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Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM
Ir. Louis Francescon Costa Ferreira, CM “Quando passam pelo vale da aridez, o transformam numa fonte borbulhante” [1] Preliminares Com a pandemia da COVID-19, o mundo está vivendo um ano atípico, mas não inédito [2]. Inúmeras são as pessoas infectadas, somando um milhão de casos confirmados; é assustador o número de óbitos diários, totalizando cerca de sessenta mil; escancara-se a precariedade do sistema de saúde, intensificam-se a crises políticas etc. No Brasil, desde meados de março, fez-se necessárias medidas preventivas, segundo as orientações do Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros órgãos responsáveis, a fim de conter a proliferação do novo corona vírus. Tal medida atingiu comércios, escolas e também as Igrejas. A aglomeração de pessoas é arriscada, neste tempo de pandemia. Infelizmente, catequeses, encontros paroquiais semanais, celebrações, grandes festas tradicionais entre outras atividades que dinamizam a vida das Paróquias, Santuários, Curatos, foram canceladas e/ou adiadas, como medidas de prevenção. Muitas celebrações eucarísticas têm sido transmitidas, por meio de Facebook, Instagram, canais televisivos, rádio (o que já acontecia, porém de modo mais intenso). Ousamos dizer que esses meios são os únicos, por ora, como acesso à missa, adoração eucarística, terço etc. Em algumas cidades, interiores e capitais, celebram-na com um número restrito de pessoas, porém crianças e idosos, considerados “grupos de risco”, recebem a orientação de permanecer em casa. Todo este contexto tem causado uma saudade de nossa dinâmica eclesial. Certamente, muitos párocos e paroquianos, ao longo destes meses de quarentena, ouvem as queixas: “Padre, está muito ruim sem missa!”; “Como estou com saudade da Igreja!”; “Estou com saudade da missa!”; “Meu Deus, ficar sem ir à Igreja é muito ruim!”. Há aqueles mais ousados, os quais pedem para devolver-lhes a missa [3]. De fato, com esta pandemia, se revelam muitos problemas; basta acompanhar as notícias pelos jornais, telejornais e redes sociais. Vivendo este contexto inesperado, muitos padres, religiosos, até mesmo seminaristas têm utilizado as redes sociais para reunirem o povo em suas igrejas domésticas, compartilhando a Palavra de Deus com bastante criatividade. O povo de Deus não está abandonado por seus pastores: missas, terços marianos, conferências, lives têm sido meios possíveis de ouvir a voz de muitos que se preocupam com a vida de fé do santo povo de Deus. Isso revela a dimensão do cuidado, tanto do Ministério da Saúde quanto das Dioceses, Vicariatos, Curatos, Prelazias em optar pelo isolamento social, e, assim, manter as atividades previstas canceladas ou adiadas. Passamos por um momento, o qual não será eterno. Porém, em meio a tantas possibilidades de acesso à Palavra, para muitos fieis torna-se difícil expressar sua fé assim: sentir-se privado da Eucaristia, principalmente para os fieis de comunhão diária, causa angústia, infelicidade e preocupação. Isso revela algo que, para muitos, infelizmente constatamos tal realidade, ainda não estava bastante claro, por mais que haja um esforço em mostrar que ser cristão é colocar-se a serviço (cf. Jo 13): a importância de viver em comunidade de fé. Vemos que muitas pessoas, por pouco motivo, deixam a liderança e animação de suas comunidades. Ora, a pandemia também não interpela a fé cristã? Já nos demos conta que quando celebramos a Eucaristia, recebemos, na bênção final da missa [4], o envio para anunciar a fé que professamos a todas as nações (cf. Mt 28,19)? Quantas vezes já não cantamos a canção: “Agora que a missa termina, começa então nossa missão” [5]? Nas nossas Igrejas e celebrações, buscamos a força necessária, quando recebemos os Sacramentos, para continuar a missão de Jesus Cristo, o qual nos imbui de seu poder para evangelizar (cf. Mt 10,1). Ser cristão é um modo de vida, ética que perpassa todas as dimensões do ser humano batizado. Reunidos em nossas comunidades eclesiais, buscamos a ortopráxis para bem viver a fé, dentro e fora do Templo. A história mostrou-nos que homens e mulheres de fé estiveram impossibilitados de receber a Eucaristia e, mesmo assim, não deixaram de estabelecer uma profunda comunhão com o corpo místico de Cristo. Damos um exemplo. A experiência do cárcere do Cardeal Van Thuan, o fez reinventar sua comunhão com Deus de forma mais profunda, mesmo experimentando as dores da prisão. Ele pôde contar-nos essa experiência, por meio da obra “Cinco pães e dois peixes: do sofrimento do cárcere um alegre testemunho de fé”. Sem deixar-se abalar, experimentou a dor na perspectiva da cruz, a qual apresenta também elementos de ressurreição. Quando os comunistas lhe transportaram para o norte, no navio Hâi-Phòhg, com outros 1.500 prisioneiros, o cardeal, ouvindo a voz de Deus (“Escolhe a mim!”), disse: “Sem dúvida, Senhor, aqui é minha catedral, aqui é o povo de Deus que tu me deste para cuidar. Devo assegurar a presença de Deus no meio desses irmãos desesperados, miseráveis. E tua vontade portanto é a minha escolha” [6]. A impossibilidade de comungar, por ora, não priva nenhum fiel de estar em comunhão com o corpo de Cristo e, muito menos, em comunhão com seus irmãos. Interessante o paradoxo que vivemos, atualmente! Por isso, o momento presente deve interpelar-nos na fé, e precisamos compreendê-lo na dinâmica e na autenticidade do mistério que professamos. Israel, “em meio às instabilidades deste mundo” [7], alcançou profunda maturidade espiritual. O homem que confia em Deus “não teme receber notícias más”, pois “confiando nele, seu coração está seguro” e guarda a paz (Sl 111{112},7; cf. Is 26,3). Tal convicção, também a vemos na tradição apostólica: “confiem a Deus todas as suas preocupações, pois é ele quem cuida de vocês” (1Pd 5,7). Em meio a este “vale de aridez” (Sl 83{84},7), causada pela pandemia da COVID-19, é possível progredir na fé, dar um passo a frente; afinal, não avançar nas coisas de Deus é o mesmo que retroceder (cf. Hb 10,38-39). O momento precisa gerar nos cristãos sentimentos de esperança, importante elemento de nossa fé. O Tempo Pascal, que concluímos a pouco, nos leva a ressuscitar-nos com o Cristo, que venceu o poder da morte, possibilitando, a cada batizado, “vida nova no amor” [8]. Por isso, não é tempo de deixar que o medo e a angústia assolem o coração humano, mas tempo de tornar firme nossa convicção de seguidores de Jesus, discípulos-missionários da Boa Notícia, porque, em qualquer tempo e lugar, precisamos estar prontos a dar razão da nossa esperança a todo aquele que a pedir (cf. 1Pd 3,15). Tendo em vista os aspectos observados, peçamos a Deus que dê ao ser humano, a sabedoria e o discernimento necessários para vencer as dificuldades deste tempo de pandemia, repetindo como o salmista: “dai-me de novo um espírito decidido” (Sl 50{51},12b). Por meio deste texto, mostraremos, em um primeiro momento, a experiência do povo da Antiga Aliança, o qual, em meio à opressão, encontrou alternativas para seu crescimento humano e espiritual. De inúmeras interrogações, queixas e lamentos surgiram belíssimos testemunhos de fé. “Feliz quem põe em vós sua esperança” (Sl 83{84},13b) é a convicção do fiel que tem como horizonte o mistério de Deus, seu único Senhor e soberano, no qual deposita sua confiança, em uma relação de amor. Como inspiração, teremos o Salmo 83{84}. Observando o seu contexto, perceberemos que uma grande tribulação impediu que os judeus peregrinassem ao Templo para oferecer seus sacrifícios e realizar outras atividades inerentes a ele, ou seja, ficaram privados da participação de seu aparato religioso principal. Não foi possível celebrar o culto. Onde encontrar Deus, em meio ao caos? Onde ele está? “Esperávamos a paz, e não chegou nada de bom” (Jr 14,19) e “será que Deus se esqueceu de ter piedade?” (Sl 76{77},10) são questionamentos que demonstram a angústia humana e a experiência do silêncio de Deus. Ora, não nos esqueçamos que, em meio à tempestade (por que não em meio à pandemia?), Deus abriu a boca (cf. Jó 38). Em seguida, iremos apresentar luzes, motivações e dicas para que você construa o Salmo de sua vida, a fim de que sua fé não esmoreça, e, assim, fazer desta pandemia um momento de autoquestionamento, tanto pessoal quanto comunitário, e tomar consciência do nosso papel de cristãos batizados, imbuídos dos dons do Espírito Santo. Assim acreditamos que, ao retornar às Igrejas, voltaremos maduros na fé e poderemos “caminhar com um ardor sempre crescente” (Sl 83{84},8), agradecendo a bondade de Deus que não desampara o seu povo, mas o guarda qual pastor protege seu rebanho (cf. Jr 31,10).   1. Salmo 83{84}: saudades do Templo  A fé judaica é feita de memórias. Nossa Eucaristia, hoje, é um memorial (“Fazei isto em memória de mim!”). Nessa perspectiva, recordar o passado pode iluminar o presente. Não se trata de um saudosismo ou de um simples exercício para nossa memória, mas da firme convicção que “até aqui nos socorreu o Senhor” (1Sm 7,12). Devido à ação de um império opressor, Israel voltou sua lente para o seu passado, a fim de compreender e dar respostas às angústias do momento presente. Tal a perspicácia e precisão de sua atitude que, ainda hoje, podemos colher os benefícios de sua inquietação interior: os textos sagrados nasceram para responder crises de fé. Ora, não estamos buscando compreender o “por quê” e o “para quê”, desta pandemia? Como iluminar o momento presente, à luz da fé que professamos?   1.1- “Felizes os que em vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos!” (Sl 83{84},6) “Saudades do templo”! Esse é o título do Sl 83{84} que lemos no breviário [9]: subsídio litúrgico para a oração das Horas canônicas. Por meio deste ofício, rezamos os Salmos e Hinos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento [em Laudes e Vésperas, respectivamente]. Não temos a pretensão de fazer a exegese desse texto bíblico, mas apresentar brevemente seu contexto e sua mensagem, por meio de um simples método. O que ele tem a dizer para a vivência da fé? Quais elementos explícitos e implícitos da tradição judaica? É possível captar também elementos históricos? O povo da primitiva Aliança recebeu, por meio da opressão babilônica, a experiência do exílio. Houve, segundo dados bíblicos e históricos, duas deportações: ano de 597 e 587 a.C. [10]. Os babilônicos, liderados pelo Rei Nabucodonosor, fizeram cativos as lideranças religiosas, escribas, comerciantes e funcionários, os quais poderiam contribuir para o progresso de suas respectivas comunidades. “Levou para o exílio toda Jerusalém, todos os comandantes e todos os valentes do exército, cerca de dez mil deportados. Levou também todos os ferreiros e artesãos; deixou somente o povo pobre da terra” (2Rs 24,14). Com a destruição do Templo e com os magistrados cativos, Israel é tomada por uma profunda crise de fé [11]. Alguns questionamentos bem a demonstram: onde está Deus? Qual a consistência de suas promessas? Marduk derrotou Javé, e a consequência disso é o exílio? Vale a pena aprofundar a tradição dos pais? Tal desolação não está explícita no Sl 137{136}?  1À beira dos canais de Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião; 2nos salgueiros que ali estavam penduramos nossas harpas. 3Lá, os que nos exilaram pediam canções, nossos raptores queriam alegria: "Cantai-nos um canto de Sião!" 4Como poderíamos cantar um canto de Iahweh numa terra estrangeira? 5Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que me seque a mão direita! 6Que me cole a língua ao paladar, caso eu não me lembre de ti, caso eu não eleve Jerusalém ao topo da minha alegria! 7Iahweh, relembra o dia de Jerusalém aos filhos de Edom, quando diziam: "Arrasai-a! Arrasai-a até os alicerces!" 8Ó devastadora filha de Babel, feliz quem devolver a ti o mal que nos fizeste! [12]   Ora, como sair desta situação, sem permitir que a fé esmoreça? A crise não seria uma chance para a fé [13]? A palavra Χρ?σης (transl. Khrýs?s), em grego, significa “o momento do discernimento”. Dizer que alguém está em crise, significa dizer que está discernindo, buscando respostas e alternativas para solucionar um determinado problema, p. ex. Não seria este o pedido implícito no Sl 90{89},12 : “Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria”? Israel se coloca em posição de autoquestionamento para encontrar respostas consistentes, fundamentando-se em toda a tradição dos pais, a fim de compreender o momento de opressão babilônica, sem colocar o poder de Deus em cheque, porque “jurou o Senhor e manterá sua palavra” (Sl 109{110},4); logo, Deus não falhou em suas promessas (cf. Nm 23,19; Ml 6,3a; Js 21,45; 23,14; 1Rs 8,56b; Sl 89{88},34; 145{144},13b} etc). O problema a ser solucionado é teológico, não político-institucional. Neste momento, Israel começa a redigir as hagiografias: textos que contam a realidade concreta do povo, pessoal e comunitária, bem como as maravilhas operadas por Javé. Por meio dos textos, escritos e lidos na perspectiva da fé, Israel pôde aprofundar e rever seus conceitos. Em meio a tantos escritos, foram redigidos os Salmos, os quais, mais tarde, comporão o que chamamos, hoje, o “Saltério” ou “Livro dos Salmos” [14]. Segundo a exegese bíblica, há, pelo menos, três gêneros literários dos Salmos: hino de louvor, lamento/súplica e ação de graças [15]. Ora, se com a destruição do Templo (casa da habitação de Javé: cf. Sl 26{25},8), tornou-se impossível realizar o culto e os sacrifícios, então, sem o aparato religioso, Deus habita nos louvores de Israel (cf. Sl 22,4). Por isso, a oração, na vida diária, ganha um significado profundo e místico. A história é lida, a partir da fé. Os acontecimentos históricos ganham nova chave de leitura e uma nova compreensão, sem deixar-se perder a tradição dos pais. O Livro dos Salmos “conservava a memória, pois lembrava os fatos importantes da história do povo, reforçava a identidade do povo como povo de Deus; criava nas pessoas sentimento de pertença ao povo de Deus” [16]. Pode haver momento tão fecundo, em âmbito religioso, quanto esse? Israel ouviu a voz da sabedoria: “Meu filho, não perca de vista a inteligência e conserve o discernimento” (Pr 3,21). Ao escrever, Israel redige sua história, guiada com a mão poderosa e o braço estendido do Senhor (cf. Sl 136,12; cf. Sl 126{125}).   1.2- “Minha alma desfalece de saudades e anseia pelos átrios do Senhor” (Sl 83{84},3) Essa é a queixa do salmista, personificando a comunidade, a qual está impossibilitada de peregrinar ao Templo! Não é esta a realidade pela qual passamos, devido à pandemia da COVID-19? Já frisamos que a história se repete; por isso, o momento não é tão inédito. Se Israel superou a crise, então nós também não podemos? Não bebemos da mesma fonte que a tradição judaica? Não confiamos no mesmo Deus? O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó não é também o Deus de Jesus Cristo? Segundo Hb 4,12, “a palavra de Deus é viva, eficaz”, portanto, sua verdade continua nos apresentado elementos para alimentar a fé e nos interpela a aprimorá-la em qualquer circunstância da vida. Repetimos: ser cristão é um modo de vida. No trabalho, no lazer, na família, na missa, em quarentena todo batizado precisa dar sinais que professa Jesus como “o Senhor” (Jo 21,7). Este é um dos Salmos que expressa a realidade dos judeus, ao recordar saudosamente do Templo [17]:   – Quão amável, ó Senhor, é vossa casa, * quanto a amo, Senhor Deus do universo! – Minha alma desfalece de saudades * e anseia pelos átrios do Senhor! – Meu coração e minha carne rejubilam e exultam de alegria no Deus vivo! = Mesmo o pardal encontra abrigo em vossa casa, † e a andorinha aí prepara o seu ninho, * para nele seus filhotes colocar: – vossos altares, ó Senhor Deus do universo! vossos altares, ó meu Rei e meu Senhor! – Felizes os que habitam vossa casa; * para sempre haverão de vos louvar! – Felizes os que em vós têm sua força, e se decidem a partir quais peregrinos! = Quando passam pelo vale da aridez, † o transformam numa fonte borbulhante, pois a chuva o vestirá com suas bênçãos. – Caminharão com ardor sempre crescente * e hão de ver o Deus dos deuses em Sião. – Deus do universo, escutai minha oração! * Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido! – Olhai, ó Deus, que sois a nossa proteção, * vede a face do eleito, vosso Ungido! – Na verdade, um só dia em vosso templo * vale mais do que milhares fora dele! – Prefiro estar no limiar de vossa casa, * a hospedar-me na mansão dos pecadores! – O Senhor Deus é como um sol, é um escudo, * e largamente distribui a graça e a glória. – O Senhor nunca recusa bem algum * àqueles que caminham na justiça. –Ó Senhor, Deus poderoso do universo, * feliz quem põe em vós sua esperança!     O Salmo encontra-se no Saltério Messiânico (Sl 3-89), dentro do Livro III (73-89), o qual podemos intitulá-lo de “transição de Governo”. Se o Livro II (42-72) mostra um programa de governo, então, aqui, vemos o fracasso da monarquia – por isso, o momento de transição. Um desdobramento deste fracasso é, justamente, a destruição do Templo pelo poder babilônico. Basta ler 2Rs 24 e perceber que também o rei foi levado para o cativeiro (consultar nota [10]). Ora, a idolatria denota uma infidelidade à Aliança (cf. Ex 32,1-6; Sl 81{80},9-14). Servir a outros deuses é um grande problema, pois gera a perda da identidade e descrença em um só Deus (cf. Dt 4,35; 6,4; 2Sm 7,22; Os 13,4b etc). “Eu os tomarei para mim como meu povo, e serei Deus para vocês” (Ex 6,7; cf. Jr 32,38). Infelizmente, Israel se deixou levar pela ideologia de povos vizinhos, cultuando outros deuses, não escutando a voz de Deus nas intervenções proféticas e sapienciais (cf. 2Rs 17,13). Se Deus é fiel, então cabe culpá-lo pela desgraça do exílio? As deportações ao cativeiro não seriam fruto de uma infidelidade à Aliança [18] e até mesmo ação de Javé, “Senhor Deus do Universo”, o qual fará ver “o Deus dos deuses em Sião” (Sl 83{84},8b)? Mais uma vez podemos recorrer à sapiência bíblica [19]: “Meu filho, não despreza a disciplina de Javé, nem se canse de suas advertências; porque Javé corrige aqueles a quem ele ama, como o pai corrige o filho preferido” (Pr 3,11-12). O Salmo 83{84} recorda a importância de uma fidelidade autêntica, tendo como horizonte a Lei de Javé, inscrita no coração, porque o homem justo, praticante da justiça, recita sabedoria e anuncia o direito (cf. Sl 37{36},29-31). A alma sedenta encontra Deus na oração pessoal e comunitária. Segundo Ez 10, a glória de Javé parou junto à porta oriental do Templo. Ora, o que se encontrava ao Oriente? O povo de Deus exilado! Deus é solidário com o seu povo que sofre. Qual mensagem podemos colher deste Salmo? Quais elementos podem alimentar a fé, neste contexto atípico? Para responder essas questões, aplicaremos o método proposto por Mesters [20]. Qual situação levou o salmista a rezar? Como vimos, o Templo fora destruído, com a intervenção babilônica, a qual fizera cativos os magistrados de Israel. Sobrara, apenas, o povo pobre da terra, conforme 2Rs 24,14; a intenção, vem acompanhada de uma prece: “Deus do universo escutai minha oração! Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido”. Tal convicção leva o romeiro a encontrar sua proteção no Senhor dos Exércitos, e olhar para a face de cada um de seus eleitos, o povo que ele separou para si (v. 9-10). A situação é fatídica, mas de esperança na intervenção divina; Qual o objetivo do salmista? Recordar eventos históricos e encontrar neles a ação de Javé, em favor do seu povo. Mesmo que a alma desfaleça de saudades e anseie pelos átrios do Senhor, o coração e a carne precisam alegrar-se no Deus vivo (v. 2-3), porque da vitalidade divina brota toda a força que impulsiona o romeiro ir ao encontro de Javé (v. 5-6), em qualquer situação e lugar. Infidelidade e injustiça podem causa grandes danos (idolatria, p. ex.). A Lei expressa também o carinho de Deus com seus eleitos. Passar pelo vale da aridez não significa distanciar-se de Javé; mas, confiante em seu poder, transformar esta difícil situação “numa fonte borbulhante”, porque as bênçãos de Deus cairão sobre cada peregrino, como a chuva cai sobre a terra; judeus e pagãos (babilônicos) “hão de ver o Deus dos deuses em Sião” (v. 7-8). O poder do mal não prevalecerá; Quais imagens o salmista utiliza para expressar a oração? Ao recordar o Templo, o salmista afirma que os pardais e a andorinha encontram abrigo e lugar para preparar os seus ninhos e cuidar de seus filhotes. Ora, se até as aves podem encontrar lugar de habitação, então o peregrino não encontraria ali sua segurança e proteção? Não foi Deus quem construiu para o seu povo uma casa de habitação (cf. 1Rs 8,13; Ex 15,17)? Ademais, o Senhor é um sol e um escudo (objeto que protege): ilumina seu povo e lhes dá segurança, mostrando sua graça e glória, a qual se expande largamente, inclusive em meio à opressão e à dor (v. 12); Que fé o salmista transparece? A situação fatídica não pode abalar a fé. Por isso, é necessário caminhar “com um ardor sempre crescente”, pois o Senhor não recusa nenhum bem para o homem justo, ou seja, aquele que pratica a justiça. O que é a justiça? “É a vontade de Deus, o seu projeto eterno. Somos justos e praticamos a justiça quando deixamos que Deus realize a sua vontade sobre nós [...]” [21]. O Salmo termina com um caro elemento da fé judaica e cristã: “Feliz quem põe em vós sua esperança” (v 8.12-13); Quais os traços do rosto de Deus, aqui? O Senhor Deus não foi derrotado pelo deus dos babilônios. Ele é o “Deus de Jacó”, “Deus de Sião”, “Senhor do Universo”, “Deus poderoso do Universo” e “Rei”, ou seja, é ele quem governa (v. 2.4.9); por isso, como povo eleito, o peregrino diz “meu Senhor” (v. 4), porque Deus disse “meu povo” (Ex 6,7). É dele que provém todo o bem a quem observar a justiça e o direito, indo na contramão da lógica do homem ímpio e injusto (v. 12b).   2. “Deus do universo, escutai minha oração. Inclinai, Deus de Jacó, o vosso ouvido!” (Sl 83{84},9) Os Salmos apresentam as situações da vida do ser humano, em particular, do povo eleito de Deus, cuja identidade encontra-se na Lei Mosaica. Todo homem experimenta momentos de alegria e tristeza, vitórias e derrotas. Enfrenta crises pessoais, mas também comunitárias. No âmbito da fé, não podemos ver as situações difíceis da vida como castigo, porque “desafios não são maldições” [22]. Segundo Pr 17,3, “como a prata é testada ao fogo e o ouro, no crisol, assim o Senhor prova os corações” (Sr 2,5-6). O justo é posto à prova, para que nele se manifeste o poder de Deus, pois “quem espera no Senhor, esse é feliz” (Pr 16,20). Que tal recordar a história de Abraão (Gn 12-25)? Portanto, sabedoria ou sapiência, mais que aprimoramento intelectual, é relação. Cabe a pergunta: “relação com o quê?” Relação com Deus, relação com a Lei (fruto da Aliança no Monte Sinai), relação consigo mesmo, relação com as outras pessoas, relação com os bens materiais e relação com a história. Como dissemos, interpelado em seu bem mais precioso, a fé, Israel se questiona sobre seu proceder ético. Reconheceu ter falhado, sem estagnar-se na culpa: “Dai-me de novo a alegria de ser salvo e confirmai-me com espírito generoso” (Sl 50{51},14). Vale a pena recordar o trecho de um grande poeta: “o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão” (Guimarães Rosa [23]). Os Salmos revelam muitos questionamentos e situações vitais que nada divergem do homem do século XXI: o que é o ser humano? Sl 8; se somos povo da Aliança, então qual caminho devemos seguir? Sl 1; por que assimilar o conteúdo da Lei? Sl 19{18}; Por que o justo sofre? Sl 35{34}. Há momentos de muita alegria e exultação (Sl 34{33}); há momentos de total desolação, em que se ouve somente o silêncio de Deus (Sl 13{12}). Às vezes, o diálogo ganha um tom de súplica (Sl 17{16}), mas também de ação de graças (Sl 18{17}). Já outros ajudam o homem a reconhece suas faltas, alegrando-se pela graça do perdão (Sl 32{31}) [24]. Neste momento histórico, precisamos reconhecer também o poder de Deus. Onde ele está? “Ele está no meio de nós”, e espera que cada cristão alimente sua vida espiritual com criatividade e ousadia. Em todo tempo e lugar, discernir as situações na perspectiva da fé, pedindo sabedoria ao Espírito Santo, a fim de encontram respostas que convergem para os critérios do Evangelho. Por ora, deixamos a proposta do teólogo biblista Carlos Mesters [25], para que você possa, neste momento de preocupação, aridez, dúvidas, mas também de esperança, construir o salmo de sua vida. Agradeça, lamente, suplique, peça, mas, sobretudo, louve.   Procure dar uma resposta a esta pergunta: Quais os elementos que não podem faltar no salmo da minha vida? Os elementos que você vai juntando serão os tijolos para a construção do seu salmo; Comece a construir a casa do seu salmo, organizando os tijolos de tal maneira que expressem o que você é e vive; Tente encontrar um refrão a ser repetido após cada parte do salmo.   Muito simples! Tenha a ousadia de contar sua história, em uma profunda intimidade com Deus. Escreva ou apenas medite! Recorde fatos de sua vida: trabalho, família, conquistas, dificuldades, superações, experiências marcantes... mas, também, silencie e ouça os apelos de Deus para você. Renove sua esperança, caminhe com um ardor crescente, transforme a aridez em fonte borbulhante, sem deixar-se abalar pelo medo, porque é feliz o homem que no Senhor colocou sua esperança!   Ao meu coirmão, Pe. Francisco Ermelindo Gomes, CM, missionário lazarista e meu diretor espiritual, o qual cultiva intensa vida de oração.   NOTAS Para a consulta dos números que se encontram entre [ ]. 1. Missionário lazarista (Congregação da Missão – CM), graduado em Filosofia, pelo Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), e graduado em Teologia, pela Faculdade Jesuíta (FAJE). 2. O mundo já sofreu com este tipo de situação. P. ex.: peste negra (séc. XIV), gripe espanhola (séc. XX) etc. Como relata Ecl 1,9-10: “o que aconteceu, acontecerá de novo; o que se fez, vai se fazer de novo; não existe nada de novo debaixo do sol! Ainda que alguém diga: ‘Olhe, isto é novo’, já aconteceu em outros tempos, muito antes de nós.” 3. Disponível em <<https://diocesedivinopolis.org.br/c/noticias/pensando-nas-pessoas-dos-grupos-de-risco-artigo-com-notas#_ftnref1>>. Acesso em 27 de junho de 2020. 4. Do latim, a palavra “missa” significa “enviada”, “envio”, podendo soar um tom de despedida também. Ao término de cada celebração, o presidente dizia: “Ite, missa est.”, ou seja, “Ide, o envio está feito”. Você pode aprofundar o tema em << https://pt.aleteia.org/2017/08/25/por-que-a-missa-se-chama-missa/>>. Acesso em 27 de junho de 2020. 5. Disponível em <<https://www.youtube.com/watch?v=UAKFHq_kZXA>>. Acesso em 19 de junho de 2020. 6. VAN THUAN, François-Xavier Nguyen. Cinco pães e dois peixes: do sofrimento do cárcere um alegre testemunho de fé. 21. imp. São Paulo: Santuário, 2017, p. 25. 7. Oração conclusiva do Ofício de Vésperas da terça-feira da 5ª semana do Tempo Pascal. 8. Trecho da música “Manhã de luz”. Disponível em <<https://www.youtube.com/watch?v=-bjlVhAgu5s>>. Acesso em 19 de junho de 2020. 9. Geralmente, o breviário fornece o título do Salmo, o qual funciona como uma chave de leitura para interpretá-lo. Na Bíblia, os títulos “informam sobre a origem, o autor, o tipo e o uso do salmo. [...] Eles dão uma ideia de como os Salmos eram rezados naquele tempo.” (MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2018, p. 19). 10. “Em 598/579, o rei babilônico, Nabucodonosor, toma Jerusalém e conduz Joaquin (Jeconias) à Babilônia, substituindo-o no trono por Sedecias (2Rs 24,10-17).Nesta primeira leva de exilados, encontra-se o profeta Ezequiel. O novo rei de Judá, Sedecias, deixa-se seduzir por uma ideologia nacionalista míope e, contrariando os conselhos do profeta Jeremias, trama uma revolta contra Nabucodonosor, resultando em novo assédio e destruição completa de Jerusalém e do Templo, em 586 a.C. Desta vez, Nabucodonosor manda para Babilônia, sob a guarda de Nebuzardã, uma segunda leva de cativos, a saber, grande parte da elite política e militar (1Rs 25,1-21; Jr 52,4-27). Assim inicia-se o ‘exílio babilônico’, que vai durar meio século.” (KONINGS, Johan. A Bíblia, sua origem e sua leitura. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 60). 11. Sobre as duas deportações, ver 2Rs 24,1-25,30. 12. Tradução da BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova ed. rev. e ampl. 2. impr. São Paulo: Paulus, 2003. 13. Traduzimos o nome de uma obra intitulada “La crise: une chance pour la foi”. 14.“Salmo é uma palavra grega (psallein) que significa cantar hino acompanhado de instrumentos de cordas, que se chama psaltérion. Hoje, a palavra saltério é aplicada a coleção de 150 salmos de nossas Bíblias. [...] Os salmos eram usados para celebrar e para manifestar o estado de espírito do fiel judeu, em diversos momentos e circunstâncias. Revelam estado de ânimo, desolação, adoração, louvor, perseguição, confiança, saudades do Templo, confissão dos pecados, alegria e tristeza. Eram cantados quer em movimentos individuais de oração, quem em momentos comuns e diários (refeições, casamentos), ou comunitários e festivos.” (ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 141-142). Ler os Sl 32{33},2; Sl 46{47},7. 15. Podemos encontrar os três gêneros literários, em apenas um Salmo. Lamentar uma situação, suplicar ajuda e bendizer a Deus pelo benefício/socorro recebido. Tamanha riqueza em um só texto. A fim de aprofundar os Salmos, consultar: 1) HARRINGTON, Wilfrid J. Chave de leitura para a bíblia: a revelação, a promessa, a realização. reimp. São Paulo: Paulus, 2019, p. 349-366; 2) ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 141-143. 16. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2018, p. 17. 17. Nós o apresentamos, aqui, tal qual se encontra na Liturgia das Horas, Laudes, III Semana, segunda-feira. Disponível em <<https://www.paulus.com.br/portal/liturgia-diaria-das-horas/dia-20-segunda-feira-5/#.XrwBzURKh0w>>. Acesso em 20 de abril de 2020. 18. Na tentativa de encontrar respostas para o exílio, as Tradições Sacerdotal e Deuteronômica trabalharam nesta perspectiva: nós, como povo eleito, fomos infiéis ao culto e ao pacto que Javé estabeleceu na Aliança (cf. HARRINGTON, Wilfrid J. Chave de leitura para a bíblia: a revelação, a promessa, a realização. reimp. São Paulo: Paulus, 2019, p. 221). 19. Correspondem aos Livros Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Coélet (Eclesiastes), Sirácida (Eclesiástico) e Sabedoria. “A coleção de livros sapienciais tem como objetivo mostrar a sabedoria do povo judeu. Por sabedoria, entendia-se muito mais um conjunto de normas e princípios práticos de vida do que o conjunto de ideias e conhecimento científico [...]. Os ditos sapienciais serviam para orientar os mais jovens sobre como se comportar em diversas situações: em casa e na sociedade, durantes as refeições, em lugares públicos, nos tribunais, no comércio (cf. Pr 1,2-6; 10,1.5.16; 11,1; 12,4.11.28; Eclo 10,1-5; 11,7-9.29-34; 13,1-3 etc.). Como a vida do judeu está profundamente marcada pela sua fé, tais provérbios e ditos sapienciais foram associados ao temos de Deus e à vivência dos mandamentos (cf. Pr 1,7; 6,16; Jó 28,28; 32,8; Eclo 1,11-21; 2,6s; 2,26; Sb 7,27 etc.)” (ROSA, Dirlei Abercio da. Projeto do Pai: roteiro para estudo do Antigo Testamento. 11. reed. São Paulo: Paulinas, 2014, p. 137-138). 20. Para cada Salmo, poder-se-á aplicar este método. Utilizaremos, aqui, os pontos 2-6, conforme encontram-se enumerados na obra. Completamos a proposta de leitura com os itens 1 e 7, a saber: 1. Descobrir as divisões dentro do Salmo; 7. Verbalizar os sentimentos que você teve ao rezar o Salmo. Consultar a obra: MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus: 2018, p. 91-92. A partir de sua leitura pessoal [ou em família], você pode enriquecer com outros elementos do texto. 21. STORNIOLO, Ivo. O Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. 14. reimp. São Paulo: Paulus, 2018, p. 14. 22. Frase no filme “Queen of Katwe” [“Rainha do Katwe”]. 23. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. 38. imp. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 15. 24. Como já apresentamos a chave de leitura para o Livro III [73-89: transição de governo], optamos em dar exemplos com o Livro I [3-41: ascensão de Davi]. Lendo-o nessa perspectiva, compreender-se-á o porquê das muitas referências ao Rei. A numeração dos Salmos encontra-se na nova edição da BÍBLIA SAGRADA. 2. ed. Brasília: CNBB, 2019. 25. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Lendo o Livro dos Salmos: a leitura orante do povo de Deus. São Paulo: Paulus: 2018, p. 92.  
Pe. Luís Carlos do Vale Fundão, CM
Pe. Luís Carlos do Vale Fundão, CM Os primórdios da Congregação da Missão no Brasil A celebração dos 200 anos da chegada dos Missionários Vicentinos (Lazaristas) ao Brasil, neste ano de 2020, nos faz recobrar uma parte importante da história do Brasil que foi marcada pela contribuição desses homens zelosos nos diversos trabalhos missionários, educacionais e de serviço aos Pobres. Veremos, a seguir, como foram numerosos os trabalhos realizados pelos primeiros missionários em terras brasileiras, ao longo de todos esses anos, tais como: missões populares; fundação de colégios; direção de seminários; socorro aos empobrecidos, defesa dos injustiçados, etc.  Neste artigo, vamos nos ater aos principais acontecimentos, desde a chegada dos missionários ao Brasil até a fundação da Província Brasileira da Congregação da Missão, com o devido reconhecimento tanto da Cúria Geral da Congregação da Missão como da Santa Sé, em Roma.   A história da chegada da Congregação da Missão no Brasil inicia-se com um pedido feito por Sua Majestade Dom João VI, ainda em 1819, quando solicita ao Visitador de Portugal, Pe. Antônio da Silva Rebelo, missionários lazaristas para assumirem uma obra em Cuiabá, no Mato Grosso, para a evangelização da população, catequização dos índios e defesa das fronteiras com os países vizinhos. O Padre Visitador atendeu ao pedido do Rei e enviou dois missionários para essa empreitada no Brasil: Pe. Leandro Rebelo Peixoto e Castro e o jovem Pe. Antônio Ferreira Viçoso.  Nesse meio tempo, em Minas Gerais, na Serra do Caraça, o Irmão Lourenço de Nossa Senhora havia adquirido, em 1770, uma imensa propriedade, edificando uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens e a São Francisco das Chagas, a qual seria destinada às peregrinações, ao atendimento de confissões e aos demais sacramentos. Já na época do Irmão Lourenço, foram construídas duas alas laterais destinadas ao acolhimento dos peregrinos.  A pequena comunidade, formada pelo Irmão Lourenço e composta de homens movidos pelo propósito de se penitenciar numa vida austera e de solidão, se dedicava ao cuidado e acolhimento de todos os peregrinos que acorriam ao pequeno santuário.  Nas vésperas de sua morte, o irmão Lourenço, já idoso e doente, foi visitado pela Virgem Maria, que lhe confidenciou que a sua obra não acabaria com o advento de sua passagem para a eternidade, mas seria continuada por zelosos sacerdotes que já estavam a caminho do Brasil. O irmão Lourenço, que foi confortado pela Mãe de Deus e de toda a humanidade, já havia redigido em 1806 um testamento doando toda a sua propriedade à coroa real e solicitando a Sua Majestade que fizesse do Caraça uma “Sede de Missionários e Escola de Meninos”. Depois de cumprida a sua missão neste mundo, o Ir. Lourenço faleceu em 27 de outubro de 1819, aos 95 anos. Foram, ao todo, cerca de 50 anos dedicados ao Caraça.  Os dois missionários lazaristas partiram de Lisboa em 27 de setembro de 1819. A viagem durou 72 dias até ao Rio de Janeiro. Estavam ainda se preparando para a viagem rumo ao Mato Grosso, quando o Ministro de Sua Majestade lhes comunicou que, para aquelas terras já estavam indo os frades capuchinhos. Entretanto, Sua Majestade lhes oferecia outro campo de missão no Centro de Minas Gerais, no alto da Serra do Caraça.  O Pe. Leandro leu o testamento deixado pelo Ir. Lourenço, que continha a frase: “Minha vontade sempre foi e é de que esta Casa seja residência de Missionários... e seminário para meninos” (1). Inicialmente o Pe. Leandro teve muitos escrúpulos em assumir uma obra para a qual não fora enviado pelo Visitador, entretanto, foi confortado pelo Ministro que afirmou que Sua Majestade já estava cuidando dos trâmites legais com a Província de Portugal e que logo obteria a licença do Visitador. Assim, em 31 de janeiro de 1820, os dois missionários receberam a Carta Régia que os autorizava a tomar posse, em nome da Congregação da Missão, de todos os bens deixados pelo Irmão Lourenço no Caraça: propriedade territorial, edificações, mobiliários, escravos etc. Esse acontecimento é o marco da fundação carismática da Congregação da Missão no Brasil.  Os dois missionários partiram para as terras mineiras em março de 1820. Após 45 dias de longa viagem, chegam ao Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 15 de abril. Terminado o período de arrumação e reparos na casa, os dois missionários iniciaram logo o trabalho de pregação das missões. A primeira localidade a ser missionada foi o arraial de Catas Altas - MG, a 18Km do Caraça. Em junho do mesmo ano, missionaram também em Barbacena - MG.  Terminada a missão em Barbacena, o Pe. Leandro se dirigiu ao Rio de Janeiro para uma audiência com o Rei, na qual solicitou verba para a manutenção da Casa do Caraça. Sua Majestade ofertou 100 mil réis para essa finalidade e ainda deu ao Caraça o título de Casa Real. Em seu retorno a Minas Gerais, o Pe. Leandro levou consigo 4 jovens para iniciar os estudos no Caraça. Esses foram os primeiros alunos do Colégio. Em 1821, chegam, a pedido do Pe. Leandro, os primeiros missionários vindos da Província de Portugal para reforçar a missão no Brasil. São eles: Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo e o Pe. José Joaquim Mendes Moura Alves. Com este reforço, pôde-se abrir oficialmente o Colégio do Caraça e iniciar as atividades com 14 alunos. A situação financeira do Colégio nos seus primórdios não era boa. Os missionários precisaram contar muito com o auxílio da Divina Providência neste primeiro momento da história. O noviciado também se iniciou nesse ano com a chegada do Pe. João Moreira Garcês, como primeiro noviço. Não obstante as dificuldades, Deus ia abençoando os trabalhos dos missionários. Em 1822, o colégio já contava com 30 estudantes. Nesse mesmo ano, houve a libertação dos dez escravos do falecido Irmão Lourenço e a nomeação do Padre Antônio Viçoso como reitor do Seminário em Jacuecanga – RJ. Iniciava-se, assim, o trabalho da Congregação na formação do clero em território brasileiro. Em 1823, chega ao Caraça o primeiro candidato à vocação de irmão leigo, trata-se de Francisco da Cunha Macedo, natural de Catas Altas – MG. Com a proclamação da Independência do Brasil, a Congregação sentiu fortemente os efeitos do anticlericalismo e da aversão do Império às Instituições religiosas que mantinham a sua ligação com a Santa Sé em Roma.  Assim, em 1823, o Imperador encaminhou ao Padre Leandro uma carta contendo três notícias, sendo uma delas uma recomendação: que “a casa do Caraça está dispensada de pagar o dízimo dos bens da terra; que o novo título do Caraça é Casa Imperial, e que a Congregação deveria ficar independente de toda obediência à Casa de Lisboa” (2).  Os anos que se seguiram foram de grande perseguição às Congregações e às Ordens religiosas. Ocorreram nesse período a extinção e expulsão de diversas delas, tais como: Capuchinhos, Carmelitas descalços e outros. Mesmo nesse cenário hostil, a Congregação segue realizando o seu trabalho e crescendo em número e em obras. Em 1827 os missionários recebem como doação a Fazenda Paraíso, de um rico proprietário de terras em Campo Belo do Sertão da Farinha Podre, em Minas Gerais, atualmente, Campina Verde. A finalidade da doação era que fosse construída uma Igreja para o atendimento espiritual da população e um colégio para educação das crianças e jovens da região. Nesse mesmo ano, o imperador ordenou que a Congregação assumisse a direção do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo e que abrisse lá um Colégio, à semelhança do Caraça, mas, independente dele. Diante da necessidade de assumir a direção do Santuário e a fundação de um Colégio em Congonhas, as obras missionárias em Campo Belo ficaram para outro momento que virá mais tarde. Em 1827, ocorre a nomeação do Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo, como visitador, pelo Superior Geral, Pe. José de Wally. Essa nomeação ocorre na contramão das orientações e desejos do Império cujas leis passaram a proibir o noviciado nas Congregações que ainda sobreviviam no Brasil. Não obstante as pressões imperiais e o espírito de perseguição que havia contra as ordens religiosas, a Congregação teve a grata alegria de celebrar as ordenações de quatro novos missionários no Santuário do Caraça, em 1829: Pe. Antônio Afonso de Morais Torres; Pe. José Afonso de Morais Torres; Pe. Antônio Valeriano Gonçalves de Andrada e Pe. José Tomás Moura Sousa. Em 1830, perante o proprietário João Batista Siqueira, de sua esposa Bárbara Bueno da Silva e do Pe. Jerônimo Gonçalves de Macedo, foi assinada definitivamente a escritura de doação de três Fazendas na Cidade de Campo Belo do Sertão da Farinha Podre à Congregação da Missão.  Apesar de sofrer muito com as leis de restrições às atividades dos religiosos no Brasil, a Congregação da Missão gozava de certa simpatia do Imperador, tanto que o mesmo sempre conferia aos missionários novas atribuições dentro do império. Era um sinal claro de que a Congregação era útil ao povo de Deus, ao clero e à sociedade.  Em 1831, pouco antes de sua abdicação, Sua Majestade Dom Pedro I, dirigindo-se à Ouro Preto, fez uma visita à Casa Imperial do Caraça para aconselhar-se com o Pe. Leandro. Às vésperas de sua partida para Minas Gerais, Dom Pedro I havia sido obrigado a assinar leis severas contra todas as instituições religiosas que fossem submissas a superiores estrangeiros. As leis previam prisão dos superiores e demais membros das Instituições por até 8 anos!  O Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo escreveu ao Superior Geral relatando-lhe toda a situação da Congregação no Brasil. Em resposta, o Superior Geral concedeu ao visitador todos os poderes de Superior Geral, com autorização para nomear seu sucessor. Em 1834, a Congregação iniciou seus trabalhos em Campo Belo da Farinha Podre com os seguintes missionários: Pe. Macedo, Pe. Antônio Morais e Pe. José Tomás de Sousa. Essa obra se tornou um vasto campo de irradiação de atividades missionárias e educacionais no Triângulo Mineiro. Iniciaram-se, nesse período, as atividades do Colégio em Campo Belo. Apesar de sofrer com o fechamento do Seminário Interno, por ordem do governo em 1834 e com a crise financeira que não dava ao Colégio do Caraça condições de funcionar com regularidade, a Congregação segue o seu carisma cumprindo sua missão no Brasil em Congonhas (Santuário e Colégio); Jacuecanga - RJ (Seminário diocesano); Campo Belo (Missão e Colégio) e a pedido do Ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, em 1838, a Congregação também recebeu a missão de organizar e dirigir o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Para essa empreitada, foi nomeado o Pe. Leandro. Para garantir o futuro das atividades missionárias da Congregação da Missão no Brasil e atender à legislação brasileira, foi necessário convocar uma Assembleia Geral para eleição do Superior Geral. Isso ocorreu no período de 11 a 13 de dezembro de 1839. O Padre Antônio Viçoso foi eleito Superior Geral com todos os poderes e prerrogativas do Superior Geral em Paris. Embora o resultado da Assembleia tenha sido encaminhado a Roma e a Paris, não houve, da parte do governo geral e de Roma, uma resposta confirmando a separação.  Logo após a Assembleia Geral, o Padre Leandro foi convidado pelo presidente da Província de Minas Gerais, para fundar a primeira escola de ensino médio do Governo de Minas em Ouro Preto, chamada Colégio Assunção.  Em 1842, a situação da Congregação da Missão no Brasil era de muita instabilidade e insegurança. Isso se expressava por meio da diminuição do número de Coirmãos, precariedade financeira e pela guerra civil que ameaçava as estruturas das instituições. É neste contexto que o Pe. Antônio Viçoso fecha o Colégio do Caraça, em 25 de agosto de 1842 e se dirige a Campo Belo com os alunos que havia no colégio e alguns pertences. A caravana parte para o Triângulo Mineiro sem saber que a guerra civil havia terminado em Santa Luzia no dia 22 de agosto!   Em março de 1843, o Pe. Antônio Viçoso recebeu um Ofício Imperial nomeando-o Bispo de Mariana. Imediatamente, renunciou ao seu mandato de Superior Geral e passou o cargo para o Assistente, Pe. Jerônimo Macedo, que, imediatamente, cuidou dos trâmites legais para a convocação de uma nova Assembleia para eleição do novo Superior Geral. Feita a Assembleia, foi eleito o Pe. Antônio Afonso de Morais Torres, que logo escreveu ao Superior Geral em Paris, comunicando do resultado da Assembleia.  Em 1847, o Imperador Dom Pedro II, por meio do artigo 81 do Código Civil Criminal, permitiu à Congregação da Missão do Brasil reatar os laços com o Superior Geral em Paris. Essa notícia foi imediatamente comunicada ao Superior Geral, Pe. João Batista Etienne. A fim de conversarem melhor com o Superior Geral sobre a situação da Congregação, dirigiu-se-se a Paris o Pe. João R. Cunha, com mais dois padres e um seminarista. Ao retornar ao Brasil, Pe. Cunha trouxe mais cinco padres, três irmãos e doze Filhas da Caridade. Estas chegaram a Mariana em 3 de abril de 1849, tendo sido recebidas por Dom Viçoso.  Os trabalhos da Congregação se iniciam no Seminário Maior de Mariana em 1853 a pedido de Dom Viçoso, sendo nomeado superior, o Pe. Miguel Maria Sipolis. No período de 12 a 14 de maio de 1855, realizou-se, oficialmente, na Santa Casa do Rio de Janeiro, a 1ª Assembleia Provincial da Congregação da Missão no Brasil com a presença dos seguintes missionários: Pe. Antônio Afonso de Morais, Pe. Mariano Maller, Pe. Miguel Sipolis, Pe. João Lamant, Pe. João Issaly e o Pe. Valeriano Gonçalves. Nesta assembleia foi indicado e, em seguida, nomeado Visitador o Pe. Mariano Maller. Temos, então, a partir daí, constituída oficialmente a Província Brasileira da Congregação da Missão.  Pe. Luíz Carlos do Vale Fundão, CM ______(1) ZICO, José Tobias, CM. Congregação da Missão no Brasil. Belo Horizonte: Líthera Maciel, 2000. P. 19. (2) Ibidem, p. 22.
Pe. Denílson Matias, CM
Pe. Denílson Matias, CM Desabafo de um Padre Negro Pediram-me um texto no qual eu falasse sobre preconceito. Em tempos de pandemia, seria mais fácil escrever sobre a COVID-19, isolamento social, angústia, solidão, família, comunhão, esperança e tantas outras coisas. Mas, bastou a pandemia para que outro tema viesse à tona. Trata-se também de um vírus. Ao contrário do novo Coronavírus, este já está, há muito, presente entre nós. Ele veio agindo de modo silencioso ao longo dos séculos; disfarçado de cordialidade, de aceitação, de amizade... Esteve sempre presente, sem mostrar a cara. Durante muito tempo, pareceu ser algo assintomático. Os infectados não se davam conta do que acontecia, até que um dia os seus sintomas ficaram mais evidentes. Esse vírus acometeu a muitos. Hoje, já sabemos o nome da doença: racismo estrutural. Com o advento da internet e com os novos motes políticos direitistas instaurados, o racismo ficou exposto, à flor da pele. O grande problema desta doença, desconsiderada por muitas pessoas, é que ela não mata o portador, mata o outro que não é da mesma raça. Quando não mata, deixa sequelas. É a doença que flerta com a agressividade e com a violência. No Brasil, as pessoas isentas do privilégio branco, tornaram-se animais de caça. Se saem das suas humildes tocas, correm o risco de serem abatidas.  O racismo estrutural é a forma cruel de desabonar uma raça em detrimento da outra. Demoniza-se a cor da pele, a cultura, o jeito de ser, de falar, de andar, de rezar, enfim, o diferente é anulado. A sua consciência de povo torna-se algo deturpado. Seu sentido de pertença a uma sociedade passa a ser percebido somente a partir da marginalização. Estereotipa-se o outro a modo de não conceder-lhe os seus espaços de direito. No decorrer da história, o povo negro foi subjugado. Foi trazido para o ocidente, comprado a preço de nada. Suas vidas, ao entrarem nos navios negreiros já não tinham nenhum valor humano. O sentido de ser um povo, uma raça, fragmentava-se tão logo eram caçados, aprisionados e exportados. Talvez, o que lhes desse uma margem de unidade fosse o sofrimento. A partir daquele momento, os negros eram almas pretas lançadas no abandono. Vidas de curta duração, concebidas para o trabalho escravo e ao direito de ficarem calados. Criados mudos! Para os privilegiados brancos, aqueles negros eram um povo sem alma, igualado a animais irracionais. Os animais de estimação eram melhor tratados. Nos navios negreiros, começava a decomposição de um povo, a decomposição de tradições, a decomposição histórico cultural de vidas que seriam encarceradas nas fazendas, nos alqueires, nas minas; na chibata. Ali começava um longo caminho de luta, da sofrida luta pela liberdade, que, até hoje, não foi alcançada. Aquelas pobres vidas pretas escravizadas sofreram ao longo dos séculos. Até que, aos poucos, foram sendo assinadas leis com o pretenso teor de libertação. No caso brasileiro, os negros aqui escravizados não tinham nada e eram libertados sem direito a nada. Assim, os quilombos foram ganhando vida e as favelas foram tomando forma.  Os guetos ganhavam sinônimos, o preto era do gueto, o lugar da macacada, os becos, as vilas, as ruelas, os lugares insalubres tornaram-se o “lugar de gente de cor”. Longe de casa, longe da pátria mãe, no transcurso dos tempos das conquistas e das grandes navegações, os negros foram sendo “domesticados”.  Milhares de pretos foram aleijados, não só fisicamente, foram amputados na sua expressão religiosa, proibiram as suas crenças, tiraram-lhes a voz. Impediram-lhes de dançar as suas danças. Apesar de que “todo menino do pelo saiba tocar tambor”, dançar e cantar, orar do seu jeito próprio, só podia ser feito de modo discreto, para não dizer escondido. As canções do negro foram banhadas em banzo, na saudade do lar, na nostalgia da liberdade de quando ser preto não era pecado, não era crime e não era civilmente errado.  A própria Igreja Católica teve escravos, padres tiveram escravos, suas famílias abastadas tiveram troncos nas suas grandes fazendas. Não consigo imaginar a capelinha com Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na cruz. Lá estava Jesus de Nazaré, pregado no madeiro, depois de ter sido torturado e assassinado. Não muito longe dali, estava a senzala, o tronco, as correntes, os lugares onde batiam e torturavam o mesmo Cristo. A diferença é que o da Cruz tinha traços europeus, finos e caucasianos. O da senzala tinha traços escuros, quem iria dizer que era o Filho de Deus? Há aqueles que insistirão em dizer que os escravos dos católicos eram diferentes, que eram bem tratados. Mania ridícula de justificar um mal, muitas vezes, justificado em nome de Deus. Quase sempre protegido pelo olhar histórico, alguns irão dizer que aqueles eram outros tempos e que isso fazia parte do contexto. Sempre houve uma pedagogia da escravidão atribuída à vontade divina, a modo de justificação. De Agostinho ao Pe. Antônio Vieira se pode constatar isto. Quando fui a Auschwitz e entrei no campo de concentração, pude partilhar da dor dos judeus. A sensação foi triste, verdadeiramente cortante, aquele ambiente me rasgava por dentro. Não assentiria jamais em dizer que o que aconteceu com os Judeus pode ser historicamente justificável e justificado. Seria impossível uma condescendência, de minha parte, com o massacre do holocausto judeu e de tantos outros holocaustos que temos visto na história. Como não sentir a dor do meu próprio povo, dizimado nestas terras?  A escravidão deixou sequelas. Ainda hoje somos escravos. Ainda hoje estamos atados a troncos. Muitos dirão que a situação melhorou. Muitos dirão que fomos gratificados pelo tempo. Muitos dirão que os governantes cuidaram de nós. Muitos continuarão calados, mesmo vendo que não gozamos dos mesmos direitos. Falar de negro a partir da pele de um branco não é o mesmo que narrar a saga de um povo incompreendido na sua história de matriz africana, a partir da própria cor da pele. Só quem sofre por causa do racismo estrutural tem condições de falar do preconceito experimentado dia após dia. O privilégio branco é capaz de proteger, de vestir, de dissimular, de ocultar. Já o preto, o preto está sempre nu. Sempre é olhado a partir da sua vergonha. É sempre o exótico. É sempre aberrante. É sempre perigoso. É sempre o preto. Branco, por favor, não venha me dizer que não, apesar da fala ser sempre sua e do privilégio ser sempre seu. Você pode ter os seus sofrimentos, mas aqui, no Brasil, quem sabe de preconceito sou eu. Só para lhe recordar, não existe racismo reverso quando o privilégio fica sempre de um mesmo lado, do lado claro, é claro. Este povo, que foi abandonado à própria sorte, carrega no corpo uma cor depreciada, usada para justificar o que é ruim. O bom é o lado claro da luz, já as trevas são negras. A coisa? Está preta. Denegrir é empretecer, obscurecer. O dia é bom, a noite é perigosa, a noite é preta. A empregada é doméstica, assim como se domesticavam as negras do tempo da escravidão, com corretivos. O preto é da cor do pecado. É só pensar no imaginário da mulher negra sexualizada, nas curvas que convidam para o mal. O homem negro é o tarado, o abusador. O serviço mal feito é de preto, o mercado clandestino é negro, a magia para o mal é negra, a lista é negra e a ovelha é negra. Poderia listar mais expressões racistas que rebaixam e estereotipam os negros. Raridade seria encontrar uma lista que falasse da sua real essência, que mostrasse a sua beleza, que enfatizasse a sua normalidade. Hoje resolvi gritar. Gritar que não aceito. Gritar que os estereótipos sujos que brotam dos preconceituosos não dizem respeito a quem sou, a quem o meu povo negro é. Não dizem respeito à nossa cor e à cultura que trazemos dentro. Meus irmãos estão nas favelas, nas cadeias, nas ruas. Por que? Não é porque não prestam, não é porque sejam vagabundos. É porque nos libertaram das senzalas, mas, não nos devolveram os direitos roubados; não nos recompuseram por inteira a nossa dignidade que foi fragmentada e ainda exigiram que fossemos como os outros, que nos comportássemos como brancos.  Hoje eu falo em nome das minhas irmãs e dos meus irmãos negros, não precisamos da sua pena, exigimos justiça. Foi à custa do sangue e do sofrimento de muitos pretos que essa nação foi levantada.  Graças aos açoites e ao sangue derramado, de muitos negros sem nome e sem sobrenome, que se construíram casas, estradas, igrejas... Foi à custa destes açoites e deste sangue que muitos brancos puderam comer e beber, para depois estuprarem as negrinhas que tiravam das senzalas e davam de presente aos filhinhos púberes. E são os nomes destes senhores que estão nas placas das ruas, nas praças, nos parques, nas avenidas, sem nunca terem carregado um só tijolo. Só serviam para cortar a fita no dia da inauguração. Em 4 de abril de 1968, aos 39 anos, morria um ícone da luta pela igualdade racial, Martin Luther King. Nem o Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1964, o favoreceu. Foi assassinado por lutar por uma causa justa, a liberdade para os negros oprimidos dos Estados Unidos da América. Sua morte foi mais uma dentre muitas. Apesar da melhora da situação dos negros americanos, seu corpo inerte não foi suficiente para estancar todo o sangue, que escorria dos corpos negros que continuavam a ser assassinados. Há uma parte em seu discurso, “Eu tenho um sonho”, que gostaria de vê-la se tornar realidade, aqui no nosso Brasil: “Eu tenho um sonho que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos essas verdades como auto evidentes que todos os homens são criados iguais". Hoje, no meio de toda a confusão causada pela pandemia, o assunto do racismo voltou com força. Mais um americano negro foi morto de forma cruel. No Brasil, mais um garotinho foi morto dentro de sua casa. João Pedro, morreu aos 14 anos de idade. Teve sua vida ceifada. Ele representa um número extenso na lista dos jovens e dos adolescentes negros mortos no nosso país. O que dizer? O que fazer? Repetir, repetir alto: I can’t breath (Não consigo respirar/ Não posso respirar). Foram 8 minutos e 46 segundos sob o peso do joelho do policial branco, de mãos no bolso, enquanto agonizava, morrendo por ser preto e por ser preto ser suspeito. Suspeito com um único direito, a morte. Assim, George Floyd tira do nosso peito o grito abafado, “não posso respirar” e nos faz dizer “sem justiça, sem paz”. Ah, João Pedro, o menino negro, de 14 anos, com um lindo sorriso no rosto, visto nas fotos da Internet. Essa é a imagem da foto que vemos, foto que derrama doçura e beleza. Em sua última mensagem para sua mãe, que estava ciente do tiroteio, ele dizia que estava sozinho em casa, sem nenhum adulto e, finalmente, escreveu-lhe: “Calma!” E, lá dentro de sua casa ele se foi, morreu com um tiro, morreu pelas mãos de um adulto. Mais um adolescente preto foi para onde já não sentirá o peso do racismo, onde abraçará quem, de fato, sabe amar. Mais um adolescente preto se torna razão para o nosso grito, “sem justiça, sem paz”. Não temos liberdade para ir e vir sem o medo de uma batida policial. Não nos sentimos à vontade dentro dos supermercados, shoppings ou comércios, quando os seguranças passam o tempo todo nos vigiando. Não somos bem atendidos nos lugares onde vamos, há gente que tem nojo de nós. Há gente que desconfia de nós. E há aqueles que dirão que estou exagerando. Geralmente, não são negros, não sabem o que é ser negro e nunca sofreram preconceito. Quantos mais precisarão morrer? Quantos mais precisarão apanhar? Quantos mais precisarão passar por constrangimentos? Quantos mais serão barrados nas portas dos hotéis, em eventos ou em outros lugares? Quantos mais terão que chorar por saber que tudo o que acontece de mal consigo é por causa da sua cor? Quantos mais serão considerados suspeitos? No mundo todo estamos gritando por justiça, pela liberdade de direito e de fato. No mundo todo estamos mostrando o nosso rosto e pedindo que nos vejam como pessoas. No mundo todo estamos dizendo que queremos nos aproximar de verdade, que queremos formar comunhão. A nudez do nosso corpo negro sofrido e escarnecido está exposta, já não suportamos mais sermos tratados como seres inferiores. Já não suportamos o peso do joelho dos policiais, queremos respirar. Como padre negro, no meu lugar de fala, uno-me a todos os que estão nesta luta. Já não aceitaremos que riam de nós, já não aceitaremos que nos julguem pela nossa cor. Já não aceitaremos o último lugar porque os pretos não podem estar à frente. Já não aceitaremos o racismo e nem os racistas, porque são tóxicos. Não há espaço no cristianismo para este tipo de atitude. A religião de Jesus de Nazaré, com tudo o que brotou do seu coração, não pode compactuar com os esquemas assassinos produzidos pelo racismo e pelo preconceito.  Se compactua, não é cristianismo. Já não podemos viver sob a égide de uma dupla moral.  Já não podemos disfarçar o indisfarçável, foi-se o tempo em que um sorrisinho falso mudava a situação. Foi-se o tempo em que pensavam que podiam nos comprar com umas poucas moedas ou com parcas ofertas. Foi-se o tempo em que nos faziam acreditar que erámos nada.  Gostaria de terminar este texto citando documentos da Igreja, mas não. Penso que somente alguns versículos bíblicos servirão para terminar este desabafo. Creio que é uma pena que até hoje não entenderam o sentido e a riqueza que estes versículos têm. Se os cumpríssemos, se não mentíssemos nas nossas relações humanas, tudo seria diferente. Hoje trago somente uma certeza, o Deus verdadeiro não suporta o racismo. O Deus verdadeiro não suporta o preconceito, o Deus verdadeiro é antirracista: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" Respondeu Jesus: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas". (Mt 22, 36-40) Pe. Denilson Matias, CM
Pe. Eli Chaves, CM
Pe. Eli Chaves, CM A missão Vicentina em Tempos de Bolsonaro   Estamos saindo de uma das eleições mais agitadas e atípicas de nossa história. O ambiente foi de muito extremismo e polarização ideológica. Inaugurou-se um novo modo fazer política pelas redes sociais, com uma impressionante invasão das fake news. Com o sentimento da confiança traída por parte de quem governou o país nesses últimos anos, cansado de tanta corrupção e desmandos e desacreditado com a política, o povo quis mudança, mas acabou se dividindo fortemente e criando uma situação de povo contra povo – “coxinhas x petralhas” ou “nós x eles”; um forte clima emocional dificultou a análise e o discernimento. Foi assustador o alto índice de violência e ódio – “o ódio saiu do armário”, afirmou um analista político. Foi eleito um Presidente que se declara abertamente de direita, e por muitos classificado como de extrema-direita e até mesmo com traços fascistas. Seguramente, será necessário muito tempo, muito esforço crítico e muito discernimento para entender o que aconteceu, o que está acontecendo e o que acontecerá neste momento de nossa história. É inegável que o resultado das eleições confirma no Brasil a vitória e a presença da onda conservadora que avança em várias partes do mundo. De modo muito particular, esta nova conjuntura trará inevitáveis consequências e novas exigências para o trabalho de evangelização da Igreja e, especificamente, para o serviço da Família Vicentina junto aos pobres. 1. O momento presente é cheio de inquietantes interrogações. Por exemplo: o que significará o mandato de um presidente cercado e apoiado por inúmeros evangélicos de linha proselitista e conservadora, por ruralistas pouco sensíveis aos direitos dos trabalhadores e à proteção do meio ambiente, pela ‘bancada da bala’ que deseja a revogação do Estatuto do Desarmamento, por militares insatisfeitos com os avanços democráticos no país, por empresários liberais e ávidos de lucros e por políticos sem engajamento popular? A superficialidade e a truculência da linguagem da campanha eleitoral, a ‘demonização do PT’ que gerou a onda antipetismo, a ousadia e a agressividade autoritária de muitas das afirmações do candidato vencedor, sua história política polêmica e contrária às causas populares, etc., serão suficientes e capazes de se transformar em respostas concretas e eficazes aos graves problemas nacionais, sobretudo dos pobres? Que dizer de um futuro presidente que se autoproclama “cristão convicto”, que se diz escolhido por Deus, que promete liberdade para todos, liberdade religiosa, que se propõe a governar a partir da verdade que liberta (Jo 8,32), mas que se fecha em ‘sua verdade’ e se recusa a dialogar e debater abertamente suas propostas; que, como nostálgico da ditadura, viu seus opositores como inimigos a serem eliminados; que ridicularizou os direitos humanos, confessou ter como seu “herói” o coronel reformado Carlos B. Ustra, reconhecido pela justiça como torturador no período da ditadura militar, escancarou seu ódio ao criticar D. Paulo Evaristo Arns, o profeta dos direitos humanos, de “desocupado”, “vagabundo” e “megapicareta”; que negou as minorias e classificou de “coitadismo” a atenção prioritária dada aos mais desfavorecidos e empobrecidos; que rotulou de “terroristas e comunistas” os que lutam pela transformação social; que classificou o CIMI e a CNBB como “parte podre da Igreja Católica”? No interior da Família Vicentina, como compreender nossa missão de ‘servidores dos pobres, que buscam a mudança de estruturas’ dentro deste novo contexto sociopolítico? Que dizer da atitude de líderes vicentinos que vestiram a camisa de Bolsonaro e declararam abertamente voto neste candidato? Não parece estranho que muitas pessoas de nossa Família Vicentina não se sintam incomodadas com esta onda conservadora, festejando a eleição do “Capitão” com um verdadeiro salvador da pátria e abraçando suas ideias e propostas, tranquilamente e sem nenhum questionamento? 2. Inquietar-se diante da vitória da direita conservadora não significa, ingênua e automaticamente, abraçar e isentar a esquerda de seus erros – afinal, Lula e o PT não corresponderam às expectativas do povo, deixando-se levar pela corrupção, fisiologismo político e assistencialismo, e Bolsonaro, segundo não poucos analistas, é o fruto amargo dos erros do PT! O motivo da inquietação são as ideias, atitudes, políticas e propostas extremistas, preconceituosas, autoritárias e excludentes que podem provocar um retrocesso em relação aos direitos fundamentais, os direitos humanos, os direitos sociais conquistados e que podem impedir o país de avançar como um estado de todos, como um país plural, includente, livre, justo, solidário e democrático” – isso é a direita conservadora que preocupa, a esta linha de ação se deve opor!    Ninguém sabe como o país será guiado agora por um presidente de direita, legitimamente eleito pela maioria dos eleitores. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Bolsonaro não disparou um revólver, um gesto típico seu. Levantou o texto da Constituição, jurou “ser escravo dela”, leu um texto bíblico, se propôs a governar com base na verdade e na liberdade, rezou e afirmou seu lema “Deus acima de todos”. É um bom sinal! No entanto, o desafio agora é unir o país, dialogar, aceitar a oposição, ir além da superficialidade da linguagem da campanha eleitoral com propostas consistentes e em benefício de todos, pois governar o Brasil é liderar um país continental de mil rostos que devem ser respeitados. Diante de suas ações, discursos e propostas de ontem e de hoje, será o presidente eleito capaz de reeducar a si mesmo, a seus colaboradores e eleitores ou permanecerá fechado em ‘sua verdade’?! O ambiente de extremismos, ódio e desconfianças parece revelar uma falta de respeito cívico mútuo, a radicalização de uma ética violenta e sectária e a manifestação dos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa e não priorizando a busca e a defesa do bem comum. Para não nos perdermos no emaranhado desta realidade e na complexidade do jogo político de interesses conflitivos, é hora de revisitar e reafirmar os princípios do Evangelho e da vocação vicentina – queremos estar a serviço da promoção do bem comum, da superação de situações de exclusão e de discriminação, da construção de uma sociedade solidária, de paz, com mais igualdade, que leve em conta sobretudo a dignidade e os direitos dos mais pobres e necessitados! “Existe uma nascente cristalina que deve ser revisitada: o Evangelho de Jesus Cristo. É na fonte inesgotável dos valores que promovem a vida que as pessoas devem se banhar”, escreveu D. Valmor, Arcebispo de Belo Horizonte, por ocasião do momento eleitoral. E nós acrescentamos o valor e a atualidade de São Vicente de Paulo, que bebeu nesta fonte de água pura, e pode muito nos ajudar e nos orientar neste momento. 3. Nestes tempos de crise política, econômica e ética, revisitar o Evangelho e a experiência de São Vicente é fundamental para discernir os apelos de Deus na realidade e encontrar critérios capazes de promover a justiça, a fraternidade e a solidariedade. a) O presidente eleito tem como lema “Deus acima de todos”. Também nós temos em Deus nossa razão suprema de viver e trabalhar. Mas que Deus estar acima de todos? O Deus do mercado financeiro, o Deus da prosperidade, o Deus de Edir Macedo e dos conservadores, o Deus individualista de orações emocionais que fazem revirar os olhos num suposto êxtase, sem se ocupar com a justiça e a fraternidade, o Deus de Bolsonaro que o torna um messias? “Nós já temos um Pai, não precisamos nem dos paternalistas nem dos salvadores da pátria”, dizia D. Frigeni, bispo de Parintins. O momento atual é propício à manipulação religiosa, precisamos aprofundar nosso encontro com o Deus de Jesus Cristo, o Deus de São Vicente. O Deus bíblico é um Deus ético, um Deus da Justiça, da paz, do amor e da comunhão; é um Deus que se revelou em Jesus, o anunciador da boa nova de libertação, o anunciador de vida em abundância para todos. O Deus cristão não se entende sem a promoção e a defesa da vida, especialmente para o pobre, o indefeso, o necessitado. Ele veio ao homem pelo caminho da pobreza: “Vós conheceis o amor gratuito de Nosso Senhor Jesus Cristo, que de rico se fez pobre por vós a fim de vos enriquecer com sua pobreza” (2Cor 8,9). A encarnação se deu no modo de um homem pobre e podemos afirmar que o pobre é revelação do Pai misericordioso e que foi um pobre quem salvou o mundo. Esta identificação de Deus, em Cristo no pobre, está ligada à essência mesmo do Deus revelado. Jesus, em sua prática e ensinamento, não fez outra coisa senão revelar esta Boa Nova aos pobres. Ungido pelo Espírito, e tendo os pobres como destinatários privilegiados, seu anúncio é de libertação e proclamação da vida nova de Deus. Colocar Deus acima de tudo não é retórica política, mas abraçar o projeto de Jesus, promovendo a vida, na justiça, na comunhão e no amor, tendo os pobres como sacramento de Deus. b) Com Deus acima de todos, nos passos de Jesus, nosso lugar é junto com o pobre, na periferia. Jesus nasceu em Belém, vilarejo periférico de Judá, teve que fugir para o Egito para escapar à ira dos poderosos; pregou na periferia, na Galileia dos pagãos; morreu fora dos muros de Jerusalém, como excomungado e vil criminoso; manifestou-se ressuscitado na Galileia, fora de Jerusalém, centro do poder político e religioso. São Vicente de Paulo procurou e encontrou a presença de Deus entre os pobres carentes e abandonados. Leu a realidade dos pobres sem comida e sem a palavra, com olhos da fé e desenvolveu um encontro profundo com Jesus misericordioso que transformou a sua vida. Jesus é o enviado do Pai para servir e evangelizar os pobres, está presente nos pobres sofridos e abandonados, e nos chama à missão e à caridade. Como dizia São Vicente, os pobres constituem “nosso lote próprio”, nossa herança, e a “caridade é nossa grande dama, é preciso fazer o que ela ordena”. Em meio às interrogações e expectativas deste momento político, ganham mais atualidade e força as palavras do Papa Francisco à Família Vicentina por ocasião dos 400 anos do carisma vicentino: “Vocês são chamados a irem até as periferias das condições humanas, a serem sementes que crescem em um solo árido, trazer consolo e amor aos corações que foram endurecidos pela negligência e o abuso (...) Encontrar os pobres, preferir os pobres, dar voz aos pobres a fim de que sua presença não seja reduzida ao silêncio pela cultura do transitório.” Como “Igreja em saída”, é na periferia com os pobres, que vamos discernir os apelos de Deus, organizar e, se necessário, reorganizar nossa ação, que vamos avaliar os projetos do governo, dar nossa humilde colaboração; será a partir das periferias e nas periferias com os pobres, excluídos e marginalizados que veremos para quem o novo presidente estará trabalhando. c) Com Deus acima de todos, servir prioritariamente os mais pobres, lutar pelos seus direitos e buscar a transformação social não é “coitadismo”, nem é ser “comunista”, mas exigência da fé. No seguimento de Cristo, nosso compromisso é com o Reino e sua justiça, abraçando uma atitude samaritana, misericordiosa, testemunhando uma fé encarnada, compromissada e profética. Com São Vicente, nossa atitude é de serviço “material e espiritual”, um serviço integral. O frescor evangélico de nosso carisma está em Jesus, enviado a evangelizar e servir os pobres (Lc 4,14-21). Isso significa centrar-se em Jesus e em sua missão libertadora. Significa comprometer-se sempre com a dimensão histórica e social do Reino de Deus, abraçando o projeto humanizador e compassivo do Pai, um projeto de vida fraterna, de justiça e dignidade para todos, a partir dos pobres e excluídos. Sem medo de possíveis rótulos, críticas, perseguições e boicotes, agora é a hora de assumir com toda a força a metodologia de Mudança de Estruturas em nossa ação missionária e caritativa; esta metodologia, baseada no evangelho e na experiência de São Vicente, é uma significativa mediação para denunciar e transformar a realidade desumana da pobreza, possibilita a compreensão integral e transformadora da evangelização e um modo de agir dentro de uma dinâmica crítica, profética e libertadora e com estratégias adequadas e coerentes. Esta metodologia nos desafia a desenvolver uma ação toda transformadora. d) Com Deus acima de todos, somos pelo batismo associados à Jesus e sua missão e formamos a Igreja, povo de Deus em marcha, com a missão de anunciar e testemunhar o Evangelho, sob a luz do Espírito Santo e a orientação de seus pastores. Os discípulos continuam a missão de Cristo, são o Corpo de Cristo, buscando ser sal da terra e luz do mundo. São Vicente destacava que “a missão é o específico da Igreja” e os pobres são “os membros mais preciosos do corpo de Cristo”. Nisto, ele testemunhou uma profunda consciência eclesial missionária; amou profundamente a Igreja, agiu em profunda sintonia com suas orientações e total obediência ao papa e aos bispos e trabalhou intensamente para torná-la sempre mais fiel na missão e na caridade. Esta consciência eclesial e o comprometimento eclesial com os pobres, decorrentes da fé e tão presentes em São Vicente, são fundamentais para enfrentar os desafios do momento presente. Bolsonaro demonstrou, no curso da sua carreira política, sua hostilidade aberta contra a Igreja Católica. A demasiadamente prudente CNBB não escapou de suas pesadas críticas. Sem proselitismo mas com firme consciência eclesial, é hora de comunhão e fidelidade à Igreja. É hora de conhecer bem a Doutrina social da Igreja, ouvir as sábias palavras do Papa Francisco e pô-las em prática e não ter medo de sermos chamados de “parte podre” por aqueles que não suportam nosso compromisso social, ou que se sentem incomodados com nossa missão de participar na construção de uma sociedade justa e solidária; é hora de vigilância crítica para não cair nas armadilhas conservadoras, não se deixar encantar por linguagens fáceis e ardilosas, como a de Olavo de Carvalho, ideólogo de Bolsonaro e guru de boa parte do conservadorismo brasileiro, que, com seu estilo irônico, autossuficiente e bonachão, convida a dar as costas ao Papa Francisco e não escutar suas palavras e recusar suas propostas. Não podemos ficar paralisados pelo medo, ressentidos e desesperançados. Papa Francisco nos convoca a seguir em frente: “Os desafios estão aí para ser superados. Sejamos realistas, sem perder a alegria, audácia e a entrega esperançada” (EG, 109). Precisamos, na abertura ao Espírito, deixar Deus ser Deus em nossas vidas, discernir os apelos e caminhos de Deus e não ficar passivos e paralisados pelo medo, pela autodefesa ou pelo desperdício de energias naquilo que não é essencial. A responsabilidade neste momento não é pequena. Cidadania se faz no dia a dia e não podemos “nunca “deixar os pobres sozinhos” (EG, 48). Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Pe. Eli Chaves dos Santos, CM
Pe. Paulo Venuto, CM
Pe. Paulo Venuto, CM Novos caminhos para a Amazônia Falar da Amazônia é como reler os versículos iniciais do livro do Gênesis, quando o Criador, ao organizar o universo, “um caos vazio”, deu a todas as coisas harmonia e dinamismo envolventes que fizeram o autor sagrado expressar: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era bom”. A Amazônia é um dom da criação que nos comunica a bondade e a ternura do Deus da vida. Neste pedaço do Planeta, ele nos presenteou com um pedaço do Paraíso, fazendo de seus povos os guardiões desse jardim. Trata-se de um lugar teológico e fonte de revelação de Deus, como está expresso no Instrumentum Laboris (IL) do Sínodo para a Amazônia. Sabemos que a Amazônia, como bioma, não se restringe somente ao território brasileiro e que se mostra “um enigma a ser decifrado”, com sua biodiversidade sem comparação no planeta. Por isso, não podemos abordá-la com um olhar simplista, folclórico, estereotipado, como espaço vazio e subutilizado, imenso celeiro de recursos hídricos e minerais para os quais todo o mundo se volta com olhos de interesse. E, agora mais ainda, com olhares de preocupação em relação ao futuro do planeta. Nestes dias, enquanto escrevo, grande parte do território da Amazônia brasileira, nos Estados de Rondônia, Pará, Mato Grosso e Amazonas, arde em fogo com milhares de incêndios, frutos de técnica primitiva de agricultura ou, presumidamente, da má fé de criminosos, mesmo. E os efeitos danosos podem ser vistos e sentidos a quilômetros dali, escurecendo, em plena tarde, a cidade de São Paulo, e fazendo cair partículas das queimadas nas águas de chuva. Por essas razões, podemos perceber a importância da tomada de consciência do jardim que nos foi confiado. Quem faz o jardim é o jardineiro com seu cuidado e a atenção com o que nele está plantado. Só assim é possível encontrar nas palavras do Gênesis a responsabilidade que o Criador colocou em nossas mãos: “...sejam fecundos, multipliquem-se, encham a terra e a submetam...” (Gn 1,8). Parece que tomamos muito a sério o “submetam”, a ponto de querer exaurir a qualquer custo as riquezas desse paraíso. O cenário que envolve a Amazônia é complexo, na medida em que nos perguntamos pelos agentes, internos e externos, que atuam nela e por ela. Importa ver com clareza o grau de comprometimento e a maneira concreta como prezam ou desprezam o futuro e a cultura dessa região. Não se pode ingenuamente supor que todos atuam com igual lisura e desinteresse. Prevalecem, na maioria dos casos, os interesses e as paixões que dominam a vida econômica nacional e transnacional, na geopolítica que subsiste por baixo das reais intenções.  A Amazônia brasileira apresenta características peculiares em relação às demais regiões do Brasil; internamente, no entanto, não é homogênea, o que faz alguns autores dizer que são muitas as “Amazônias”, tantas quantas se estendem pelos nove Estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal, instituída por lei, embora apresentando diferenças de ecossistema. Todas elas irmanadas nas carências e desníveis sociais, heranças históricas de uma colonização predatória, no passado, e acentuadas, durante o regime militar, com os grandes projetos desenvolvimentistas que trouxeram um crescimento da população urbana com a precarização das condições de moradia, de saneamento básico, mazelas inerentes a esse fenômeno. Verdadeira “socialização da pobreza”. Exemplos concretos são as cidades de Manaus e Belém, maiores centros urbanos desse território. Grande parte dessas “Amazônias”, no entanto, não foi atingida pela “modernização” dos grandes projetos. Pelo contrário, sofreu, com eles, perda enorme de seus habitantes, atraídos pelo sonho dourado das novas possibilidades de trabalho nos grandes centros. No Médio Solimões, onde me encontro, Tefé é uma cidade que teve um crescimento notável, mas sem a capacidade de absorver o contingente de pessoas que atraiu. Os municípios do raio de sua influência permanecem no mesmo estágio de estagnação ou pior. A essas cidades se chega pelo rio, depois de horas de navegação. Dos barcos é possível contemplar uma paisagem cujo limite é o reencontro do horizonte em que o céu e as águas se abraçam, quer se olhe para um lado ou para o outro. A paisagem da cidade vai aos poucos aparecendo, preguiçosamente, sem pressa. Quase sempre o primeiro sinal é a torre da igreja, tão distante que dá a impressão de que nunca será alcançada.  Situadas às margens dos rios, são como uma pausa repousante na monótona paisagem em meio a tanta água. Suas ruas e caminhos vão dar, invariavelmente, no porto, onde canoas e casas flutuantes estão atracadas. A rua da frente ou a primeira delas, geralmente, é a mais importante com as melhores casas. As ruas de trás escondem aquelas em pior estado. Todas cobertas com telhas de flandres. Talvez para refletir os raios do sol escaldante da zona equatorial. A impressão que se tem é que foram construídas para se contemplar de longe, pois, de perto, a beleza do primeiro olhar se esvai no arranjo caótico das ruas e nas fachadas desbotadas e precocemente envelhecidas das casas. Talvez fosse melhor guardar, como numa fotografia, a primeira impressão.  A vida do seu povo é governada ao ritmo das águas do rio. Convivem com a natureza de modo interativo e cooperativo, pois é dela que tiram seu sustento, “a comida de cada dia”, como diz a nossa colaboradora, ao sair para comprar o peixe ou outra iguaria para o almoço. Há uma relação de respeito, pois “a vida comanda o rio” e “o rio comanda a vida” com seus ciclos de enchente, cheia, vazante e seca, no que se convencionou chamar “o bem viver”.         Assim se nos apresenta a Prelazia de Tefé, onde atuo, com o seu território de 264.675 km², abrangendo 10 municípios. A maioria da população se encontra nas cidades descritas acima, em centenas de comunidades ribeirinhas, com baixo índice de desenvolvimento, cuja sobrevivência está na agricultura de subsistência e no extrativismo. Uma parcela é indígena ou descendente de diversas etnias. É possível identificar, principalmente nas comunidades ribeirinhas, sua influência cultural na alimentação, nos instrumentos de pesca, na cestaria. Tal como na história missionária do restante da Amazônia, a Prelazia de Tefé tem sido lugar de testemunho concreto de encarnação e de doação dos protagonistas de sua caminhada eclesial. Se, no passado, a evangelização caminhou junto de um projeto colonizador, a partir do Concílio Vaticano II (1965) e, especialmente, desde Medellín (1968), tem-se buscado no Regional Norte I da CNBB construir uma Igreja com “rosto amazônico”. “Rosto” que teve suas linhas colocadas no Encontro de Santarém, em 1972: encarnação na realidade e evangelização libertadora. Vinte e cinco anos depois, em Manaus, num encontro inter-regional, foi definido que a “Igreja se faz carne e arma sua tenda na Amazônia”. Diante de um cenário em que os problemas se avolumam e degradam a vida humana e o ambiente, a Igreja tem sido a portadora do anúncio da mensagem do Reino da vida. Para isso, as CEBs têm sido o instrumental importante de atuação junto dos mais pobres, através de projeto pastoral e evangelizador que articule esta caminhada. Com elas, a Igreja buscou uma presença de mais proximidade das populações e nova maneira de abordar os seus problemas, como o atraso econômico, a dependência e a exploração humana, passando progressivamente de atitudes paternalistas para atitudes mais críticas, estimulando a participação dos leigos nos movimentos sociais e na ação política. Daí, surgiram os militantes sindicalistas e organismos de representatividade, como o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra).   Ainda hoje, as CEBs se encontram atuantes em nossas comunidades, embora de maneira diferente de quando surgiram, mas pautando o seu dinamismo pastoral. Em julho último, aconteceu o 5º Encontro das CEBs da Prelazia de Tefé, na cidade de Jutaí, onde se reuniram mais de 900 delegados, representantes das comunidades urbanas, ribeirinhas e indígenas da Prelazia, numa manifestação alegre do seu vigor e da sua importância na caminhada. Nas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Prelazia, são ressaltadas as 5 urgências da ação evangelizadora para dinamizar a pastoral:  Igreja em estado permanente de missão, como casa da iniciação à vida cristã, lugar de animação bíblica da vida e da pastoral e como comunidade de comunidades, a serviço da vida plena para todos.  Mesmo com essas orientações, numerosos desafios se colocam. Dentre eles, a forte penetração e presença, na Amazônia, das igrejas evangélicas e de outros movimentos, em particular dos pentecostais, que desestabilizaram as bases da Igreja católica, que não consegue dar conta da assistência catequética e sacramental nesse imenso território. Diante disso, a participação dos leigos/as é primordial para a identidade católica das comunidades. Talvez tenha chegado a hora de buscar uma direção de fronteira, como algo novo, desbravador, missionário. É com esta expectativa que a Pan-Amazônia, presente nos nove países, aguarda o ponto culminante do Sínodo para a Amazônia, convocado pelo Papa Francisco, em 17 de outubro de 2017, para refletir sobre o tema “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Como está expresso no documento preparatório, “esses novos caminhos de evangelização devem ser elaborados para e com o povo de Deus que habita nessa região”.    Às vésperas da sua realização, todos nós, como Igreja, estamos ansiosos, ou, no mínimo, curiosos, pelos resultados que dessa grande assembleia podem sair. Para nós que aqui vivemos e trabalhamos, prepará-la foi muito significativo, porque todos – povos originários, comunidades ribeirinhas e urbanas, grupos de leigos/as, de religiosos/as, de padres e bispos – puderam dizer sua palavra sobre como viver a fé neste jardim aqui plantado. Aí, já se mostrou um novo modo de fazer um Sínodo!   Como disse o Secretário Executivo da REPAM (Rede Eclesial da Pan-Amazônia), Mauricio López, ao falar dessa “escuta sinodal”, “sentimos que têm havido expressões da voz de Deus que não são nossas, que vêm de muito mais longe e muito mais profundas”  E a CNBB (Conferência dos Bispos do Brasil), em nota sobre os últimos acontecimentos relativos à Amazônia brasileira, assim se expressou: “O Sínodo dos bispos sobre a Amazônia, em outubro próximo, em sintonia amorosa e profética com a convocação do Papa Francisco, no cumprimento da tarefa missionária e da evangelização, é sinal de esperança e fonte de indicações importantes no dever de preservar a vida, a partir do respeito ao meio ambiente”.  Será a grande oportunidade de partilhar com toda a Igreja e com todos os povos os valores de um evangelho inculturado numa região tão importante para a vida no planeta. O esforço de uma presença missionária na Amazônia servirá de orientação para outras regiões do mundo. Nestas palavras do Instrumentum laboris encontramos a caminhada que a Igreja Amazônica poderá fazer como resultado do Sínodo: “A construção de uma Igreja missionária com rosto local significa progredir na edificação de uma Igreja inculturada, que sabe trabalhar e articular-se como os rios no Amazonas, com o que existe de culturalmente disponível em todos os campos de ação e presença...”(IL 114). Pe. Paulo Venuto, CM
Pe. Lauro Palú, CM
Pe. Lauro Palú, CM Pedagogia Vicentina Um dos gêmeos, Felipe ou Gustavo, me disse: “Você podia mandar fazer um hotel nessa casa aí detrás do Colégio”. Respondi que eu morava ali, com os outros Padres e os Irmãos da Congregação. Ele comentou: “Você é que é sortudo!” E por que você quer que eu faça um hotel ali? “Para meu Pai e minha Mãe se hospedarem aqui num fim de semana e verem como meu Colégio é bom!” Fiz essa experiência durante valentes vinte anos, nos dois períodos em que fui Diretor do São Vicente (de janeiro de 1980 a setembro de 1986 e de maio de 1999 a fevereiro de 2013): do sábado depois do almoço até segunda cedo, o Colégio vazio é extraordinariamente agradável, silencioso, arejado, bonito, provocado pelas paisagens de todos os lados e palpitante da seiva que corre todos os dias, há 60 anos, por seus pátios, seus corredores, suas salas de aula, suas escadas, seu auditório, sua Capela. E aquele Cristo Redentor lindo nos abençoando...  Uni-me aos Educadores do São Vicente na década de 1970, quando trabalhava nos nossos Seminários com os livros de Paulo Freire. O que se propunha no Colégio fazíamos no Seminário, com os candidatos da Congregação. Sempre acreditei no valor evangelizador e multiplicador da educação, no caráter essencialmente vicentino de nossa missão atual de Educadores, Formadores e Missionários. Trabalhar no São Vicente, Professor ou Funcionário, é privilégio e graça de Deus, pela riqueza de sua tradição, na melhor linha começada pelo Caraça e continuada até hoje pelos Coirmãos e pelos milhares de Educadores que deram o melhor de si neste espaço sagrado. Uma das lembranças mais queridas dos vinte anos e alguns meses como Diretor do Colégio aconteceu na saída dos Alunos da tarde. Eu andava por onde os Alunos e Alunas vão embora. Pois foi ali que uma das Mães me disse: “Pe. Lauro, escute só o que o meu Menino acabou de me dizer: 'Mãe, está vendo aquele moço ali? Ele é que é o nosso Diretor. Quando fala com a gente, ele se inclina, para ouvir o que a gente está dizendo, para mostrar o gostamento dele pelos Pequenos'”. Só este “gostamento” tão carinhoso vale um ano inteiro de serviço no São Vicente! A uma TV de São Paulo, que perguntou qual a marca que eu desejaria que ficasse, ao terminar ali meu trabalho, citei esta frase, como característica de minha missão no Colégio. Noutro dia, por ali mesmo, quando fui falar com um garoto que saía, ele me disse, lealmente: “Sai de perto que eu soltei um pum...” Quando vi um do sexto ano coçando a cabeça, perguntei se estava com piolho. Ele garantiu que não e subiu a escada, mas logo em seguida voltou e disse: “Pra você eu não posso mentir. Estou mesmo com piolho, mas não espalhe...” São duas provas do ambiente que espero ter conseguido criar com todos, Pais, Mestres, Funcionários e Alunos. Crianças e Adolescentes são muito espontâneos e, tratados como gente, conservam essa franqueza até a juventude e amadurecem com a mesma lealdade.  O difícil é um adulto valorizar uma frase definidora, direta e totalmente verdadeira como esta de agora: um Pai não gostou quando soube que o Filho, chegando da excursão de três dias e duas noites no Caraça, depois de tanta novidade (a viagem de noite, o quarto de muitas camas e a briga de travesseiros, a água geladíssima das cachoeiras e o fogão de lenha para fritar os ovos no café da manhã e derreter o queijo para o pão, as trilhas, a cobra no caminho, o lobo de noite, o silêncio da noite, a lua cheia!, as estrelas que eu fui comentando), o Menino disse assim: “Nem sei se ainda me lembro da cara de meu Pai!” Nunca inventei uma frase genial e bonita como essa, mas eu também tinha a impressão de que os três dias da excursão duravam mais de uma semana, tantas as alegrias que vivemos juntos e as coisas que observamos, aprendemos e fotografamos, o que descobrimos juntos, as risadas, as reações de cada um, a união dos colegas das 4 turmas, pelo menos nesses dias...  E agora um caso de Mãe que não entendeu a frase do Filho: Tinham passado 5 dias nas cidades históricas de Minas (ainda não iam ao Caraça, mas a São João del Rey, Tiradentes, Ouro Preto, Mariana, Sabará). Esperei na porta do ônibus, quando chegaram. O primeiro que desceu, justo o da Mãe que estava ao meu lado, comentou gloriosamente: “Ô Mãe, precisa ver que legal! Cinco dias sem tomar banho! Cinco dias!” Nem o Aleijadinho, o Ataíde, o Museu do Ouro e o Tiradentes, ninguém e nada alegrou mais o Menino do que esses 5 abençoados dias sem ir ao chuveiro... Minha senhora, não precisa morrer de vergonha. Está vendo como o mundo é rico, inimaginável, fabuloso de bom, uma surpresa atrás da outra? Num Conselho Pedagógico, reunião semanal da Direção com as Coordenações dos vários serviços e com representantes da Associação de Pais e Mestres e dos Grêmios estudantis, Deus me inspirou uma reflexão que tentamos aprofundar ao longo de vários anos: Trabalhando na educação de nossas crianças, adolescentes e jovens, e também com os de mais idade na Educação de Jovens e Adultos (EJA), podemos cumprir nossa missão como Professores, Educadores e Formadores. (E missionários!, acrescentou o Pe. Maurício de Resende Paulinelli). O Professor trabalha conteúdos, o Educador trabalha atitudes, o Formador trabalha valores. Todos devemos ser, ao mesmo tempo, Professores, Educadores e Formadores.  Os CONTEÚDOS, na área da comunicação interpessoal em língua portuguesa, são os sujeitos, verbos e predicados das frases, o singular e o plural, as afirmações, as negações e suas regras, os sinônimos e antônimos, etc. As ATITUDES, na mesma área da comunicação, vão ser a clareza, a lealdade, a veracidade, a fidelidade à palavra, o falar expondo-se e comprometendo-se, o corrigir os erros e voltar atrás, a revisão atenta de nossos textos, a coerência entre o que a frase diz ou sugere, inspira ou supõe, promete ou cobra, e todas as nossas atitudes. E os VALORES, na comunicação interpessoal, são o respeito à palavra dada, o acolhimento e a valorização da opinião dos outros, o comprometimento pessoal com os interesses, os direitos, o ritmo e o tempo de cada um. E a DIMENSÃO MISSIONÁRIA do nosso trabalho num Colégio, numa missão ou paróquia, na área da comunicação, significará a preparação de nossas intervenções (aula ou homilia), o respeito absoluto à liberdade e à dignidade das pessoas, Alunos ou 'Fiéis' de nossos exercícios, a coragem de buscar e trilhar caminhos novos, a busca da verdade sem medos, sem apego ao passado, com a abertura às novidades da ação de Deus e de seu Espírito, na vida social, cultural, política das comunidades, dos povos, das sociedades e civilizações. Assim, vimos nossos Alunos e Alunas nas Academias, nos Movimentos, na Ação Social, na Política, na Medicina, na Magistratura, na Igreja, no Magistério, na Televisão, nas Missões de férias promovidas pela Província, na formação de Professores, em regiões pobres do Brasil. Nossa Congregação mantém o Colégio São Vicente realizando seu objetivo na Igreja. Nosso fim é seguir Jesus Cristo evangelizador dos Pobres. Este fim se consegue quando cada um se esforça para revestir-se do espírito de Jesus Cristo; trabalha na evangelização dos Pobres, sobretudo dos mais abandonados; ajuda o clero e os leigos na sua formação, levando-os ao serviço dos Pobres.  Nossa tarefa de Congregação é transmitir este espírito aos Professores e Funcionários. Levá-los a se engajarem conosco nesta missão. Ajudá-los a adquirir este espírito, a viver este carisma, a ter estas preocupações e querer realizar isto. Nossa missão, função e tarefa é ser animadores de toda a Comunidade Educativa, ajudar Pais e Filhos, orientar os Professores, os Funcionários, os Coordenadores, quantos venham unir-se conosco. Este é o aspecto mais fascinante e desafiador, mais gratificante e exigente do trabalho em nosso Colégio, o que nos distingue essencialmente de outras escolas, cujos horizontes terminem na folha enrolada de um diploma ou na beca de uma formatura festiva e vazia. O muito sucesso que conseguimos, o acerto habitual nas decisões, a liberdade estimulada na ação, aqui no São Vicente, são frutos espontâneos, maduros, de um esforço enorme de parceria com todos os agentes possíveis, num Colégio, num bairro, numa cultura, num final de milênio, no início do novo milênio, numa proposta conjunta de união decidida, de opção pelos mesmos valores, fruto maduro da parceria, não de cumplicidades. Cumplicidade tem claramente uma conotação negativa: parceria no mal... Por isto, em todas as reuniões com os Pais ou Responsáveis, sempre pedimos parceria, não aceitando nunca nem a mais simples alusão à cumplicidade... Penso que consegui que avançássemos muito, quando falei claro aos Pais, para ter a parceria de que precisamos. Já disse aos Pais, em nome e em favor de todos os educadores e formadores, que não aceitamos que alguém diga: Estou pagando, tenho direito de exigir. Quando eles pagaram, o filho deles/nosso Aluno não virou mercadoria, nem nós viramos mercadores ou mercenários. Não somos empregados dos Pais; somos servidores, como Jesus Cristo, como São Vicente.  Nunca foi fácil a parceria, porque os elementos em que nos apoiamos podem até ter o mesmo nome, mas nem sempre coincidem. O exemplo mais claro e mais frequente disto é a questão dos limites que uns acham que temos que impor à Meninada... Sempre me pareceu, e lutei por isto, no total dos vinte anos que passei no Colégio São Vicente, que, em vez de impor limites à Meninada, devemos estimular o crescimento deles. Partindo da liberdade gloriosa de Filhos de Deus, mencionada por São Paulo na Carta aos Romanos (8, 21), nada nos autoriza, em educação, a começar mal assim, pensando que devemos impor limites. A perspectiva em que me situei, todo o tempo, quando fui Diretor do Colégio, foi libertadora, própria para fazer crescer a independência, a autonomia, o espírito crítico, o empreendedorismo, o protagonismo, vendo os Alunos e as Alunas como sujeitos de sua história, de seu destino, de seu crescimento, de sua missão, e não como objetos de nosso ensino, nossas normas, nossos cuidados ou medos... Para o nosso trabalho, propus o lema: Formar agentes de transformação social, realidade empolgante, que traduzi, para os pequeninos das primeiras séries, em ser felizes e bons. E depois traduzi, para todos, como ser felizes por sermos bons. Propus nadar contra a correnteza, fazer um Colégio que busque o necessário, o mais decisivo, o melhor. Fazer não porque os outros fazem, nem fazer só para ser diferente dos outros, mas fazer o que é fundamental, o que realmente interessa, façam ou não façam os outros as mesmas coisas. Sugeri algumas ações de transformação: Monitoria no 1º Ano do Ensino Médio e não apenas na Educação de Jovens e Adultos. Entrar em sala de aula mesmo com atraso, por valorizarmos a presença dos Alunos em sala. Cuidar do silêncio, por tomarmos consciência de que há outros estudando na Casa. Ser alguém de valor em todos os setores de nossa personalidade, não para vencer competições, mas para ser competentes, dever de quem passa por um Colégio como o São Vicente. Cheguei mesmo a sugerir o esforço de não pôr nenhum Aluno para fora da sala de aula, não pôr nenhum Aluno para fora do Colégio, no fim do ano ou em qualquer ocasião, por levarmos a sério a proposta de inclusão que nos veio de uma Campanha da Fraternidade. Para dispensar um Professor ou Funcionário, eu falava: Estamos sentindo que falta em você tal ou qual qualidade, o modo certo de fazer, mais próprio do nosso ideal vicentino. Por isto estamos querendo dispensá-lo. Você acredita que pode reverter esta situação, corrigir o de que não gostamos? Assim, o próprio Funcionário decide, com o Diretor e as Coordenações, se fica ou se se demite... como sujeitos envolvidos numa ação, não como objetos secos de uma decisão alheia... Estamos com os Educadores, ao lado deles, querendo o mesmo e ajudando-os a quererem sempre mais e melhor. Sonhamos com mais, porque cremos nas pessoas, sabemos que podem, se interessarão e farão mais e melhor, se ajudados.   Pe. Lauro Palú, CM
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