Por aproximadamente dez anos, Lucimar Muniz realizou serviços de conservação e restauração para preservar os acervos da PBCM. Aplicou todo o seu conhecimento, criatividade e cuidado a documentos, livros, fotografias, mobiliário e diferentes objetos que ajudam a contar a história dos padres e irmãos da Congregação da Missão no Brasil.
Sua trajetória no Arquivo se entrelaça com o próprio processo de organização e preservação do acervo histórico da Província, hoje reunido no Centro de Memória Vicentino.
“Tintas ferrogálicas, paspartout... isso tudo é muito a cara dela.” É assim que Cristina Vellaco, Secretária Provincial e responsável pelo Arquivo Histórico da Província Brasileira da Congregação da Missão (PBCM) lembra-se da restauradora, falecida em 24/3/2025, há exatos um ano e seis meses.
A chegada ao Arquivo da PBCM
Cristina recorda que começou a se dedicar mais diretamente ao Arquivo por ocasião dos 50 anos do Colégio São Vicente de Paulo (CSVP). Naquele período, encontrou diversos documentos da Província armazenados na antiga biblioteca, inclusive na casa de máquinas do elevador.
“Sentia a necessidade de cuidados profissionais porque o arquivo estava muito desorganizado”, conta.
Pe. Agnaldo Aparecido, CM, então Visitador Provincial, incentivou Cristina a se dedicar ao acervo e sugeriu que ela realizasse uma formação em Organização de Arquivos Eclesiásticos, promovida pela Arquidiocese de São Paulo e pelo Arquivo Metropolitano.
Durante o trabalho de pesquisa, Cristina percebeu que a organização documental alcançava apenas os registros até 1970 e propôs a contratação de uma profissional especializada. Foi então que chegou à PBCM uma equipe liderada pela arquivista Luciana Bandeira, para realizar um projeto arquivístico de nove meses. Porém, devido ao grande volume documental que precisava de conservação, o trabalho acabou se tornando contínuo, e a atuação da Lucimar foi fundamental para garantir a preservação e os cuidados necessários com o acervo.
“A Lucimar era talentosa, simples, humilde. Era a fada dos invólucros. Fazia as caixas artesanalmente, os álbuns, as pastas... Tinha um amor muito grande pelo Arquivo e fazia tudo com dedicação. Você via que o olho dela brilhava”, recorda Cristina.
Durante os anos em que trabalhou para a Província, Lucimar deixou suas marcas em diferentes partes do acervo.
“Aprendi coisas demais com ela. Era uma pessoa muito experiente, tinha muita prática. Devemos muito a ela. O Arquivo é bonito por causa dela. Ela está marcada ali, tem um pedaço dela ali”, afirma Cristina.
Na época em que o Arquivo da PBCM funcionava em uma sala da Casa Central, na Rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, Lucimar recebia também peças que necessitavam de cuidados especiais. Pe. Eduardo dos Santos, CM, por exemplo, costumava levar livros, quadros, móveis e outros objetos para que fossem restaurados.
Uma professora que multiplicava conhecimentos
A atuação de Lucimar, porém, não se limitava à restauração. Uma característica marcante de sua trajetória profissional foi a disposição para ensinar e formar outros profissionais.
Um desses aprendizes foi Bruno Souza, que hoje dá continuidade ao trabalho de conservação e restauração na PBCM.
Bruno conheceu Lucimar em 2002, ao participar de um projeto voltado a adolescentes da rede pública que estavam concluindo o Ensino Médio. A capacitação em conservação e restauração despertou seu interesse, e ele decidiu também estudar encadernação.
Pouco depois, recebeu um telefonema de Lucimar:
“Ela perguntou se eu havia terminado o colégio. Eu disse que sim e ela me chamou para trabalhar com ela”, recorda.
A partir de 2004, ele passou a integrar as equipes de restauração que Lucimar coordenava: no Arquivo Central do Detran, no Arquivo Nacional e, posteriormente, em um projeto na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Penso na Lucimar como uma mentora, uma parceira. Foi ela quem me ensinou praticamente tudo o que sei hoje. Só tenho a agradecer pelos conselhos que ela me deu. Quando ela saía, me deixava à frente, responsável. Devo muito do que me tornei a ela”, afirma Bruno.
Criatividade e cuidado com cada peça
A arquivista Luciana Bandeira conheceu Lucimar ainda em 2004, no Arquivo Central do Detran, onde ela coordenava uma equipe responsável pela restauração de documentos permanentes e históricos.
O acervo incluía registros tão antigos que guardava, por exemplo, documentos de habilitação de cocheiros e descrições físicas utilizadas para a identificação dos condutores.
Segundo Luciana, Lucimar não apenas dominava as técnicas de conservação e restauração, como também tinha grande capacidade de transmiti-las. No Detran, ajudou a formar profissionais de diferentes origens e trajetórias.
“Dávamos oportunidade para pessoas de todas as áreas em que víamos potencial e interesse, e ela treinava a equipe. Haviam pessoas de serviços gerais e aposentados. Era uma miscelânea de pessoas, com várias formações”, recorda.
Essa capacidade de encontrar soluções também se refletia no cotidiano do Arquivo da PBCM.
“Eu a chamava de ‘professora Pardal’. Ela achava sempre um jeito de melhorar e acondicionar cada livro, cada objeto. Era criativa no trabalho”, conta Luciana.
Para a arquivista, o legado da amiga e companheira de trabalho permanece visível em todo o acervo.
“Tudo o que olho aqui no Arquivo é impregnado da alma dela. Ela ficava feliz a cada livro, mesmo com mofo, a cada móvel, mesmo com cupim. Queria receber todos os móveis e todos os documentos, mesmo se não tivesse espaço.”
Um legado que permanece vivo
Mais do que dominar técnicas de restauração, Lucimar compreendia o valor daquilo que chegava às suas mãos. Para ela, não havia documento pequeno ou objeto sem importância quando se tratava de preservar uma história.
“Ela deixou como legado o cuidado e o amor com o acervo dos padres e irmãos da PBCM. Quando falo de acervo, estou falando dela também, que cuidou com amor de cada item. Nada era desinteressante, tudo era importante. O bilhetinho manuscrito de um padre era importante”, ressalta Luciana.
Lucimar também é lembrada pela maneira como se relacionava com as pessoas: gentil, acolhedora, amorosa e atenciosa. Sua ausência, conta Luciana, ainda é sentida por aqueles que conviveram com ela.
Após sua morte, foi necessário um período para que o trabalho de conservação e restauração fosse retomado. Cerca de um ano depois, Bruno Souza foi convidado a integrar o trabalho realizado pela PBCM.
A escolha representa também uma forma de dar continuidade ao trabalho que ela iniciou.
“Entendi que o Bruno daria continuidade ao trabalho dela, de forma muito respeitosa e com o jeito de trabalhar que ela ensinou. Ele veio da escola dela e está dando continuidade a esse trabalho”, explica Luciana.
Assim, os conhecimentos transmitidos por Lucimar seguem presentes no cuidado cotidiano com documentos, livros, fotografias e objetos que atravessaram gerações e ajudam a preservar a trajetória da Congregação da Missão.
“Esse não é um arquivo morto. Há vida nessas memórias e Lucimar faz parte dessa história”, sentencia Luciana Bandeira.
A presença de Lucimar permanece, portanto, não apenas nas caixas, pastas, livros e objetos que restaurou, mas também no conhecimento que compartilhou, nas pessoas que formou e nas relações que cultivou. Cuidar do acervo da PBCM é preservar a memória de uma missão e, nessa memória, permanece também um pouco da história de quem dedicou a vida a protegê-la.