos princípios. É necessário que, crescendo na caridade, adquira uma equilibrada e madura capacidade de relacionar-se com o próximo, que lhe propicie aquela serenidade, humana e espiritual, que “superada toda forma de protagonismo e dependência afetiva, lhe permita ser o homem da comunhão, da missão e do diálogo, capaz de consumir-se com generosidade e sacrifício pelo Povo de Deus, contemplando o Senhor que oferece a sua vida pelos outros” (DVP, n. 41). Em síntese, trata-se de cultivar uma vida espiritual centrada na comunhão com Cristo segundo os Mistérios celebrados durante o ano litúrgico, e alimentada pela oração e a meditação da Palavra (DVP, n. 42). “Nesta relação íntima com o Senhor e na comunhão fraterna, os seminaristas serão acompanhados para que reconheçam e corrijam a ‘mundanidade espiritual ’: a obsessão pela aparência, uma segurança doutrinal ou disciplinar presunçosa, o narcisismo e o autoritarismo, a pretensão de impor-se, o cuidado somente exterior e ostentado com a ação litúrgica, a vangloria, o individualismo, a incapacidade para escutar o outro, e todo gênero de carreirismo. Ao invés disto,sejam educados à simplicidade, à sobriedade, ao diálogo sereno, à autenticidade e, como discípulos na escola do Mestre, aprendam a viver e a trabalhar naquela caridade pastoral que corresponde ao ser “ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1) (PDV, n. 42). Sendo a formação sacerdotal um caminho de transformação interior, ela deve renovar a mente e o coração do seminarista para distinguir o que é da vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito (Rm 12,2). Deve torná-lo capaz de discernir e pautar a realidade da vida humana à luz do Espírito e assim escolher e decidir de acordo com a vontade divina. Esse discernimento deve começar pela vida pessoal a fim de integrar a própria história e a própria realidade na vida espiritual, de modo que a vocação ao presbiterato não permaneça um ideal abstrato e nem corra o risco de reduzir-se a mera atividade, exterior à consciência pessoal. O que im- plica um humilde e constante trabalho sobre si mesmo, através da abertura honesta à verdade da vida e às reais exigências do ministério. Desse modo, o seminarista aprende a julgar os movimentos e os estímulos que motivam as suas ações, como também a se governar; aprende o sentido do que pode e não se pode fazer, e a administrar as próprias energias, planos e compromissos com equilibrada disciplina, e a si mesmo com um conhecimento honesto dos próprios limites e possibilidades (PDV, n. 43). Evidentemente que este trabalho interior, como afirma o documento DVP, não é fruto apenas das forças humanas. É dom da graça divina que nos torna capazes de superarmos a nós mesmos, irmos além de nossas necessidades e condicionamentos, para se viver na liberdade dos filhos de Deus. Trata-se, pois, de “um ver interior e de uma visão espiritual do todo que preside ao conjunto da vida e do ministério, através da qual se aprende a agir com paciência e a medir as consequências das próprias ações, independentemente de algumas circunstâncias que tornam difícil um juízo límpido e sereno sobre as coisas” (DVP, n. 43).   4. A Missão do formador de presbíteros À luz do que acaba de ser ex- posto, já temos vários elementos que explicitam para nós a missão do formador, como a de auxiliar o seminarista a se conhecer e integrar seus dons e qualidade, fraquezas e debilidades na própria vida, a de crescer na generosidade e capa- cidade de servir sem reservas, a de configurar-se sempre mais a Cristo pastor, servo e dom; a de crescer na interioridade e na comunhão com os outros. No entanto, o DVP (n. 44-52) apresenta outros elementos que fazem parte da missão do formador.   4.1 A nível pessoal Em vista das várias fases pelas quais passa o seminarista para alcançar um discernimento vocacional e tornar- se um discípulo missionário, faz parte da missão do formador: a) Relacionar-se de modo sincero, transparente e personalizado com os formandos. b) Que os colóquios com os seminaristas sejam frequentes, a fim de irem progressivamente se configurando a Cristo. c) Que o acompanhamento integre todos os aspectos da pessoa humana, como a educação à escuta, ao diálogo, ao verdadeiro significado da obediência e da liberdade interior. d) Estabelecer e fomentar a confiança recíproca entre formador e formando. Para promovê-la cumpre criar um sereno clima de confiança e de recíproca confidência, proximidade fraterna, empatia, compreensão, idade de escuta e de partilha, e sobretudo de coerente testemunho de vida. e) Que o acompanhamento esteja presente desde o início do caminho formativo e desde o começo se revista de sério discernimento vocacional. Isso impedirá procrastinar o juízo sobre a identidade para o ministério sacerdotal e a condução do seminarista aos limiares da ordenação sem as condições necessárias. f) Guardar reserva da vida dos seminaristas e realizar um acompanhamento reto, equilibrado, respeitador da liberdade e da consciência pessoal que os ajude no seu crescimento humano e espiritual. g) Estar dotado de certas capacidades e recursos humanos, espirituais, pastorais e profissionais; além de uma formação específica e generosa dedicação a esta im- portante missão. h) Garantir uma presença de tempo integral e ser, antes de tudo, testemunha de como se ama e de como se serve ao Povo de Deus, consumindo-se pela Igreja sem reservas.   4.2 A nível comunitário Considerando que a formação se realiza através de relações inter- pessoais, dos momentos de parti- lha e de confrontos que concorrem para o crescimento do húmus, onde amadurece a vocação presbiteral, segue-se que a vida comunitária é fundamental e iniludível na formação. Em vista disso, O Dom da Vocação Sacerdotal sugere: i) Que o formador incremente nos formandos uma forte experiência comunitária. Esta é fundamental para que, ao ser ordenado, o sacerdote se sinta unido aos demais em íntima fraternidade, e, na diocese a cujo serviço está consagrado, como parte de uma família, da qual o bispo é o pai. ii) Como o presbítero é chamado na Igreja a ser homem da comunhão (PDV, n. 18), durante o período de formação, os elos entre formadores e formandos de- vem ser marcados pela paternidade e pela fraternidade. O que implica que a fraternidade não pode ser deixada ao acaso, às consequências favoráveis, mas deve ser construída através de um crescimento espiritual, que exige empenho constante para superar as diversas formas de individualismo. iii) Para favorecer o clima de amizade e fraternidade, é importante o Seminário abrir-se ao acolhimento e à partilha com diversas realidades, como as famílias, as pessoas consagradas, os jovens, os estudantes e os pobres.   4.3. Alguns desafios Para concluir estas páginas, lembro que a missão do formador de presbíteros é um desafio permanente, que envolve não apenas o trabalho direto na formação presbiteral e suas implicações, mas também as tendências pre- sentes no mundo atual que influenciam tanto os formandos quanto os formadores. O padre Vinicius, com a capacidade que lhe é própria, oferece-nos uma lista destes desafios. Aqui retomo alguns: 1. O reducionismo ideológico que nos conduz às ideias convenientes e aos interesses pessoais; 2. A nostalgia do passado, que impede uma abertura ao presente e às suas necessidades; 3. O desejo de novidades que pode conduzir à superficialidade e à perda dos fundamentos; 4. A tentação de baixar o nível, contentando-se com o mínimo; 5. O otimismo vazio que esconde a realidade, camufla omissões, alimenta o comodismo e dispensa esforços para iniciativas mais ousadas; 6. O intelectualismo que, perdido em abstrações, não aterriza na realidade e nem questiona as situações; 7. O pessimismo destrutivo que enfraquece a esperança, apaga a alegria e obstrui a criatividade; 8. O subjetivismo que, muitas vezes restrito a sentimentos e reações primárias, instala-se em apegos e não se abre a novos desafios; 9. O praxismo que subestima o discernimento, a reflexão e muitas vezes se degenera em vazio espiritual e ativismo sem propósito ou significado. Conclusão Eis, em linhas gerais e de acordo com o DVP, alguns traços da missão do formador de presbíteros. Não entra- mos em questões intelectuais e outras para não tornar o texto longo e por fugir do objetivo proposto. Esperamos, porém, a nós, que temos o carisma da formação do clero e somos padres, que tais elementos nos despertem para a formação de presbíteros e nos ajudem na nossa vivência pessoal. Bibliografia Congregação para o Clero – O DOM DA VOCAÇÃO PRESBITERAL (DVP), Brasília, Edições CNBB, 2019. São João Paulo II – PASTORES DABO VOBIS (PDV), Brasília, Edições CNBB, 1992. Teixeira, Vinícius A. – A IDENTIDADE DA CM NO INÍCIO DE SEU QUINTO CENTENÁRIO(texto avulso), p. 9-10. Artigo originalmente publicado do Informativo São Vicente ed. 314
Pe. Aarón Gutiérrez Nava, CM
Pe. Aarón Gutiérrez Nava, CM Como podemos revitalizar nossa identidade missionária vicentina hoje? Quem lança um olhar sobre o mundo atual descobre, com preocupação, como cresceram as situações dramáticas: as guerras, as várias violências, o abandono, a persistente incapacidade de justiça e diversos outros desequilíbrios sociais que, distantes de extinguirem-se, tendem a crescer ainda mais, sobretudo a partir das contingências sofridas desde fevereiro de 2020, quando foi percebida a letalidade da Covid-19 e então começaram a ser tomadas as providências pertinentes. As “estruturas do pecado*1”, baseadas no egoísmo humano se intensificam e com elas crescem os desafios à Missão Universal da Igreja*2. Não podemos ignorar que “A sociedade mundial tem graves falhas estruturais que não são resolvidas apenas com paliativos ou soluções rápidas”*3. Uma falsa concepção de desenvolvimento ou "modernização" traz em si a exclusão de milhões de pessoas. É urgente apelar à “categoria do amor fraterno que vai além de toda pertença, até mesmo da identidade, e é capaz de se concretizar naquele que se“ fez próximo ”. Neste contexto, o mandato missionário de Cristo adquire uma força singular. É urgente destacar o "caráter inclusivo" de seu preceito: "Ide, então, e fazei discípulos de todas as nações*4"... O propósito da missão está em fazer discípulos. Guiar, sem qualquer tipo de exclusão, no seguimento de Jesus Cristo. É urgente aprender com Ele a categoria do amor fraterno que somos chamados a viver para transformar este mundo que Deus colocou nas nossas mãos. As falhas estruturais originam a exclusão, que afeta de maneira especial a vida dos pobres cujo aumento não para, e acrescenta novas pobrezas. Por isso, os excluídos da sociedade são os que mais precisam ser incluídos na evangelização. Evangelização que, em suma, “é anúncio, é serviço, é gratuidade*5”. O Papa Francisco destacou, em outubro do ano passado, a necessidade de nos dispormos com maior determinação e audácia pessoal para responder ao apelo da missão: “Estou aqui, envia-me” (Is 6,8). E acrescenta: “Neste contexto, o apelo à missão, o convite a sair de nós mesmos pelo amor de Deus e do próximo, apresenta-se como uma oportunidade de partilha, de serviço, de intercessão. A missão que Deus confia a cada um e nos faz passar do "eu" medroso e fechado ao "eu"redescoberto e renovado pelo dom de si*6. Nada disso é estranho aos missionários da Congregação da Missão. É claro que a Constituição 12.2 convida-nos a "prestar atenção à realidade da sociedade humana, sobretudo às causas da distribuição desigual dos bens no mundo, para melhor cumprir a função profética de evangelizar". Reconhecemos ao mesmo tempo que Deus não nos deixa fora de suas mãos, nem deixa de nos chamar a agir em meio a essas vicissitudes humanas. Agora sentimos o impulso do espírito de perguntar: Como podemos revitalizar nossa identidade missionária vicentina hoje? Aos coirmãos que estão se preparando para missões internacionais, aos que já atuam nas mesmas; ou ainda, nas missões interprovinciais; esperamos que todos aqueles que estejam desenvolvendo trabalhos missionários similares possam participar desta construção coletiva. Isso nos ajudará a refletir sobre nossa identidade missionária em vista da próxima Assembleia Geral. “A caridade de Cristo arde em nós, que se compadece da multidão (cf. Mc 8,2) e é a fonte de toda a nossa atividade apostólica e nos impulsiona, segundo a expressão de São Vicente, a tornar eficaz o Evangelho (SV XII, 84; ES XI, 391). É a força do Amor que enche os nossos corações de fé e esperança e nos impulsiona a viver a nossa dedicação com a mesma força de Jesus Cristo que “ama até o fim” esta humanidade criada pelo seu Pai*7. O Pai Deus*8, que nos enviou em missão, e está escondido, mas presente no grito dos pobres e da humanidade. No seu Amor estamos certos de encontrar os sinais que procuramos em cada cultura, povo e nação para que, ao anunciar a Boa Nova, “todos tenham vida em abundância*9”. No início desta nova etapa da história, sentimos que o espírito nos impele a procurar, sem desfalecer, "os sinais" da presença de Deus e as "sementes da Palavra" nas nossas missões internacionais e nas várias situações em que colaboramos para fazer discípulos de Cristo. Eles nos guiarão pelos novos caminhos que, “junto com o Povo de Deus” (sinodalmente), devemos percorrer na evangelização de todos os continentes. Precisamos fortalecer a convicção de “remar contra a maré”, de oferecer vida com generosidade e novo testemunho. Vivemos tempos em que é preciso aliar ousadia, coragem e criatividade. “Peço-vos”, disse o Papa Francisco, que se comprometam com paixão… As diversas realidades que representam na Igreja… indicam que o espírito da missão ad gentes deve tornar-se o espírito da missão da Igreja no mundo: ir fora, para escutar o grito dos pobres e dos longínquos, para encontrar-se com todos e anunciar a alegria do Evangelho*10”. Com o desejo de "tentar abrir novos caminhos e aplicar meios adaptados às circunstâncias de tempo e espaço", nos propomos a nos unir na oração, na reflexão e no discernimento, para a construção de um novo ministério missionário vicentino capaz de "revitalizar" o próprio espírito do nosso carisma. Notas 1 A abordagem estrutural do pecado começou em 1979 com o CELAM de Puebla, e faz referência direta ao contexto socioeconômico, eclesial e teológico crítico em face de uma situação resultante de estruturas econômicas, sociais e políticas permanentes e articuladas onde o evidente as desigualdades geram as situações de opressão e exclusão (dívida externa impagável; pobreza e fome insuperáveis; condições miseráveis ??de higiene, moradia e saúde para mais da metade da população mundial; analfabetismo, desemprego, subemprego ... Tudo isso não é por acaso, mas antes causadas, como bem sublinhou o Documento de Puebla (nn. 29s) e requerem justa atenção por parte da Igreja. 2 Por exemplo, um dos desafios que o Papa Francisco nos apresenta é abrir-nos a “uma nova etapa evangelizadora” (EG 1). No qual a Igreja é totalmente missionária. Frequentemente nos convida a criar uma “pastoral missionária”, indo “para as periferias”, “para os últimos”. Uma Igreja “que sai, de portas abertas” (EG 46), “chamada a ser sempre casa aberta do Pai” (EG 47). 3 FT, 179 4 Mt. 28-19 5 Santa Martha. 11 de julho de 2028 6 Mensagem para o Domingo Missionário Mundial 2020 7 Jn 13,1 8 «A Igreja peregrina é missionária por natureza, na medida em que nasce da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai» (AG, 2). 9 cf. Jo 10.10 10 Congresso Missionário Nacional Italiano. Roma 2014. * Livre tradução para o português de Sacha Leite. 
Pe. Eli Chaves, CM
Pe. Eli Chaves, CM Em meio à pandemia, manter a fé no Cristo ressuscitado Neste tempo de pandemia, esperávamos ansiosos a vacina. Ela veio devagar, a conta-gotas, acompanhada de uma devastadora onda de contaminação que ceifa diariamente milhares de vidas e coloca a todos diante de uma crise imprevisível, profunda e que parece não ter fim. Nada de negacionismos ou racionalizações, indiferenças ou desânimos! A crise está aí e afeta fortemente a todos nós, em todos os aspectos pessoais e sociais de nossas vidas! Com o Papa Francisco, podemos dizer que nenhuma crise é total e definitiva, sempre há uma saída.“Quando o coração das pessoas é posto à prova, elas tomam consciência do que as estava prendendo. Também sentem a presença do Senhor que é fiel e responde ao clamor do povo. O encontro que ocorre nos apresenta a possibilidade de um futuro melhor”. “Ousemos sonhar!” Para nós, cristãos, a crise nos coloca dentro do mistério salvífico de morte e ressurreição de Cristo, que é a saí- da, a porta, o caminho para a vida em abundância. A dura experiência desta pandemia nos situa no caminho do calvário, abraçando e assumindo a Cruz, na certeza de que o Senhor está conosco e carrega conosco a cruz. Afetados por um vírus invisível, a cruz nos aponta para tantos outros vírus que estão ao nosso redor e sufocam a vida, o vírus da fome, da injustiça, do materialismo individualista e consumista, do desrespeito com a casa comum... A cruz nos indica a solidariedade que deve- mos abraçar, na confiança em Deus que nos promete vida nova, nos convida a construir algo novo, a tornar novas todas as coisas, transformando o “vale de aridez” de nossas vidas e de nosso mundo em “terra fértil”, “cujas trilhas se enchem de fartura” (Sl 65). A crise, vivida na pandemia, nos possibilita dela sairmos melhores ou piores. Ela nos faz inquietos e sofridos no alto do calvário, nos convida à conversão e nos abre o horizonte e o compromisso de vida nova, conquistada pela ressureição de Cristo – “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão? (...) Mas graças a Deus, que dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Cor 15, 55.57). Cristo ressuscitado nos libertou para a liberdade, para uma vida nova segundo o Espírito de Deus. Na pandemia, podemos fazer a experiência de morrer para o que nos desfigura e renascer para sermos criaturas novas. Estamos em pleno tempo pascal, marcados pela assustadora pandemia que sinaliza o apelo de nossa fé para vivermos na dinâmica pascal – “Penso que os sofrimentos do mo- mento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós (...) a criação abriga a esperança, pois ela também será liberta da escravidão da corrupção, para participar da liberdade, e da glória dos filhos de Deus’’ (1Cor 8, 18-21). Na força libertadora da ressurreição, importa continuar firmes, fortalecer os valores de fé, desenvolver atitudes novas, ousar sonhar alto, sempre comprometidos com o mundo novo desejado por Deus e inaugurado entre nós em Cristo. Na força da ressurreição, sigamos firmes e em frente em nossa travessia! Fortaleçamos e formemos sempre mais nossos corações e nosso agir no compromisso, na esperança e na certeza da vida em abundância instaurada por Cristo! “Assim fala o Senhor: O Senhor te conduzirá sempre e saciará tua sede na aridez da vida, e renovará o vigor do teu corpo; serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas que jamais secarão” (Is 58, 11). “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" ( Jo 16, 33). “Por Cristo, tudo desprezei e tenho em conta de lixo, a fim de ganhar a Cristo (...) Persigo o objetivo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama em Cristo. (...) Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir decididamente” (Fl 3, 8b.14.16).
Pe. Erik de Carvalho Gonçalves, CM
Pe. Erik de Carvalho Gonçalves, CM Parece Mentira! No Brasil, sabemos que o dia 1° de abril é conhecido como “Dia da Mentira”. Hoje, é uma oportunidade de pregar várias peças em diversas pessoas, que, se esquecendo do famoso “Que dia é hoje?”, acabam por “cair” nessas pegadinhas e acreditar nas tais mentiras, e algumas até podem levar às palpitações. Neste sentido, eu me atrevi a escrever este texto com um título corriqueiro, sem importância, mas, ao mesmo tempo, provocativo; um título como aqueles que prende nossa atenção, e, como curiosos que somos, queremos saber do que se trata. Acontece que, precisamente, neste 1° de Abril, iniciamos o Tríduo Pascal, centro e ápice da fé dos cristãos, revelação da radicalidade do amor de Deus por nós. O Amor de Deus por nós é radical, incondicional e insistente. Por isso, é um desafio à nossa razão que tudo quer explicar e, consequentemente, dominar. Parece mentira que o nosso Deus, na imensidão do seu Ser, encarnou-se por amor e veio fazer morada no meio de nós (Jo 1,14), esvaziando-se de si mesmo tornando-se servo obediente (Fl 2,7-8). Parece mentira que, Ele vindo ao mundo, assumiu, como única missão, salvar o ser humano, e não condená-lo por suas maldades e infidelidades (Jo 3,17). Parece mentira que, mesmo sofrendo perseguição e toda sorte de maldades, tenha realizado apenas boas obras, em favor das pessoas (Jo 5,36). Parece mentira que, mesmo presos em nossas maldades e pecados, matando nossos irmãos, Ele nos amou até o extremo, até o fim (Jo 13,1). Parece mentira que, na sua majestade, na Última Ceia, Ele tira o seu manto e pega uma toalha e amarra-a na cintura (Jo 13,4), como o escravo que prepara um “escalda pés” para o seu senhor, e lava os pés dos seus discípulos. Pés imundos, não por causa da poeira do chão, mas devido às corrupções, dureza de coração, maldades, tramas, egoísmo, invejas, roubos, assassinatos, traições, etc. (Mt 5,1-48), que só amor e água, que vem de Deus, podem lavar. Parece mentira que este gesto tenha a intenção de fazer os discípulos entrar em comunhão com Ele (Jo 13,8). Parece mentira que tendo participado da comunhão (mesa) com o Mestre e Senhor, Ele tenha confiado aos discípulos a missão de sempre criar comunhão entre as pessoas, lavando-lhes os pés, como o Senhor fez. E parece mentira, que, querendo permanecer no meio de nós, todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28,20), a fim de que sempre nos lembrássemos dessa Nova e Eterna Aliança (1Cor 11, 25; Lc 22,20) e fizéssemos tudo o que Ele ordenou, a inventividade do seu amor fez com que Ele instituísse a Eucaristia, sacramento do seu Amor para a nossa Salvação (Jo 6,57), pois “todo aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”, disse Jesus (Jo 6,54). Portanto, parece mentira... Mas, apesar de ser o dia da mentira, verdade seja dita. Pensamos que tudo isso é mentira ou não prestamos nossa atenção a esta Revelação de Amor, porque ainda estamos demasiadamente enraizados na maldade e nas trevas (Jo 3,19), preferindo encher-nos de maus exemplos (violência, polarizações, BBB, músicas indecentes e que incitam a violência, drogas, vingança, etc.), alimentando o nosso ódio insaciável, para continuar nossas obras más, a conhecer e crer no amor de Deus por nós (1Jo 4,16). Reconheçamos: crer no amor de Deus por nós é o maior desafio da nossa fé, e, ao mesmo tempo, o único caminho possível para conhecer Jesus Cristo. Por fim, preciso dizer, que é, no mínimo, curioso, que no Dia da Mentira, nos deparemos com a maior verdade de nossas vidas, aquela que dá sentido a tudo e que salva a todos os que a ouvirem e a receberem. Parece mentira, porém essa é a Verdade...
Pe. Hugo Silva Barcelos, CM
Pe. Hugo Silva Barcelos, CM Uma perspectiva vicentina sobre a Campanha da Fraternidade 2021 Desde 1964, a Igreja no Brasil celebra a Campanha da Fraternidade. Destas mais de cinquenta campanhas, neste ano, celebraremos a V Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE 2021), cujo tema é “Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor”, e o lema “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a). A Quaresma é um tempo forte na nossa caminhada de fé. É também este tempo forte em nossa vida de discípulos-missionários de Jesus, em nossa missão vicentina e eclesial. Por conseguinte, preparamo-nos para celebrar a Páscoa do Senhor, a vitória da vida sobre morte! Mas antes, é necessário, mais uma vez, colocarmo-nos num caminho de conversão integral: pessoal, eclesial e social. A CFE 2021 é um meio necessário para esse processo. Este tempo litúrgico se abre com o convite: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Essa conversão só será legítima se for profunda; na medida em que, tocados pela graça de Deus, renovando nossa experiência do encontro pessoal com Cristo, “rasgarmos os nossos corações e não a vestes” (Jl 2,13). Conversão é processo constante, é mudança de perspectiva, de mentalidade, é deixar morrer a velha humanidade e renascer com Cristo, como uma nova criatura. É ressignificar o nosso olhar e a nossa postura sobre o mundo e o outro, na perspectiva do Mistério Pascal de Cristo, ou seja, é “revestir-se de Cristo” (Rm 13,18). O texto-base deste ano “convida as comunidades de fé a realizarem o caminho de Emaús” (CFE 18) fazendo quatro paradas, a saber, a primeira é “‘o Ver’- um convite para conversarmos sobre os acontecimentos mais recentes que marcam nossa história e observar se as alternativas e saídas que identificamos são opções coerentes com a Boa- Nova do Evangelho” (CFE 19); a segunda é “‘o Julgar’- é a possiblidade de, a partir da inspiração bíblica, lançar luzes sobre o contexto vivido por nós.” (CFE 20); a terceira é ‘o Agir’- indica “exemplos para derrubar os muros das divisões” (CFE 21); e a quarta é “‘o Celebrar’- momento de afirmar que a diversidade presente na Criação não é negativa, mas é a revelação da imensa e irrestrita amorosidade de Deus para a humanidade” (CFE 22). Neste nosso pequeno artigo, consideraremos alguns elementos do texto-base da CFE 2021, na perspectiva do nosso carisma. O que aqui colocarmos, não é conclusivo, trata-se de lampejos que podem e devem ser enriquecidos com a vivência pessoal, vicentina e eclesial de cada um que lê-lo. A Paixão e a morte de Jesus, sem a experiência pascal, traz aos cristãos de outrora e aos de hoje sentimentos de desânimo. Assim foi com os discípulos de Emaús que, ao comtemplarem o seu mestre morto no madeiro, viram-se obrigados a voltar para Emaús (Lc 24,13). Esse percurso de retorno não é algo meramente geográfico. É uma forma de expressar sentimentos e motivos, que tiram sonhos e perspectivas, que impedem de prosseguir, impondo a necessidade de voltar para o mesmo lugar, abandonando um processo que aparentemente fracassou. O ano de 2020 foi de muitas cruzes, mortes e desânimo, devido a pandemia da COVID-19 e agravado pelo contexto sócio-político-econômico, no qual estamos inseridos. Presenciamos milhares de mortes e o colapso no sistema de saúde. Estamos fartos dos discursos negacionistas. Presenciamos a violência, o racismo, o feminicídio, o desemprego e a pobreza aumentarem. Toda essa realidade que nos afeta e nos distancia também trouxe e acentuou novas divisões, devido aos “muitos muros construídos: do racismo, da desigualdade econômica, da dificuldade de conviver com opiniões diferentes, de desrespeito e ataques às instituições” (CFE 42). Prova disso é a “contra campanha”, que insurge nas redes sociais se opondo à CFE 2021, desmerecendo o CONIC, desqualificando a autoridade do magistério, a de nossos bispos e a da CNBB. Se todo este contexto nos deixa atônitos, desanimados, tentados a desistir, não poucas vezes, o nosso coração também arde (Lc 24,32). Ficamos inquietos e desejosos de continuar anunciando Jesus Cristo, o evangelizador dos pobres, seu projeto de amor, fraternidade, onde, para além da cruz, da dor, da morte, da violência, do preconceito, da pobreza está a vida nova, plena e digna de sua Páscoa. A Ressurreição se torna esse grande horizonte e meta que norteia a nossa caminhada, já no aqui da história humana. A CFE 2021 denuncia, chamando de “muros”, as várias estruturas que fortalecem a cultura do ódio, da intolerância e da injustiça que fere e mata tantos irmãos e irmãs, sobretudo os mais pobres. Propõe um caminho de fraternidade e de diálogo ecumênico, de convivência interreligiosa, de superação da violência, mormente contra a mulher, por meio das missões ecumênicas e da consciência urgente do cuidado com a casa comum que constrói pontes. Temos um verdadeiro manual de mudança sistêmica, ou de estruturas, que é a nossa metodologia, como Família Vicentina, para a evangelização e a promoção dos pobres. Como então assumir, percorrer e realizar este itinerário que nos é proposto pela CFE 2021, na perspectiva vicentina? É tempo de renovar nossa vida, vocação-cristã-vicentina, fortalecer nossas bases, nossos grupos, por meio da oração, da formação integral e permanente, abrir nossas portas para que mais pessoas possam somar conosco e compartilhar o ideal cristão-vicentino. É tempo também de planejar. Para tal, precisamos ter um bom conhecimento da conjuntura atual, de suas forças de resistência e de crescimento. Na composição do nosso plano de ação, poderemos propor ou participar de projetos de promoção humana, sobretudo dos pobres, em vista da realização do nosso carisma. Projetos que podem ser ecumênicos, sem dúvidas, pois há várias igrejas e instituições que comungam da nossa mesma perspectiva missionária. É tempo de superar divisões, preconceitos e de nos abrirmos ao diálogo e à alteridade, que encontra na diversidade a força potente que motiva a construção de pontes e de caminhos, para que o Evangelho se realize em nossa história. Celebremos, então, a CFE 2021, percorrendo este caminho quaresmal de conversão rumo à Páscoa do Senhor.
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM
Ir. Adriano Ferreira Silva, CM Crônica do Encontro Internacional de Irmãos No dia 21 de Janeiro de 2020, os Irmãos da Congregação da Missão e demais coirmãos interessados se reuniram em um webnário. O primeiro momento do encontro, destinado aos missionários da COVIAM, CEVIM e APVC, ocorreu a partir das 9h da manhã, pelo horário de Roma, e contou com a presença de 45 coirmãos. A segunda sessão, reservada aos missionários da CLAPVI e NCV, contou com a presença de 44 coirmãos. As atividades foram coordenadas pelo Pe. Hugo Vera, responsável pelo escritório de Comunicação da Congregação da Missão. Ambos os momentos acima destacados contaram com a fala inicial do nosso Superior Geral, padre Tomaž Mavric, que salientou a importância da vocação dos Irmãos dentro da Congregação da Missão, caracterizando o "duplo rosto" da mesma, clerical e laical. O padre Tomaž demonstrou preocupação com o decréscimo do número de Irmãos. Nos anos 1960/70, a Congregação contava com mais de 500 irmãos, enquanto hoje, são apenas 123, correspondendo a menos de 2% do total de coirmãos. Mediante este quadro, foi criada uma comissão internacional para pensar um plano para a promoção da vocação do Irmão na CM. A análise da minuta deste Plano foi o principal assunto tratado nas reuniões on-line. Após a fala do Superior Geral, conforme a orientação do coordenador, os presentes foram dividos em salas por idiomas, e nessas salas de conversa foram respondidas questões que ajudaram na reflexão sobre a proposta de Plano para a Promoção da Vocação do Irmão e também a pensar como cada um de nós, Irmãos Lazaristas, têm vivido a própria vocação, a partir do contexto de sua província de origem. Nos grupos foram tratados muitos elementos relevantes, dos quais destaco cinco pontos principais: 1. É importante resgatar a relevância da vocação do Irmão, dentro da Congregação da Missão, não como um missionário de segunda classe, mas como um membro de plenos deveres e direitos. Temos os mesmos votos, isso nos delega uma vocação comum. 2. A figura do Irmão tem desaparecido em várias províncias. É preciso um trabalho intenso de reapresentação do missionário vicentino, também como leigo consagrado, para que surjam vocações de Irmãos onde hoje elas estão mais escassas. Ninguém ama aquilo que não conhece, se a possibilidade da consagração leiga na CM não for apresentada de maneira clara e moderna, ou seja, sem os estigmas do passado, a vocação do Irmão tende a desaparecer. 3. Oferecer aos Irmãos uma formação semelhante a dos sacerdotes, priorizando seu caracter de missionário vicentino, antes de oferecer-lhe uma formação técnica. Equiparar a formação dos sacerdotes e dos irmãos é o primeiro passo diminuir as diferenças histórias que marcaram negativamente a vocação do Irmão na CM. 4. Trabalhar nas Assembleias Provinciais e domésticas a ideia de que a vocação do Irmão é uma doação teologiamente completa em si mesma. O Irmão não é aquele que não conseguiu ser sacerdote, mas um missionário que foi chamado por Deus para seguir a Cristo Evangelizador dos Pobres, como leigo consagrado, na Congregação da Missão. 5- Na Assembleia Geral, fazer uma reflexão profunda em torno da identidade clerical da Congregação. Não seria o momento de mudarmos essa identidade? Após a partilha dos grupos, houve alguns comunicados. O padre Andrés Moto confirmou que em outubro deste ano ocorrerá a Sessão do CIF para os Irmãos, que estava marcada para o ano passado e foi adiada, devido à pandemia.  De maneira geral, as sessões se desenvolveram de maneira muito harmônica e organizada. Foi bom ver que nós, Irmãos, apesar de poucos, continuamos vivos e ativos na CM. Há rostos jovens, novos irmãos que querem mudar o estigma negativo que tem nos acompanhado nos últimos séculos. Oxalá conseguiremos. Vida longa e próspera aos Irmãos da Congregação da Missão. * Publicado originalmente no website oficial da Cúria Geral da Congregação da Missão cmglobal.org
Pe. Eli Chaves, CM
Pe. Eli Chaves, CM Que venha a vacina! “No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho”. A pedra de que fala o grande poeta de sobrevivência, ocorre o cansaço e se perde o sentido saudável e pleno da vida. Este tempo de crise convida a buscar algo que vá além da vacina que permite a sobre- vivência biológica, convida a ir a um nível mais profundo da identidade humana, do sentido da vida. Para Mahatma Gandhi, “quando há uma tempestade, os pássaros se escondem, ao contrário, as águias se animam a voar mais alto”. E este é o momento de sermos lúcidos e audazes como as águias. Para os que creem esta crise nos chama a voar alto e encontrar uma nova pedra, a pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (1Pr 2,4). Nesta pedra angular, encontramos o verdadeiro antídoto para nossas dúvidas e temores; nela podemos experimentar a presença luminosa e providente de Deus em sua voz e ação no mundo e na história. Esta pedra-pandemia pegou-nos de surpresa, transtornou nossas vidas, tornou 2020 um ano cheio de incertezas e inseguranças; tem-nos feito experimentar em profundidade a vulnerabilidade humana e os desmandos e iniquidades da ‘ordem’ capitalista no desrespeito à dignidade humana e no irresponsável cuidado com a mãe terra, nossa casa comum; está criando um ambiente de enfermidade, isolamento, dor e medo ante a realidade e a ameaça da morte... O filósofo Byung-Chul Han disse que o vírus reflete o tipo de sociedade em que vivemos: “Vivemos em uma sociedade da sobrevivência, que se baseia em última instância no medo da morte. Sobreviver agora se converterá em algo absoluto, como se estivéssemos em um estado de guerra permanente. Todas as forças vitais serão usadas para prolongar a vida”. Na busca da sobrevivência, a pedra- pandemia nos faz desejar ardentemente a vinda da vacina, para nos imunizar e garantir-nos a sobrevivência, no retorno à normalidade, livres desta ameaça mortífera. No entanto, esta pedra angular não é um antídoto mágico; também as pessoas de fé sentem medo ante a ameaça mortífera do vírus, elas são afetadas e têm que se cuidar, a fé convive com as ameaças, as perguntas e o medo. Mas a fé ilumina a escuridão, possibilita ir à raiz do medo humano, ir à raiz da condição humana e dos acontecimentos históricos, e aí desvelar o sentido profundo da vida e da história.  Que venha logo a vacina! Será bem-vinda e necessária, mas não nos será suficiente para assimilar o duro golpe desta pedra no meio do caminho. Em regime só de sobrevivência, ocorre o cansaço e se perde o sentido saudável e pleno da vida. Este tempo de crise convida a buscar algo que vá além da vacina que permite a sobre- vivência biológica, convida a ir a um nível mais profundo da identidade humana, do sentido da vida. Para Mahatma Gandhi, “quando há uma tempestade, os pássaros se escondem, ao contrário, as águias se animam a voar mais alto”. E este é o momento de sermos lúcidos e audazes como as águias. Para os que creem esta crise nos chama a voar alto e encontrar uma nova pedra, a pedra que os construtores rejeitaram e que se tornou a pedra angular (1Pr 2,4). Nesta pedra angular, encontramos o verdadeiro antídoto para nossas dúvidas e temores; nela podemos experimentar a presença luminosa e providente de Deus em sua voz e ação no mundo e na história. No entanto, esta pedra angular não é um antídoto mágico; também as pessoas de fé sentem medo ante a ameaça mortífera do vírus; elas são afetadas e têm que se cuidar, a fé convive com as ameaças, as perguntas e o medo. Mas a fé ilumina a escuridão, possibilita ir à raiz do medo humano, ir à raiz da condição humana e dos acontecimentos históricos, e aí desvelar o sentido pro- fundo da vida e da história. A fé em Deus revelado em Jesus, a pedra angular, permite-nos fazer novas todas as coisas, possibilita-nos descobrir a confiança em Deus como graça que nos faz sujeitos colaboradores seus, descortina-nos oportunidades e meios para a conversão, a libertação dos males e a construção de um mundo novo com vida em plenitude. A partir do horizonte da fé, José M. Arnaiz, no editorial da Revista Testimonio, no 300/2020, fala das oportunidades que esse tempo de crise tem apresentado para a Vida Consagrada. Podemos estendê-las a todos os crentes: - Oportunidade de sermos solidários, descobrindo, com gestos bem concretos, a imensa vitalidade da solidariedade que nos faz ouvir os clamores dos pobres e da terra; - Oportunidade de viver e conviver mais e melhor em comunidade, levando-nos a experimentar a força do amor generoso, da interdependência e interação da vida em comunidade e em família; - Oportunidade de refazer nossos esquemas mentais e voltar ao essencial e ao mais importante da vida, revisando nossas rotinas, valores e compromissos e descobrindo como autênticos antivírus: a partilha, a com- paixão, o amor, o desprendimento, a generosidade, a amizade, os vínculos verdadeiros, a tolerância, a alegria...; - Oportunidade de sermos responsáveis no cuidado com a vida, com a saúde, no agir responsável na sociedade e despertar o mundo para um modo mais fraterno e justo de ser, agir e viver; - Oportunidade de cuidar-se e de cuidar uns dos outros, descobrindo-nos como necessita- dos uns dos outros, evitando a autorreferencialidade e cultivando uma vida em rede onde os destinos de todos nós se entrelaçam e se complementam; - Oportunidade de sermos criativos, abrindo-nos para mudar e atender as novas exigências, desenvolvendo uma nova consciência que bate à nossas portas, reinventando nossas práticas, pois quem não muda quando tudo muda permanece no passado e se torna mudo, surdo e cego. Voltando ao nosso poeta maior, “Nunca me esquecerei desse acontecimento / Na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / Tinha uma pedra”. Que venha a vacina, e esse tempo de medo e enfermidade dê lugar a um tempo novo de saúde e recuperação! Mas que esta experiência do coronavírus, tão mar-cante em nossas retinas fatigadas e em nossas vidas fortemente golpeadas, não seja esquecida, que ela nos leve a uma nova consciência e uma nova prática de vida, acolhendo as oportunidades que este tempo pre- sente nos oferece! Que não nos esqueçamos deste dolo-roso e desafiante acontecimento histórico, que a pedra da pandemia presente em nosso caminho seja processada e discernida à luz da pedra angular de nossa fé! Que tenhamos um ano novo de muita paz, esperança e trabalho na busca responsável e esperançada de transformar esse momento árido de lagrimas, temores e desafios em terra fértil, de vida partilhada e fraterna, na abundância do amor e da justiça!
Sacha Leite
Sacha Leite Lazaristas de coração A afiliação à Família Vicentina é um ato de amizade, gratidão e reconhecimento público e oficial dispensado a pessoas que se destacam, de alguma forma, na participação e colaboração com a missão vicentina. É um ato afetivo e espiritual de confirmação do espírito de fraternidade presente entre tantas pessoas leigas ou ordenadas, que não pertencem à Congregação ou a algum outro ramo vicentino que se reporte ao mesmo Superior Geral. Na Congregação da Missão, as comunidades locais podem apresentar aos seus Superiores Provinciais pessoas a serem afiliadas. Os Superiores Provinciais e seus Conselhos, após avaliarem e confirmarem o alcance significativo dos motivos apresentados para a afiliação, apresentam os nomes ao Superior Geral, que afilia a pessoa indicada, enviando-lhe um Certificado de Afiliação. Esta prática afirma e destaca a importante e significativa presença de pessoas leigas ou ordenadas que a princípio não estariam vinculadas formalmente, mas que, de forma especial, participam da missão vicentina na Congregação da Missão. A afiliação não cria nenhum compromisso formal, jurídico ou institucional com a Congregação, porém simboliza a relação de fraternidade, fé e serviço vicentino com a Congregação da Missão. Assim, a pessoa afiliada participa com mais intensidade da vida, missão e bens espirituais da Congregação da Missão. Trata-se de um instrumento que expressa a riqueza do carisma vicentino, que é vivido para além das fronteiras institucionais das congregações e associações vicentinas. É o reconhecimento de uma das muitas formas possíveis de acolhida e vivência da herança espiritual vicentina; é fruto da rica partilha entre as pessoas na vivência do caminho espiritual deixado por São Vicente de Paulo. Na Congregação da Missão, ontem e hoje, a afiliação de leigos ou clérigos tem sido uma prática constante. Muitos leigos, homens e mulheres, solteiros ou casados, e muitos clérigos, padres, diáconos e bispos receberam esta afiliação. Existem vários afiliados à Congregação da Missão, já mencionados em edições anteriores do Informativo São Vicente, como por exemplo o Professor Mariano e o Sr. Antônio. Nesta edição nº 313 do nosso Informativo buscamos destacar outros afiliados por indicação da PBCM: pessoas de diversas regiões do país que contribuíram para a realização da missão Lazarista no Brasil, prestando serviços, dedicando-se afetiva e efetivamente. Dom Helder Câmara, um santo de formação vicentina Um dos afiliados de grande estima e significado para os Coirmãos foi Dom Helder Câmara (1909-1999), Arcebispo de Olinda e Recife, afiliado pelo então Superior Geral, Pe. Richard McCullen, em 1987. Dom Hélder, notável amigo dos pobres, profeta da justiça e da paz, foi aluno dos Lazaristas, grande devoto e admirador de São Vicente e muito amigo da Família Vicentina. Dom Helder Câmara estudou no Seminário da Prainha, em Fortaleza. Apresentava-se como Lazarista de coração. Portanto, mesmo seguindo o caminho diocesano, manteve relação fraterna com as comunidades vicentinas e então, foi agregado à Congregação da Missão, em 1985. Dez anos depois, foi a vez das irmãs Iveta e Helena Ferreira, amigas dos padres da PBCM e frequentadoras da casa Dom Viçoso, em Belo Horizonte-MG, receberem a carta de Afiliação à Congregação da Missão, em papel timbrado assinado pelo Superior Geral, na época, o padre Robert Maloney, CM. O advogado Dr. Rômulo e a professora D. Samira Nahass também compartilharam, nesta matéria, um pouco das impressões e sentimentos que experimentaram quando foram incorporados à esta grande família espiritual guiada pelo carisma de São Vicente de Paulo. Padre José Debortolli, CM, quando Diretor Espiritual da Província das Filhas da Caridade do Recife, entrevistou Dom Hélder Câmara, amigo dos Lazaristas e filiado à Congregação, um dos grandes admiradores de São Vicente de Paulo, que naquele ano completava 50 anos de sacerdócio. A entrevista foi publicada pela revista da CLAPVI em dezembro de 1981 e traduzida para o português pelo Pe. Luiz de Oliveira Campos, CM, para a presente edição do Informativo São Vicente. Dom Hélder nasceu a 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, capital do Ceará, no Nordeste do Brasil. De família pobre, fez seu Seminário Menor e Maior nesta mesma cidade, quando estes dois Seminários eram dirigidos pelos Padres da Congregação da Missão. Foi então que Dom Hélder começou a admirar São Vicente. Tanto, que desejou ser Padre Lazarista e chegou a conversar com o Bispo sobre isto. Este lhe ponderou que, havendo ele estudado por conta da Obra das Vocações Diocesanas, uma vez que seus pais eram pobres, ele deveria se ordenar como Padre Diocesano e trabalhar pela Diocese, por gratidão. O certo é que toda formação Humanística e Eclesiástica de Dom Hélder é Vicentina. Ele nunca estudou em Roma, nem em outra Universidade estrangeira. O que mais honra aos Lazaristas, é que Dom Hélder seja um filho muito agradecido aos Padres da Missão. Ele se considerava Filho de São Vicente. Por isso, sempre que estava falando com os Lazaristas ou com as Filhas da Caridade, ele se referia a São Vicente nesses termos: “Nosso pai São Vicente”. Dom Hélder conheceu bastante São Vicente. Ele o amava e o imitava em sua simplicidade e em seu espírito de pobreza e no seu amor ao Papa. Seus dois grandes inspiradores foram precisamente: São Vicente de Paulo e São Francisco de Assis. Viveu na sacristia de uma Igreja pobre em Recife (Fronteiras), ao lado da Casa Provincial das Filhas da Caridade, da Província do Recife. E sempre que esteve em Recife celebrava diariamente para as Filhas da Caridade da Casa Provincial, que cuidavam dele, sendo que ele pouco cuidava de si mesmo. Eis aqui as palavras de Dom Hélder sobre nosso pai, São Vicente: “Poucas criaturas do mundo compreenderam tanto Jesus Cristo como São Vicente. Em certa ocasião, assisti a uma Conferência em que alguém chamava São Vicente de “gênio da caridade”. É pouco. Ele tinha o Carisma da Caridade. Possuía este dom de Deus. Ele tinha antenas ligadas em Jesus. Praticamente suas antenas eram voltadas para todos os sofrimentos do seu tempo. Deus lhe deu também um sentido muito prático. Quando contemplava o sofrimento de seu tempo, buscava, para cada sofrimento, uma solução. Ia ao encontro do sofrimento, qualquer que fosse. Via os menores abandonados e imediatamente a solução para os menores abandonados. Se encontrava anciãos, imediatamente tinha uma solução para os anciãos”.  Ao receber o Certificado de Afiliação, em 8 de abril de 1987, Dom Hélder disse com grande alegria a um de seus colaboradores: “Agora, sim sou Lazarista!” D. Iveta e D. Helena, irmãs catequistas e amigas dos padres As irmãs Iveta e Helena Ferreira foram agregadas à Congregação da Missão em 1995. Naturais de Tiros, em Patos de Minas-MG. Iveta é professora aposentada. Ela conta que se aposentou aos 50 anos de idade e, em um salão na sua casa, fez catequese durante muitos anos. Chegou a contar com 20 catequistas. Fundou os Acólitos, onde coordenou a catequese e foi ministra da eucaristia durante muitos anos. Fundou também a Associação da Medalha Milagrosa. Hoje ela frequenta a Casa Dom Viçoso e procura ajudar os Lazaristas . “Sou responsável pela obra das Vocações Lazaristas (VL) há muitos anos. Pe. Maia me colocou lá”. Ela estudou em Patos de Minas, com as irmãs sacramentinas, foi aluna do colégio interno. “Quando mudei para Belo Horizonte, uns 50 anos atrás, fiquei muito amiga do Pe. Maia, CM. Ele vinha muito aqui em casa, me ajudava muito, era meu diretor espiritual. Ele que me colocou como ministra da eucaristia. Na Dom Viçoso conheci muitos padres: Dom Chaves, João Saraiva, uma porção”. Quando Iveta e Helena foram agraciadas com o título de afiliadas à Congregação o visitador era o Pe. Célio D’ellamore. Iveta conta que para ela o vínculo se manteve e se fortaleceu ao longo de anos de convivência com os Lazaristas: “É uma amizade muito grande. Eu tenho eles como irmãos. Na liturgia da manhã, todo dia, eu rezo pela Congregação, pelos seminaristas e por todos nós. E eu procuro ajudar em tudo o que é preciso. Quase todo domingo eu levo uma sobremesa para os padres. Sempre levo alguma coisinha para eles. Dou o dízimo, recolho o dinheiro da VL e entrego lá. Sou também coordenadora da Associação da Medalha Milagrosa, desde a sua fundação pelo Pe. Célio e Pe. Vinícius. Na missa também sempre ajudei muito. Agora o Ir. Edmar fica com o comentário e eu distribuo as leituras para garantir a participação de mais pessoas da comunidade". Laços fraternos perpassam mesmo as fases mais conturbadas: “Nessa pandemia, quando eu não estava podendo ir à missa, quatro padres vieram celebrar aqui em casa. Pe. Sebastião, Pe. Onésio, Pe. Vander e Pe. Denilson. Eu tenho até os retratos aí. Eles têm muito carinho com a gente. Costumo fazer almoços para os padres e seminaristas, mas esse ano não teve. Vêm de dois em dois para não ficar muito cheio. Padre Onésio e Pe. Sebastião vêm, nós jogamos buraco, depois eu sirvo um lanche. São meus amigos. Eu falo que não parece padre de comunidade. Parece que são da minha família, de tanto que eu amo a todos”. A carta de afiliação à Congregação foi uma grata surpresa para as irmãs Helena e Iveta: “Quando recebi essa declaração, fiquei tão emocionada que chorei muito. Falei: gente, eu não mereço. Deus está me dando muita coisa sem eu merecer. E hoje eu agradeço à Nossa Senhora a convivência com os Lazaristas, os seminaristas e os padres. Porque hoje eu amos os seminaristas como filhos. Eu falo com as minhas amigas, sempre que chega gente nova na capela, eu conto sobre os movimentos que tem, de ajudar na cesta básica, da VL e a gente vai lutando como pode. Eu gostaria de fazer mais, mas agora, depois dos 85 anos, estou ficando meio mole. Quando o nosso pai morreu, nossa mãe já havia morrido. Pensamos que ficaríamos sós. Mas não ficamos. Os padres cobrem muita coisa aqui. Cobrem tudo que a gente precisa de carinho, de atenção”. Dr. Rômulo, ex-seminarista e advogado Nascido em Quixadá, sertão do Ceará, em 12 de novembro, de 1934, Dr. Rômulo C. Mota estudou em Fortaleza entre os anos de 1949 e 1951, na Escola Apostólica São Vicente de Paulo. Seguiu depois para os Seminários do Caraça (1952 e 1953) e Petrópolis (1954 e 1955), onde cursou o Noviciado. Em março de 1956 ingressou na Faculdade Nacional de Direito, onde se formou bacharel, em 1960. Ainda atuando como advogado, especializado no setor imobiliário, Dr. Rômulo recebeu a reportagem do Informativo em seu consultório no edifício Mayapan, no Centro do Rio. Sorridente, ele lembrou dos tempos em que foi seminarista e aproveitou para declarar seu amor eterno aos lazaristas. “Guardo as melhores memórias do meu tempo de seminarista, pois, embora fosse um seminário, tínhamos a liberdade de falar e discutir o que quiséssemos. A coisa mais bonita que existe é você agradecer. Hoje eu tenho um nome, sou conhecido no setor imobiliário, até fora do estado do Rio de Janeiro. Tenho uma carreira marcada pela ética e tudo isso eu devo aos padres Lazaristas. Todos os padres sabem que tenho uma verdadeira veneração pelos Lazaristas. O ensino do Caraça era uma coisa espetacular. Passei dois anos recluso, estudando. Nunca aprendi tanto na minha vida, havia muita gente inteligente dentre seminaristas e formadores.” D. Samira, professora, pianista e editora Samira Nahass Gouveia Franco, natural de Nova Lima, grande Belo Horizonte, professora e pianista. Teve o primeiro contato com a PBCM através da Igreja de São José do Calafate. Porém foi em 1956, quando casou-se, na paróquia de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, em Campina Verde, que iniciou um contato mais constante com a Congregação da Missão. Em conversa telefónica com a reportagem do Informativo São Vicente, D. Samira disse que a amizade com os vicentinos é antiga. Ela hoje em dia edita, com esmero, o jornal da Paróquia de Campina Verde. Além disso, é mãe do Pe. Alexandre Nahass Franco, CM e do Dr. Genesinho, também afiliado à Congregação da Missão. “Comecei a trabalhar no Instituto Nossa Senhora das Graças, ministrando aulas de Português e Educação Musical. Há 16 anos sou da comissão do Jornal da Paróquia. Durante anos regi o coral da Igreja da Matriz e o coral do colégio. Quando fui agraciada com o título de afiliada à Congregação da Missão fiquei encantada, maravilhada. Nunca pensei que receberia uma distinção dessas da Congregação. Mas também, não precisava, pois independentemente de qualquer título meu coração pertence a São Vicente de Paulo. Sou muito feliz por fazer parte dessa família”. Outros Afiliados à Congregação da Missão, dentro do contexto da PBCM Dr. Sady Cotta – Belo Horizonte-MG Prof. Mariano Pereira Lopes – Belo Horizonte-MG Sra. Maria Raimunda dos Santos - Nova Era-MG Sr. João Marcos Andrieta – Salto-SP Sr. Antônio Soares da Silva – Rio de Janeiro-RJ Dr. ‘Genesinho’ Nahass – Campina Verde-MG Sra. Nilza da Silva Teodoro - Petrópolis-RJ Sra. Vitória Chaves - Bambuí-MG
Pe. Alexandre Nahass Franco
Pe. Alexandre Nahass Franco Reflexão sobre o Plano de Ação Provincial Falar em vocação nos remete diretamente à experiência de Jesus com seus discípulos. Sua palavra, proclamada à beira do mar da Galiléia, tocou profundamente o coração daqueles pescadores e exigiu-lhes claramente a retomada de suas vidas (cf. Mc 1, 16-20). O Evangelho não deixa dúvidas: A palavra de Jesus, seu jeito de viver e de se aproximar, tocava diretamente o coração das pessoas, levando-as a responder à sua provocação. Impossível era ficar indiferente diante do Senhor. Esta experiência de chamado e resposta continua nos dias atuais. O Senhor continua chamando e aguardando pessoas disponíveis e generosas que sejam capazes de responder positivamente. Diante dele, é preciso coragem e audácia, discernimento e sensatez, para que a resposta humana não seja imatura nem deslocada da realidade concreta, mas resposta fundamentada em processo pessoal e fecundo de convencimento e discernimento, feito à luz da Palavra de Jesus e em comunhão com a Igreja, que é seu Corpo Místico. O Núcleo Identitário da Vida Consagrada (VC) que tem como referência fundante o seguimento de Jesus, sobretudo seu Evangelho, tem se tornado distante na vida de tantos consagrados. Há perda de credibilidade em nossa vida, perda do prestígio de nossas obras e relativização de costumes e normas. Vivemos uma palidez na vida espiritual; o enfraquecimento da vida fraterna, com muitas rupturas; a perda da vitalidade da vida apostólica e a falta do sentido de pertença. Diante destes desafios, podemos rezar alguns pontos importantes em nossa Província para que o núcleo identitário da VC se concretize, pessoalmente e comunitariamente. Nosso Plano de Ação Provincial 2020-2024 traz várias iluminações: 2.1. Conformar a vida ao núcleo identitário da consagração vicentina. 3.1. Antes de tudo, é preciso ter em vista o nú cleo identitário da consagração vicentina, como fundamento, mediação e meta da vida missionária. a) O núcleo identitário da vida dos consagrados na Igreja e no mundo é constitu?do pela: mística ou ? profunda experiência de Deus, de quem se origina e a quem se orienta toda consagração autêntica; missão de evangelização e serviço à vida, segundo a finalidade do Instituto ou Sociedade a que se pertence; vida fraterna em comunidade, modo como se estrutura e organiza nosso estilo de vida. b) Estes três elementos estão presentes na experiência de São Vicente de Paulo: a experiência de encontro com Cristo no Pobre e da chamada gratuita para estar e viver com Jesus Cristo evangelizador dos Pobres; o ser chamado a viver em comunidade missionária; e o ser enviado em missão junto aos Pobres mais abandonados, no serviço de evangelização e da formação. O voto de estabilidade e, em vista deste, os votos de castidade, pobreza e obediência celebram, confirmam e ratificam a entrega total da vida para ser-em, ser-com, e ser-para Cristo evangelizador dos Pobres. c) Faz-se necessário buscar o sentido e a vitalidade da vida missionária vicentina na conformação da vida neste ideal. O crescimento na conformação da vida nesses três aspectos acontece dentro de uma complementaridade e unidade circular: a missão alimenta a experiência de Deus e a estrutura da comunidade, assim como a comunidade qualifica a missão e a experiência de Deus, sem um antes e sem um depois. A solidez da vida espiritual, dos laços comunitários, do empenho apostólico e do sentido de pertença se constroem no assimilar e viver em profundidade esse núcleo identitário e não cair nas tentações citadas pelo Papa Francisco: o ‘mundanismo espiritual’(EG 93 -97), a ‘autorreferencialidade’ (EG 8.94.95) e a ‘missão como apêndice’ (EG 78.273). Se olharmos agora o núcleo identitário da VC na perspectiva de um itinerário vocacional, vamos constatar o seguinte: Não basta um ideal religioso, social ou humanitário como motivação para a VC. Não basta somente o encanto inicial, mas também o reencanto consciente por Jesus Cristo e a proposta de seu discipulado, para conseguir manter a VC sempre apostólica, jovial e significativa. Muitas vezes nós nos deparamos com uma VC cansada, envelhecida e insignificante, sem vibração e isso não é apenas uma questão de faixa etária, mas sim de perda de identidade, de afastamento do núcleo identitário e do caminho do discipulado. Em outras situações, felizmente, nós nos deparamos também com um consagrado ancião sereno, feliz e transparecendo a simplicidade de quem encontrou sua identidade e sua razão de ser, fazer e amar. Estes nos contagiam! Uma paixão autêntica é comunicativa e contagiante! Viver hoje o núcleo identitário da VC significa pensar com muito carinho como estamos nos ajudando mutuamente a alimentar esta paixão e como estamos passando, transmitindo esta paixão que não é nossa mas que passa por nós, para as novas gerações de consagrados. Eis alguns questionamentos: Como viver a VC Missionária com paixão e contagiar com esta paixão as novas gerações? Como fazer o hoje da VC acontecer na formação não apenas inicial, mas também na formação permanente? É necessário viver com paixão. É necessário abraçar de modo mais claro o tripé que sustenta a VC: Mística, comunidade e missão. São três elementos constitutivos do caminho do discipulado no evangelho. Se quisermos aprofundá-los mais ainda, percebemos que estes três elementos se referem à base antropológica da proposta: Ser-em, Sercom e Ser-para. Somente a paixão dá o vigor necessário para integrar as três dimensões, para deixar que cada uma interaja com a outra: Sem mística, a VC fica anêmica, apenas mantém uma capela e práticas piedosas, quando as mantém. Sem comunidade de vida, ela se descaracteriza, perde boa parte da sua visibilidade, da sua razão de ser. Sem missão ela se fecha diante do novo e cada um se vira como pode, lançando mão do individualismo, da profissão e das competências, com o risco de se perder no ativismo e o perigo tão comum hoje em dia: a “Síndrome de Burnout”. Neste sentido, acredito que a dimensão da valorização da vida fraterna em comunidade no momento tem sido o ponto mais delicado. A maioria das crises que ocorrem no itinerário das pessoas consagradas, pessoas que têm vocações autênticas, verdadeira experiência de Deus e gosto pela missão vêm das frustrações e dos conflitos na comunidade de vida, que neste caso torna-se comunidade geradora de doenças tanto físicas como psíquicas e espirituais. Uma comunidade que não humaniza. Há comunidades de consagrados que mais se parecem uma central de atendimento ao cliente do que propriamente um lar. Há outras que funcionam como a torre de controle de um aeroporto, onde somente se pode falar o necessário para não provocar acidentes e onde só se acompanham aviões aterrissando e decolando. Não se trata aqui só de construirmos uma vida em torno de horários, de esquemas de vida comunitária e sim de questões mais profundas como atitudes de confiança uns nos outros, atitudes e práticas de partilha afetiva, efetiva e espiritual. Que qualidade tem os momentos que passamos juntos? Que qualidade tem nossos momentos de oração comunitária, de partilha, de lazer, de refeições, de atividades missionárias em equipe? Estamos juntos para viver nossa fé e transmiti-la. Quando nós não conseguimos fazer esta experiência “em casa”, em nossa comunidade, então a decepção é tão grande que somos tentados a fugir nas redes sociais, compensando com outras conexões e com a falta de relações humanas gratificantes, ou nos encolhemos num intimismo estéril ou ainda mergulhamos de cabeça no sucesso da atividade apostólica, tornando-nos viciados em trabalho, eternos estressados, num ativismo desenfreado. E uma das consequências mais graves desta situação é que a nossa castidade consagrada perde seu significado com todos os riscos de desvios afetivos que isso supõe. A missão, por sua vez, padece de situações complicadas. Ficamos na congregação, mas saímos da “firma” para nos tornarmos “autônomos”, impelidos pelas leis do marketing, da competição, da busca da imagem, do sucesso. Ter sucesso é uma triste compensação ao fato de não dar frutos! Que paixão temos então a transmitir? Como transmitir a vivência e os valores senão através de um processo mistagógico fundado no Evangelho? Nossa formação deve recuperar sua dimensão mistagógica. Deve ser convite a entrar numa paixão, a entrar no mistério: “Venham ver”. É necessário voltar às fontes e centrar a vida em Cristo evangelizador dos Pobres: Na abertura à ação do Espírito que renova a face da terra, que renova a Vida Consagrada, é preciso ‘voltar às fontes’ e, sem enclausurar-se no castelo do passado ou encantar-se com brilho fugaz da ‘modernidade líquida’, não perder de vista os elementos fundamentais do carisma, jamais esgotados por qualquer mediação histórica. a) A fonte vicentina leva ao encontro com Jesus, o Verbo encarnado, remete para a proximidade solidária e criativa com os empobrecidos. Esta é a experiência fundante, Cristo evangelizador dos Pobres é o que anima, sustenta e renova a vocação vicentina. Se falta esta experiência espiritual, falta tudo e a vocação vicentina perde a sua vitalidade evangélica e missionária. Sem reavivar o dom de carisma e os elementos espirituais que configuram a identidade da vocação vicentina, a vida missionária perde seu sal evangélico. b) Para despertar o mundo no amor de Cristo pelos Pobres, os missionários vicentinos devem viver a partir de motivações autênticas da fé, com maturidade humana e espiritual e sintonizar continuamente o coração, a mente e as mãos com os apelos de Deus na missão. Portanto, desde a Palavra de cada dia, a Eucaristia diária, a oração constante, a direção espiritual, a vida comunitária, o serviço, os estudos etc. é necessário buscar crescer no encontro com Cristo mestre, senhor e servo. A relação íntima com Deus em Cristo é essencial para o crescimento pessoal e o desenvolvimento fecundo da missão. c) Os missionários são como “vasos de barro”, são afetados psicológica e espiritualmente pelos desafios e dificuldades da missão, precisam estar vigilantes e assumir os muitos riscos e cruzes para permanecer fiéis ao discipulado missionário. A necessidade da formação e do cuidado espiritual pessoal é indispensável para desenvolver a saúde e a maturidade humana, espiritual, missionária e vicentina. É essencial uma atitude responsável e conversão cont?nua, para perseverar com fidelidade e fecundidade.” ? (Plano de Ação Provincial 2020-2024). Será que as comunidades de nossa Província provocam, no bom sentido, os jovens que estão chegando, para se sentirem mais identificados e com a coragem de fazer-lhes um convite a entrar na alegria do evangelho e a fazer as rupturas necessárias para viver como homens que têm suas vidas centradas no Cristo evangelizador dos Pobres? Estes questionamentos não giram apenas em torno do como transmitir, ou de que valores transmitir, ou a quem transmitir, mas vão mais fundo, questionando o próprio ato de transmitir. É possível transmitir sem dominar, sem impor, sem ferir a liberdade do outro? Há um jeito de transmitir que não faz a cabeça do outro, que é percurso e não curso, que propõe um itinerário apaixonante de formação ao discipulado? Poderíamos tomar como exemplo de paixão e transmissão da paixão fundante por Jesus na pessoa do apóstolo Paulo, confrontado com três culturas: A judaica, a grega e a romana. Paulo, numa sábia loucura, aprendendo por ensaios e erros, soube abrir um caminho novo neste mundo complexo, e ficou tão empolgado pela novidade do “acontecimento Jesus” e pelos valores do reino, que deu impulso à identidade cristã. Ele soube se libertar do jugo das tradições judaicas, confrontar a inteligência e a sabedoria acadêmica do mundo grego, questionar as leis e a jurisdição romana. Quando sonhamos uma VC mais próxima do evangelho, podemos nos inspirar na leveza institucional da comunidade de Antioquia, aberta, carismática, missionária, em contraste com a rigidez de Jerusalém, a soberba de Atenas e o rigorismo jurídico de Roma. Diferentes de Paulo, muitos dos membros da vida consagrada sentem-se cansados, outros estacionados e outros ainda buscam uma autorrealização. Segundo o Teólogo Carlos Palácio,SJ “não faltam motivos para nos sentirmos cansados”, contudo, “a Vida Religiosa se fundamenta no Evangelho e, enquanto houver gente apaixonada por Jesus Cristo, haverá Vida Religiosa”. Na opinião do teólogo as congregações têm dificuldades em lidar com essa situação. Para enfrentar esse mal-estar é preciso olhar a história. “É por não saber quem somos que não temos a clareza dentro e fora das nossas comunidades”. E acrescentou: “gastamos a maior parte das nossas energias em administrar a nossa diminuição numérica, o envelhecimento e peso das instituições”. Ele insiste na necessidade de se resgatar o núcleo da identidade da VC: “Quem somos? A VC não é uma réplica da vida leiga cristã, nem da vida monástica, mas uma vida peculiar que capta elementos comuns da vida cristã e faz deles uma síntese. Disso surge uma espiritualidade”. Ele recorre ao Evangelho segundo Marcos (3,13-14), para elucidar a identidade da VC. Para ele, nesse texto, o evangelista reúne três elementos que revelam o núcleo identitário da VC, que são: A experiência do chamamento gratuito; a descoberta de ser chamado para estar com Jesus; e, o ser enviado em missão. Nesse sentido “o importante é captar os três aspectos que não podem ser tomados separados, mas intimamente unidos. A experiência do encontro e da relação pessoal com Jesus dá essa identidade. É uma percepção única de um modo de viver. Se faltar um desses aspectos, a nossa vida começa a desmoronar”, afirmou. Para ele, essa é a mística que alimenta a VC. Por isso que a Missão não é fazer coisas, mas dar a vida. É impossível realizar uma missão que dê vida sem que esteja enraizada na experiência de amor a Jesus Cristo. É isso que será capaz de unificar a nossa vida. Para o teólogo jesuíta “a Missão não cabe dentro do recolhimento e da paz monástica; caso contrário, ela ficaria desfigurada”. Portanto eis uma questão pertinente: Estamos verdadeiramente convencidos que um dos principais problemas da VC é de espírito, como também de administração? É possível resgatar a paixão e o entusiasmo pelo que há de novo e original no estilo de VC? Urge em cada um de nós, em nossas comunidades, o aprofundamento da Mística, encarando a vida com sentido espiritual; o estreitamento dos laços de comunhão fraterna; o cultivo da disponibilidade para a missão junto aos Pobres e o aprofundamento do sentido de pertença. A redescoberta da identidade está em nossas mãos. A tradição só é viva quando faz viver e nós, às vezes, estamos cheios de tradições mortas! *Texto originalmente publicado no Informativo São Vicente ed. 313
Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM “Tu és o Cristo” 1. Introdução e objetivo Foi trilhando este caminho de justiça, que em vós sempre esperamos, ó Senhor. [Is 26,8] Segundo nossa liturgia cristã, mais um ano se inicia em nossa Igreja: o Ano B, no qual realizaremos uma leitura corrente do Evangelho segundo Marcos. Portanto, é Ano Novo na comunidade eclesial. Esta é mais uma rica oportunidade de conhecer e aprofundar o mistério de Deus e integrar-se nele, gradual e progressivamente, de modo que possamos firmar os passos em nossa caminhada como discípulos-missionários de Jesus, e anunciadores da Boa-Notícia do Reino. Concluímos o Ano A, cujo objetivo foi apresentar os principais elementos da caminhada do NOVO POVO DE DEUS, o qual segue o programa de vida, segundo Mt 5-7 [Discurso inaugural]. Bebendo da fonte mateana, tivemos a chance de nutrir-nos de uma catequese que nos auxilia no agir cristão, conformando-nos à vontade de Deus. Todo o esforço de Jesus é formar discípulos e discípulas que estejam aptos para buscar sobretudo “o Reino dos Céus e sua justiça” [Mt 6,33]. Em Mateus, Jesus é identificado como o novo Moisés, personagem da história de fé de Israel, líder de extrema importância na caminhada do povo da Primitiva Aliança, rumo à terra prometida [Ex 15,22-18,27]. Na montanha, Moisés recebeu as Tábuas da Lei, uma norma de vida que plasma a identidade do povo de Deus, como povo eleito e propriedade de Javé [Ex 24,12-18]. Portanto, se Jesus é o Novo Moisés, então os seus discípulos são o Novo Israel que vive segundo os ensinamentos do Mestre, colhidos no seu autêntico testemunho como Filho amado do Pai que está nos céus; este é o “povo ainda em caminho” (2). Na montanha, Jesus toma a posição do Mestre e proclama as bem-aventuranças, normativa a ser seguida quando se adere ao projeto do Pai que se revela no Filho. Para tornar-se um verdadeiro discípulo de Jesus, é necessário corrigir concepções cristalizadas, as quais impedem ver em Jesus a força do Pai e a irrupção do Reino. Portanto, no discipulado cristão percebemos a prática da nova justiça, a qual foi deturpada pelos magistrados de Israel: “Com efeito, eu vos digo: se vossa justiça não superar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” [Mt 5,20] (3). Ademais, para ser considerado digno do Reino dos Céus, o critério será o que se dispensou aos mais pobres, com quem Jesus se identifica. Basta ler Mt 25,31-46 para perceber que toda ação feita aos pequeninos deste mundo, nada mais é que um gesto realizado ao próprio Jesus, cujo destino será a vida eterna para o discípulo que vive segundo os valores evangélicos: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo” [Mt 25,34]! Jesus é o modelo de homem que, desde o início de sua missão, busca colocar em prática a vontade do Pai e não o próprio querer: “Deixa por ora, é assim que nos convém cumprir toda justiça” [Mt 3,15]. Deste modo, aprendemos com Mateus que viver a justiça significa ter como o horizonte, meta e ideal de vida o querer de Deus mesmo, vivendo com autenticidade os valores e virtudes inerentes ao Reino: a bondade, a compaixão, a caridade, a fraternidade, a paciência, o perdão, o amor; em suma, “sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” [Mt 5,48]: buscar a perfeição é caminhar ao encontro do Pai que está nos céus. Portanto, o Ano A esboça os principais elementos sobre o Deus de Jesus, cuja face está revelada na pessoa do Filho e cuja eleição está selada na Nova Aliança do sangue do cordeiro [cf. Hb 13,20]. Por isso, somos a “raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade” [1Pd 2,9a]. Agora, com a catequese de Marcos é hora de encontrar elementos que nos permitam responder à questão “QUEM É JESUS?”. Eis a pergunta principal do Evangelho de Marcos para os seus ouvintes-leitores: mostrando a identidade de Jesus, o evangelista interpela a comunidade tornar-se discípula-missionária do Mestre. “A intenção fundamental de Marcos, com relação aos seus destinatários, é anunciar Jesus como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, através de um caminho que leve o ouvinte leitor, a comunidade cristã, à aceitação e à profissão de sua fé” [FERNANDES; GRENZER, 2012, p. 34] (4). Cada discípulo será uma centelha do Reino, como sinal da eficácia da Boa-Notícia, a qual o Senhor mesmo confirmará, no início da difusão do Evangelho pelo mundo inteiro [cf. Mc 16,20b]. Ao mesmo tempo que se busca responder sobre a identidade de Jesus, é importante colocar outra questão: “QUEM É O DISCÍPULO? QUEM É A DISCÍPULA?” Também com o Evangelista Mateus vimos que “para o discípulo basta ser como o mestre e o servo como seu senhor” [10,25]. Isso demostra uma relação estreita e profunda com a pessoa de Jesus, o qual “é motor da experiência que nos salva” [MENDONÇA, 2017, p. 134] (5). Portanto, qual a identidade de Jesus, segundo o catequista Marcos? E quais elementos para a formação no autêntico discipulado cristão? Nosso objetivo será apresentar alguns elementos para responder essas perguntas, e elencar quais os desdobramentos na ética cristã quando se diz: “Tu és o Cristo!” Optamos utilizar dois textos-eixos de Marcos, a saber: 7,22-26 e 8,27-30, o que não nos impede recorrer a outros textos bíblicos com ideias afins à catequese de Marcos. Nosso ponto de partida será a perícope do oitavo capítulo, para que, conhecendo a identidade de Jesus, possamos construir e refletir sobre a identidade e a missão do discípulo, com o qual Jesus utilizará uma pedagogia para reconhecê-lo como o Messias que provoca mudanças e novos paradigmas. 2. A profissão de fé comunitária: “Tu és o Cristo” Quando os vossos julgamentos se cumprirem, aprenderão todos os homens a justiça. [Is 26,9b] A catequese de Marcos consta de dezesseis capítulos. Como dissemos, seu principal objetivo é resgatar a identidade de Jesus de Nazaré e fazer com que homens e mulheres sejam preparados para concretizar o seu projeto, anunciando a Boa-Notícia do Reino. O início da segunda parte do Evangelho de Marcos está na perícope 8,27-29 (6). Nesta secção, Jesus inicia o “Caminho do Filho do Homem” que parece não atender as expectativas de Israel que esperava ver o Messias triunfalista, conquistando territórios, por meio das armas de guerra e impondo-lhes autoridade. Com Jesus tudo é novo, inclusive sua própria identidade, missão e ensinamento. A multidão, espantada com seu primeiro milagre, questiona: “Que é isso? Um ensinamento novo e com autoridade” [Mc 1,27]; outra, admira-se com o que vê: “Jamais vimos coisa igual” [Mc 2,12b]. Ele fala com autoridade, ensina as multidões, realiza milagres e interpreta a Lei na liberdade, buscando o autêntico querer de Deus: vida e dignidade para todos, de modo especial para os mais pobres. Nesta breve perícope, vemos uma afirmação lapidar, cuja posição, no conjunto da obra, o catequista Marcos colocou com um propósito: “Tu és o Cristo” [v 29b]. Conforme o pronome usado [“Tu”], percebemos que a afirmação se refere a uma pessoa, proferida por outrem. O verbo também é importante, porque exprime a identidade de alguém. O verbo “ser” tem um caráter ontológico; ao passo que o verbo “estar” nos apresenta um sentido cronológico. Essa frase é pronunciada pelo discípulo Pedro, depois de Jesus perguntar para os seus quem ele é: “E vós, quem dizeis que eu sou”? [v 28b] Vejamos: a profissão de fé sai da boca de Pedro, mas tal convicção só pode ser vivida em comunidade. Em Mt 16,16, quando Pedro confessa “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”, Jesus lhes dá as chaves do Reino dos Céus, para administrar as primícias da comunidade eclesial. Aqui, está o fundamento da fé cristã, em cuja base Jesus construiu sua Igreja [cf. Mt 16,18]. Voltando a Marcos, após a solene profissão de Pedro, Jesus corrige a concepção que está vigente na mentalidade das pessoas, como “convicção de fé”. Esperava-se um Messias nacionalista, porém Jesus se identifica com o Filho do Homem padecente de Daniel 7,13-15 e com o servo sofredor de Isaías 52-53: “e [Jesus] começou a ensinar que o Filho do Homem deveria sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” [Mc 8,31; cf. Mc 2,10.27; 13,26; 14,21.41b.62]. A concepção de um Messias Nacionalista ou Triunfalista consiste na ideia de um eleito como “um guerreiro que expulse os estrangeiros, (e) levante a grandeza nacional de Israel” [KONINGS; GOMES, 2018, p. 44 (7); cf. Mc 8,16; 9,18b; 9,32; 9,38]. No entanto, a restauração de Israel não se dá por meio das armas de guerras e utilização da violência, como forma de conquista política e territorial. Os discípulos do Batista questionam: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?” Jesus lhes responde: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: cegos recobram a vista, paralíticos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho. E bem aventurado quem não se escandaliza por causa de mim!” [Mt 11,3-4]. O Profeta Zacarias apresentou o estilo do restaurador de Judá: “[teu rei] é justo e salvador, humilde e montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta [...]. será exterminado o arco de guerra e ele falará de paz às nações [9,9b-10b]; Isaías apresenta um programa de governo paradigmático à concepção vigente: “De suas espadas, forjarão arados e de suas lanças, podadeiras. Nação contra nação, não levantará espada, e não se adestrarão mais para a guerra. Ó casa de Jacó, vinde, caminhemos à luz do Senhor” [2,4b-5]. Portanto, Jesus, o manso e humilde [cf. Mt 11,29], cessa qualquer forma de violência, instaurando um novo tipo de messianismo que busca promover a vida dos pobres, permitindo-lhes ser protagonista de sua história; aos pobres se juntam também os estrangeiros que poderão aderir à proposta do Reino, porque Deus quer salvar a todos [Mt 15,21-28; Lc 7,11-17; Jo 4 etc]. Ademais, a viúva e o órfão são categorias da predileção de Deus [cf. Zc 7,10; Jr 7,6-7; Sl 10{9b},18; 146{145},9; Mc 10,21; 12,40], os quais sempre são injustiçados por sistemas que desfiguram a Boa-Notícia do Reino. Por três vezes, Jesus anuncia sua Paixão [cf. Mc 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34], com as quais Pedro não admite como desfecho da missão do Mestre! Porém, Jesus o corrige, pedindo-o para que tome a posição de discípulo, isto é, colocar-se atrás do Mestre, buscando uma mudança de mentalidade para pensar as coisas de Deus e não conceber os fatos vindouros, segundo os critérios humanos [cf. Mc 8,33b]. Aqui, podemos recordar Rm 12,2: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada o que é perfeito”. Eis um desafio para Pedro e também para nós: renunciar a própria vida, os interesses pessoais, e carregar a cruz para tornar-se como o Mestre, buscando sempre colocar em prática o querer de Deus [cf. Mc 8,34b-37]! Por isso, dizer que “Jesus é o Cristo” é um ato de fé comunitário e pessoal, no qual está a base da fé cristã. Por meio desta solene profissão, precisamos encontrar qual o desdobramento ético para a vida e missão de quem se disponibiliza a colocar-se como seguidor de Jesus. A cada dia celebrado, cada homem e mulher, membros da comunidade eclesial, precisam progredir no caminho de fé, e, ao nutrir-se das catequeses evangélicas, descobrir a vontade de Deus e aprender a praticar a justiça, da qual Jesus é protótipo e exímia testemunha! 2.1 Quem é Jesus de Nazaré, segundo a concepção do Evangelista Marcos? Na introdução do relato evangélico, Marcos nos diz: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” [1,1]. O título de um texto bíblico revela a intenção do autor, a qual se sustentará ao longo dos demais capítulos. Marcos é o primeiro catequista a utilizar o termo “evangelho” para descrever um relato de fé, o qual “em seu sentido mais popular e difundido [...] referia-se a qualquer tipo de ‘boa notícia’” e “era usado tanto entre os judeus como no mundo do Império” [OPORTO, 2015, p. 22] (8). Aqui, falamos de um texto que conta para o ouvinte-leitor uma mensagem sobre a vida de Jesus; portanto, trata-se de um texto sagrado. Como tal evangelho é, então, o ‘anúncio de um acontecimento extraordinário’ nos lábios de quem o transmite e para os ouvidos de quem o escuta. Os primeiros cristãos assumiram e utilizaram o termo euangélion para definir o evento Jesus Cristo na sua totalidade. Euangélion é a mensagem salvífica, anunciada oralmente, e tem seu início na vida e obra de Jesus, pois ele é a boa notícia revelada aos homens. [FERNANDES; GRENZER, 2012, p. 8-9] Em termos cronológicos, Marcos é o relato evangélico mais antigo, do qual Mateus e Lucas se serviram como fonte. Por isso, são conhecidos como “Evangelhos Sinópticos”, ou seja, “com a mesma óptica”. Assim, compreendemos o porquê de sua brevidade, como tempo da narração (9), o qual não deixa de apresentar-nos uma teologia sólida e consistente, que auxilie o discípulo progredir no conhecimento de Jesus e sentir-se interpelado ao seu seguimento. Se Mateus é profundamente eclesiológico, então Marcos tem um forte conteúdo cristológico. Portanto, neste Ano B, trilharemos um itinerário cristocêntrico, descobrindo a identidade de Jesus que se mescla à identidade e ética dos discípulos. Segundo a exegese bíblica, se atribui a João Marcos como autor, citado várias vezes em outros textos do Novo Testamento: At 12,12.25; 13,5-13; 15,37.39; Cl 4,10; Fm 24; 2Tm 4,11; 1Pd 5,13 [HARRINGTON, 2019, p. 453] (10). Em Mc 14,51-52, talvez estaria aí um dado sobre o autor implícito, pois, o autor real não é possível saber quem ele é. Ademais, Marcos teria escrito para uma comunidade que tinha o desejo de conhecer Jesus, pois não provinha do judaísmo, ou seja, os leitores implícitos são cristãos não-judeus. Assim, se explica as inúmeras expressões aramaicas e costumes judaicos, ao longo do texto: 3,17; 5,41; 7,11.34; 14,36; 15,22.34; 7,3s; 14,12; 15,42 [idem]. Jesus é este homem que passou pelo mundo fazendo o bem [cf. Mc 7,37]. Por isso, ele é o modelo autêntico de homem justo, isto é, aquele que pratica a justiça [recordar o termo, segundo o Ano A]. Consequentemente, Deus lhe tem profundo amor: “Tu és o meu Filho amado, em ti, eu me agrado” [Mc 1,11]. Em Jesus, encontra-se encarnado todo o projeto de Deus para a humanidade. Com sua encarnação e com seus gestos e palavras, Jesus inaugura o reinado de Deus na história dos homens. Percebamos como a liturgia é perfeita, e propõe um caminho gradual para a formação dos discípulos-missionários: no Ano A conhecemos o Deus de Jesus e qual é o seu projeto para o ser humano, de modo que o discípulo possa assimilá-lo em sua vida e colocá-lo em prática, a fim de alcançar o Reino dos Céus [ler Mt 5-7 || Mt 24-25]; no ano B, vemos o modelo perfeito de homem justo, realizando tudo o que Deus quer. No momento crucial, Jesus abre mão do seu próprio querer e não abandona o projeto do Pai, levando-o às últimas consequências: “E dizia: ‘Abá, Pai! Tudo te é possível. Afasta de mim este cálice. Contudo não seja o que eu quero, mas o que tu queres’” [Mc 14,36]. Esta forma de viver diz respeito ao reinado de Deus na história que se inaugura com a propagação da Boa-Notícia: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: ‘Cumpriu-se o tempo, e está próximo o Reino de Deus. Arrependei-vos e crede no Evangelho’” [Mc 1,14-15]. Depois disso, o relato apresenta o chamado dos primeiros discípulos, Simão e André: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” [Mc 1,17]. Mas em que consiste o Reino de Deus? O Reino de Deus é a verdadeira obsessão de Jesus. Para Jesus, o Reino é o senhorio efetivo e absoluto do Pai sobre todos e sobre tudo. Ademais quando Deus reina, tudo se modifica. É a revolução e a transfiguração absoluta, global e estrutural dessa realidade, do homem e do cosmos, plenificados de todos os males e cheios da realidade de Deus (1Cor 15,28). [NODARI; CESCON, 2017, 84] (11) Segundo Marcos, “o Reino de Deus é como alguém que lança a semente sobre a terra. Quer esteja dormindo ou acordado, de dia e de noite, a semente germina e cresce, sem que ele saiba como. Por si mesma, a terra produz fruto [...]” [Mc 4,26-28a; cf. Mc 9,1.47b; 10,14.23.25; 14,25; 15,43]. Para entrar na dinâmica deste Reino, implica mudança de mentalidade, e deixar-se guiar pela providência de Deus [cf. Mc 1,15; Lc 12,22-32], cujos sinais encontram-se nas ações e gestos de Jesus! Como os ouvintes não conseguem compreendê-los, Jesus lhes fará algumas correções, o que pode desdobrar-se em adesão ou rejeição à sua mensagem. “Jesus pretende mostrar aos discípulos que a confissão Tu és o Cristo não era uma simples afirmação que brotara nos lábios de Pedro, mas consistia em uma revelação que exigia assumir, aderir e entender o plano divino para o Messias, isto é, a realização do Reino de Deus e sua vontade” [FERNANDES; GRENZER, 2012, p. 32]. a) Jesus e seus discípulos se deslocam para os povoados de Cesareia de Felipe, uma cidade que “se encontra na fronteira entre a região dos judeus e o mundo pagão” [KONINGS; GOMES, 2018, p. 44]. Uma geografia muito significativa para o que virá a seguir. Recordemos que com Mc 8,27, iniciamos o Caminho do Filho do Homem, no qual Jesus percorrerá acompanhado dos que estão com ele [cf. Mc 3,14]. No caminho, Jesus lhes faz uma pergunta. Primeiramente, Jesus pede dos discípulos o que eles têm ouvido dos “homens” sobre sua identidade; decerto, como a multidão o vê [Mc 6,14-15]: “Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros um dos profetas”. Com efeito, a multidão sempre está próxima de Jesus, se admirando com o ensinamento que vem dele [cf. Mc 1,22; 2,2.13; 3,7.20; 4,1; 5,21; 6,34.45.56; 7,14; 8,1.34; 9,14.15; 10,16.46; 12,12.37]; a multidão se encontra fora do Grupo dos Doze, mas faz com que a fama de Jesus se espalhe por toda a região da Galileia [cf. Mc 1,28]; b) Se os discípulos estão com ele, então Jesus lhes pede seu parecer: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro diz: “Tu és o Cristo”. Com essa profissão de fé, chegamos ao ponto alto da catequese de Marcos, cuja introdução identifica Jesus como “Filho de Deus”; “Messias” ou “Cristo”, hebraico e grego respectivamente, que significam “o Ungido de Deus”; Jesus é o Eleito para salvar o povo de Deus, mas as autoridades políticas e religiosas de Israel não o reconhecerão como tal, porque estão apegados à tradição dos antigos [cf. Mc 7,13] e impossibilitados de verem a novidade que há na pregação de Jesus. Aqui, compreendemos o quão necessário é percorrer este caminho, na companhia do Mestre, para conhecê-lo com convicção. Sem percorrer o caminho com Jesus, estando próximo dele, qualquer definição sobre sua pessoa e má interpretação do que ele faz serão deturpadas, a ponto de querer eliminá-lo [“os fariseus imediatamente conspiraram com os herodianos contra Jesus, a fim de o matar” |Mc 3,6; 11,18; 14,1|]; c) Ao final, Jesus lhes faz um pedido: “E Jesus os advertiu para que a ninguém falassem a seu respeito”. Se chegamos ao ponto alto do relato bíblico e se a intenção do autor é revelar a identidade de Jesus, então por que manter segredo? Voltamos a um aspecto que só encontramos em Marcos, o chamado “Segredo Messiânico”. O mesmo pedido Jesus já o fizera em outros trechos do Evangelho [Mc 1,34.44; 3,12; 7,36; 8,26.29; 9,9]. Do que se trata? Consiste em um recurso literário bem significativo, cujo objetivo é fazer com que o ouvinte-leitor não tire conclusões antecipadas do caminho de Jesus, a via crucis, o que pode levar a incompreensões e ideias errôneas sobre sua pessoa e missão! É isso que Marcos está tentando reverter: focando na pessoa de Jesus, como o “Filho de Deus” [Mc 1,1], “Filho do Homem” [Dn 7,13] e “Servo sofredor” [Is 52-53], ele permite ao ouvinte-leitor perceber que o messianismo de Jesus caminha na contramão da lógica humana (“Tu [Pedro] não pensas de acordo com Deus, mas de acordo com os homens” |Mc 8,33b|). “Pelo segredo messiânico, Jesus revela o caminho assumido, capaz de manifestá-lo como Filho que verdadeiramente se entregou à vontade do Pai” [FERNANDES; GRENZER, 2012, p. 30]. Portanto, o Segredo Messiânico levará o leitor a ver Jesus como o homem que se coloca à serviço da causa do Reino, não o Messias nacionalista, com a fama de guerreiro lutador! Perceba a fineza teológica de Marcos e a reviravolta que propõe: em Jesus, em suas ações e palavras se revela o tempo novo e definitivo de salvação. É esta uma realidade que explode e não pode ficar escondida. Contudo, esta explosão do reino de Deus realiza-se plenamente, mas de maneira paradoxal, através da morte e ressurreição. Então só a luz deste acontecimento pode ser entendido todo outro gesto e palavra de Jesus” [FABRIS; BARBAGLIO, 2014, p. 508] (12). Sem uma teologia da cruz, o cristão não poderá ser um discípulo autêntico, porque, como comunidade eclesial, “nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios [...]. Cristo é o poder e sabedoria de Deus, pois o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens” [1Cor 1,23-24]. Jesus porta, como ferramenta de trabalho para o anúncio da Boa-Notícia, o amor de Deus e seu querer, o projeto para a prática da justiça, do qual Jesus é modelo perfeito. Feita a correção, tendo passado pelo crivo da cruz e vivendo com autenticidade os valores do Evangelho, o discípulo poderá dizer: nós vimos, e damos testemunho [cf. 1Jo 4,14]. 2.1.1 Um cenário geográfico que revela uma predileção Como cenário geográfico, por que Jesus inicia o anúncio da Boa-Notícia na Galileia? Qual a intenção de Marcos? A Galileia estava longe do Templo, de Jerusalém e da Judeia [cf. BALANCIN, 2018, p. 26] (13). Não era um lugar bem quisto: “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do além Jordão, Galileia das Nações” [Mt 4,15; cf. Is 8,23; 1Mc 5,15]. “Nações”, aqui, tem o mesmo significado que “pagãos”, ou seja, os povos circunvizinhos de Israel que não professavam a fé judaica. Em João 4,9b, o mal-estar com os samaritanos, também pagãos, é explícito: “Os judeus, de fato, não se dão com os samaritanos”. Se se constata essa realidade, então por que iniciar um ministério ali? Longe do centro, a Galileia está na periferia, o lugar dos marginalizados [cf. BALANCIN, 2018, p. 26]. Logo, os pobres são os primeiros destinatários da Boa-Notícia do Reino. “Evangelho” é uma boa nova de libertação, integração, valorização da vida, porque o Deus de Jesus é o Deus da vida. O salmista diz “porque Altíssimo é o Senhor, mas olha os pobres” [Sl 138{137},6] como convicção de fé de que Deus está ao lado dos marginalizados, rejeitados pela classe dominante e política do tempo de Jesus. Deus quer mostrar sua força de transformação, a partir dos fracos. O Evangelista Lucas afirma que a unção do Senhor está sobre Jesus, para que ele anuncie a Boa-Notícia aos pobres [4,18]. Deste modo, compreendemos que as ações de Jesus, curas realizadas ao homem com espírito impuro, à sogra de Pedro, ao leproso, ao paralítico, entre outros, demostram a libertação do ser humano, cuja vocação é: “no espaço da autonomia que Deus lhe abre ao retirar-se, assumir sua responsabilidade diante do criado e ser criador de um mundo verdadeiramente humano pelo doce poder de sua palavra. É assim que o ser humano se torna o que é, imagem de Deus” [WÉNIN, 2006, p. 21] (14). Libertos de suas amarras e agruras, de todo mal que lhes impedem ser homem e mulher livres, Jesus faz de seus discípulos e discípulas autênticos testemunhos de sua mensagem. Temos um grande compromisso como continuadores da missão do Filho de Deus. Reconhecer Jesus como “o Cristo” tem suas implicações na vida do cristão. Quais seriam elas? A profissão “Tu és o Cristo” precisa ser assimilada diariamente, com atitudes que condizem com os discursos. A responsabilidade do discípulo é grande, e se trata de um projeto de felicidade: o Reino de Deus é para os pobres e, segundo o salmista, feliz de quem pensa no pobre e no fraco, porque o Senhor o libertará no dia do mal, guardará sua vida e irá torná-lo feliz sobre a terra [cf. Sl 41{40},2-3]. Portanto, vejamos a inclusão: Jesus inicia seu ministério na Galileia [cf. Mc 1,14]; o que isso implicará na missão dos discípulos? No sepulcro vazio, o jovem com vestes brancas dirá às mulheres: “Ide, porém, dizer a seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vai à vossa frente para a Galileia; lá o vereis, como vos disse’” [Mc 16,7; cf. Mc 14,28]. A Galileia se torna o lugar de experiência com o crucificado-ressuscitado, na pessoa do pobre! Foi lá que Jesus deu início ao seu messianismo, será também lá o ponto de partida dos seus seguidores, cuja missão é proclamar a Boa-Notícia do Reino de Deus. 3. Quem é o discípulo (a) de Jesus? Ó Senhor e nosso Deus, dai-nos a paz, pois agistes sempre em tudo que fizemos. [Is 26,12] Quando Marcos se refere à João Batista, o relato nos diz que ele é o mensageiro a frente, cuja voz clama deserto, aplicando ao profeta um texto da profecia de Isaías [cf. Mc 1,2; Is 40,3]. Todos os elementos de um texto bíblico têm seu porquê e precisamos captar a mensagem, ora explícita ora implícita. Vimos que Jesus foi para a Galileia, pregar o Evangelho depois da prisão de João. O profeta sai de cena e dá lugar ao Filho do Homem. E já compreendemos o porquê da Galileia. No entanto, o que significa o deserto, em âmbito bíblico? No Antigo Testamento, o povo atravessou o deserto para chegar à terra prometida, da qual Moisés não tomou posse e elegeu como líder Josué para instruir o povo a caminho [Ex 15,22-18,27]. Foram quarenta anos de altos e baixos, segundo o Sl 95{94},10. No deserto, Jesus é tentado em um período de quarenta dias, logo após a cena do batismo no rio Jordão. João, o Batista, batizava no deserto instruindo o povo para a conversão, ou seja, a mudança de mentalidade e atitude [cf. Mc 1,4]. Ora, o deserto é o lugar da decisão ou rejeição pelo projeto de Deus. Para Marcos, o deserto é lugar de encontro com Deus e de decisão. O deserto é lugar e momento de recuperar as forças. [...] No deserto prevalecem tons luminosos: comunhão com Deus, paz messiânica, harmonia com a natureza e bênção divina sobre a qual se deixa conduzir pelo Espírito de Deus, inclusive quando enfrentamos as tentações e as trevas. [NODARI; CESCON, 2017, p. 19]. Jesus, tentado no deserto, não se deixa subornar pelo diabo, mas se mantém convicto do querer de Deus para sua vida [cf. Mt 4,10; Lc 4,13]. “Do deserto, Jesus vem robustecido para seu caminho e sua obra radicalmente decidido por Deus e pelo anúncio do Reino” {idem} [cf. Lc 4,1]. O povo da primitiva aliança caminha entre erros e acertos, escutando a voz de Deus, sob a constante intervenção de Moisés e, em seguida, Josué. É um povo de cabeça dura, de coração transviado, que não conhece o caminho do Senhor [Sl 95{94},10-11], porém Deus é “compassivo e clemente, paciente e de grande misericórdia” [Sl 145{144},8]! Esta mesma realidade faz parte da vida dos discípulos. Jesus quer dar aos seus companheiros na missão, uma formação sólida e consistente, de modo que tomem consciência do que se trata o seu messianismo, porque a missão do discípulo se espelha na missão de Jesus, e eles não podem se desfalecerem pelo caminho [cf. Mc 8,3]. O próprio Jesus os preveniu de tudo [cf. Mc 13,23]. Logo, o discípulo-missionário é todo aquele que opta livremente ao seguimento a Jesus, assimilando os valores do Evangelho e contribuindo com a construção do reinado de Deus. É discípulo de Jesus quem consegue colocar em prática a vontade de Deus [cf. Mc 3,35]. A vida dos discípulos será um testemunho autêntico de disponibilidade para com a causa do Reino, defensores da justiça, do direito e da paz! À concepção de lutar com armas de guerra para conquistar o domínio territorial, Jesus corrige com uma proposta inerente à vida do discípulo: “Bem aventurados os mansos, pois eles herdarão a terra” [Mt 5,5], isto é, a justiça do Reino ensina que o discípulo não deve praticar violência nem ter-lhe sentimentos afins. Ademais, Jesus lhes adverte: “Sabeis que os que são considerados chefes das Nações, e os seus grandes impõem sua autoridade. Entre vós não seja assim. Quem quiser ser o maior, no meio de vós, seja aquele que vos serve e quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” [Mc 10,42-44]. Para que os discípulos tomem consciência disso, Jesus fará um gesto simples, tocando em um dos cincos sentidos do corpo humano: a visão! Mc 8,27-30 tem como texto precedente Mc 8,22-26: o cego de Betsaida. Esse relato conclui a primeira parte da catequese de Marcos. Portanto, nosso questionamento é: qual a intenção do autor em colocá-lo, aqui? Este milagre realizado por Jesus só se encontra em Marcos; logo, ele é relevante para o autor e sua comunidade, e o será também para nós. Até então, há muitos questionamentos sobre os gestos de Jesus e sua própria identidade: por que fazer milagres em dia de sábado [Mc 3,1-6]? Este homem não é um blasfemo com um espírito impuro [Mc 3,30]? “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem” [Mc 4,41]? A própria família de Jesus diz que ele está louco, portanto, fora de si [cf. Mc 3,21]. Ora, quando Jesus restaura o povo de Deus chamando os Doze, Marcos relata: “Então constitui doze para estarem com ele e para enviá-los a anunciar” [3,14]. O chamado se dá na montanha, como lugar da experiência com Deus [cf. Ex 19-20]. Logo, trata-se de uma instituição divina, por meio de Jesus! Mc 8,22-26 diz que Jesus e os seus foram à Betsaida e lhe trouxeram um cego. Quem o trouxe, suplica a Jesus que toque nele; assim, ele tomou o cego pela mão e o levou para fora do povoado, aplicando em seus olhos saliva e lhe perguntou: “Vês alguma coisa?” O homem ergueu os olhos e disse a Jesus que via pessoas como se fossem árvores caminhando! Pela segunda vez, Jesus lhe impõe as mãos e ele vê perfeitamente, ou seja, ficara curado! Jesus lhe pede que ele não entre no povoado. Se este trecho se encontra em um lugar estratégico da catequese de Marcos, então qual seria a intensão do autor? Nele está personificado a incapacidade de os discípulos verem quem é Jesus. “A fé é uma experiência de exterioridade, uma saída das nossas visões repartidas, um romper com nossas perspectivas. [...] O Senhor nos conduz para fora dos círculos fechados das nossas interrogações e evidências” [MENDONÇA, 2017, p. 127]. A cegueira impede compreender o tipo de messianismo que Jesus instaura, a começar pela Galileia, longe do centro religioso e político; sem este passo, o coração dos discípulos continua endurecido [cf. Mc 6,52b; 8,17]. Por isso, o Mestre utilizará de uma pedagogia diferente para formar os seus mais próximos, com o intuito de terem condições de continuar o anúncio da Boa-Notícia, pelo mundo inteiro, cuja força de transformação se inicia com o amor ao próximo, o primeiro mandamento e o cumprimento perfeito da Lei [cf. Mc 12,33; Rm 13,8.10]. a] Jesus tomará os discípulos pela mão, para conduzi-los e instruí-los, a fim de compartilhar com eles a missão de anunciar e amar, chamando atenção para a renúncia da própria vida para seguirem o caminho da cruz [cf. NODARI; CESCON, 2017, p. 43]. Por tratar-se de uma formação precisa e direta, Jesus leva o cego para fora do povoado, longe da multidão. Com efeito, “a transformação só acontece quando aceitamos a deslocação de nosso ponto de vista habitual [...] para um lugar novo, que não é bem um lugar, mas uma relação uma companhia” [MENDONÇA, 2017, p. 134]. Recordamos o lugar que se inicia a catequese de Marcos: o deserto, lugar de decisão, que implica mudança de atitudes e hábitos, por isso, o chamado à conversão e arrependimento para o perdão dos pecados [cf. Mc 1,4], bem como o chamado dos primeiros para estarem com Jesus, os quais lhe fazem companhia para aprenderem os ensinamentos do Mestre e assimilá-los na vida; b] A cegueira implica uma dupla dificuldade: impede ver e compreender, ou seja, não assimilam a proposta de Jesus, pois a visão dos discípulos está ofuscada. O cego não consegue separar coisas de homens [“Eu vejo as pessoas como se vissem árvores andando”]. Segundo Mendonça [2017, p. 134], “a medicina é o próprio Jesus, o que nos transforma é o dom que Jesus faz de si. Por isso, o gesto da saliva é acompanhado por um outro: o da imposição das mãos que representa igualmente uma transmissão vital”. Em nossa saliva há também componentes de nossa identidade. Jesus não só cura a cegueira do homem, mas transmite a ele elementos constituintes de seu próprio ser, restabelecendo integralmente a vida do cego, e restituindo todos os seus sentidos. “A saliva é um elemento simbolicamente forte, porque a saliva é uma seiva, é uma secreção que vem do próprio Jesus” [idem]. Se o cego personifica os discípulos, então eles precisarão assimilar o jeito de ser de Jesus, para compreenderem, de fato, o que o Mestre propõe como um caminho alternativo à lógica que sustenta a ideia de muitas pessoas; c] Depois da cura, Jesus o mando para casa, com um pedido inusitado: “Não entres no povoado”. No início do texto, Marcos relata que “trouxeram um cego até Jesus”. O que fora cego agora está livre e pode caminhar para o lugar onde reside. Não se faz mais necessário que ninguém o conduza até ao lugar que Marcos privilegia como espaço do diálogo, discernimento, aprendizagem e escuta: a casa [cf. Mc 3,20; 4,10.34; 5,19; 7,17; 8,26; 9,28.33; 10,10]. Isso significa que, depois do encontro com Jesus, “há um novo horizonte, uma vida nova que começa, não é para voltar ao mesmo ponto de partida, ao mesmo lugar” [MENDONÇA, 2017, p. 134]. Portanto, para trilhar o caminho do Filho do Homem, do Messias rejeitado “pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas”, é necessário estar com os olhos abertos; os magistrados de Israel não conseguiram dar este passo e permaneceram nas trevas, cegos na sua escuridão espiritual. De fato, Jesus, luz do mundo, “veio para o que era seu, mas os seus não a receberam” [Jo 1,11; Mc 2,.16.24; 3,2.22; 7,1; 8,11; 10,2; 12,12b.13.15.]! Se da parte dos liturgos e também parte da multidão não foi possível esta acolhida, conversão de mentalidade e atitude, então a figueira estéril representa a incredulidade daqueles que se fecharam ao projeto de Deus revelado em Jesus [cf. KONINGS; GOMES, 2018, p. 58; Mc 11,12-14]. Por meio da imposição das mãos, “Marcos representa a imagem da nova dinâmica do Reino, o processo de abrir totalmente os olhos dos discípulos, para que enxergassem com clareza a sua pessoa e sua missão. Jesus quer adesão consciente e livre, e não ingênua” [NODARI; CESCON, 2017, p. 44; cf. Mc 10,16]. No final desta trajetória, espera-se do discípulo uma maturidade humana e espiritual profunda, com a qual Marcos representa com cura do cego de Jericó que é salvo pelo fé e, quando começa ver, “foi seguindo Jesus pelo caminho” [Mc 10,46-52]; com este relato de cura, se conclui mais uma secção na catequese de Marcos (15). Por que terminar duas secções com relatos de cura, cujos personagens personificam os discípulos? Não poderíamos recordar o Apóstolo Paulo que completa a corrida e guarda a fé [cf. 2Tm 4,7-8]? Quem, porém, perseverar até o fim, Jesus não prometeu que será salvo [cf. Mc 13,13]? Com efeito, o seguimento a Jesus comporta uma formação permanente que só termina com a morte, através de uma trajetória livre, consciente e responsável [cf. NODARI; CESCON, 2017, p. 109]. De fato, Pedro questiona Jesus sobre o fato de ter deixado tudo para segui-lo [cf. Mc 10,28]. Na dinâmica do Reino, a salvação é dom e tarefa; é um caminho gradual e progressivo, com um empenho comunitário e pessoal para assimilar o querer de Deus na vida, na sociedade, na família, no trabalho, no matrimônio, na consagração etc. Segundo o Documento de Aparecida parágrafo 164 (16), “o discipulado e a missão sempre supõem a pertença a uma comunidade”. O processo de conversão, como inicia a catequese de Marcos, nos esclarece que o compromisso do discípulo missionário é uma firme, decidida e transcendental resposta ao amor fiel de Deus, que exige dar um significado novo à própria existência. É uma resposta que provoca, por parte da pessoa que deve se comprometer, uma verdadeira mudança de vida, que afetará sua pessoa inteira, todas as suas decisões e seu futuro. [NODARI; CESCON, 2017, p. 103] Eis a perspicácia de Marcos: iniciar seu evangelho no deserto, lugar da opção ou rejeição a um chamado de conversão, e também a Galileia como lugar dos marginalizados, os quais só podem contar com Deus. Como o deserto e a montanha, o pobre é Jesus na carne, no qual devemos depositar o amor e a justiça do Reino. Aqui se encontra um estilo de vida que já aprendemos com Mt 5-7, cujo desdobramento é a prática do amor-serviço! Portanto, o Ano B será este caminho formativo-catequético, no qual, a partir da leitura corrente da catequese marcana, poderemos colher os elementos essenciais para compreender a nossa identidade como discípulos-missionários, a partir do testemunho e vida de Jesus! Se Marcos centra sua catequese na pessoa de Jesus, então, ao final deste percurso, ouvimos da boca do centurião romano, já no desfecho cruel pela “justiça” humana: “Verdadeiramente, este homem era filho de Deus” [Mc 16,39]. “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o evangelho a toda criatura” [Mc 16,15] será o imperativo categórico de todo homem que se dispõe trilhar o caminho da cruz, deixando de lado interesses próprios e concepções errôneas sobre o Reino instaurado por Jesus. O que Jesus fizera, agora será a vez dos discípulos: “expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum, e quando impuserem as mãos sobre os enfermos, estes ficarão curados” [Mc 16,17-18]. Na cura do cego, como também no envio, os discípulos são revestidos da força vital de Jesus, a qual lhes capacita para o trabalho missionário, partindo da Galileia. Como Deus é fiel, ele mesmo irá cooperar com a nossa missão, confirmando a palavra pelos sinais que acompanharão o anúncio da Boa-Notícia [cf. Mc 16,20]. Se Jesus passou pelo mundo fazendo o bem, colocando em prática o projeto de Deus, façamos deste versículo nossa oração para trilhar este caminho com coragem e determinação: “Eu quero cantar o amor e a justiça [...], desejo trilhar o caminho do bem” [Sl 100{101},1-2]. À Ana Angelina da Costa e Irmã Maria das Mercês Ribeiro Amorim, FC, pelo seu testemunho de vida coerente com a Boa-Notícia do Reino, exprimindo, em gestos e palavras, sua opção radical no seguimento a Jesus. NOTAS (1) Missionário lazarista [Congregação da Missão], graduado em Filosofia [ISTA] e Teologia [FAJE]. (2) Prefácio da Solenidade de Nossa Senhora da Assunção. (3) Para as citações bíblicas, estamos utilizando a Bíblia Sagrada da Tradução oficial da CNBB, 2. ed., 2019, com duas exceções, a saber, o Sl 138{137},6 e Sl 100{101},1-2, os quais optamos a tradução da LITURGIA DAS HORAS. (4) FERNANDES, Leonardo Agostini; GRENZER, Mathias. Evangelho segundo Marcos: eleição, partilha e amor. São Paulo: Paulinas, 2012. (5) MENDONÇA, José Tolentino. A mística do instante: o tempo e a promessa. São Paulo: Paulinas, 3. reimp., 2017. (6) Para a estrutura literário-teológica do Evangelho de Marcos, consultar a bíblia da CNBB, página 1390. (7) KONINGS, Johan; GOMES, Rita Maria. Marcos: o evangelho do reinado de Deus. São Paulo: Loyola, 2018. (8) OPORTO, Santiago Guijarro. Os Evangelhos: Memória, Biografia, Escritura. São Paulo: Loyola, 2015. (9) “O tempo da narração (temps racontant)”. Corresponde ao tempo empregado para descrever as cenas. Conta-se pela quantidade de palavras, frases, parágrafos e páginas”. In VITÓRIO. Jaldemir. Análise narrativa da Bíblia: primeiros passos de um método. Bíblia como leitura, 8. São Paulo: Paulinas, 2016, p. 113. (10) HARRINGTON. Wilfrid J. Chave de leitura para a Bíblia: a realização, a promessa, a realização. São Paulo: Paulus, 11. reimp., 2019. (11) NODARI, Paulo César; CESCON, Everaldo. Aprendendo com o evangelho de Marcos. São Paulo: Paulus, 1. reimp., 2017. (12) FABRIS, Rinaldo; BARBAGLIO, Giuseppe. Os Evangelhos I. 3. ed. São Paulo: Loyola, 2014. (13) BALANCIN. Euclides Martins. O Evangelho de Marcos: quem é Jesus? São Paulo: Paulus. 13. reimp., 2018. (14) WÉNIN, André. O homem bíblico: leituras do Primeiro Testamento. São Paulo: Loyola, 2006. (15) O Evangelista Mateus se utilizará de um recurso semelhante ao esquema de Marcos. Em Mt 20,29-34, temos o relato dos dois cegos de Jericó. Mateus geralmente duplica o que em Marcos é apenas um. Se este relato se encontra nesta secção e neste conjunto da obra, o autor também tem a intensão de chamar atenção do ouvinte-leitor para o que se seguirá com Jesus. E para compreender tudo que acontecerá com Jesus, é necessário curar a cegueira espiritual, a qual impede dar passos acertados no discipulado do Reino. (16) Disponível em https://docs.google.com/file/d/176mt4s0Q_8xR9HLB6aaeOOceiqYgapg2AQphbbUUTloACyo9on4s0iOYkPUi/edit. Acesso em 13 de setembro de 2020.
Gary Jansen
Gary Jansen Como uma Medalha Milagrosa pode nos conectar durante a quarentena Neste tempo de pandemia e incerteza, todos nós poderíamos recorrer a um milagre. Uma devoção muito especial pode nos ajudar. Na noite de 19 de julho de 1830, pouco antes de ir dormir, uma jovem freira noviça chamada Catarina Labouré rezou a São Vicente de Paulo, pedindo sua intercessão sobre um assunto específico. Mais do que qualquer coisa no mundo, Catarina queria ver e conversar com a Virgem Maria. ∨c Foi uma coisa muito ousada de se pedir, um pedido difícil para qualquer santo satisfazer. Afinal, a Santíssima Mãe havia falecido quase 1.800 anos antes. Porém, com Deus, todas as coisas são possíveis. Pouco antes da meia-noite, Catherine acordou com o som de alguém chamando seu nome. Ela abriu os olhos. Em pé diante dela estava uma criança de cerca de cinco anos banhada em luz como se irradiando fósforo. “A Virgem Maria está esperando para vê-la”, disse este pequeno mensageiro. A criança, que a jovem freira acreditava ser seu anjo da guarda, conduziu Catarina por um corredor até a capela do convento. Quando ela entrou, estava diante dela o deleite de seu coração: a Santíssima Virgem, inundada em ainda mais luz do que o anjo ao lado de Catarina. A jovem Catarina, com os joelhos trêmulos, sem fôlego, contemplou a visão diante dela como se ela tivesse acabado de nascer e visse a própria mãe pela primeira vez. Maria falou com Catarina, a jovem freira atenta a cada palavra daquela conversa celestial de mãe e filha. A visão da graça implorou a Catarina que fosse obediente a seus superiores e humilde. Maria deu a entender que um grande e importante destino - o propósito de vida de Catarina - seria revelado a ela no tempo devido. A jovem só precisava ter paciência. A criança acompanhou Catarina de volta ao quarto. Acalorada por suas palavras e inflamada pela presença da Virgem, Catarina ponderou essas coisas em seu coração, finalmente adormecendo. Quatro meses depois, em 27 de novembro de 1830, a Virgem Maria voltou a visitar Catarina à noite, uma estrela brilhante na escuridão. Desta vez, no que hoje poderíamos chamar de holograma, Maria estava no topo de um pequeno planeta, esmagando uma cobra sob seus pés. Em uma das mãos, ela segurava um pequeno globo; raios de luz emanaram do outro. O pequeno globo, disse a Virgem Maria, simboliza a terra, e os raios representam o amor e a graça que ela ilumina a todos que a procuram. Perto de Maria, Catarina pôde perceber uma série de palavras flutuando no ar: “Ó Maria concebeu sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. A Mãe Santíssima disse então estas palavras: “Mandai fazer uma medalha de acordo com o que vos disse. Aqueles que a usarem serão abençoados com muitas graças ”. A visão diante dela mudou, e Catarina viu o plano de Maria para a parte de trás da medalha. Deste lado, ela viu a letra M coroada com uma cruz, que representava a ligação entre Jesus e Maria; e dois corações, um rodeado de espinhos e o outro trespassado a espada, o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Em torno desta imagem havia 12 estrelas, que foi dito que Catarina representava os 12 apóstolos. Com a mente acelerada e o coração inflamado, Catarina rezou, refletindo a respeito do que experienciou - os símbolos carregados de significado e profecia - e logo compartilhou suas visões com sua conselheira espiritual e Madre Superiora. Embora o processo não fosse fácil e houvesse inúmeros obstáculos ao longo do caminho - muitos se perguntaram se Catarina estava louca - o arcebispo, após muita deliberação, aprovou os planos para a medalha. Foi projetada e cunhada, em 1832, uma impressão inicial de 1.500 medalhas. Em sete anos, mais de 10 milhões de medalhas foram distribuídas. Em 1876, ano da morte de Catarina, estimava-se que havia mais de 1 bilhão dessas medalhas usadas por crentes em todo o mundo. Até hoje é uma das devoções mais populares entre católicos e não católicos. Eu encontrei a Medalha Milagrosa pela primeira vez quando estava em peregrinação a Lourdes, na França, no santuário sagrado dedicado à Nossa Senhora das Graças e aos eventos milagrosos que aconteceram por lá, em meados do século XIX. Lá, nas colinas vermelhas do sul da França, onde o ar do outono era frio e as ruas sempre pareciam molhadas de chuva, comprei um desses medalhões em uma loja de souvenirs local. Era apenas um pequeno pingente de estanho pendurado em um pedaço fino de cordão de couro. Eu não sabia muito sobre o objeto na época, só que parecia legal. Sem mencionar que a loja parecia ter centenas deles - um best-seller, eu imaginei. Coloquei a medalha no pescoço e caminhei sob os raios do poente sol francês, até a gruta, para orar. A gruta, uma espécie de recorte natural na encosta de uma montanha, foi onde, em fevereiro de 1858, Bernadette Soubirous, de 14 anos, teve a primeira de 18 visões da Virgem Maria. Foi então que a Mãe Santíssima revelou à jovem seu desejo de que o mundo experimentasse o amor de seu filho e participasse das águas salvadoras que corriam em um riacho sob esta meia caverna. Desde então, esta área remota se tornou um ponto de encontro e refúgio para peregrinos, pecadores, náufragos e enfermos, em busca das milagrosas águas curativas que foram abençoadas pela Virgem Maria há tantos anos. Já era noite. O chão estava molhado e o céu trazia uma mistura de índigo e cinza. Eu realmente não esperava um milagre; Eu estava apenas vagando curioso, sem saber o que veria ou sentiria, embora, é claro, secretamente desejasse experimentar uma aparição de Maria diante de meus olhos. Não tive uma visão naquela noite, mas posso ter recebido algo quase tão especial. Quando entrei na área da gruta, caí de joelhos e levantei os olhos para uma estátua da Virgem Maria, de aproximadamente 1,80M de altura, situada bem na minha frente, na montanha, envolta em branco e azul, seus olhos se voltaram em direção aos céus. Respirei fundo, fechei os olhos e orei. Eu estava vagamente ciente dos murmúrios abafados e passos arrastados de dezenas de outros peregrinos, como eu, se aproximando do local, em reverência. As pessoas cantavam como um coro errante de anjos. Entrei em um estado de meditação em algum lugar entre o sono e a vigília. Eu não sei durante quanto tempo estive orando, mas deve ter sido por muito tempo. Em algum momento, abri meus olhos e olhei ao meu redor. Vi ao longe o que deveriam ser pelo menos mil caminhantes segurando velas tremeluzentes na escuridão, enquanto faziam sua cuidadosa peregrinação da gruta à igreja, a Basílica do Rosário, em outra parte das montanhas. No brilho deste fogo sagrado, vi velhos e jovens caminhando de mãos dadas. Vi homens e mulheres em cadeiras de rodas, pessoas lutando com muletas. Havia uma maca na qual estava um homem, com a cuidadora ao seu lado. Todos aqueles rostos, aqueles corpos atrapalhados, a fé coletiva de todas essas pessoas me fizeram sentir como se estivesse flutuando de joelhos, não necessariamente levitando, mas com a sensação de ter meu coração elevado dentro de mim. Comecei a chorar, grandes soluços que vinham de algum lugar bem no fundo de uma parte de mim que eu nem sabia que existia. E parecia que, de alguma forma, eu havia me conectado com todos esses andarilhos em busca de seus milagres. Toquei a medalha em volta do meu pescoço. Eu fechei meus olhos. Dei graças a Deus, Jesus e à Mãe Santíssima por me entregar a este momento. No dia seguinte a essa experiência, voltei à loja onde havia comprado a medalha e encontrei um livrinho que continha a Novena da Medalha Milagrosa. Em homenagem a esse momento, orei durante meus últimos nove dias na França e na viagem de avião para casa. Há alguns anos, perdi o livreto e nunca mais o encontrei, mas a devoção não foi abalada. Você pode imaginar como essa oração foi preciosa para mim, ao ponderar em meu coração a experiência que tive naquela noite. Agora, enquanto viajamos por estes tempos aparentemente sem precedentes e incertos, vamos nos unir em oração, por cura, por um milagre, por nós mesmos e por todo o mundo. A Novena da Medalha Milagrosa Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Venha, Espírito Santo, encha o coração dos seus fiéis e acenda neles o fogo do seu amor. Envie o seu Espírito, e eles serão criados. E você deve renovar a face da terra. Rezemos. Ó Deus, que instruiu os corações dos fiéis pela luz do Espírito Santo, concede-nos no mesmo Espírito para sermos verdadeiramente sábios e nos alegrarmos sempre na sua consolação, por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém. Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós. (Repita três vezes.) Ó Senhor Jesus Cristo, que concedeu glorificar por inúmeros milagres a Bem-aventurada Virgem Maria, imaculada desde o primeiro momento de sua concepção, concede que todos os que imploram com devoção sua proteção na terra, possam desfrutar eternamente de sua presença no céu, que, com o Pai e Espírito Santo, viva e reine, Deus, para todo o sempre. Amém. Ó Senhor Jesus Cristo, que para a realização das tuas maiores obras escolheu as coisas fracas do mundo, para que nenhuma carne se glorie à tua vista; e que por uma crença melhor e mais difundida na Imaculada Conceição de sua Mãe, desejaram que o Milagroso Manifeste-se a medalha a Santa Catarina Labouré, conceda, nós te imploramos, que cheios de igual humildade, possamos glorificar este mistério com palavra e obra. Amém. *Artigo publicado originalmente por Angelus News. Tradução para o português de Sacha Leite **Gary Jansen é editor executivo da Loyola Press e ex-diretor da Image Books da Penguin Random House. Ele é o autor de "Life Everlasting", "Station to Station" e "The 15-Minute Prayer Solution".  
Pe. J. Patrick Murphy, CM
Pe. J. Patrick Murphy, CM As lições de São Vicente de Paulo Mais de 1.500 biografias de São Vicente foram escritas nos quatro séculos desde que ele caminhou sobre a terra. Dentre elas, várias foram publicadas em diversos volumes; algumas versões com defeito, outras, piedosas, e várias, de boa qualidade. Meu propósito aqui é o de mostrar, em poucas palavras, o quanto Vicente realizou através de suas obras e o quanto nós podemos aprender com este mestre para fazer a diferença neste mundo. Este artigo não é sobre a espiritualidade, a teologia, ou a oração de Vicente; nem sobre sua História ou histórias sobre ele. Existem estudos excelentes sobre tais temas; inclusive, recomendo vários deles – alguns bem curtos –, ao final destas linhas, para quem desejar ler mais. Por que se preocupar com um homem que viveu há 400 anos? O que podemos aprender, de fato, de importante para hoje? Proponho-lhes algumas razões à serem consideradas. “A maior das realizações de Vicente, o que se pode chamar sua Opera Omnia, é o notável corpo de obras de caridade iniciadas por ele, e que ainda floresce como seu legado” (Melito, p. 41, 2010). Sua herança, hoje, vai muito além das obras iniciadas por ele. Seu trabalho mudou a percepção do mundo sobre os pobres. Sua organização do serviço dos pobres foi pioneira na história mundial. Ele era um homem comum e muito humano; às vezes egocêntrico, preocupado com dinheiro, ambicioso, com defeitos, sem direção certa – até que uma mudança contagiante acontece (“the tipping point”). Ele deu tudo aos pobres e se tornou o homem mais rico em humanidade. O mundo se voltou contra ele; e ele o mudou. Esteve deprimido por três anos e meio. Ele passou 25 anos à procura de si mesmo, encontrou Deus e os pobres. Por que tantas pessoas no mundo seguem com paixão seus passos, 400 anos mais tarde? Membros da Sociedade de São Vicente de Paulo (SVP): 800.000+ Membros da Companhia das Filhas da Caridade (FC): 16.000+ Membros da Congregação da Missão (CM): 3.231+ Membros da Associação Internacional de Caridade (AIC): 150.000+ Membros da Juventude Marial Vicentina (JMV): 100.000 + Membros e voluntários da Depaul Internacional: 2.000 +  Organizações da Família Vicentina: 40+ Organizações que se inspiram de Vicente de Paulo : 250+  O que revela um nome? Seu nome, ele sempre o assinou “Vincent DePaul.” Ele queria ter certeza de não ser confundido com alguém da nobreza; ele poderia ter tirado partido da situação, se assinasse “De Paul”. Todos os que o conheceram e o admiraram, chamavam-no de santo, de sábio, de homem virtuoso, de apóstolo da caridade, e na sua morte, père de la patrie – pai da pátria. Mas ele preferia ser chamado simplesmente de Monsieur Vincent para não criar barreiras entre ele e os demais, especialmente os pobres.  O mundo no alvorecer do século XVII Desde o nascimento de Vicente em 1581, e ao longo de toda sua vida, a França esteve em guerra por uma razão ou por outra, exceto nos seus últimos meses de vida. Quando Vicente nasceu a população de Paris era de cerca de 200.000 hab.; em 1660, ano de sua morte, ela havia se duplicado. Nesta época, a sociedade francesa era composta de três classes ou grupos de pessoas, os nobres, os camponeses, e o clero. Para a grande maioria das pessoas que não nasciam da nobreza, e cuja sorte era a de trabalhar nas terras dos nobres, as chances de melhorar de vida eram quase nulas – a não ser que se tornasse clérigo. Nascimento: Vicente de Paulo nasceu em abril de 1581, mas seus primeiros biógrafos deram como data 1576 - porque eles procuravam esconder o fato de que ele teria sido ordenado muito jovem, supostamente sem ter atingido a idade permitida pela lei. Ele foi ordenado em 1600, quando ainda era estudante; e durante seu tempo livre, ele dirigia um pensionato para ajudar a pagar suas despesas. Ele se formou em teologia em 1604. Depois de se formar, ele desapareceu por dois anos, sendo encontrado finalmente em Roma. Mais de uma pessoa suspeitaria que ele estivesse fugindo para não pagar empréstimos feitos na época de seus estudos. O certo é que não tendo encontrado em Roma as portas abertas para subir na vida rapidamente, ele vai para Paris. Em Paris, tornou-se deprimido e frustrado correndo atrás de um ganho honesto, rentável, e de possíveis fontes de renda para garantir seu futuro. Quando a sorte começou a sorrir-lhe, ele escreveu à sua mãe em 1610, que logo poderia lhe enviar uma boa quantia para sustentá-la com toda a família por muitos anos. E que logo, tudo correndo bem, ele teria fontes de renda suficientes para se retirar honestamente. Ele tinha 29 anos. A grande mudança de Vicente Vicente passou seus primeiros anos tentando chegar ao topo, tentando juntar dinheiro o suficiente para viver confortavelmente, para tomar conta de sua família e viver o resto de sua vida de maneira tranquila, retirando-se honestamente. Ele quase conseguiu. Mas quando chegou aos 36 anos, ele teve de se confrontar com uma mudança irreversível que o atingiu, desviando-o de rota. Malcolm Gladwell escreve sobre o ponto de virada ou de revés (“the tipping point), como o momento em que as coisas se unem para inclinar o fiel da vida rumo a algo novo. Para Vicente, esta mudança veio principalmente de duas experiências que se passaram no ano de 1617. A primeira delas se passou no mês de janeiro, no vilarejo de Folleville, (que significa cidade louca), quando ele fez a pregação ao povo. Na verdade, seu sermão teve um efeito tão grande sobre seus ouvintes que eles acorreram a ele para confessar; a multidão era tão grande que ele teve de pedir ajuda aos Jesuítas. Em Folleville, Vicente descobriu os pobres e as grandes necessidades deles. E ele percebeu que era um pregador extremamente carismático. O segundo acontecimento desta mudança de direção se passou em agosto. Vicente tinha acabado de deixar a família dos Gondi, seus patrões, para se tornar pároco em Châtillon-les-Dombes. Lá, ele foi informado sobre uma família cujos membros estavam todos doentes, sem alimentos, sem medicamentos e sem ninguém para cuidar deles. Ele ouviu, e a partir dessa realidade, fez um sermão impressionante. E Vicente aprendeu algo que ele aplicou em seu trabalho durante sua vida: em todo lugar há sempre grande caridade, mas ela está fracamente organizada. Prontamente ele decide organizá-la, criando o primeiro sistema de caridade organizado na Paróquia, deixando-o pronto antes do Natal de 1617. Para grande decepção do povo da paróquia de Châtillon, ele voltou para a casa dos Gondi para retomar seu trabalho. Porém, a senhora de Gondi, vendo seu interesse e sua preocupação cada vez maiores para com os pobres, sugeriu-lhe que voltasse para Châtillon e que, lá, fosse feliz trabalhando com os pobres; ou ele poderia voltar a atenção para todos os pobres da França, organizando um serviço para todos eles. Vicente agarrou esta chance. Sua intuição lhe dizia que ele aceitaria. A senhora de Gondi investe $ 2,5 milhões, uma fortuna, para apoiar a iniciativa. Vicente tinha descoberto, com efeito, a missão pessoal de Jesus Cristo: “Eu vim para anunciar a Boa Notícia aos pobres”. Ele fez da missão de Jesus sua missão, de agora em diante. Aos 32 anos, ele visitou sua família pela última vez, sentindo-se fracassado e envergonhado, pois, à partir deste momento, não conseguiria arranjar meios de melhorar as condições de sua família. Ele doou a sua herança aos seus sobrinhos e sobrinhas. O amor de Vicente pelos pobres deixou-os contentes. Enfim, ele retornou para Paris, sentindo profundamente ter de deixar sua família. Em 1625 Vicente fundou a Congregação da Missão. Para comprometer a Igreja, as paróquias, na evangelização dos pobres, ele não mediu esforços no trabalho da reforma do clero. A situação em geral do clero ao qual Vicente ajudou a reformar é descrita por um bispo da época, quando descreve o seu próprio clero:  “... um grande e incontável número de padres ignorantes e corruptos do meu clero não são capazes, nem por palavras ou por exemplos, de se emendarem. Fico horrorizado de pensar que em minha diocese há cerca de sete mil padres beberrões ou libertinos, sem vocação, que sobem ao altar todos os dias”. (Correspondência 683, CCD 2, 473) Vicente começou seriamente à servir os pobres, reformando o clero. Em 1633, ele fundou as Filhas da Caridade com Luísa de Marillac, uma viúva que fora até ele procurando um conselheiro espiritual. Neste mesmo ano, ele tomou posse de São Lázaro e lançou a maior das organizações modernas, em potencial de crescimento, já vista até então. O trabalho conjunto de Vicente e de Luísa desenvolveu exponencialmente o serviço social em pouquíssimos anos. Os dois, incompletos e imperfeitos um sem o outro, despertaram o melhor um do outro no melhor sentido da liderança transformacional, mudando o mundo do serviço. Eles não poderiam ter feito este trabalho um sem o outro. Resumindo Vicente institucionalizou suas obras de caridade nos últimos vinte anos de sua vida (1635-1660), gerenciando-as pessoalmente, sempre que possível, e através de orientações escritas, quando não podia fazê-lo pessoalmente. Ele escreveu mais de 30.000 cartas durante sua vida; delas, restam-nos mais de 11.000.  Vicente foi uma pessoa de grande talento, com uma boa educação e uma grande paixão. Uma pesquisa da McKinsey & Company sobre grandes produtores descobriu que pessoas talentosas são raras. Talento faz uma diferença enorme, tornando-se extremamente crucial para uma vantagem competitiva. As melhores pessoas, em termos de talento, são muito melhores do que as demais. Por exemplo, 16 compositores criaram 50 por cento de toda a música clássica que se ouve até hoje. A outra metade vem de 235 compositores. Dez por cento dos autores escreveram 50 por cento dos livros da Biblioteca do Congresso dos E.U.A.. Pessoas altamente criativas erram tanto quanto as outras, no entanto elas produzem muito mais; por conseguinte, elas têm um maior sucesso. Vicente se enquadra nesta descrição, pois ele viveu mais, produziu mais, errou também e teve mais sucesso do que seus contemporâneos. Mia Hamm, capitã da Equipe Feminina de Futebol, medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de 1996, disse muito bem: “Os fatores mais importantes para o sucesso foram a comunicação, a compreensão mútua, o respeito e a capacidade de trabalhar em conjunto, desenvolvidos durante os doze anos, mais ou menos, em que o núcleo estável do grupo atuou junto”. Lições da vida de Vicente de Paulo 1. Vicente passou 25 anos tentando encontrar-se, tentando evitar queimar a largada e tentando se livrar de sua própria ambição. Lição: É normal ficar um pouco perdido no caminho quando se está à procura de si. 2. Vicente esteve deprimido por 3 anos e meio. Encontrar-se é um trabalho árduo. Lição: Se você estiver atravessando o inferno, continue caminhando sem parar. (Sir Winston Churchill, primeiro-ministro da Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial). 3. Vicente passou sua vida até aos 36 anos (1617) procurando por si mesmo, procurando Deus, e por uma renda estável para que ele pudesse se retirar em grande estilo. Ele encontrou, com efeito, sua missão pessoal no serviço aos pobres. Lição: Às vezes o que você encontra é muito melhor do que o que você procurava. 4. Vicente sentiu que havia falhado com a sua família e teve receio de ir vê- los; mas quando foi até lá e os encontrou, receberam-no amavelmente. Depois, ele retornou para Paris e nunca mais os viu. Ele chorou por três meses. Lição: Às vezes é bom retornar a nossa casa familiar. Às vezes, algumas boas lágrimas ajudam. 5. Vicente viveu com a nobreza (a família dos Gondi), mas fazia suas refeições com os servos. Lição: Humildade e simplicidade sempre funcionam bem com as pessoas. 6. Vicente finalmente tinha descoberto sua missão: anunciar a Boa Nova aos pobres, a mesma missão de Jesus-Cristo. Ele encontrou seu modelo. Lição: É bom ter uma missão pessoal na vida. É ainda melhor se ela for altruísta e nobre.  7. Os historiadores descrevem o período em que Vicente viveu como parte da chamada pequena idade glacial. Metade das colheitas se perderam; a fome aumentou num ritmo galopante e o número de pobres, exponencialmente. Lição: É bom ter um grande desafio na vida. Você pode fazer a diferença de alguma maneira. 8. A França esteve em guerra durante toda a vida de Vicente, exceto nos últimos meses. A decapitação de dissidentes religiosos era comum. Uma grande parte do clero era incompetente, corrupta, ou ambos. Lição: Não deixe que o ambiente o desencorage; você pode fazer a diferença de alguma maneira.  9. Entre 1610 e 1660, a população de Paris aumentou de cerca de 200.000 para mais de 400.000 hab.. A cidade não podia fornecer água, comida, nem dispor de um serviço de coleta de dejetos, suficientes para tal população. As doenças aumentaram significativamente. Lição: Às vezes, o crescimento piora as coisas. Tente ver, de alguma maneira, as oportunidades. 10. Vicente teve conselheiros e escolheu os melhores, como o padre Pierre de Bérulle e São Francisco de Sales. Vicente tornou-se con- selheiro e ajudou outras pessoas a descobrir o melhor delas: Jean- Jacques Olier, Santa Joana de Chantal, e Santa Luísa de Marillac. Lição: Conselheiros fazem a diferença. Tenha um bom. Seja você mesmo um bom. 11. Em Luísa de Marillac Vicente encontrou a parceira perfeita para construir seu modelo de empreendimento que provocará uma mudança de impacto no mundo. Luísa, como Vicente, era imperfeita e tinha suas dificuldades, mas, juntos, eles foram uma fonte de inspiração. Lição: Pessoas imperfeitas são tudo o que temos; aceite-as e trabalhe com elas.  12. Um monge ofereceu a Vicente uma enorme propriedade, São Lázaro, fora dos limites da cidade de Paris. Ela tinha 74 hectares e para percorrer seu perímetro à pé, o tempo gasto era de uma hora e meia. Vicente a recusou porque, segundo ele, ela era muito grande, muito dispendiosa e mudaria a Congregação. Ele estava certo. O monge queria passar a propriedade para frente. Lição: A primeira lei da economia: nada é gratuito. Cuidado com os cavalos de Tróia e com ofertas grátis. Jim Collins nos encoraja a ter metas grandes, “cabeludas” e audaciosas – em inglês, BHAGs, Big Hairy Audacious Goals. Trata-se de descobrir seu grande e audacioso objetivo. Quanto ao monge e a Vicente, à primeira vista, nenhum dos dois viu aí uma oportunidade. 13. Apenas um ano mais tarde Vicente aceitará São Lázaro e se mudará para lá. Neste lugar havia pessoas com problemas mentais, leprosos, filhos rebeldes de nobres, sacerdotes com problemas e muitos pobres. Agora, São Lázaro estava funcionando com mais de 600 lugares e prosperou desde o início. Lição: Às vezes, leva-se um certo tempo para que todas as peças de um bom plano encaixem-se. (“Deus o fez”). Vincente descobriu seu grande e audacioso objetivo, com a ajuda de Deus. 14. Vicente tinha 1 metro e 73 centímetros de altura. Lição: Tamanho não é tudo. Não é necessariamente uma pessoa grande que faz uma grande diferença. 15. Vicente soube equilibrar e fazer interagir na sua vida e no seu trabalho, oração, reflexão e ação. Lição: É muito mais fácil viver uma vida equilibrada, se você mixa os componentes básicos.  16. Vicente viveu concretamente a vida, só mais tarde redigirá as regras. Ele escreveu as regras da Congregação da Missão 33 anos depois da fundação da mesma. Lição: Viva a vida de maneira reflexiva, faça pequenas mudanças no caminho. 17. Vicente viveu 80 anos. Ao morrer, pensou que não tinha feito o suficiente. A expectativa de vida no seu tempo era de 35-37 anos. Lição: Você pode ter muito mais tempo e ocasião para fazer o bem do que você merece. Nunca é tarde demais para começar. Oscar Schindler, refletindo sobre sua vida (no filme “A Lista de Schindler”) disse: “Eu poderia ter feito mais!” Conta-se que, quando Vicente estava no seu leito de morte, alguém lhe perguntou o que ele teria feito de maneira diferente em sua vida, e ele disse “mais”. 18. Vicente era de origem camponesa, de uma família de agricultores relativamente confortável, e era também um bom conhecedor do direito, sendo muito eficiente em matéria de procedimento jurídico. Lição: Conheça suas raízes e poderá ajudar as pessoas que trabalham com você.  19. Vicente era um trabalhador infatigavel e tinha um temperamento muito forte, era bom em fazer mímicas, podia contar boas histórias e se relacionava bem com as mulheres. Lição: Conheça os seus dons, seus pontos fortes e suas limitações – potencialize-os. 20. Vicente vendeu um cavalo alugado e desapareceu por dois anos; depois contou uma grande história para explicar sua ausência. Mais tarde, ele tentou reaver o que ele chamou de “aquelas cartas miseráveis” contendo a história da qual ele nunca falou. Lição: Tudo bem se você tiver coisas em seu passado que não fazem sentido; faça sempre o bem. 21. Vicente foi aos camponeses pobres. Em seu tempo, 98% da população vivia nos campos, não nas cidades. Lição: Vá onde há necessidade; não a espere vir até você. Quando Vicente tomou posse de São Lázaro, ele disse à sua equipe para não esperar que os hóspedes pedissem uma toalha ou um sabão, mas que providenciasse tudo para eles, com diligência. (Quando a polícia prendeu o famoso ladrão de bancos Willie Sutton, um policial perguntou-lhe o motivo pelo qual ele roubava bancos. Ele respondeu: “Porque é lá que o dinheiro está”.)  22. Vicente pregou um sermão de “um milhão de dólares” que mudou a sua vida e as vidas dos pobres na França. Este sermão, que ele pregou em Folleville, surpreendeu-o e está na origem da descoberta da missão de toda a sua vida. Posteriormente, a senhora de Gondi oferece um fundo de US$ 2,5 milhões para a missão de Vicente. Lição: Seja atento às pessoas, depois tente ser bom no uso da palavra, seja na fala ou na escrita, e será um líder de fato.  23. Ele pregou um segundo sermão também famoso. À partir deste, muitas pessoas se sentiram motivadas à dar alimentos e medicamentos à uma família; eram tantas pessoas que formaram um grande cortejo rumo àquela casa. Vicente olhou, viu aquilo, e percebeu imediatamente que havia ali uma grande caridade, contudo estava fracamente organizada. Seu maior dom, o de servir os pobres, passa pela sua capacidade de organizar o esforço das pessoas – é a primeira vez na história mundial. Lição: Esteja atento às suas experiências, você pode encontrar seu maior talento.  24. Vicente foi capaz de convencer o governo a mudar a forma como os prisioneiros eram tratados, para que as vidas deles se tornassem mais humanas. Lição: Nunca subestime seu próprio poder e sua influência para fazer o bem. 25. Vicente não tinha medo de mudar as regras quando necessário. Também não tinha medo de deixar as coisas que não funcionavam. Lição: Todo mundo comete erros; aprenda com eles e siga em frente. 26. Antes de envolver o clero no serviço aos pobres, ele teve de trabalhar na reforma e na educação do mesmo. Lição: O melhor lugar para começar é, sempre que possível, o lugar onde você se encontra. Nós não podemos fazer isso sozinhos; lembremos que seguidores são líderes também. 27. Vicente escreveu a um de seus gestores – managers –, sobre o qual ouvira queixas de que estava servindo comida e vinho de má qualidade. Ele disse-lhe para servir boa comida e bom vinho aos que trabalham no serviço dos pobres. Lição: Cuide de seu pessoal; celebre pequenos sucessos. Conclusão Talvez, a lição mais importante de todas é que Vicente era um homem de ação. A linha de ação que ele adotou naquela época, alguns a chamariam, hoje, de serviço proativo. É neste sentido que Pujo afirma que Vicente “acreditava na virtude da ação e gostava de usar esta divisa: Totum opus nostrum in operatione consistit (Toda a nossa missão consiste em agir)” (Pujo, 251). Quais são os maiores nomes quando falamos de serviço aos pobres? Madre Teresa? São Francisco de Assis? Quem mais? Quem organizou a força humana para servir os pobres? Não foi Jesus, nem Francisco ou Madre Teresa que o fizeram de uma maneira englobante. Foi Vicente de Paulo. Jesus inspirou-os todos: “Enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres”. Francisco pregou e viveu isto. Vicente fez tudo isso e acrescentou a organização. Ele criou, deste modo, o aprimoramento contínuo da qualidade através do trabalho direto com os mais pobres, adotado por todas as suas organizações. Melito (p. 62) explica: “A caridade e a compaixão de Vicente foram além dos serviços costumeiros de dar comida e de vestir o pobre e o abandonado, de socorrer os doentes ou os refugiados de guerras ou de todo tipo de catástrofe. Ele não ficava esperando passivamente que o pobre viesse até ele. Ele era proativo, pois tomava a iniciativa de ir ao pobre. Em várias ocasiões, ele enviava membros de seu pessoal ‘aos casebres e sótãos miseráveis de Paris aos necessitados, especialmente para visitar os doentes’”. Que ferait Vincent aujourd’hui? O que Vicente faria hoje? Quando Walt Disney morreu, antes que pudesse começar a construção do DisneyWorld, o conselho de administração da Disney decidiu enterrar o projeto. Mas o irmão de Walt, Roy, já aposentado, largou a aposentadoria e disse: “Vamos construí-lo por Walt.” Eles construíram e inauguraram a mais bem sucedida empresa de entretenimento familiar. Então, ao longo dos 23 anos seguintes, os líderes da Disney se perguntavam, “O que Walt faria?” Por conseguinte, eles perderam o próprio caminho, repetindo a si mesmos essa mesma pergunta – o que muitos descreveram como “Gestão por Invocação”. Hoje em dia, facilmente nos pegamos perguntando-nos : “O que Vicente faria?” ou “O que Jesus faria?” Nós, no entanto, sempre encontraremos nosso caminho, se nos fizermos, antes de tudo, a pergunta Vicentina essencial feita pela senhora de Gondi, “Alguma coisa deve ser feita; o que eu devo fazer?” Vicente fez esta pergunta ao povo em Châtillon, e eles deram comida aos pobres. Ele descreveu ao rei da França as condições dos prisioneiros obrigados ao trabalho forçado nas galeras; o rei o enviou para que pudesse melhorar a situação deles.  À partir do momento que temos consciência de que alguma coisa deve ser feita e se formos corajosos o bastante para nos perguntar “o que eu devo fazer?”, nós sabemos “o que Vicente faria” Leituras recomendadas   Coste, C.M., Pierre, Monsieur Vincent, Le grand saint du grand siècle (Paris: Desclee, 1934). English edition: The Life and Works of St. Vincent de Paul, Trans. Joseph Leonard, C.M. (Brooklyn, NY: New City Press, 1987).  Fuechtmann, Thomas G., “There is Great Charity, But...,” Vincentian Heritage, DePaul University Vincentian Studies Institute, Chicago, 2005.  Gladwell, Malcolm, The Tipping Point How Little Things Can Make a Big Difference, New York: Little, Brown and Company, 2000.  McKenna, C.M., Thomas, Praying with Vincent de Paul, St. Mary’s Press Christian Brothers Publications, Winona, Minnesota, 1994. Melito, C.M., Jack. Saint Vincent de Paul: His Mind and His Manner, DePaul University Vincentian Studies Institute, Chicago, 2010. Murphy, C.M., J. Patrick, “Servant Leadership in the Manner of Saint Vincent de Paul,” Vincentian Heritage, DePaul University Vincentian Studies Institute, Chicago, 1998. Murphy, C.M., J. Patrick, “We Want the Best,” Vincentian Heritage, DePaul University Vincentian Studies Institute, Chicago, 2005.  Murphy, C.M., J. Patrick, “Hospitality in the Manner of St. Vincent de Paul,” Vincentian Heritage, DePaul University Vincentian Studies Institute, Chicago, 2015.  Paul, Vincent de and Coste, Pierre C.M., “Correspondence, Conferences, Documents, Volume II. Correspondence vol. 2 (January 1640- July 1646).” (1988). Pujo, Bernard, Vincent de Paul the Trailblazer, Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2003. Roman, C.M., Fr. Jose Maria, St. Vincent de Paul A Biography, London: Melisende, 1999   Sobre o autor* J. Patrick Murphy, CM, Ph.D., é professor honorário na área da Liderança Servidora Vicentina e Diretor Animador de Valores da Depaul International, organização a serviço dos sem-abrigo, presente em seis países.  Tradução para o português: Pe. Vandeir Barbosa, CM
Sílvia Regina Martins
Sílvia Regina Martins Paróquia São Sebastião, Jenipapo de Minas A Paróquia São Sebastião de Jenipapo de Minas, diocese de Araçuaí, Minas Gerais, está localizada na região nordeste do estado, conhecida como Vale do Jequitinhonha. Uma região marcada por contrastes econômicos, sociais, culturais e religiosos, mas também de inúmeras belezas resultantes do processo de sua colonização. Jenipapo de Minas não existia no início do século XX. Contam os antigos moradores que existia na localização onde hoje se encontra a Praça Bom Pai, um antigo cemitério, onde também se encontrava enterrado o venerado “Pai Joaquim”, escravo que, segundo dizem os moradores mais velhos, muito sofrera antes de morrer e a quem muitos moradores atribuem milagres e curas. Sua festa popular acontece todos os anos no primeiro final de semana do mês de maio. A festa é organizada pela Associação dos Devotos de Pai Joaquim. Uma festa que se destaca pela cultura e religiosidade popular. Na década de 1940, algumas pessoas começaram a construir suas casas em local próximo ao antigo cemitério, onde foi se constituindo o lugarejo. A Capela de São Sebastião, primeira igreja da localidade, foi construída pelos primeiros moradores. Local onde reuniam para missas, celebrações, vários padres vieram atender a localidade como Padre Bernardino, Padre Jaime, Frei Celeste, Padre Willy, Padre Vítor, entre outros, mas não residiam aqui. Destacamos o Padre Vitor Gomes dos Anjos, que tinha uma propriedade próxima à cidade onde morava, e por muitos anos atendeu a região, como meio de transporte usava um burro, para ele não existia limites geográficos que o impediam de atender o povo. A Paróquia São Sebastião foi oficialmente criada em 31/03/1981, pelo Decreto de número 002/81, assinado pelo então Bispo Diocesano Dom Silvestre Luís Scandian S.V.D. O território paroquial compreende o município de Jenipapo de Minas e comunidades dos municípios circunvizinhos de Araçuaí, Chapada do Norte e Francisco Badaró. Com um território extenso e um relevo muito acidentado, de precário acesso às comunidades rurais, como também a dificuldade de transporte e comunicação faz com que o processo de evangelização na paróquia seja um grande desafio. A presença da Congregação da Missão na paróquia teve como marco inicial a primeira Missão Popular Vicentina, em janeiro de 1998, onde padres, seminaristas, religiosos e leigos de outras cidades, e também da própria paróquia, envolvidos na missão, visitaram famílias, comunidades rurais e urbanas, com momentos de oração, formação e escuta. O cruzeiro que marcou o encerramento da missão continua no mesmo local onde foi colocado, a missão marcou época e até hoje é lembrada, com saudade, por quem vivenciou esses momentos. Em fevereiro de 2007 foi criada a obra Missão-Paróquia Vale do Jequitinhonha, na diocese de Araçuaí, especificamente para as paróquias de Francisco Badaró e Jenipapo de Minas. Os padres da Congregação da Missão fixaram residência em Francisco Badaró, atendendo à paróquia de Jenipapo de Minas. A obra iniciou com os padres Paulo José de Araújo CM, José Gonzaga de Morais, CM, e o Diácono Emanoel Bedê Bertunes (hoje padre). Outros padres da Congregação da Missão que moraram na comunidade e atenderam a paróquia de Jenipapo de Minas: Pe. Raimundo João da Silva, Pe. Pedro Dias de Lima, Pe. Alex Sandro Reis, Pe. Marcus Alexandre, Pe. Luiz Rodrigues Veras, Pe. Getúlio Mota Grossi, Pe. José Valdo dos Santos e Pe. Wander Ferreira. Atualmente morando em Jenipapo de Minas, o Padre Vanderlei Alves dos Reis, CM, é o Administrador Paroquial. Ele também pertence à comunidade/obra de Francisco Badaró, juntamente com o Padre Erik de Carvalho Gonçalves, CM, Irmão Louis Francescon Costa Ferreira, CM e Irmão Adalberto Costa Silva, CM. Na Paróquia existe uma comunidade religiosa feminina, a Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, que pertence à Província de Belo Horizonte. A comunidade foi fundada na paróquia em fevereiro de 2001. Atualmente residem na comunidade as religiosas Irmã Nícia, Irmã Maria das Mercês, Irmã Zelaides e Irmã Conceição. Elas desenvolvem vários trabalhos pastorais e sociais na comunidade, principalmente com as pessoas em situação de vulnerabilidade social. Estão sempre dispostas para servir à comunidade, acompanhando, apoiando os grupos de reflexão, Juventude Mariana Vicentina, Grupo de Visitas aos enfermos, Oficina de bordados, Projeto Bom de Bola Bom na Escola, construção de casas para famílias carentes, Pastoral da Criança, Família Vicentina a nível paroquial e regional. Outras religiosas aqui moraram: Irmã Terezinha, Irmã Aparecida, Irmã Lourdes, Irmã Augusta, Irmã Rosaria, Irmã Elizabeth. Em janeiro de 2010 celebramos a segunda Missão Popular Vicentina na paróquia com a presença de padres, leigos, irmãos, religiosos e seminaristas. Os missionários visitaram as famílias, reuniaram os grupos e as comunidades, celebraram a vida. A Paróquia São Sebastião hoje é constituída pela sede, em Jenipapo de Minas, além das comunidades urbanas, que são dividida por bairros (Centro, Laranjeiras, Alto do Campo, Pai Joaquim, Lagoinha, Agreste e Novo Horizonte). As comunidades rurais estão divididas em 4 setores: Setor Centro: Curtume, Bosque, Ribeirão do Bosque, Santana, Lagoa de Serafim, Cipó, Vila São José, São Lucas, Santa Luzia, São Tarcísio, Ribeirão de Areia 1, Machado Córrego, Machado Pai Joaquim, Machado Vila e Vargem Formosa. Setor 2: Agrovila 1,Barragem, Cacheira, São José do Bolas, Silvolândia e Martins.  Setor 3: Santo Antônio do Bolas, São Judas, Muquém, Lagoa Grande, Campo Limpo e Veredas I. Setor 4: Granjas, Estiva, Ribeirão de Areia 2, Barra do Ribeirão do Granjas, Vargem do Setúbal, Agrovila 2, Veredas 2, Tamboril e Ribeirão da Cachoeira. O trabalho nos setores facilita a comunicação e a formação dos leigos. As comunidades paroquiais conservam ainda hoje traços característicos do movimento das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), lugares de celebração da fé, centrada na Bíblia. As missas nas comunidades acontecem mensalmente, nas menores a cada dois meses. Quando não há celebração da missa, as pessoas se reúnem para as celebrações da Palavra (Culto dominical), Grupos de Reflexão (Círculos Bíblicos), novenas e festas dos padroeiros das comunidades, além da novena de natal. Uma característica marcante nas comunidades rurais da região é a ausência dos homens por um grande período no ano, já que os mesmos viajam para o corte de cana, café e laranja, deixando as mulheres e os filhos, e buscando melhores condições de vida, uma vez que aqui não conseguem trabalho. As mulheres são conhecidas como viúvas de maridos vivos. Elas cuidam dos filhos, lavoura, gados, sozinhas por todo o período de ausência dos maridos. A tradicional festa do padroeiro São Sebastião comemorada no dia 20 de janeiro é um momento de forte de evangelização e confraternização da paróquia. A programação da festa sempre diversificada com novenas, missas, leilões, procissões, levantamento do mastro e show pirotécnico. As procissões, leilão e mastro são animados pela banda “Filarmônica Nosso Sonho” composta por adolescentes e jovens da cidade. A Festa de Nossa Senhora da Conceição é o principal evento do município, e é realizada no mês de setembro. Uma festa religiosa que já acontece há muitos anos e atrai visitantes de toda a região. Em sua programação, acontecem novenas, missas, coroação, leilões, levantamento do mastro, procissões, além de shows musicais com artistas, em praça pública, no centro da cidade. A festa de Nossa Senhora da Conceição é um grande momento para a paróquia e todo o município de Jenipapo de Minas. Todos aguardam ansiosos a chegada dessa festa que fortalece a fé e proporciona alegria, diversão e confraternização. Ainda no mês de setembro, celebramos a festa de São Vicente de Paulo, com tríduo, procissão, missa, mastro, leilão e, no encerramento, uma confraternização comunitária. As solenidades religiosas são sempre preparadas e realizadas com zelo e entusiasmo por todos os paroquianos. Os leigos participam ativamente na paróquia através de pastorais (ação da Igreja Católica no mundo ou o conjunto de atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão, que consiste primariamente em continuar a ação de Jesus Cristo), movimentos (embora atuem nas paróquias, geralmente são regidos por estatutos próprios e possuem coordenações nacionais e internacionais) e equipes de serviços ( trabalhos que visam oferecer uma assistência religiosa, espiritual, formativa ou social diante das necessidades de pessoas ou grupos), que estão sempre à frente de diversas atividades, buscando sempre o protagonismo dos leigos. As pastorais, movimentos e serviços da nossa paróquia: Conselho Pastoral Paroquial – CPP, Conselho Paroquial Econômico, Catequese, Coroinhas, Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão, Grupo de Oração: Frutos no Espírito – RCC, Sociedade São Vicente de Paulo, Apostolado da Oração, Mãos Ensanguentadas de Jesus, Terço dos Homens, Mães que oram pelos filhos, Pastoral do Dízimo, Pastoral da Criança, Pastoral do Batismo, Grupo Consciência Negra, Juventude Mariana Vicentina, Equipe do Cuidado/Limpeza da Igreja, Equipe de Liturgia, Equipe de Cantos, Grupos de Reflexão/Círculos Bíblicos. As Pastorais Sociais aqui representadas pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) e Pastoral do Migrante, atuam na paróquia através da equipe diocesana e regional. O Serviço Pastoral do Migrante vem prestando relevante atenção e acolhida aos migrantes, refugiados vindos de qualquer região independente de cor, raça ou credo. O núcleo tem realizado principalmente o acompanhamento aos migrantes temporários e suas famílias, promovendo visitas missionárias populares, onde são feitas reflexões bíblicas para alicerçar a discussão dos problemas sociais que envolvem os migrantes e famílias, tendo como um dos seus principais eixos o combate ao trabalho escravo e a migração forçada. O trabalho da CPT e Pastoral do Migrante com a comunidade quilombola de Lagoa Grande teve uma grande participação do Padre Paulo José, CM, no período em que aqui residiu. A Província Brasileira da Congregação da Missão, desde a sua chegada na paróquia é sempre parceira das entidades locais através dos projetos sociais, visando a melhoria da qualidade de vida da população. O Projeto CPF – Construindo e Preparando o Futuro – foi um deles. Realizado em parceria com a prefeitura local, através da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte, Turismo e Lazer, entre os anos de 2008 e 2012, o projeto visou a capacitação de educadores, crianças, jovens e lideranças comunitárias. Despertando o protagonismo, a valorização da cultura e saberes locais, tornou-se ainda mais evidente a íntima ligação entre evangelização, formação da consciência crítica e a promoção humana integral, como fez e recomendou São Vicente de Paulo. A Província Brasileira da Congregação da Missão, por intermédio dos padres que aqui moraram apoiou a AJENAI (Associação Jenipapense de Assistência a Infância) com o projeto Fortalecimento de Vínculos. Por meio desse projeto, contribuindo para impulsionar e fortalecer ações que se desdobraram e hoje temos consolidado: Coral Ribeirão de Areia I (contribuiu inclusive com a gravação do primeiro CD). Bordadeiras do Curtume (contribuiu para o momento de formação do grupo enquanto espaço de encontro, troca, aprendizagem umas com as outras, construção do sentimento de pertencimento ao seu lugar, a valorização dos saberes e a descoberta dos talentos). Hoje o grupo está com geração de renda, espalhando seus talentos pelo mundo. Além dos citados também surgiram Intercâmbio da saúde, Mostra Cultural, Grupo de Dança e Trupe de Circo. Entre os anos de 2013 e 2018 os padres da Congregação da missão deixaram de atender a paróquia de Jenipapo de Minas, os trabalhos desenvolvidos com as comunidades, os vínculos criados, o jeito Vicentino de ser e evangelizar, mas continuaram sendo vividos e lembrados por todos da paróquia, uma mistura de saudade e gratidão. No ano de 2019 o Bispo diocesano Dom Marcello Romano pediu ao Visitador Provincial Padre Geraldo Eustáquio Mól Santos, CM, para que a Congregação voltasse a assumir a paróquia de Jenipapo de Minas. Com um ano de trabalho, já é notável o quanto caminhamos, recuperando a alegria de ser Igreja, o sentimento de pertença das comunidades e pessoas. O carinho e acolhimento na paróquia, o ardor missionário de São Vicente. Uma Palavra da Escritura deu sentido para sua missão tão atual nos dias de hoje: “O Senhor me enviou para evangelizar os pobres” (cf. Lc 4,18).
Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, CM
Pe. Vinícius Augusto Ribeiro Teixeira, CM Pandemia, tempo de escolhas decisivas Desde que se instalou a pandemia da COVID-19, tenho sido convidado a compartilhar reflexões sobre a surpreendente travessia que estamos fazendo, cindidos por seus efeitos devastadores. Preferi esperar para viver mais intensamente e observar mais atentamente o que nos envolve, tentando compreender algo da radical novidade do acontecimento, suas causas, suas ressonâncias, seu significado profundo, as realidades que desvela, os apelos que suscita, as possibilidades que nos abre. Além disso, a assombrosa quantidade de análises e interpretações, sob diferentes óticas e perspectivas, algumas mais precipitadas, outras mais amadurecidas, dava-me a impressão de que não havia mais nada a ser dito ou escrito, embora, sim, falte muito a ser contemplado, intuído, descoberto, aplicado. Passados os meses, a impressão não mudou. Aflorou, porém, a consciência de que devo compartilhar – sem fatalismos e sem ingenuidades – alguns lampejos do que essa experiência comum me levou a pensar, rezar e discernir. Nada de inaudito, certamente. Nada que supere o que outros já disseram desde seus pontos de vista, com muito mais ciência e autoridade. Apenas uma leitura, um olhar que se fixa na certeza de que, por detrás de tantas nuvens sombrias, o sol continua brilhando. 1. Um ensaio sobre a vulnerabilidade Em seu estupendo Ensaio sobre a cegueira (1995), o Nobel de literatura José Saramago (1922-2010) descreve a desoladora situação dos habitantes de uma cidade colapsada por uma epidemia. Homens e mulheres, de distintos extratos sociais e faixas etárias, se encontram – sucessivamente e dentro de pouco tempo – completamente privados de visão. A aflição do drama é tão contundente que parece enlaçar o leitor desde as primeiras páginas. Confinados em um mesmo espaço e acotovelando-se na mais completa precariedade, os contagiados começam a distinguir-se por suas reações antagônicas. Há aqueles que, nos estertores do desespero, dão vazão aos mais baixos e repugnantes instintos de perversão e desumanidade: busca de vantagens egoístas, indiferença ante o sofrimento alheio, domínio despótico, atos reiterados das mais abjetas formas de abuso e violência. Da cegueira, passam fragorosamente à perda do sentido e deste, ao desespero, à barbárie, à loucura.  Por outro lado, a brutalidade da narrativa é atenuada por aqueles personagens que, embora imersos na mesma calamidade e enfrentando as mesmas privações, preferem lançar mão de uma reserva de humanidade que talvez sequer conhecessem. Estes se prodigalizam em palavras, gestos e iniciativas de generosidade, cuidado e compaixão, acudindo especialmente a debilidade dos mais indefesos. Assim, em meio à mais densa escuridão, despontam luzes; entre impenetráveis pedregulhos, brotam flores; sob rigoroso inverno, acendem-se lareiras. Sem a atuação do segundo grupo, resultaria nauseante a leitura dessa primorosa obra literária, tamanho o realismo das cenas e comportamentos ali descritos. O que se pode captar da intensidade desse Ensaio? Certamente, um sem-fim de conclusões. Uma, porém, parece impor-se com mais evidência em tempos como o nosso: em situações-limites – quando o ser humano se vê irremediavelmente confrontado com sua própria fragilidade, quando se dá conta da inapelável finitude de suas pretensões, quando apalpa a vã ilusão de sua autossuficiência, quando se descobre enfim desnudado por circunstâncias que parecem tirar-lhe o chão de suas seguranças – é, então, que se lhe descortinam apenas duas possibilidades: viver com sentido e caminhar na direção de um horizonte que lhe preencha o coração e tonifique os passos, despertando e cultivando o que há de melhor em si e ao seu redor; ou deixar-se tragar pelo medo e pela angústia, aterrorizado pela cegueira do absurdo, lastimando os dissabores do agora, trancafiando-se na solidão do individualismo, laqueando enfim sua fecundidade vital, sempre tão rica em potencialidades ainda não advertidas e exploradas. A sabedoria judaico-cristã consignada na Bíblia sintetiza assim esse dilema precípuo da humana condição: diante de nós, estão a vida e a morte. Resta-nos, pois, saber escolher (cf. Dt 30,19). 2. Semear entre lágrimas... A pandemia representou uma enorme perplexidade para o mundo inteiro. Todos nos vemos atormentados por uma completa incerteza em relação ao futuro. De repente, fomos obrigados a abrir mão de nossos ritmos habituais, a cancelar nossas agendas, a adiar projetos, a recolher-nos em nossas casas e a conviver com o que desconhecíamos. Quem alguma vez poderia ter imaginado que a humanidade passaria por semelhante situação? De fato, jamais teríamos antevisto uma ameaça de tamanha gravidade e tão amplas proporções, precisamente em uma época como a nossa, caracterizada por prodigiosas conquistas no campo das ciências e por ostensivos avanços tecnológicos. As notícias alarmantes dos exponenciais contingentes de pessoas infectadas e da morte de muitas delas nos confrontam diariamente com a vulnerabilidade de nossa condição. A falta de um antídoto capaz de conter a proliferação do inimigo invisível e debelar seus efeitos joga por terra muitas fantasias de prepotência por parte do ser humano. A elucidativa associação do coronavírus aos desequilíbrios ecológicos provocados pela degradação da Casa Comum desperta-nos para a consciência de que, na teia da vida, tudo está visceralmente interligado. O isolamento compulsório obriga-nos a repensar valores, reordenar costumes e redefinir prioridades. A recessão econômica abre nossos olhos para a desoladora realidade de que, embora estejamos todos sob a mesma tormenta e atravessando os mesmos mares revoltos, navegamos em barcas diferentes, algumas bem abastecidas e equipadas, outras precárias e instáveis, como são as dos que se encontram abaixo da linha de pobreza, dos povos indígenas, dos migrantes e refugiados, dos que se acham nas ruas etc. E não poderia ser diferente em um mundo no qual uma minoria se delicia na fartura e uma multidão definha na penúria. Outro agravante diz respeito à conduta adotada por instâncias governamentais, geridas por indivíduos desprovidos de sensibilidade, lucidez e competência, cujos argumentos e procedimentos atingem as raias dos mais infaustos absurdos, como o de subjugar cavilosamente a saúde e o bem-estar de toda uma população aos ditames da lei do mercado, minimizando ironicamente as causas e as consequências de um virulento tsunami. Verdadeiro colapso da democracia, emoldurado de cinismo e arrogância. Vemos deflagrar-se uma crise ética que há muito medrava nos terrenos movediços da política, agravada agora pelos estremecedores índices de desemprego em massa, carências elementares e mortes prematuras. E, por falar em morte, o duro golpe dessa penosa realidade se incrementa com a impossibilidade da despedida dos que partem e do abraço mútuo que alivia a saudade. Tudo isso defrontou-nos seriamente com questões substanciais, como a do sentido da vida, levando-nos a refletir sobre o direcionamento que damos às nossas opções e decisões de cada dia, bem como sobre a consistência das intenções que nos guiam e das motivações que nos animam. Na indigência, costumamos intuir com mais clareza o que realmente importa. É o que experimentamos quando, em um longo percurso sob um sol causticante, descobrimos o valor incalculável da água que sacia nossa sede, da sombra que nos abranda o cansaço, da brisa que seca nossa fronte umedecida. Se, por um lado, a crise não se mostra favorável a escolhas decisivas; por outro, ela as impulsiona, revelando-nos quem somos e cobrando-nos, como é justo, discernimento, sensatez e tenacidade. Neste período, não houve quem, em algum momento, não tenha parado para pensar a respeito da origem, do sustento e do fim de sua existência, bem como de sua relação com o Transcendente a quem os que cremos chamamos Deus. Ideias distorcidas a respeito de Deus fizeram com que alguns lhe atribuíssem a causa da pandemia, como se se tratara de um desígnio punitivo para castigar as veleidades e transgressões humanas. Outros, ao contrário, fazendo jus à fé professada em um Deus que é amor e só sabe amar, valeram-se das contingências do momento para submergir-se mais profundamente na amplidão do mistério e desfrutar da proximidade reconfortadora daquele que é o amigo incondicional da vida (cf. Sb 11,26), que veste os lírios, alimenta as aves e ocupa-se sem cessar do bem de seus filhos, tal como Jesus nos fez descobrir ao revelar-nos o rosto providente daquele que é seu e nosso Pai (cf. Mt 6,25-34). E em quem mais poderíamos reclinar a cabeça senão naquele que é o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que recolhe em seu odre as lágrimas do mundo (cf. Sl 56,9), consolando-nos para que saibamos consolar os que se acham em aflições maiores do que as nossas (cf. 2Cor 1,4)? Ao longo deste tempo desconfortável, podemos testemunhar também a generosidade e até o heroísmo de muitas pessoas e grupos que, apesar da apreensão e do medo, conseguem converter o deserto árido em terra fértil, transformando a crise em possibilidade e fazendo da pandemia uma ocasião de aprimoramento humano e de serviço altruísta. O que não dizer dos profissionais da saúde que, permanentemente expostos aos riscos do contágio, se devotam ao cuidado dos doentes em geral e dos infectados em particular? E os que se dispõem a socorrer as pessoas em situação de rua, levando-lhes alimentos, medicamentos e suprimentos? Também os trabalhadores que se ocupam da limpeza, do transporte, da segurança, do abastecimento de nossas cidades são merecedores de gratidão e aplausos. E aqueles que, no escondimento de suas casas, protegem seus entes queridos, especialmente os idosos, enfermos e crianças? Como não apreciar a criatividade de artistas e comunicadores que, gratuitamente ou em ações beneficentes, proporcionam conteúdos capazes de instruir e entreter sadiamente os que se acham confinados? Como não pensar no senso ético de alguns políticos brasileiros que se notabilizam no zelo pelas cidades e estados de que são responsáveis, remando contra a corrente do governo federal e recusando-se a banalizar a tragédia e a dar guarida ao hóspede indesejado? E ainda os líderes religiosos que não interromperam seu labor e não deixam de povoar a solidão de seus fieis com uma presença inspiradora e uma palavra de paz, oferecendo-lhes o conforto da fé? Não podemos olvidar o empenho de cientistas e pesquisadores na tentativa de descobrir uma vacina capaz de pôr fim à ameaça letal do coronavírus. Tantos outros exemplos poderiam ser citados para dizer de homens e mulheres que, no limiar da vida, tocando de perto a própria fragilidade, não amesquinharam o coração: vizinhos que se apoiam mutuamente, grupos que não deixam à mingua os mais necessitados, pessoas que não renunciam ao sentido comum e não relaxam nas medidas sanitárias de prevenção e resguardo etc. Além disso, não há como desconsiderar o fato de que a tecnologia vem se constituindo em um valioso auxílio para manter e alargar a comunicação e a interação entre as pessoas, favorecendo inclusive iniciativas de solidariedade. E estamos certos: “Quem semeia entre lágrimas, entre sorrisos colherá” (Sl 126,5). 3. Sempre aprendizes: rasgados e remendados Como no Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, a pandemia que afetou a população de forma tão incoercível permitiu-nos tomar maior consciência de nossa finitude e enxergar melhor o caos existente no interior de nós mesmos, das famílias, das instituições e da sociedade em geral. Foi o que afirmou o Papa Francisco, sem circunlóquios, naquela comovente celebração na Praça de São Pedro completamente vazia (27 de março de 2020), inspirando-se em Mc 4,35-41: “A tempestade desmascara nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos nossos programas, nossos projetos, nossos hábitos e prioridades. Mostra- nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade”. E acrescenta, dirigindo-se ao Senhor: “Tu nos chamas a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo de teu juízo, mas de nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a ti, Senhor, e aos outros”. São vagarosos nossos aprendizados, como são tardias nossas descobertas. Nas sendas da fé, sabemos que “o Senhor vai acendendo luzes quando vamos precisando delas”. Assim, a crise, a adversidade e o sofrimento, por mais que pareçam mensageiros de tragédia, podem ajudar-nos a amadurecer, tornando mais límpidos e cristalinos os valores humanos, espirituais e morais que nos enobrecem. Esperamos que a dura travessia que a pandemia nos impôs resulte em promissores aprendizados. Que saibamos advertir a superficialidade e a agitação em que tantas vezes estacionamos nossa existência, de tal modo que passemos da dispersão à profundidade, identificando o que há de supérfluo em nossa vida, abrindo espaços de contemplação, reflexão e discernimento em nosso cotidiano, redescobrindo o valor da oração, confiando-nos inteiramente a Deus, sem jamais atribuir-lhe o que é responsabilidade nossa ou o que resulta de nosso livre arbítrio. Que saibamos intuir a urgência de uma convivência mais transparente, pacífica e solícita dentro de nossos lares, lapidando nosso temperamento, reconhecendo o que há de melhor nos outros, abrindo-nos à urgência da reconciliação, ajudando-nos mutuamente e sendo agradecidos. Que saibamos acordar para a importância de relações humanas mais equilibradas, respeitosas e cordiais, saindo do confinamento da indiferença, da rispidez e da intolerância, investindo na arte de ser bons e leais. Que saibamos mover-nos à compaixão e à solidariedade com os mais necessitados e sofridos, os de perto e os de longe, engajando-se em iniciativas e projetos de amparo aos mais pobres, de promoção da dignidade humana e de transformação das estruturas sociais. Que saibamos, enfim, sensibilizar-nos ante as agressões sofridas pela natureza, dom de Deus, tantas vezes vilipendiada por interesses mesquinhos, preservando e defendendo nossa Casa Comum mediante uma ecologia integral. “Viver é um rasgar-se e remendar-se”, dizia um dos mais eminentes representantes da literatura brasileira (G. Rosa). Este é, portanto, um tempo de escolhas decisivas. E estas deverão firmar-se e desenvolver-se daqui para frente, se é que realmente tiramos proveito e inspiração das lições que tão penosamente nos foram impingidas por essa pandemia, da qual esperamos sair mais humanos, mais maduros, mais consistentes e persistentes, mais abertos ao encontro com Deus e com os irmãos. Na escuridão da noite, as estrelas brilham com mais intensidade. E a fé que sinceramente professamos é como “luz que brilha em lugar escuro, até que raie o dia e surja a estrela d’alva em nossos corações” (2Pd 1,19). Recordou, a propósito, o Papa: “Esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais”. ****** Como sugere a canção de S. Cristicchi, intitulada Lo chiederemo agli alberi, poderemos aprender das árvores que se mantém firmes e viçosas em meio aos temporais e enchentes que a condição indispensável para isso não é outra senão ter raízes profundas. E aprenderemos também que, ainda que as folhas caiam nos outonos da vida e os rebentos se congelem nos invernos mais severos, há que esperar o sol primaveril cujos raios preparam a beleza das flores e a abundância dos frutos. Ainda aprenderemos das andorinhas a viver com simplicidade, sem excessos, ostentações e artifícios, para voar livremente na vastidão do Mistério que nos irmana a todas as criaturas e que é a fonte originante e a meta derradeira de tudo o que existe.
Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM “Quando passam pelo vale da aridez, o transformam numa fonte borbulhante” [1] Preliminares Com a pandemia da COVID-19, o mundo está vivendo um ano atípico, mas não inédito [2]. Inúmeras são as pessoas infectadas, somando um milhão de casos confirmados; é assustador o número de óbitos diários, totalizando cerca de sessenta mil; escancara-se a precariedade do sistema de saúde, intensificam-se a crises políticas etc. No Brasil, desde meados de março, fez-se necessárias medidas preventivas, segundo as orientações do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros órgãos responsáveis, a fim de conter a proliferação do novo corona vírus. Tal medida atingiu comércios, escolas e também as Igrejas. A aglomeração de pessoas é arriscada, neste tempo de pandemia. Infelizmente, catequeses, encontros paroquiais semanais, celebrações, grandes festas tradicionais entre outras atividades que dinamizam a vida das Paróquias, Santuários, Curatos, foram canceladas e/ou adiadas, como medidas de prevenção. Muitas celebrações eucarísticas têm sido transmitidas, por meio de Facebook, Instagram, canais televisivos, rádio (o que já acontecia, porém de modo mais intenso). Ousamos dizer que esses meios são os únicos, por ora, como acesso à missa, adoração eucarística, terço etc. Em algumas cidades, interiores e capitais, celebram-na com um número restrito de pessoas, porém crianças e idosos, considerados “grupos de risco”, recebem a orientação de permanecer em casa. Todo este contexto tem causado uma saudade de nossa dinâmica eclesial. Certamente, muitos párocos e paroquianos, ao longo destes meses de quarentena, ouvem as queixas: “Padre, está muito ruim sem missa!”; “Como estou com saudade da Igreja!”; “Estou com saudade da missa!”; “Meu Deus, ficar sem ir à Igreja é muito ruim!”. Há aqueles mais ousados, os quais pedem para devolver-lhes a missa [3]. De fato, com esta pandemia, se revelam muitos problemas; basta acompanhar as notícias pelos jornais, telejornais e redes sociais. Vivendo este contexto inesperado, muitos padres, religiosos, até mesmo seminaristas têm utilizado as redes sociais para reunirem o povo em suas igrejas domésticas, compartilhando a Palavra de Deus com bastante criatividade. O povo de Deus não está abandonado por seus pastores: missas, terços marianos, conferências, lives têm sido meios possíveis de ouvir a voz de muitos que se preocupam com a vida de fé do santo povo de Deus. Isso revela a dimensão do cuidado, tanto do Ministério da Saúde quanto das Dioceses, Vicariatos, Curatos, Prelazias em optar pelo isolamento social, e, assim, manter as atividades previstas canceladas ou adiadas. Passamos por um momento, o qual não será eterno. Porém, em meio a tantas possibilidades de acesso à Palavra, para muitos fieis torna-se difícil expressar sua fé assim: sentir-se privado da Eucaristia, principalmente para os fieis de comunhão diária, causa angústia, infelicidade e preocupação. Isso revela algo que, para muitos, infelizmente constatamos tal realidade, ainda não estava bastante claro, por mais que haja um esforço em mostrar que ser cristão é colocar-se a serviço (cf. Jo 13): a importância de viver em comunidade de fé. Vemos que muitas pessoas, por pouco motivo, deixam a liderança e animação de suas comunidades. Ora, a pandemia também não interpela a fé cristã? Já nos demos conta que quando celebramos a Eucaristia, recebemos, na bênção final da missa [4], o envio para anunciar a fé que professamos a todas as nações (cf. Mt 28,19)? Quantas vezes já não cantamos a canção: “Agora que a missa termina, começa então nossa missão” [5]? Nas nossas Igrejas e celebrações, buscamos a força necessária, quando recebemos os Sacramentos, para continuar a missão de Jesus Cristo, o qual nos imbui de seu poder para evangelizar (cf. Mt 10,1). Ser cristão é um modo de vida, ética que perpassa todas as dimensões do ser humano batizado. Reunidos em nossas comunidades eclesiais, buscamos a ortopráxis para bem viver a fé, dentro e fora do Templo. A história mostrou-nos que homens e mulheres de fé estiveram impossibilitados de receber a Eucaristia e, mesmo assim, não deixaram de estabelecer uma profunda comunhão com o corpo místico de Cristo. Damos um exemplo. A experiência do cárcere do Cardeal Van Thuan, o fez reinventar sua comunhão com Deus de forma mais profunda, mesmo experimentando as dores da prisão. Ele pôde contar-nos essa experiência, por meio da obra “Cinco pães e dois peixes: do sofrimento do cárcere um alegre testemunho de fé”. Sem deixar-se abalar, experimentou a dor na perspectiva da cruz, a qual apresenta também elementos de ressurreição. Quando os comunistas lhe transportaram para o norte, no navio Hâi-Phòhg, com outros 1.500 prisioneiros, o cardeal, ouvindo a voz de Deus (“Escolhe a mim!”), disse: “Sem dúvida, Senhor, aqui é minha catedral, aqui é o povo de Deus que tu me deste para cuidar. Devo assegurar a presença de Deus no meio desses irmãos desesperados, miseráveis. E tua vontade portanto é a minha escolha” [6]. A impossibilidade de comungar, por ora, não priva nenhum fiel de estar em comunhão com o corpo de Cristo e, muito menos, em comunhão com seus irmãos. Interessante o paradoxo que vivemos, atualmente! Por isso, o momento presente deve interpelar-nos na fé, e precisamos compreendê-lo na dinâmica e na autenticidade do mistério que professamos. Israel, “em meio às instabilidades deste mundo” [7], alcançou profunda maturidade espiritual. O homem que confia em Deus “não teme receber notícias más”, pois “confiando nele, seu coração está seguro” e guarda a paz (Sl 111{112},7; cf. Is 26,3). Tal convicção, também a vemos na tradição apostólica: “confiem a Deus todas as suas preocupações, pois é ele quem cuida de vocês” (1Pd 5,7). Em meio a este “vale de aridez” (Sl 83{84},7), causada pela pandemia da COVID-19, é possível progredir na fé, dar um passo a frente; afinal, não avançar nas coisas de Deus é o mesmo que retroceder (cf. Hb 10,38-39). O momento precisa gerar nos cristãos sentimentos de esperança, importante elemento de nossa fé. O Tempo Pascal, que concluímos a pouco, nos leva a ressuscitar-nos com o Cristo, que venceu o poder da morte, possibilitando, a cada batizado, “vida nova no amor” [8]. Por isso, não é tempo de deixar que o medo e a angústia assolem o coração humano, mas tempo de tornar firme nossa convicção de seguidores de Jesus, discípulos-missionários da Boa Notícia, porque, em qualquer tempo e lugar, precisamos estar prontos a dar razão da nossa esperança a todo aquele que a pedir (cf. 1Pd 3,15). Tendo em vista os aspectos observados, peçamos a Deus que dê ao ser humano, a sabedoria e o discernimento necessários para vencer as dificuldades deste tempo de pandemia, repetindo como o salmista: “dai-me de novo um espírito decidido” (Sl 50{51},12b). Por meio deste texto, mostraremos, em um primeiro momento, a experiência do povo da Antiga Aliança, o qual, em meio à opressão, encontrou alternativas para seu crescimento humano e espiritual. De inúmeras interrogações, queixas e lamentos surgiram belíssimos testemunhos de fé. “Feliz quem põe em vós sua esperança” (Sl 83{84},13b) é a convicção do fiel que tem como horizonte o mistério de Deus, seu único Senhor e soberano, no qual deposita sua confiança, em uma relação de amor. Como inspiração, teremos o Salmo 83{84}. Observando o seu contexto, perceberemos que uma grande tribulação impediu que os judeus peregrinassem ao Templo para oferecer seus sacrifícios e realizar outras atividades inerentes a ele, ou seja, ficaram privados da participação de seu aparato religioso principal. Não foi possível celebrar o culto. Onde encontrar Deus, em meio ao caos? Onde ele está? “Esperávamos a paz, e não chegou nada de bom” (Jr 14,19) e “será que Deus se esqueceu de ter piedade?” (Sl 76{77},10) são questionamentos que demonstram a angústia humana e a experiência do silêncio de Deus. Ora, não nos esqueçamos que, em meio à tempestade (por que não em meio à pandemia?), Deus abriu a boca (cf. Jó 38). Em seguida, iremos apresentar luzes, motivações e dicas para que você construa o Salmo de sua vida, a fim de que sua fé não esmoreça, e, assim, fazer desta pandemia um momento de autoquestionamento, tanto pessoal quanto comunitário, e tomar consciência do nosso papel de cristãos batizados, imbuídos dos dons do Espírito Santo. Assim acreditamos que, ao retornar às Igrejas, voltaremos maduros na fé e poderemos “caminhar com um ardor sempre crescente” (Sl 83{84},8), agradecendo a bondade de Deus que não desampara o seu povo, mas o guarda qual pastor protege seu rebanho (cf. Jr 31,10).   1. Salmo 83{84}: saudades do Templo  A fé judaica é feita de memórias. Nossa Eucaristia, hoje, é um memorial (“Fazei isto em memória de mim!”). Nessa perspectiva, recordar o passado pode iluminar o presente. Não se trata de um saudosismo ou de um simples exercício para nossa memória, mas da firme convicção que “até aqui nos socorreu o Senhor” (1Sm 7,12). Devido à ação de um império opressor, Israel voltou sua lente para o seu passado, a fim de compreender e dar respostas às angústias do momento presente. Tal a perspicácia e precisão de sua atitude que, ainda hoje, podemos colher os benefícios de sua inquietação interior: os textos sagrados nasceram para responder crises de fé. Ora, não estamos buscando compreender o “por quê” e o “para quê”, desta pandemia? Como iluminar o momento presente, à luz da fé que professamos?   1.1- “Felizes os que em vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos!” (Sl 83{84},6) “Saudades do templo”! Esse é o título do Sl 83{84} que lemos no breviário [9]: subsídio litúrgico para a oração das Horas canônicas. Por meio deste ofício, rezamos os Salmos e Hinos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento [em Laudes e Vésperas, respectivamente]. Não temos a pretensão de fazer a exegese desse texto bíblico, mas apresentar brevemente seu contexto e sua mensagem, por meio de um simples método. O que ele tem a dizer para a vivência da fé? Quais elementos explícitos e implícitos da tradição judaica? É possível captar também elementos históricos? O povo da primitiva Aliança recebeu, por meio da opressão babilônica, a experiência do exílio. Houve, segundo dados bíblicos e históricos, duas deportações: ano de 597 e 587 a.C. [10]. Os babilônicos, liderados pelo Rei Nabucodonosor, fizeram cativos as lideranças religiosas, escribas, comerciantes e funcionários, os quais poderiam contribuir para o progresso de suas respectivas comunidades. “Levou para o exílio toda Jerusalém, todos os comandantes e todos os valentes do exército, cerca de dez mil deportados. Levou também todos os ferreiros e artesãos; deixou somente o povo pobre da terra” (2Rs 24,14). Com a destruição do Templo e com os magistrados cativos, Israel é tomada por uma profunda crise de fé [11]. Alguns questionamentos bem a demonstram: onde está Deus? Qual a consistência de suas promessas? Marduk derrotou Javé, e a consequência disso é o exílio? Vale a pena aprofundar a tradição dos pais? Tal desolação não está explícita no Sl 137{136}?  1À beira dos canais de Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião; 2nos salgueiros que ali estavam penduramos nossas harpas. 3Lá, os que nos exilaram pediam canções, nossos raptores queriam alegria: "Cantai-nos um canto de Sião!" 4Como poderíamos cantar um canto de Iahweh numa terra estrangeira? 5Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que me seque a mão direita! 6Que me cole a língua ao paladar, caso eu não me lembre de ti, caso eu não eleve Jerusalém ao topo da minha alegria! 7Iahweh, relembra o dia de Jerusalém aos filhos de Edom, quando diziam: "Arrasai-a! Arrasai-a até os alicerces!" 8Ó devastadora filha de Babel, feliz quem devolver a ti o mal que nos fizeste! [12]   Ora, como sair desta situação, sem permitir que a fé esmoreça? A crise não seria uma chance para a fé [13]? A palavra Χρ?σης (transl. Khrýs?s), em grego, significa “o momento do discernimento”. Dizer que alguém está em crise, significa dizer que está discernindo, buscando respostas e alternativas para solucionar um determinado problema, p. ex. Não seria este o pedido implícito no Sl 90{89},12 : “Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria”? Israel se coloca em posição de autoquestionamento para encontrar respostas consistentes, fundamentando-se em toda a tradição dos pais, a fim de compreender o momento de opressão babilônica, sem colocar o poder de Deus em cheque, porque “jurou o Senhor e manterá sua palavra” (Sl 109{110},4); logo, Deus não falhou em suas promessas (cf. Nm 23,19; Ml 6,3a; Js 21,45; 23,14; 1Rs 8,56b; Sl 89{88},34; 145{144},13b} etc). O problema a ser solucionado é teológico, não político-institucional. Neste momento, Israel começa a redigir as hagiografias: textos que contam a realidade concreta do povo, pessoal e comunitária, bem como as maravilhas operadas por Javé. Por meio dos textos, escritos e lidos na perspectiva da fé, Israel pôde aprofundar e rever seus conceitos. Em meio a tantos escritos, foram redigidos os Salmos, os quais, mais tarde, comporão o que chamamos, hoje, o “Saltério” ou “Livro dos Salmos” [14]. Segundo a exegese bíblica, há, pelo menos, três gêneros literários dos Salmos: hino de louvor, lamento/súplica e ação de graças [15]. Ora, se com a destruição do Templo (casa da habitação de Javé: cf. Sl 26{25},8), tornou-se impossível realizar o culto e os sacrifícios, então, sem o aparato religioso, Deus habita nos louvores de Israel (cf. Sl 22,4). Por isso, a oração, na vida diária, ganha um significado profundo e místico. A história é lida, a partir da fé. Os acontecimentos históricos ganham nova chave de leitura e uma nova compreensão, sem deixar-se perder a tradição dos pais. O Livro dos Salmos “conservava a memória, pois lembrava os fatos importantes da história do povo, reforçava a identidade do povo como povo de Deus; criava nas pessoas sentimento de pertença ao povo de Deus” [16]. Pode haver momento tão fecundo, em âmbito religioso, quanto esse? Israel ouviu a voz da sabedoria: “Meu filho, não perca de vista a inteligência e conserve o discernimento” (Pr 3,21). Ao escrever, Israel redige sua história, guiada com a mão poderosa e o braço estendido do Senhor (cf. Sl 136,12; cf. Sl 126{125}).   1.2- “Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor” (Sl 83{84},3) Essa é a queixa do salmista, personificando a comunidade, a qual está impossibilitada de peregrinar ao Templo! Não é esta a realidade pela qual passamos, devido à pandemia da COVID-19? Já frisamos que a história se repete; por isso, o momento não é tão inédito. Se Israel superou a crise, então nós também não podemos? Não bebemos da mesma fonte que a tradição judaica? Não confiamos no mesmo Deus? O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó não é também o Deus de Jesus Cristo? Segundo Hb 4,12, “a palavra de Deus é viva, eficaz”, portanto, sua verdade continua nos apresentado elementos para alimentar a fé e nos interpela a aprimorá-la em qualquer circunstância da vida. Repetimos: ser cristão é um modo de vida. No trabalho, no lazer, na família, na missa, em quarentena todo batizado precisa dar sinais que professa Jesus como “o Senhor” (Jo 21,7). Este é um dos Salmos que expressa a realidade dos judeus, ao recordar saudosamente do Templo [17]:   – Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, * quanto a amo, Senhor Deus do universo! – Minha alma desfalece de saudades * e anseia pelos átrios do Senhor! – Meu coração e minha carne rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo! = Mesmo o pardal encontra abrigo em vossa casa, † e a andorinha aí prepara o seu ninho, * para nele seus filhotes colocar: – vossos altares, ó Senhor Deus do universo! vossos altares, ó meu Rei e meu Senhor! – Felizes os que habitam vossa casa; * para sempre haverão de vos louvar! – Felizes os que em vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos! = Quando passam pelo vale da aridez, † o transformam numa fonte borbulhante, pois a chuva o vestirá com suas bênçãos. – Caminharão com ardor sempre crescente * e hão de ver o Deus dos deuses em Sião. – Deus do universo, escutai minha oração! * Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido! – Olhai, ó Deus, que sois a nossa proteção, * vede a face do eleito, vosso Ungido! – Na verdade, um só dia em vosso templo * vale mais do que milhares fora dele! – Prefiro estar no limiar de vossa casa, * a hospedar-me na mansão dos pecadores! – O Senhor Deus é como um sol, é um escudo, * e largamente distribui a graça e a glória. – O Senhor nunca recusa bem algum * àqueles que caminham na justiça. –Ó Senhor, Deus poderoso do universo, * feliz quem põe em vós sua esperança!     O Salmo encontra-se no Saltério Messiânico (Sl 3-89), dentro do Livro III (73-89), o qual podemos intitulá-lo de “transição de Governo”. Se o Livro II (42-72) mostra um programa de governo, então, aqui, vemos o fracasso da monarquia – por isso, o momento de transição. Um desdobramento deste fracasso é, justamente, a destruição do Templo pelo poder babilônico. Basta ler 2Rs 24 e perceber que também o rei foi levado para o cativeiro (consultar nota [10]). Ora, a idolatria denota uma infidelidade à Aliança (cf. Ex 32,1-6; Sl 81{80},9-14). Servir a outros deuses é um grande problema, pois gera a perda da identidade e descrença em um só Deus (cf. Dt 4,35; 6,4; 2Sm 7,22; Os 13,4b etc). “Eu os tomarei para mim como meu povo, e serei Deus para vocês” (Ex 6,7; cf. Jr 32,38). Infelizmente, Israel se deixou levar pela ideologia de povos vizinhos, cultuando outros deuses, não escutando a voz de Deus nas intervenções proféticas e sapienciais (cf. 2Rs 17,13). Se Deus é fiel, então cabe culpá-lo pela desgraça do exílio? As deportações ao cativeiro não seriam fruto de uma infidelidade à Aliança [18] e até mesmo ação de Javé, “Senhor Deus do Universo”, o qual fará ver “o Deus dos deuses em Sião” (Sl 83{84},8b)? Mais uma vez podemos recorrer à sapiência bíblica [19]: “Meu filho, não despreza a disciplina de Javé, nem se canse de suas advertências; porque Javé corrige aqueles a quem ele ama, como o pai corrige o filho preferido” (Pr 3,11-12). O Salmo 83{84} recorda a importância de uma fidelidade autêntica, tendo como horizonte a Lei de Javé, inscrita no coração, porque o homem justo, praticante da justiça, recita sabedoria e anuncia o direito (cf. Sl 37{36},29-31). A alma sedenta encontra Deus na oração pessoal e comunitária. Segundo Ez 10, a glória de Javé parou junto à porta oriental do Templo. Ora, o que se encontrava ao Oriente? O povo de Deus exilado! Deus é solidário com o seu povo que sofre. Qual mensagem podemos colher deste Salmo? Quais elementos podem alimentar a fé, neste contexto atípico? Para responder essas questões, aplicaremos o método proposto por Mesters [20]. Qual situação levou o salmista a rezar? Como vimos, o Templo fora destruído, com a intervenção babilônica, a qual fizera cativos os magistrados de Israel. Sobrara, apenas, o povo pobre da terra, conforme 2Rs 24,14; a intenção, vem acompanhada de uma prece: “Deus do universo escutai minha oração! Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido”. Tal convicção leva o romeiro a encontrar sua proteção no Senhor dos Exércitos, e olhar para a face de cada um de seus eleitos, o povo que ele separou para si (v. 9-10). A situação é fatídica, mas de esperança na intervenção divina; Qual o objetivo do salmista? Recordar eventos históricos e encontrar neles a ação de Javé, em favor do seu povo. Mesmo que a alma desfaleça de saudades e anseie pelos átrios do Senhor, o coração e a carne precisam alegrar-se no Deus vivo (v. 2-3), porque da vitalidade divina brota toda a força que impulsiona o romeiro ir ao encontro de Javé (v. 5-6), em qualquer situação e lugar. Infidelidade e injustiça podem causa grandes danos (idolatria, p. ex.). A Lei expressa também o carinho de Deus com seus eleitos. Passar pelo vale da aridez não significa distanciar-se de Javé; mas, confiante em seu poder, transformar esta difícil situação “numa fonte borbulhante”, porque as bênçãos de Deus cairão sobre cada peregrino, como a chuva cai sobre a terra; judeus e pagãos (babilônicos) “hão de ver o Deus dos deuses em Sião” (v. 7-8). O poder do mal não prevalecerá; Quais imagens o salmista utiliza para expressar a oração? Ao recordar o Templo, o salmista afirma que os pardais e a andorinha encontram abrigo e lugar para preparar os seus ninhos e cuidar de seus filhotes. Ora, se até as aves podem encontrar lugar de habitação, então o peregrino não encontraria ali sua segurança e proteção? Não foi Deus quem construiu para o seu povo uma casa de habitação (cf. 1Rs 8,13; Ex 15,17)? Ademais, o Senhor é um sol e um escudo (objeto que protege): ilumina seu povo e lhes dá segurança, mostrando sua graça e glória, a qual se expande largamente, inclusive em meio à opressão e à dor (v. 12); Que fé o salmista transparece? A situação fatídica não pode abalar a fé. Por isso, é necessário caminhar “com um ardor sempre crescente”, pois o Senhor não recusa nenhum bem para o homem justo, ou seja, aquele que pratica a justiça. O que é a justiça? “É a vontade de Deus, o seu projeto eterno. Somos justos e praticamos a justiça quando deixamos que Deus realize a sua vontade sobre nós [...]” [21]. O Salmo termina com um caro elemento da fé judaica e cristã: “Feliz quem põe em vós sua esperança” (v 8.12-13); Quais os traços do rosto de Deus, aqui? O Senhor Deus não foi derrotado pelo deus dos babilônios. Ele é o “Deus de Jacó”, “Deus de Sião”, “Senhor do Universo”, “Deus poderoso do Universo” e “Rei”, ou seja, é ele quem governa (v. 2.4.9); por isso, como povo eleito, o peregrino diz “meu Senhor” (v. 4), porque Deus disse “meu povo” (Ex 6,7). É dele que provém todo o bem a quem observar a justiça e o direito, indo na contramão da lógica do homem ímpio e injusto (v. 12b).   2. “Deus do universo, escutai minha oração. Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido!” (Sl 83{84},9) Os Salmos apresentam as situações da vida do ser humano, em particular, do povo eleito de Deus, cuja identidade encontra-se na Lei Mosaica. Todo homem experimenta momentos de alegria e tristeza, vitórias e derrotas. Enfrenta crises pessoais, mas também comunitárias. No âmbito da fé, não podemos ver as situações difíceis da vida como castigo, porque “desafios não são maldições” [22]. Segundo Pr 17,3, “como a prata é testada ao fogo e o ouro, no crisol, assim o Senhor prova os corações” (Sr 2,5-6). O justo é posto à prova, para que nele se manifeste o poder de Deus, pois “quem espera no Senhor, esse é feliz” (Pr 16,20). Que tal recordar a história de Abraão (Gn 12-25)? Portanto, sabedoria ou sapiência, mais que aprimoramento intelectual, é relação. Cabe a pergunta: “relação com o quê?” Relação com Deus, relação com a Lei (fruto da Aliança no Monte Sinai), relação consigo mesmo, relação com as outras pessoas, relação com os bens materiais e relação com a história. Como dissemos, interpelado em seu bem mais precioso, a fé, Israel se questiona sobre seu proceder ético. Reconheceu ter falhado, sem estagnar-se na culpa: “Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso” (Sl 50{51},14). Vale a pena recordar o trecho de um grande poeta: “o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão” (Guimarães Rosa [23]). Os Salmos revelam muitos questionamentos e situações vitais que nada divergem do homem do século XXI: o que é o ser humano? Sl 8; se somos povo da Aliança, então qual caminho devemos seguir? Sl 1; por que assimilar o conteúdo da Lei? Sl 19{18}; Por que o justo sofre? Sl 35{34}. Há momentos de muita alegria e exultação (Sl 34{33}); há momentos de total desolação, em que se ouve somente o silêncio de Deus (Sl 13{12}). Às vezes, o diálogo ganha um tom de súplica (Sl 17{16}), mas também de ação de graças (Sl 18{17}). Já outros ajudam o homem a reconhece suas faltas, alegrando-se pela graça do perdão (Sl 32{31}) [24]. Neste momento histórico, precisamos reconhecer também o poder de Deus. Onde ele está? “Ele está no meio de nós”, e espera que cada cristão alimente sua vida espiritual com criatividade e ousadia. Em todo tempo e lugar, discernir as situações na perspectiva da fé, pedindo sabedoria ao Espírito Santo, a fim de encontram respostas que convergem para os critérios do Evangelho. Por ora, deixamos a proposta do teólogo biblista Carlos Mesters [25], para que você possa, neste momento de preocupação, aridez, dúvidas, mas também de esperança, construir o salmo de sua vida. Agradeça, lamente, suplique, peça, mas, sobretudo, louve.   Procure dar uma resposta a esta pergunta: Quais os elementos que não podem faltar no salmo da minha vida? Os elementos que você vai juntando serão os tijolos para a construção do seu salmo; Comece a construir a casa do seu salmo, organizando os tijolos de tal maneira que expressem o que você é e vive; Tente encontrar um refrão a ser repetido após cada parte do salmo.   Muito simples! Tenha a ousadia de contar sua história, em uma profunda intimidade com Deus. Escreva ou apenas medite! Recorde fatos de sua vida: trabalho, família, conquistas, dificuldades, superações, experiências marcantes... mas, também, silencie e ouça os apelos de Deus para você. Renove sua esperança, caminhe com um ardor crescente, transforme a aridez em fonte borbulhante, sem deixar-se abalar pelo medo, porque é feliz o homem que no Senhor colocou sua esperança!   Ao meu coirmão, Pe. Francisco Ermelindo Gomes, CM, missionário lazarista e meu diretor espiritual, o qual cultiva intensa vida de oração.   NOTAS Para a consulta dos números que se encontram entre [ ]. 1. Missionário lazarista (Congregação da Missão – CM), graduado em Filosofia, pelo Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), e graduado em Teologia, pela Faculdade Jesuíta (FAJE). 2. O mundo já sofreu com este tipo de situação. P. ex.: peste negra (séc. XIV), gripe espanhola (séc. XX) etc. Como relata Ecl 1,9-10: “o que aconteceu, acontecerá de novo; o que se fez, vai se fazer de novo; não existe nada de novo debaixo do sol! Ainda que alguém diga: ‘Olhe, isto é novo’, já aconteceu em outros tempos, muito antes de nós.” 3. Disponível em <<https://diocesedivinopolis.org.br/c/noticias/pensando-nas-pessoas-dos-grupos-de-risco-artigo-com-notas#_ftnref1>>. Acesso em 27 de junho de 2020. 4. Do latim, a palavra “missa” significa “enviada”, “envio”, podendo soar um tom de despedida também. Ao término de cada celebração, o presidente dizia: “Ite, missa est.”, ou seja, “Ide, o envio está feito”. Você pode aprofundar o tema em << https://pt.aleteia.org/2017/08/25/por-que-a-missa-se-chama-missa/>>. Acesso em 27 de junho de 2020. 5. Disponível em <<https://www.youtube.com/watch?v=UAKFHq_kZXA>>. Acesso em 19 de junho de 2020. 6. VAN THUAN, François-Xavier Nguyen. Cinco pães e dois peixes: do sofrimento do cárcere um alegre testemunho de fé. 21. imp. São Paulo: Santuário, 2017, p. 25. 7. Oração conclusiva do Ofício de Vésperas da terça-feira da 5ª semana do Tempo Pascal. 8. Trecho da música “Manhã de luz”. Disponível em <<https://www.youtube.com/watch?v=-bjlVhAgu5s>>. Acesso em 19 de junho de 2020. 9. Geralmente, o breviário fornece o título do Salmo, o qual funciona como uma chave de leitura para interpretá-lo. Na Bíblia, os títulos “informam sobre a origem, o autor, o tipo e o uso do salmo. [...] Eles dão uma ideia de como os Salmos eram rezados naquele tempo.” (MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2018, p. 19). 10. “Em 598/579, o rei babilônico, Nabucodonosor, toma Jerusalém e conduz Joaquin (Jeconias) à Babilônia, substituindo-o no trono por Sedecias (2Rs 24,10-17).Nesta primeira leva de exilados, encontra-se o profeta Ezequiel. O novo rei de Judá, Sedecias, deixa-se seduzir por uma ideologia nacionalista míope e, contrariando os conselhos do profeta Jeremias, trama uma revolta contra Nabucodonosor, resultando em novo assédio e destruição completa de Jerusalém e do Templo, em 586 a.C. Desta vez, Nabucodonosor manda para Babilônia, sob a guarda de Nebuzardã, uma segunda leva de cativos, a saber, grande parte da elite política e militar (1Rs 25,1-21; Jr 52,4-27). Assim inicia-se o ‘exílio babilônico’, que vai durar meio século.” (KONINGS, Johan. A Bíblia, sua origem e sua leitura. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 60). 11. Sobre as duas deportações, ver 2Rs 24,1-25,30. 12. Tradução da BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova ed. rev. e ampl. 2. impr. São Paulo: Paulus, 2003. 13. Traduzimos o nome de uma obra intitulada “La crise: une chance pour la foi”. 14.“Salmo é uma palavra grega (psallein) que significa cantar hino acompanhado de instrumentos de cordas, que se chama psaltérion. Hoje, a palavra saltério é aplicada a coleção de 150 salmos de nossas Bíblias. [...] Os salmos eram usados para celebrar e para manifestar o estado de espírito do fiel judeu, em diversos momentos e circunstâncias. Revelam estado de ânimo, desolação, adoração, louvor, perseguição, confiança, saudades do Templo, confissão dos pecados, alegria e tristeza. Eram cantados quer em movimentos individuais de oração, quem em momentos comuns e diários (refeições, casamentos), ou comunitários e festivos.” (ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 141-142). Ler os Sl 32{33},2; Sl 46{47},7. 15. Podemos encontrar os três gêneros literários, em apenas um Salmo. Lamentar uma situação, suplicar ajuda e bendizer a Deus pelo benefício/socorro recebido. Tamanha riqueza em um só texto. A fim de aprofundar os Salmos, consultar: 1) HARRINGTON, Wilfrid J. Chave de leitura para a bíblia: a revelação, a promessa, a realização. reimp. São Paulo: Paulus, 2019, p. 349-366; 2) ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 141-143. 16. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2018, p. 17. 17. Nós o apresentamos, aqui, tal qual se encontra na Liturgia das Horas, Laudes, III Semana, segunda-feira. Disponível em <<https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria-das-horas/dia-20-segunda-feira-5/#.XrwBzURKh0w>>. Acesso em 20 de abril de 2020. 18. Na tentativa de encontrar respostas para o exílio, as Tradições Sacerdotal e Deuteronômica trabalharam nesta perspectiva: nós, como povo eleito, fomos infiéis ao culto e ao pacto que Javé estabeleceu na Aliança (cf. HARRINGTON, Wilfrid J. Chave de leitura para a bíblia: a revelação, a promessa, a realização. reimp. São Paulo: Paulus, 2019, p. 221). 19. Correspondem aos Livros Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Coélet (Eclesiastes), Sirácida (Eclesiástico) e Sabedoria. “A coleção de livros sapienciais tem como objetivo mostrar a sabedoria do povo judeu. Por sabedoria, entendia-se muito mais um conjunto de normas e princípios práticos de vida do que o conjunto de ideias e conhecimento científico [...]. Os ditos sapienciais serviam para orientar os mais jovens sobre como se comportar em diversas situações: em casa e na sociedade, durantes as refeições, em lugares públicos, nos tribunais, no comércio (cf. Pr 1,2-6; 10,1.5.16; 11,1; 12,4.11.28; Eclo 10,1-5; 11,7-9.29-34; 13,1-3 etc.). Como a vida do judeu está profundamente marcada pela sua fé, tais provérbios e ditos sapienciais foram associados ao temos de Deus e à vivência dos mandamentos (cf. Pr 1,7; 6,16; Jó 28,28; 32,8; Eclo 1,11-21; 2,6s; 2,26; Sb 7,27 etc.)” (ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 137-138). 20. Para cada Salmo, poder-se-á aplicar este método. Utilizaremos, aqui, os pontos 2-6, conforme encontram-se enumerados na obra. Completamos a proposta de leitura com os itens 1 e 7, a saber: 1. Descobrir as divisões dentro do Salmo; 7. Verbalizar os sentimentos que você teve ao rezar o Salmo. Consultar a obra: MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus: 2018, p. 91-92. A partir de sua leitura pessoal [ou em família], você pode enriquecer com outros elementos do texto. 21. STORNIOLO, Ivo. O Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. 14. reimp. São Paulo: Paulus, 2018, p. 14. 22. Frase no filme “Queen of Katwe” [“Rainha do Katwe”]. 23. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. 38. imp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 15. 24. Como já apresentamos a chave de leitura para o Livro III [73-89: transição de governo], optamos em dar exemplos com o Livro I [3-41: ascensão de Davi]. Lendo-o nessa perspectiva, compreender-se-á o porquê das muitas referências ao Rei. A numeração dos Salmos encontra-se na nova edição da BÍBLIA SAGRADA. 2. ed. Brasília: CNBB, 2019. 25. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus: 2018, p. 92.  
Pe. Luís Carlos do Vale Fundão, CM
Pe. Luís Carlos do Vale Fundão, CM Os primórdios da Congregação da Missão no Brasil A celebração dos 200 anos da chegada dos Missionários Vicentinos (Lazaristas) ao Brasil, neste ano de 2020, nos faz recobrar uma parte importante da história do Brasil que foi marcada pela contribuição desses homens zelosos nos diversos trabalhos missionários, educacionais e de serviço aos Pobres. Veremos, a seguir, como foram numerosos os trabalhos realizados pelos primeiros missionários em terras brasileiras, ao longo de todos esses anos, tais como: missões populares; fundação de colégios; direção de seminários; socorro aos empobrecidos, defesa dos injustiçados, etc.  Neste artigo, vamos nos ater aos principais acontecimentos, desde a chegada dos missionários ao Brasil até a fundação da Província Brasileira da Congregação da Missão, com o devido reconhecimento tanto da Cúria Geral da Congregação da Missão como da Santa Sé, em Roma.   A história da chegada da Congregação da Missão no Brasil inicia-se com um pedido feito por Sua Majestade Dom João VI, ainda em 1819, quando solicita ao Visitador de Portugal, Pe. Antônio da Silva Rebelo, missionários lazaristas para assumirem uma obra em Cuiabá, no Mato Grosso, para a evangelização da população, catequização dos índios e defesa das fronteiras com os países vizinhos. O Padre Visitador atendeu ao pedido do Rei e enviou dois missionários para essa empreitada no Brasil: Pe. Leandro Rebelo Peixoto e Castro e o jovem Pe. Antônio Ferreira Viçoso.  Nesse meio tempo, em Minas Gerais, na Serra do Caraça, o Irmão Lourenço de Nossa Senhora havia adquirido, em 1770, uma imensa propriedade, edificando uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens e a São Francisco das Chagas, a qual seria destinada às peregrinações, ao atendimento de confissões e aos demais sacramentos. Já na época do Irmão Lourenço, foram construídas duas alas laterais destinadas ao acolhimento dos peregrinos.  A pequena comunidade, formada pelo Irmão Lourenço e composta de homens movidos pelo propósito de se penitenciar numa vida austera e de solidão, se dedicava ao cuidado e acolhimento de todos os peregrinos que acorriam ao pequeno santuário.  Nas vésperas de sua morte, o irmão Lourenço, já idoso e doente, foi visitado pela Virgem Maria, que lhe confidenciou que a sua obra não acabaria com o advento de sua passagem para a eternidade, mas seria continuada por zelosos sacerdotes que já estavam a caminho do Brasil. O irmão Lourenço, que foi confortado pela Mãe de Deus e de toda a humanidade, já havia redigido em 1806 um testamento doando toda a sua propriedade à coroa real e solicitando a Sua Majestade que fizesse do Caraça uma “Sede de Missionários e Escola de Meninos”. Depois de cumprida a sua missão neste mundo, o Ir. Lourenço faleceu em 27 de outubro de 1819, aos 95 anos. Foram, ao todo, cerca de 50 anos dedicados ao Caraça.  Os dois missionários lazaristas partiram de Lisboa em 27 de setembro de 1819. A viagem durou 72 dias até ao Rio de Janeiro. Estavam ainda se preparando para a viagem rumo ao Mato Grosso, quando o Ministro de Sua Majestade lhes comunicou que, para aquelas terras já estavam indo os frades capuchinhos. Entretanto, Sua Majestade lhes oferecia outro campo de missão no Centro de Minas Gerais, no alto da Serra do Caraça.  O Pe. Leandro leu o testamento deixado pelo Ir. Lourenço, que continha a frase: “Minha vontade sempre foi e é de que esta Casa seja residência de Missionários... e seminário para meninos” (1). Inicialmente o Pe. Leandro teve muitos escrúpulos em assumir uma obra para a qual não fora enviado pelo Visitador, entretanto, foi confortado pelo Ministro que afirmou que Sua Majestade já estava cuidando dos trâmites legais com a Província de Portugal e que logo obteria a licença do Visitador. Assim, em 31 de janeiro de 1820, os dois missionários receberam a Carta Régia que os autorizava a tomar posse, em nome da Congregação da Missão, de todos os bens deixados pelo Irmão Lourenço no Caraça: propriedade territorial, edificações, mobiliários, escravos etc. Esse acontecimento é o marco da fundação carismática da Congregação da Missão no Brasil.  Os dois missionários partiram para as terras mineiras em março de 1820. Após 45 dias de longa viagem, chegam ao Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 15 de abril. Terminado o período de arrumação e reparos na casa, os dois missionários iniciaram logo o trabalho de pregação das missões. A primeira localidade a ser missionada foi o arraial de Catas Altas - MG, a 18Km do Caraça. Em junho do mesmo ano, missionaram também em Barbacena - MG.  Terminada a missão em Barbacena, o Pe. Leandro se dirigiu ao Rio de Janeiro para uma audiência com o Rei, na qual solicitou verba para a manutenção da Casa do Caraça. Sua Majestade ofertou 100 mil réis para essa finalidade e ainda deu ao Caraça o título de Casa Real. Em seu retorno a Minas Gerais, o Pe. Leandro levou consigo 4 jovens para iniciar os estudos no Caraça. Esses foram os primeiros alunos do Colégio. Em 1821, chegam, a pedido do Pe. Leandro, os primeiros missionários vindos da Província de Portugal para reforçar a missão no Brasil. São eles: Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo e o Pe. José Joaquim Mendes Moura Alves. Com este reforço, pôde-se abrir oficialmente o Colégio do Caraça e iniciar as atividades com 14 alunos. A situação financeira do Colégio nos seus primórdios não era boa. Os missionários precisaram contar muito com o auxílio da Divina Providência neste primeiro momento da história. O noviciado também se iniciou nesse ano com a chegada do Pe. João Moreira Garcês, como primeiro noviço. Não obstante as dificuldades, Deus ia abençoando os trabalhos dos missionários. Em 1822, o colégio já contava com 30 estudantes. Nesse mesmo ano, houve a libertação dos dez escravos do falecido Irmão Lourenço e a nomeação do Padre Antônio Viçoso como reitor do Seminário em Jacuecanga – RJ. Iniciava-se, assim, o trabalho da Congregação na formação do clero em território brasileiro. Em 1823, chega ao Caraça o primeiro candidato à vocação de irmão leigo, trata-se de Francisco da Cunha Macedo, natural de Catas Altas – MG. Com a proclamação da Independência do Brasil, a Congregação sentiu fortemente os efeitos do anticlericalismo e da aversão do Império às Instituições religiosas que mantinham a sua ligação com a Santa Sé em Roma.  Assim, em 1823, o Imperador encaminhou ao Padre Leandro uma carta contendo três notícias, sendo uma delas uma recomendação: que “a casa do Caraça está dispensada de pagar o dízimo dos bens da terra; que o novo título do Caraça é Casa Imperial, e que a Congregação deveria ficar independente de toda obediência à Casa de Lisboa” (2).  Os anos que se seguiram foram de grande perseguição às Congregações e às Ordens religiosas. Ocorreram nesse período a extinção e expulsão de diversas delas, tais como: Capuchinhos, Carmelitas descalços e outros. Mesmo nesse cenário hostil, a Congregação segue realizando o seu trabalho e crescendo em número e em obras. Em 1827 os missionários recebem como doação a Fazenda Paraíso, de um rico proprietário de terras em Campo Belo do Sertão da Farinha Podre, em Minas Gerais, atualmente, Campina Verde. A finalidade da doação era que fosse construída uma Igreja para o atendimento espiritual da população e um colégio para educação das crianças e jovens da região. Nesse mesmo ano, o imperador ordenou que a Congregação assumisse a direção do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo e que abrisse lá um Colégio, à semelhança do Caraça, mas, independente dele. Diante da necessidade de assumir a direção do Santuário e a fundação de um Colégio em Congonhas, as obras missionárias em Campo Belo ficaram para outro momento que virá mais tarde. Em 1827, ocorre a nomeação do Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo, como visitador, pelo Superior Geral, Pe. José de Wally. Essa nomeação ocorre na contramão das orientações e desejos do Império cujas leis passaram a proibir o noviciado nas Congregações que ainda sobreviviam no Brasil. Não obstante as pressões imperiais e o espírito de perseguição que havia contra as ordens religiosas, a Congregação teve a grata alegria de celebrar as ordenações de quatro novos missionários no Santuário do Caraça, em 1829: Pe. Antônio Afonso de Morais Torres; Pe. José Afonso de Morais Torres; Pe. Antônio Valeriano Gonçalves de Andrada e Pe. José Tomás Moura Sousa. Em 1830, perante o proprietário João Batista Siqueira, de sua esposa Bárbara Bueno da Silva e do Pe. Jerônimo Gonçalves de Macedo, foi assinada definitivamente a escritura de doação de três Fazendas na Cidade de Campo Belo do Sertão da Farinha Podre à Congregação da Missão.  Apesar de sofrer muito com as leis de restrições às atividades dos religiosos no Brasil, a Congregação da Missão gozava de certa simpatia do Imperador, tanto que o mesmo sempre conferia aos missionários novas atribuições dentro do império. Era um sinal claro de que a Congregação era útil ao povo de Deus, ao clero e à sociedade.  Em 1831, pouco antes de sua abdicação, Sua Majestade Dom Pedro I, dirigindo-se à Ouro Preto, fez uma visita à Casa Imperial do Caraça para aconselhar-se com o Pe. Leandro. Às vésperas de sua partida para Minas Gerais, Dom Pedro I havia sido obrigado a assinar leis severas contra todas as instituições religiosas que fossem submissas a superiores estrangeiros. As leis previam prisão dos superiores e demais membros das Instituições por até 8 anos!  O Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo escreveu ao Superior Geral relatando-lhe toda a situação da Congregação no Brasil. Em resposta, o Superior Geral concedeu ao visitador todos os poderes de Superior Geral, com autorização para nomear seu sucessor. Em 1834, a Congregação iniciou seus trabalhos em Campo Belo da Farinha Podre com os seguintes missionários: Pe. Macedo, Pe. Antônio Morais e Pe. José Tomás de Sousa. Essa obra se tornou um vasto campo de irradiação de atividades missionárias e educacionais no Triângulo Mineiro. Iniciaram-se, nesse período, as atividades do Colégio em Campo Belo. Apesar de sofrer com o fechamento do Seminário Interno, por ordem do governo em 1834 e com a crise financeira que não dava ao Colégio do Caraça condições de funcionar com regularidade, a Congregação segue o seu carisma cumprindo sua missão no Brasil em Congonhas (Santuário e Colégio); Jacuecanga - RJ (Seminário diocesano); Campo Belo (Missão e Colégio) e a pedido do Ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, em 1838, a Congregação também recebeu a missão de organizar e dirigir o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Para essa empreitada, foi nomeado o Pe. Leandro. Para garantir o futuro das atividades missionárias da Congregação da Missão no Brasil e atender à legislação brasileira, foi necessário convocar uma Assembleia Geral para eleição do Superior Geral. Isso ocorreu no período de 11 a 13 de dezembro de 1839. O Padre Antônio Viçoso foi eleito Superior Geral com todos os poderes e prerrogativas do Superior Geral em Paris. Embora o resultado da Assembleia tenha sido encaminhado a Roma e a Paris, não houve, da parte do governo geral e de Roma, uma resposta confirmando a separação.  Logo após a Assembleia Geral, o Padre Leandro foi convidado pelo presidente da Província de Minas Gerais, para fundar a primeira escola de ensino médio do Governo de Minas em Ouro Preto, chamada Colégio Assunção.  Em 1842, a situação da Congregação da Missão no Brasil era de muita instabilidade e insegurança. Isso se expressava por meio da diminuição do número de Coirmãos, precariedade financeira e pela guerra civil que ameaçava as estruturas das instituições. É neste contexto que o Pe. Antônio Viçoso fecha o Colégio do Caraça, em 25 de agosto de 1842 e se dirige a Campo Belo com os alunos que havia no colégio e alguns pertences. A caravana parte para o Triângulo Mineiro sem saber que a guerra civil havia terminado em Santa Luzia no dia 22 de agosto!   Em março de 1843, o Pe. Antônio Viçoso recebeu um Ofício Imperial nomeando-o Bispo de Mariana. Imediatamente, renunciou ao seu mandato de Superior Geral e passou o cargo para o Assistente, Pe. Jerônimo Macedo, que, imediatamente, cuidou dos trâmites legais para a convocação de uma nova Assembleia para eleição do novo Superior Geral. Feita a Assembleia, foi eleito o Pe. Antônio Afonso de Morais Torres, que logo escreveu ao Superior Geral em Paris, comunicando do resultado da Assembleia.  Em 1847, o Imperador Dom Pedro II, por meio do artigo 81 do Código Civil Criminal, permitiu à Congregação da Missão do Brasil reatar os laços com o Superior Geral em Paris. Essa notícia foi imediatamente comunicada ao Superior Geral, Pe. João Batista Etienne. A fim de conversarem melhor com o Superior Geral sobre a situação da Congregação, dirigiu-se-se a Paris o Pe. João R. Cunha, com mais dois padres e um seminarista. Ao retornar ao Brasil, Pe. Cunha trouxe mais cinco padres, três irmãos e doze Filhas da Caridade. Estas chegaram a Mariana em 3 de abril de 1849, tendo sido recebidas por Dom Viçoso.  Os trabalhos da Congregação se iniciam no Seminário Maior de Mariana em 1853 a pedido de Dom Viçoso, sendo nomeado superior, o Pe. Miguel Maria Sipolis. No período de 12 a 14 de maio de 1855, realizou-se, oficialmente, na Santa Casa do Rio de Janeiro, a 1ª Assembleia Provincial da Congregação da Missão no Brasil com a presença dos seguintes missionários: Pe. Antônio Afonso de Morais, Pe. Mariano Maller, Pe. Miguel Sipolis, Pe. João Lamant, Pe. João Issaly e o Pe. Valeriano Gonçalves. Nesta assembleia foi indicado e, em seguida, nomeado Visitador o Pe. Mariano Maller. Temos, então, a partir daí, constituída oficialmente a Província Brasileira da Congregação da Missão.  Pe. Luíz Carlos do Vale Fundão, CM ______(1) ZICO, José Tobias, CM. Congregação da Missão no Brasil. Belo Horizonte: Líthera Maciel, 2000. P. 19. (2) Ibidem, p. 22.
Pe. Denílson Matias, CM
Pe. Denílson Matias, CM Desabafo de um Padre Negro Pediram-me um texto no qual eu falasse sobre preconceito. Em tempos de pandemia, seria mais fácil escrever sobre a COVID-19, isolamento social, angústia, solidão, família, comunhão, esperança e tantas outras coisas. Mas, bastou a pandemia para que outro tema viesse à tona. Trata-se também de um vírus. Ao contrário do novo Coronavírus, este já está, há muito, presente entre nós. Ele veio agindo de modo silencioso ao longo dos séculos; disfarçado de cordialidade, de aceitação, de amizade... Esteve sempre presente, sem mostrar a cara. Durante muito tempo, pareceu ser algo assintomático. Os infectados não se davam conta do que acontecia, até que um dia os seus sintomas ficaram mais evidentes. Esse vírus acometeu a muitos. Hoje, já sabemos o nome da doença: racismo estrutural. Com o advento da internet e com os novos motes políticos direitistas instaurados, o racismo ficou exposto, à flor da pele. O grande problema desta doença, desconsiderada por muitas pessoas, é que ela não mata o portador, mata o outro que não é da mesma raça. Quando não mata, deixa sequelas. É a doença que flerta com a agressividade e com a violência. No Brasil, as pessoas isentas do privilégio branco, tornaram-se animais de caça. Se saem das suas humildes tocas, correm o risco de serem abatidas.  O racismo estrutural é a forma cruel de desabonar uma raça em detrimento da outra. Demoniza-se a cor da pele, a cultura, o jeito de ser, de falar, de andar, de rezar, enfim, o diferente é anulado. A sua consciência de povo torna-se algo deturpado. Seu sentido de pertença a uma sociedade passa a ser percebido somente a partir da marginalização. Estereotipa-se o outro a modo de não conceder-lhe os seus espaços de direito. No decorrer da história, o povo negro foi subjugado. Foi trazido para o ocidente, comprado a preço de nada. Suas vidas, ao entrarem nos navios negreiros já não tinham nenhum valor humano. O sentido de ser um povo, uma raça, fragmentava-se tão logo eram caçados, aprisionados e exportados. Talvez, o que lhes desse uma margem de unidade fosse o sofrimento. A partir daquele momento, os negros eram almas pretas lançadas no abandono. Vidas de curta duração, concebidas para o trabalho escravo e ao direito de ficarem calados. Criados mudos! Para os privilegiados brancos, aqueles negros eram um povo sem alma, igualado a animais irracionais. Os animais de estimação eram melhor tratados. Nos navios negreiros, começava a decomposição de um povo, a decomposição de tradições, a decomposição histórico cultural de vidas que seriam encarceradas nas fazendas, nos alqueires, nas minas; na chibata. Ali começava um longo caminho de luta, da sofrida luta pela liberdade, que, até hoje, não foi alcançada. Aquelas pobres vidas pretas escravizadas sofreram ao longo dos séculos. Até que, aos poucos, foram sendo assinadas leis com o pretenso teor de libertação. No caso brasileiro, os negros aqui escravizados não tinham nada e eram libertados sem direito a nada. Assim, os quilombos foram ganhando vida e as favelas foram tomando forma.  Os guetos ganhavam sinônimos, o preto era do gueto, o lugar da macacada, os becos, as vilas, as ruelas, os lugares insalubres tornaram-se o “lugar de gente de cor”. Longe de casa, longe da pátria mãe, no transcurso dos tempos das conquistas e das grandes navegações, os negros foram sendo “domesticados”.  Milhares de pretos foram aleijados, não só fisicamente, foram amputados na sua expressão religiosa, proibiram as suas crenças, tiraram-lhes a voz. Impediram-lhes de dançar as suas danças. Apesar de que “todo menino do pelo saiba tocar tambor”, dançar e cantar, orar do seu jeito próprio, só podia ser feito de modo discreto, para não dizer escondido. As canções do negro foram banhadas em banzo, na saudade do lar, na nostalgia da liberdade de quando ser preto não era pecado, não era crime e não era civilmente errado.  A própria Igreja Católica teve escravos, padres tiveram escravos, suas famílias abastadas tiveram troncos nas suas grandes fazendas. Não consigo imaginar a capelinha com Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na cruz. Lá estava Jesus de Nazaré, pregado no madeiro, depois de ter sido torturado e assassinado. Não muito longe dali, estava a senzala, o tronco, as correntes, os lugares onde batiam e torturavam o mesmo Cristo. A diferença é que o da Cruz tinha traços europeus, finos e caucasianos. O da senzala tinha traços escuros, quem iria dizer que era o Filho de Deus? Há aqueles que insistirão em dizer que os escravos dos católicos eram diferentes, que eram bem tratados. Mania ridícula de justificar um mal, muitas vezes, justificado em nome de Deus. Quase sempre protegido pelo olhar histórico, alguns irão dizer que aqueles eram outros tempos e que isso fazia parte do contexto. Sempre houve uma pedagogia da escravidão atribuída à vontade divina, a modo de justificação. De Agostinho ao Pe. Antônio Vieira se pode constatar isto. Quando fui a Auschwitz e entrei no campo de concentração, pude partilhar da dor dos judeus. A sensação foi triste, verdadeiramente cortante, aquele ambiente me rasgava por dentro. Não assentiria jamais em dizer que o que aconteceu com os Judeus pode ser historicamente justificável e justificado. Seria impossível uma condescendência, de minha parte, com o massacre do holocausto judeu e de tantos outros holocaustos que temos visto na história. Como não sentir a dor do meu próprio povo, dizimado nestas terras?  A escravidão deixou sequelas. Ainda hoje somos escravos. Ainda hoje estamos atados a troncos. Muitos dirão que a situação melhorou. Muitos dirão que fomos gratificados pelo tempo. Muitos dirão que os governantes cuidaram de nós. Muitos continuarão calados, mesmo vendo que não gozamos dos mesmos direitos. Falar de negro a partir da pele de um branco não é o mesmo que narrar a saga de um povo incompreendido na sua história de matriz africana, a partir da própria cor da pele. Só quem sofre por causa do racismo estrutural tem condições de falar do preconceito experimentado dia após dia. O privilégio branco é capaz de proteger, de vestir, de dissimular, de ocultar. Já o preto, o preto está sempre nu. Sempre é olhado a partir da sua vergonha. É sempre o exótico. É sempre aberrante. É sempre perigoso. É sempre o preto. Branco, por favor, não venha me dizer que não, apesar da fala ser sempre sua e do privilégio ser sempre seu. Você pode ter os seus sofrimentos, mas aqui, no Brasil, quem sabe de preconceito sou eu. Só para lhe recordar, não existe racismo reverso quando o privilégio fica sempre de um mesmo lado, do lado claro, é claro. Este povo, que foi abandonado à própria sorte, carrega no corpo uma cor depreciada, usada para justificar o que é ruim. O bom é o lado claro da luz, já as trevas são negras. A coisa? Está preta. Denegrir é empretecer, obscurecer. O dia é bom, a noite é perigosa, a noite é preta. A empregada é doméstica, assim como se domesticavam as negras do tempo da escravidão, com corretivos. O preto é da cor do pecado. É só pensar no imaginário da mulher negra sexualizada, nas curvas que convidam para o mal. O homem negro é o tarado, o abusador. O serviço mal feito é de preto, o mercado clandestino é negro, a magia para o mal é negra, a lista é negra e a ovelha é negra. Poderia listar mais expressões racistas que rebaixam e estereotipam os negros. Raridade seria encontrar uma lista que falasse da sua real essência, que mostrasse a sua beleza, que enfatizasse a sua normalidade. Hoje resolvi gritar. Gritar que não aceito. Gritar que os estereótipos sujos que brotam dos preconceituosos não dizem respeito a quem sou, a quem o meu povo negro é. Não dizem respeito à nossa cor e à cultura que trazemos dentro. Meus irmãos estão nas favelas, nas cadeias, nas ruas. Por que? Não é porque não prestam, não é porque sejam vagabundos. É porque nos libertaram das senzalas, mas, não nos devolveram os direitos roubados; não nos recompuseram por inteira a nossa dignidade que foi fragmentada e ainda exigiram que fossemos como os outros, que nos comportássemos como brancos.  Hoje eu falo em nome das minhas irmãs e dos meus irmãos negros, não precisamos da sua pena, exigimos justiça. Foi à custa do sangue e do sofrimento de muitos pretos que essa nação foi levantada.  Graças aos açoites e ao sangue derramado, de muitos negros sem nome e sem sobrenome, que se construíram casas, estradas, igrejas... Foi à custa destes açoites e deste sangue que muitos brancos puderam comer e beber, para depois estuprarem as negrinhas que tiravam das senzalas e davam de presente aos filhinhos púberes. E são os nomes destes senhores que estão nas placas das ruas, nas praças, nos parques, nas avenidas, sem nunca terem carregado um só tijolo. Só serviam para cortar a fita no dia da inauguração. Em 4 de abril de 1968, aos 39 anos, morria um ícone da luta pela igualdade racial, Martin Luther King. Nem o Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1964, o favoreceu. Foi assassinado por lutar por uma causa justa, a liberdade para os negros oprimidos dos Estados Unidos da América. Sua morte foi mais uma dentre muitas. Apesar da melhora da situação dos negros americanos, seu corpo inerte não foi suficiente para estancar todo o sangue, que escorria dos corpos negros que continuavam a ser assassinados. Há uma parte em seu discurso, “Eu tenho um sonho”, que gostaria de vê-la se tornar realidade, aqui no nosso Brasil: “Eu tenho um sonho que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos essas verdades como auto evidentes que todos os homens são criados iguais". Hoje, no meio de toda a confusão causada pela pandemia, o assunto do racismo voltou com força. Mais um americano negro foi morto de forma cruel. No Brasil, mais um garotinho foi morto dentro de sua casa. João Pedro, morreu aos 14 anos de idade. Teve sua vida ceifada. Ele representa um número extenso na lista dos jovens e dos adolescentes negros mortos no nosso país. O que dizer? O que fazer? Repetir, repetir alto: I can’t breath (Não consigo respirar/ Não posso respirar). Foram 8 minutos e 46 segundos sob o peso do joelho do policial branco, de mãos no bolso, enquanto agonizava, morrendo por ser preto e por ser preto ser suspeito. Suspeito com um único direito, a morte. Assim, George Floyd tira do nosso peito o grito abafado, “não posso respirar” e nos faz dizer “sem justiça, sem paz”. Ah, João Pedro, o menino negro, de 14 anos, com um lindo sorriso no rosto, visto nas fotos da Internet. Essa é a imagem da foto que vemos, foto que derrama doçura e beleza. Em sua última mensagem para sua mãe, que estava ciente do tiroteio, ele dizia que estava sozinho em casa, sem nenhum adulto e, finalmente, escreveu-lhe: “Calma!” E, lá dentro de sua casa ele se foi, morreu com um tiro, morreu pelas mãos de um adulto. Mais um adolescente preto foi para onde já não sentirá o peso do racismo, onde abraçará quem, de fato, sabe amar. Mais um adolescente preto se torna razão para o nosso grito, “sem justiça, sem paz”. Não temos liberdade para ir e vir sem o medo de uma batida policial. Não nos sentimos à vontade dentro dos supermercados, shoppings ou comércios, quando os seguranças passam o tempo todo nos vigiando. Não somos bem atendidos nos lugares onde vamos, há gente que tem nojo de nós. Há gente que desconfia de nós. E há aqueles que dirão que estou exagerando. Geralmente, não são negros, não sabem o que é ser negro e nunca sofreram preconceito. Quantos mais precisarão morrer? Quantos mais precisarão apanhar? Quantos mais precisarão passar por constrangimentos? Quantos mais serão barrados nas portas dos hotéis, em eventos ou em outros lugares? Quantos mais terão que chorar por saber que tudo o que acontece de mal consigo é por causa da sua cor? Quantos mais serão considerados suspeitos? No mundo todo estamos gritando por justiça, pela liberdade de direito e de fato. No mundo todo estamos mostrando o nosso rosto e pedindo que nos vejam como pessoas. No mundo todo estamos dizendo que queremos nos aproximar de verdade, que queremos formar comunhão. A nudez do nosso corpo negro sofrido e escarnecido está exposta, já não suportamos mais sermos tratados como seres inferiores. Já não suportamos o peso do joelho dos policiais, queremos respirar. Como padre negro, no meu lugar de fala, uno-me a todos os que estão nesta luta. Já não aceitaremos que riam de nós, já não aceitaremos que nos julguem pela nossa cor. Já não aceitaremos o último lugar porque os pretos não podem estar à frente. Já não aceitaremos o racismo e nem os racistas, porque são tóxicos. Não há espaço no cristianismo para este tipo de atitude. A religião de Jesus de Nazaré, com tudo o que brotou do seu coração, não pode compactuar com os esquemas assassinos produzidos pelo racismo e pelo preconceito.  Se compactua, não é cristianismo. Já não podemos viver sob a égide de uma dupla moral.  Já não podemos disfarçar o indisfarçável, foi-se o tempo em que um sorrisinho falso mudava a situação. Foi-se o tempo em que pensavam que podiam nos comprar com umas poucas moedas ou com parcas ofertas. Foi-se o tempo em que nos faziam acreditar que erámos nada.  Gostaria de terminar este texto citando documentos da Igreja, mas não. Penso que somente alguns versículos bíblicos servirão para terminar este desabafo. Creio que é uma pena que até hoje não entenderam o sentido e a riqueza que estes versículos têm. Se os cumpríssemos, se não mentíssemos nas nossas relações humanas, tudo seria diferente. Hoje trago somente uma certeza, o Deus verdadeiro não suporta o racismo. O Deus verdadeiro não suporta o preconceito, o Deus verdadeiro é antirracista: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" Respondeu Jesus: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas". (Mt 22, 36-40) Pe. Denilson Matias, CM
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