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Desabafo de um Padre Negro 23 de Junho de 2020 Tocando a ferida do racismo, dentro do contexto da Igreja Católica Pe. Denílson Matias, CM
Racismo, Punho Cerrado
A a     

Pediram-me um texto no qual eu falasse sobre preconceito. Em tempos de pandemia, seria mais fácil escrever sobre a COVID-19, isolamento social, angústia, solidão, família, comunhão, esperança e tantas outras coisas. Mas, bastou a pandemia para que outro tema viesse à tona. Trata-se também de um vírus. Ao contrário do novo Coronavírus, este já está, há muito, presente entre nós. Ele veio agindo de modo silencioso ao longo dos séculos; disfarçado de cordialidade, de aceitação, de amizade... Esteve sempre presente, sem mostrar a cara. Durante muito tempo, pareceu ser algo assintomático. Os infectados não se davam conta do que acontecia, até que um dia os seus sintomas ficaram mais evidentes. Esse vírus acometeu a muitos. Hoje, já sabemos o nome da doença: racismo estrutural. Com o advento da internet e com os novos motes políticos direitistas instaurados, o racismo ficou exposto, à flor da pele. O grande problema desta doença, desconsiderada por muitas pessoas, é que ela não mata o portador, mata o outro que não é da mesma raça. Quando não mata, deixa sequelas. É a doença que flerta com a agressividade e com a violência. No Brasil, as pessoas isentas do privilégio branco, tornaram-se animais de caça. Se saem das suas humildes tocas, correm o risco de serem abatidas. 

O racismo estrutural é a forma cruel de desabonar uma raça em detrimento da outra. Demoniza-se a cor da pele, a cultura, o jeito de ser, de falar, de andar, de rezar, enfim, o diferente é anulado. A sua consciência de povo torna-se algo deturpado. Seu sentido de pertença a uma sociedade passa a ser percebido somente a partir da marginalização. Estereotipa-se o outro a modo de não conceder-lhe os seus espaços de direito.

No decorrer da história, o povo negro foi subjugado. Foi trazido para o ocidente, comprado a preço de nada. Suas vidas, ao entrarem nos navios negreiros já não tinham nenhum valor humano. O sentido de ser um povo, uma raça, fragmentava-se tão logo eram caçados, aprisionados e exportados. Talvez, o que lhes desse uma margem de unidade fosse o sofrimento. A partir daquele momento, os negros eram almas pretas lançadas no abandono. Vidas de curta duração, concebidas para o trabalho escravo e ao direito de ficarem calados. Criados mudos! Para os privilegiados brancos, aqueles negros eram um povo sem alma, igualado a animais irracionais. Os animais de estimação eram melhor tratados. Nos navios negreiros, começava a decomposição de um povo, a decomposição de tradições, a decomposição histórico cultural de vidas que seriam encarceradas nas fazendas, nos alqueires, nas minas; na chibata. Ali começava um longo caminho de luta, da sofrida luta pela liberdade, que, até hoje, não foi alcançada.

Aquelas pobres vidas pretas escravizadas sofreram ao longo dos séculos. Até que, aos poucos, foram sendo assinadas leis com o pretenso teor de libertação. No caso brasileiro, os negros aqui escravizados não tinham nada e eram libertados sem direito a nada. Assim, os quilombos foram ganhando vida e as favelas foram tomando forma.  Os guetos ganhavam sinônimos, o preto era do gueto, o lugar da macacada, os becos, as vilas, as ruelas, os lugares insalubres tornaram-se o “lugar de gente de cor”. Longe de casa, longe da pátria mãe, no transcurso dos tempos das conquistas e das grandes navegações, os negros foram sendo “domesticados”. 

Milhares de pretos foram aleijados, não só fisicamente, foram amputados na sua expressão religiosa, proibiram as suas crenças, tiraram-lhes a voz. Impediram-lhes de dançar as suas danças. Apesar de que “todo menino do pelo saiba tocar tambor”, dançar e cantar, orar do seu jeito próprio, só podia ser feito de modo discreto, para não dizer escondido. As canções do negro foram banhadas em banzo, na saudade do lar, na nostalgia da liberdade de quando ser preto não era pecado, não era crime e não era civilmente errado.

 A própria Igreja Católica teve escravos, padres tiveram escravos, suas famílias abastadas tiveram troncos nas suas grandes fazendas. Não consigo imaginar a capelinha com Nosso Senhor Jesus Cristo pregado na cruz. Lá estava Jesus de Nazaré, pregado no madeiro, depois de ter sido torturado e assassinado. Não muito longe dali, estava a senzala, o tronco, as correntes, os lugares onde batiam e torturavam o mesmo Cristo. A diferença é que o da Cruz tinha traços europeus, finos e caucasianos. O da senzala tinha traços escuros, quem iria dizer que era o Filho de Deus? Há aqueles que insistirão em dizer que os escravos dos católicos eram diferentes, que eram bem tratados. Mania ridícula de justificar um mal, muitas vezes, justificado em nome de Deus. Quase sempre protegido pelo olhar histórico, alguns irão dizer que aqueles eram outros tempos e que isso fazia parte do contexto. Sempre houve uma pedagogia da escravidão atribuída à vontade divina, a modo de justificação. De Agostinho ao Pe. Antônio Vieira se pode constatar isto. Quando fui a Auschwitz e entrei no campo de concentração, pude partilhar da dor dos judeus. A sensação foi triste, verdadeiramente cortante, aquele ambiente me rasgava por dentro. Não assentiria jamais em dizer que o que aconteceu com os Judeus pode ser historicamente justificável e justificado. Seria impossível uma condescendência, de minha parte, com o massacre do holocausto judeu e de tantos outros holocaustos que temos visto na história. Como não sentir a dor do meu próprio povo, dizimado nestas terras? 

A escravidão deixou sequelas. Ainda hoje somos escravos. Ainda hoje estamos atados a troncos. Muitos dirão que a situação melhorou. Muitos dirão que fomos gratificados pelo tempo. Muitos dirão que os governantes cuidaram de nós. Muitos continuarão calados, mesmo vendo que não gozamos dos mesmos direitos. Falar de negro a partir da pele de um branco não é o mesmo que narrar a saga de um povo incompreendido na sua história de matriz africana, a partir da própria cor da pele. Só quem sofre por causa do racismo estrutural tem condições de falar do preconceito experimentado dia após dia. O privilégio branco é capaz de proteger, de vestir, de dissimular, de ocultar. Já o preto, o preto está sempre nu. Sempre é olhado a partir da sua vergonha. É sempre o exótico. É sempre aberrante. É sempre perigoso. É sempre o preto. Branco, por favor, não venha me dizer que não, apesar da fala ser sempre sua e do privilégio ser sempre seu. Você pode ter os seus sofrimentos, mas aqui, no Brasil, quem sabe de preconceito sou eu. Só para lhe recordar, não existe racismo reverso quando o privilégio fica sempre de um mesmo lado, do lado claro, é claro.

Este povo, que foi abandonado à própria sorte, carrega no corpo uma cor depreciada, usada para justificar o que é ruim. O bom é o lado claro da luz, já as trevas são negras. A coisa? Está preta. Denegrir é empretecer, obscurecer. O dia é bom, a noite é perigosa, a noite é preta. A empregada é doméstica, assim como se domesticavam as negras do tempo da escravidão, com corretivos. O preto é da cor do pecado. É só pensar no imaginário da mulher negra sexualizada, nas curvas que convidam para o mal. O homem negro é o tarado, o abusador. O serviço mal feito é de preto, o mercado clandestino é negro, a magia para o mal é negra, a lista é negra e a ovelha é negra. Poderia listar mais expressões racistas que rebaixam e estereotipam os negros. Raridade seria encontrar uma lista que falasse da sua real essência, que mostrasse a sua beleza, que enfatizasse a sua normalidade.

Hoje resolvi gritar. Gritar que não aceito. Gritar que os estereótipos sujos que brotam dos preconceituosos não dizem respeito a quem sou, a quem o meu povo negro é. Não dizem respeito à nossa cor e à cultura que trazemos dentro. Meus irmãos estão nas favelas, nas cadeias, nas ruas. Por que? Não é porque não prestam, não é porque sejam vagabundos. É porque nos libertaram das senzalas, mas, não nos devolveram os direitos roubados; não nos recompuseram por inteira a nossa dignidade que foi fragmentada e ainda exigiram que fossemos como os outros, que nos comportássemos como brancos.  Hoje eu falo em nome das minhas irmãs e dos meus irmãos negros, não precisamos da sua pena, exigimos justiça. Foi à custa do sangue e do sofrimento de muitos pretos que essa nação foi levantada. 

Graças aos açoites e ao sangue derramado, de muitos negros sem nome e sem sobrenome, que se construíram casas, estradas, igrejas... Foi à custa destes açoites e deste sangue que muitos brancos puderam comer e beber, para depois estuprarem as negrinhas que tiravam das senzalas e davam de presente aos filhinhos púberes. E são os nomes destes senhores que estão nas placas das ruas, nas praças, nos parques, nas avenidas, sem nunca terem carregado um só tijolo. Só serviam para cortar a fita no dia da inauguração.

Em 4 de abril de 1968, aos 39 anos, morria um ícone da luta pela igualdade racial, Martin Luther King. Nem o Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1964, o favoreceu. Foi assassinado por lutar por uma causa justa, a liberdade para os negros oprimidos dos Estados Unidos da América. Sua morte foi mais uma dentre muitas. Apesar da melhora da situação dos negros americanos, seu corpo inerte não foi suficiente para estancar todo o sangue, que escorria dos corpos negros que continuavam a ser assassinados. Há uma parte em seu discurso, “Eu tenho um sonho”, que gostaria de vê-la se tornar realidade, aqui no nosso Brasil: “Eu tenho um sonho que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos essas verdades como auto evidentes que todos os homens são criados iguais".

Hoje, no meio de toda a confusão causada pela pandemia, o assunto do racismo voltou com força. Mais um americano negro foi morto de forma cruel. No Brasil, mais um garotinho foi morto dentro de sua casa. João Pedro, morreu aos 14 anos de idade. Teve sua vida ceifada. Ele representa um número extenso na lista dos jovens e dos adolescentes negros mortos no nosso país. O que dizer? O que fazer? Repetir, repetir alto: I can’t breath (Não consigo respirar/ Não posso respirar). Foram 8 minutos e 46 segundos sob o peso do joelho do policial branco, de mãos no bolso, enquanto agonizava, morrendo por ser preto e por ser preto ser suspeito. Suspeito com um único direito, a morte. Assim, George Floyd tira do nosso peito o grito abafado, “não posso respirar” e nos faz dizer “sem justiça, sem paz”. Ah, João Pedro, o menino negro, de 14 anos, com um lindo sorriso no rosto, visto nas fotos da Internet. Essa é a imagem da foto que vemos, foto que derrama doçura e beleza. Em sua última mensagem para sua mãe, que estava ciente do tiroteio, ele dizia que estava sozinho em casa, sem nenhum adulto e, finalmente, escreveu-lhe: “Calma!” E, lá dentro de sua casa ele se foi, morreu com um tiro, morreu pelas mãos de um adulto. Mais um adolescente preto foi para onde já não sentirá o peso do racismo, onde abraçará quem, de fato, sabe amar. Mais um adolescente preto se torna razão para o nosso grito, “sem justiça, sem paz”.

Não temos liberdade para ir e vir sem o medo de uma batida policial. Não nos sentimos à vontade dentro dos supermercados, shoppings ou comércios, quando os seguranças passam o tempo todo nos vigiando. Não somos bem atendidos nos lugares onde vamos, há gente que tem nojo de nós. Há gente que desconfia de nós. E há aqueles que dirão que estou exagerando. Geralmente, não são negros, não sabem o que é ser negro e nunca sofreram preconceito.

Quantos mais precisarão morrer? Quantos mais precisarão apanhar? Quantos mais precisarão passar por constrangimentos? Quantos mais serão barrados nas portas dos hotéis, em eventos ou em outros lugares? Quantos mais terão que chorar por saber que tudo o que acontece de mal consigo é por causa da sua cor? Quantos mais serão considerados suspeitos?

No mundo todo estamos gritando por justiça, pela liberdade de direito e de fato. No mundo todo estamos mostrando o nosso rosto e pedindo que nos vejam como pessoas. No mundo todo estamos dizendo que queremos nos aproximar de verdade, que queremos formar comunhão. A nudez do nosso corpo negro sofrido e escarnecido está exposta, já não suportamos mais sermos tratados como seres inferiores. Já não suportamos o peso do joelho dos policiais, queremos respirar.

Como padre negro, no meu lugar de fala, uno-me a todos os que estão nesta luta. Já não aceitaremos que riam de nós, já não aceitaremos que nos julguem pela nossa cor. Já não aceitaremos o último lugar porque os pretos não podem estar à frente. Já não aceitaremos o racismo e nem os racistas, porque são tóxicos. Não há espaço no cristianismo para este tipo de atitude. A religião de Jesus de Nazaré, com tudo o que brotou do seu coração, não pode compactuar com os esquemas assassinos produzidos pelo racismo e pelo preconceito.  Se compactua, não é cristianismo. Já não podemos viver sob a égide de uma dupla moral. 

Já não podemos disfarçar o indisfarçável, foi-se o tempo em que um sorrisinho falso mudava a situação. Foi-se o tempo em que pensavam que podiam nos comprar com umas poucas moedas ou com parcas ofertas. Foi-se o tempo em que nos faziam acreditar que erámos nada.  Gostaria de terminar este texto citando documentos da Igreja, mas não. Penso que somente alguns versículos bíblicos servirão para terminar este desabafo. Creio que é uma pena que até hoje não entenderam o sentido e a riqueza que estes versículos têm. Se os cumpríssemos, se não mentíssemos nas nossas relações humanas, tudo seria diferente. Hoje trago somente uma certeza, o Deus verdadeiro não suporta o racismo. O Deus verdadeiro não suporta o preconceito, o Deus verdadeiro é antirracista: "Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?" Respondeu Jesus: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas". (Mt 22, 36-40)

Pe. Denilson Matias, CM

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