Por ocasião do mês vicentino e da celebração da Solenidade de São Vicente de Paulo, em 27 de setembro, o Superior Geral da Congregação da Missão, Pe. Tomaz Mavric, CM, dirigiu uma carta à Família Vicentina, convidando seus membros, em diferentes partes do mundo, a contemplar com gratidão o legado de São Vicente e a renovar o compromisso com a missão junto aos mais pobres.
Na mensagem, Pe. Tomaz recorda a diversidade de pessoas e instituições que, em diferentes países e contextos, se reconhecem como parte da Família Vicentina: padres e irmãos da Congregação da Missão, Filhas da Caridade, congregações religiosas inspiradas em São Vicente de Paulo e diferentes ramos e associações vicentinas.
“Em todos os continentes e em diferentes idiomas, centenas de milhares de pessoas se reconhecem como filhos e filhas de um mesmo pai”, afirma o Superior Geral, destacando a presença da Família Vicentina em paróquias, hospitais, escolas, obras sociais, campos de refugiados, prisões, ruas e missões.
Um convite à gratidão
Um dos pontos centrais da carta é o convite para que a Família Vicentina não apenas estude, recorde ou invoque São Vicente, mas também pare para agradecer pelo dom de sua vida e de seu carisma.
Pe. Tomaz destaca a santidade de Vicente de Paulo como uma vida marcada pela fidelidade cotidiana, pelas decisões difíceis e pela entrega à missão. Também ressalta o dom de seu carisma, especialmente o olhar capaz de reconhecer Cristo no pobre, e sua espiritualidade concreta, que une o encontro com Jesus e o serviço aos que sofrem.
Para o Superior Geral, a gratidão é uma expressão fundamental da fé, pois reconhece que a vocação e os dons recebidos não são fruto apenas dos próprios esforços, mas expressão da ação de Deus.
A partir dessa perspectiva, a carta convida cada membro da Família Vicentina a recuperar o “encantamento” diante da própria vocação e a reconhecer que o carisma recebido é, ao mesmo tempo, um dom pessoal, comunitário e eclesial.
Um carisma vivido em comunidade e a serviço da Igreja
Ao recordar as origens da missão vicentina, Pe. Tomaz chama atenção para o fato de que São Vicente não partiu de um projeto previamente elaborado. O carisma nasceu de experiências concretas, encontros e acontecimentos nos quais ele foi reconhecendo a ação da Providência.
A vocação, portanto, não é apresentada como uma conquista individual. “Vicente não escolheu, ele foi escolhido”, recorda o Superior Geral, destacando que o chamado pessoal conduz necessariamente à vida comunitária e à missão.
A carta também enfatiza a dimensão eclesial do carisma vicentino. A vocação, segundo Pe. Tomaz, está inserida na Igreja concreta e se expressa no serviço aos pobres como continuidade da missão de Jesus Cristo.
Nesse sentido, o Superior Geral recorda que a missão vicentina não pode ser reduzida a uma ação de solidariedade. Trata-se de participar da missão de Cristo, servindo os pobres e caminhando em comunhão com a Igreja.
Três desafios para a Família Vicentina
Ao final da mensagem, Pe. Tomaz apresenta três desafios que considera urgentes para a Família Vicentina hoje:
1. Reconhecer os novos rostos da pobreza
O primeiro desafio é olhar atentamente para as diferentes expressões da pobreza no mundo contemporâneo. Entre elas, a carta destaca a situação das pessoas obrigadas a deixar suas terras, os excluídos, as vítimas das guerras, os impactos das mudanças climáticas, as desigualdades sociais, a exclusão digital e as pessoas deslocadas em razão de catástrofes naturais.
Diante dessas realidades, o Superior Geral afirma que as boas intenções não são suficientes. É necessário buscar respostas concretas que restituam a cada pessoa a dignidade que lhe pertence.
2. Fortalecer a comunhão entre os ramos
O segundo desafio é aprofundar a comunhão e a colaboração entre os diferentes ramos da Família Vicentina.
Pe. Tomaz reconhece que ainda há um caminho a percorrer e convida os diferentes grupos a superar barreiras e a colocar seus dons a serviço de uma missão compartilhada.
“Cada ramo contribui com um dom e somente ao partilhá-lo, torna-se plenamente fecundo”, afirma.
A comunhão, o discernimento partilhado, a colaboração e a missão são apresentados como caminhos para viver, também no âmbito vicentino, o chamado da Igreja à sinodalidade.
3. Investir na formação
O terceiro desafio apresentado é a formação permanente. O Superior Geral convida cada ramo da Família Vicentina a refletir sobre seus próprios caminhos formativos, suas fontes, sua história e sua capacidade de iluminar a experiência cotidiana a partir do carisma e da espiritualidade vicentina.
Entre as propostas está a criação, em cada país e Província, de Centros de Formação Vicentina, construídos pela colaboração dos diferentes ramos presentes em cada território.
A proposta é que esses espaços sejam verdadeiramente uma “casa comum” da Família Vicentina, com programas anuais de formação adaptados às necessidades de cada realidade.
Caminhar juntos
Ao concluir a carta, Pe. Tomaz ressalta que os desafios apresentados não devem ser entendidos como uma lista de obrigações, mas como um convite para retomar o caminho.
“São Vicente não partiu de um projeto concluído; ele partiu de um encontro, de um pobre que tinha um rosto e um nome”, afirma.
A mensagem termina com um convite à confiança e à caminhada conjunta: “avancemos, sem medo nem precipitação, mas juntos”.
Ao celebrar o mês vicentino, a Família Vicentina é assim convidada a renovar a gratidão pelo dom recebido de São Vicente de Paulo e, a partir dessa gratidão, transformar a memória em compromisso, reconhecendo os novos rostos da pobreza, fortalecendo a comunhão entre seus diferentes ramos e investindo na formação para a missão.
Leia o documento na íntegra aqui.