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Um pequeno grande homem 23 de Outubro de 2026 Pe. Paulo Venuto, CM
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Quem o visse, pequeno em estatura e metido numa batina que poderia caber em qualquer coroinha, conversando com os seminaristas filósofos e teólogos, poderia pensar que se tratava de um deles. Ledo engano! Era o Superior do Seminário, professor de todos eles que o rodeavam, falando de altos tratados de teologia ou de trechos da Sagrada Escritura. Todos nós do Largo Dom João, vizinhos do Seminário, sabíamos distinguir muito bem quem era quem. Distinguíamos, de longe, o Pe. Campos, o pequeno de estatura, de outros conhecidos, ali presentes, que, mais tarde, se tornariam bispos, como o Geraldo Gusmão (depois, Bispo de Palmas, no Tocantins) ou o Leonardo Miranda (mais tarde, Bispo de Paracatu, Minas Gerais) ou mesmo Waldemar Araújo (anos depois, Bispo de São João Del Rei).

Era assim que víamos o Pe. José Isabel Campos, o padre alegre, próximo a todos nós, vizinhos e frequentadores do Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus, na lendária Diamantina. No entanto, ainda não sabíamos dos quilates de sabedoria e do preparo intelectual que carregava aquele padre baixinho, amigo e sempre sorridente.

Pe. José Isabel da Silva Campos nasceu na cidade de Bonfim, em Minas Gerais, no dia 08 de julho de 1926. Portanto, cem anos a se completarem. Fez seus estudos preparatórios para o sacerdócio, primeiramente, na Escola Apostólica Nossa Senhora Mãe dos Homens-Caraça, aonde chegou em 1939. De lá, foi para o Seminário São Vicente de Paulo, Petrópolis, entrando no noviciado, em 03 de fevereiro de 1945. Aí, fez a filosofia e a teologia e foi ordenado sacerdote, no dia 12 de outubro de 1952.

Nos anos seguintes, vamos encontrá-lo no Seminário de Diamantina como professor e disciplinário, e, de1960 até1964, na função de Superior e professor de filosofia e teologia. Foi quando mais próximo o víamos celebrando na Basílica, onde, como coroinhas, ajudávamos nas missas dos vários padres que lá moravam. A seu respeito, não dá para esquecer o pormenor de um banquinho, ao lado do altar mor, que devíamos colocar para ele subir e alcançar o sacrário. Sem ser tão menor do que ele, minha mãe, ao vê-lo no altar, temia que eu não crescesse como o celebrante!

Depois de 97 anos da presença de grandes mestres na direção do Seminário, o Padre Campos foi o último Lazarista a conduzir o Seminário. Tudo começou quando, em 1961, o então Bispo de Diamantina, Dom Geraldo de Proença Sigaud, em uma cerimônia de ordenação na Basílica, condenou ferrenhamente a Nova Teologia francesa, da qual muitos Lazaristas eram adeptos. Iniciou-se, assim, uma série de desentendimentos que culminou na saída da direção dos padres da Congregação da Missão, no dia 15 de junho de 1964. “A retirada dos Padres Lazaristas foi causa de grande choque para todos. Tanto nos seminaristas como no povo aqui residente. Na véspera de irmos em férias, houve a despedida dos Srs. Padres à porta da Basílica. Foi tão emocionante que diversas mulheres diamantinenses choraram” (Crônica do SSCJ).

Após os acontecimentos da tumultuada saída dos Padres Lazaristas de Diamantina, o Pe. Campos foi estudar Sagrada Escritura em Roma e em Jerusalém. Décadas mais tarde, voltou ao Seminário de Diamantina, para lecionar Sagrada Escritura, assim como no Seminário de Montes Claros. Em 1970, foi nomeado Diretor das Filhas da Caridade da Província de Belo Horizonte, ministério que exerceu por 9 anos. Trabalhou como vigário na Paróquia de Santana, em Itaúna, Diocese de Divinópolis, enquanto dava assistência aos seus pais idosos. Foi, também, vigário na Paróquia Santo Antônio, na Pampulha. Participou na criação do curso de filosofia no Instituto São Vicente de Paulo de Paulo. Foi pároco na Paróquia São José do Calafate durante seis anos e capelão do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças de 1996 a 1997. Em Brasília, em 1998, foi vigário na Paróquia N. Senhora das Graças e professor.  Foi dono de um vasto conhecimento da liturgia, sendo também tradutor de passagens bíblicas para o português da CNBB. Dentre alguns de seu trabalho, está a tradução de alguns pergaminhos encontrados em escavações no Oriente, para o francês e, posteriormente, para o português. Padre Campos era um grande estudioso, dominava vários idiomas, dentre eles, francês, inglês, hebraico, aramaico, espanhol, árabe, entre outros. Foi também professor na PUC-Minas, em Belo Horizonte.

Muitos de nós carregamos boas lembranças desse coirmão jovial, apesar da idade; fervoroso lazarista muito preocupado com o futuro da Congregação, não lhe faltando algum gracejo com as situações hilariantes que lhe aconteciam no seu carrinho, um Fiat 147.

Deixou-nos no dia 12 de janeiro de 2016, aos 87 anos. Certamente, continua, junto da Santíssima Trindade e, principalmente, na companhia de São Vicente, com suas reflexões interessantíssimas e acaloradas.

* Texto publicado originalmente no Informativo São Vicente N. 336 (jul/ago/set de 2026).
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