Padre Joaquim de Souza Silva foi o primeiro padre lazarista a trabalhar na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro Jardim Industrial, em Contagem, Minas Gerais. Ele trabalhou nesta paróquia no início da década de 1980 e faleceu no final desta mesma década. Foi justamente neste período que comecei a participar da Igreja e a conhecer a Congregação da Missão, por meio do testemunho deste grande missionário, que me marcou profundamente.
Antes de ser ordenado padre na Congregação, ele foi Irmão, durante muitos anos. Quando entrou para o seminário, o seu sonho era ser padre, mas isso não era possível na época, por causa de sua cor negra. Infelizmente, este fato era uma realidade que acontecia, de modo geral, em várias congregações, pois se tratava de uma mentalidade europeia que se impunha a todos os países. Mas, mesmo com esta mentalidade do embranquecimento, o Padre Joaquim nutriu dentro de si o sonho de ser padre, mesmo sabendo que não seria fácil. A sua persistência deu certo. Com a evolução e os avanços conciliares da Igreja, à luz do Espírito Santo, o seu sonho tornou-se realidade.
Um fato muito marcante e triste, mas que mostrou a força e a perseverança do Padre Joaquim, aconteceu no início do seu trabalho na Paróquia Nossa Senhora de Fátima. Algumas pessoas ficaram revoltadas com a chegada do Padre Joaquim. Porque um padre negro, para essas pessoas, era um absurdo, ainda mais na condição de pároco. Chegaram até a colocar bilhetes na porta da casa paroquial com as seguintes frases: “Não aceitamos padre macaco aqui”; “Padre, pode juntar suas coisas e ir para outra paróquia, pois aqui não é lugar de preto.”
Diante de toda essa hostilidade, lembro que o Padre Joaquim procurou Dom Serafim e contou o que estava acontecendo. Dom Serafim escreveu uma carta de apoio à sua presença, para ser lida nas celebrações, afirmando que: “O Padre Joaquim de Souza Silva está na Paróquia Nossa Senhora de Fátima como representante dos Lazaristas e da Arquidiocese de Belo Horizonte. Quem estiver incomodado com a sua presença, procure outra paróquia para participar e não atrapalhe a evangelização.”
Foi justamente com este apoio de Dom Serafim que Padre Joaquim arregaçou as mangas e trabalhou com bastante intensidade, conquistando todos os paroquianos com seu espírito de liderança, criatividade e com o esforço de envolver todas as pessoas no trabalho pastoral. Ele era muito severo, mas de coração bondoso e possuía uma capacidade impressionante de atrair fiéis para todas as pastorais da paróquia.
Eu me orgulho de ter iniciado a minha caminhada na Igreja nesse contexto, diante deste padre que, mesmo diante dos conflitos e preconceitos, não abaixou a cabeça nem ficou murmurando pelos cantos, como um coitado ou derrotado. Pelo contrário, levantou a cabeça e colocou em prática tudo aquilo que a Congregação da Missão e a Arquidiocese de Belo Horizonte esperavam de sua pessoa.
Eu, particularmente, devo a minha vocação de lazarista ao seu testemunho de vida. Muito obrigado, Padre Joaquim, por tudo o que o senhor fez pela Igreja e pela nossa paróquia.