Minha primeira colocação foi no Engenho. Trabalhei uns três ou quatro anos, na administração. Depois fui para o Rio de Janeiro. Fiquei alguns meses. Fui para Petrópolis e depois, para o Caraça. Daí falei “daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
Adaptei-me muito bem ao sertão da Bahia*, fiz muita amizade. Povo muito bom. Simples, mas muito positivo, muito legal. As comunidades eram muito distantes umas das outras. O povo dizia: “eu quero é o padre da voz grossa”. Deixei muitos amigos lá.
Trabalhei em uma missão no Rio de Janeiro, nas proximidades do Cristo Redentor. Trabalhei no Sumidouro, Santana do Morro, Brumadinho, São Gonçalo do Rio Acima, preguei missão em um muitos lugares.
Onde eu chegava, falavam “Ah, o padre preto chegou! Eu gosto mesmo é de ir à missa do Padre Preto!”
O povo é santo mesmo, nós é que não prestamos.
Padre não é pra mim, não. Mas eu fazia muitas celebrações. Aí depois vinham me falar: “Eu casei com o senhor.” Eu respondia “Ei, comigo, não!” (risos)
A melhor parte das missões eram as refeições. Serviam uma galinha caipira ótima, eu passava até vergonha! Era um povo muito amigo, um povo de Deus.
Quando vai pregar a gente modifica muita coisa, revê muita coisa da gente mesmo.
Aí, às vezes pedem para confessar comigo: aí não, não sou padre não. Não perdoo ninguém. (risos)
Me colocaram para ajudar na disciplina no colégio falei “não isso não é pra mim não!” Mas fui. E fiz amizade com a turma toda. Foi bom!
* Foto: Ir. Miguel em missão na comunidade Mata Verde, em Serra do Ramalho, Bahia, 1999.
* Depoimento concedido à Sacha Leite, na Casa Dom Viçoso (Belo Horizonte - MG), em 2021.