A memória de Pe. Antônio Gomes Pereira (1932-2017) é muito grata e luminosa para todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele. Talvez se possa resumi-la didaticamente em três C’s: convicção, coerência e clareza.
Convicção. Pe. Gomes era, realmente, um homem de convicções firmes, profundamente arraigadas na fé. Por isso mesmo, não se deixava dominar por ideologias, nem condicionar por tendências e muito menos arrastar por influências que lhe parecessem contrárias. Nisso reluziam sua têmpera humana, cravejada de virtudes, seu vigor espiritual, robustecido na oração, e sua inteligência brilhante, acolitada por uma memória prodigiosa. Em meio a posturas unilaterais e extremistas – na política, na Igreja e na Congregação – Pe. Gomes sabia manter a prudência e o equilíbrio dos homens lúcidos. Por onde passou, mas sobretudo no âmbito da formação seminarística e da Província em seu conjunto, era, não raro, um contraponto providencial, sabendo emitir suas opiniões com objetividade, ponderação e cordialidade, sem refugiar-se em clichês e sem ceder às pressões de cada momento. Respeitado por todos e escutado por muitos, sua sensatez acordava a consciência dos cautelosos e amainava as críticas mais ácidas, revelando assim a força de suas convicções ancoradas no Evangelho.
Coerência. O caráter retilíneo de Pe. Gomes, sua personalidade bem sedimentada e sua conduta íntegra se traduziam em um coração magnânimo, aberto de par em par para todos, como testemunham aqueles que o conheceram de perto. Trabalhando na formação dos nossos e do clero diocesano, em missões e em paróquias, sua reputação era sempre a de um homem, missionário e sacerdote correto e confiável, generoso e disponível, lapidado pelo carisma de São Vicente, do qual se imbuíra desde sua infância. Dava gosto ver como era apreciado e recordado, particularmente nas comunidades eclesiais por onde passou, pela solicitude e gentileza no trato pessoal, nas visitas aos doentes e no atendimento dos pobres. Pe. Gomes era, portanto, um homem simples no sentido mais genuíno do termo, virtuosamente simples, sem artifícios e sem astúcias, não só por seu conhecido despojamento no vestir-se e pela sobriedade de seu estilo de vida, mas, acima de tudo, por sua transparência e autenticidade, por sua coerência evangélica no pensar e no falar, no ser e no agir.
Clareza. Aqui importa destacar o modo como Pe. Gomes transmitia suas convicções: com a vida e a palavra. Era um leitor voraz, como já não se vê em nossos dias. Em seus últimos anos, porém, sempre mais limitado pela deficiência que lhe subtraía progressivamente a visão, podia apenas ouvir com avidez a leitura que lhe faziam seminaristas, Irmãs e amigos que se dispunham a ajudá-lo dessa forma. Na realidade, eram os leitores os que mais se beneficiavam desses encontros com Pe. Gomes, graças às observações nascidas de sua incomum capacidade de síntese, expressas ao final de um tópico ou capítulo do livro em pauta. E muito mais numerosos foram os agraciados pela relevância de suas intuições teológicas, pastorais e vicentinas, expostas em aulas, conferências, retiros, homilias, colóquios pessoais ou conversas à mesa. Também são lembradas suas intervenções em assembleias e reuniões provinciais. De fato, livre como era de egocentrismos e obstinações, nosso coirmão sabia discutir sem ferir, propor sem impor, jamais evadindo-se em afrontas ou lisonjas, apoiado tão somente em sua autoridade moral e honestidade intelectual, cultivadas com sincera humildade. Não era dado a polêmicas estéreis. Sua crítica ao passado era de impressionante clarividência e notável senso crítico, sem ofender a pessoas ou menosprezar esforços.
******
Para os seminaristas de então, em tempos particularmente difíceis, e para tantos outros, a presença discreta, serena e eficaz de Pe. Gomes era um abrigo de paz no qual podíamos descansar, um manancial de sabedoria do qual podíamos beber e um porto seguro no qual todos encontrávamos a escuta atenta e respeitosa, a palavra que iluminava e interpelava e o gesto capaz de confortar, corrigir e confirmar, com a benevolência de um experimentado ancião, mas sem fáceis concessões naquilo que era deveras essencial. E tudo isso com a lucidez e a brandura que se espera de um autêntico homem de Deus e de um abalizado missionário vicentino. Não é à toa que a memória de Pe. Gomes é um canto de gratidão e saudade. E não poderia ser diferente em se tratando de alguém que se empenhou em viver “à altura do evangelho de Cristo” (Fl 1,27).