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Os primórdios da Congregação da Missão no Brasil 23 de Junho de 2020 Detalhes sobre os primeiros missionários e a fundação da PBCM Pe. Luís Carlos do Vale Fundão, CM
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A celebração dos 200 anos da chegada dos Missionários Vicentinos (Lazaristas) ao Brasil, neste ano de 2020, nos faz recobrar uma parte importante da história do Brasil que foi marcada pela contribuição desses homens zelosos nos diversos trabalhos missionários, educacionais e de serviço aos Pobres. Veremos, a seguir, como foram numerosos os trabalhos realizados pelos primeiros missionários em terras brasileiras, ao longo de todos esses anos, tais como: missões populares; fundação de colégios; direção de seminários; socorro aos empobrecidos, defesa dos injustiçados, etc. 

Neste artigo, vamos nos ater aos principais acontecimentos, desde a chegada dos missionários ao Brasil até a fundação da Província Brasileira da Congregação da Missão, com o devido reconhecimento tanto da Cúria Geral da Congregação da Missão como da Santa Sé, em Roma.  

A história da chegada da Congregação da Missão no Brasil inicia-se com um pedido feito por Sua Majestade Dom João VI, ainda em 1819, quando solicita ao Visitador de Portugal, Pe. Antônio da Silva Rebelo, missionários lazaristas para assumirem uma obra em Cuiabá, no Mato Grosso, para a evangelização da população, catequização dos índios e defesa das fronteiras com os países vizinhos. O Padre Visitador atendeu ao pedido do Rei e enviou dois missionários para essa empreitada no Brasil: Pe. Leandro Rebelo Peixoto e Castro e o jovem Pe. Antônio Ferreira Viçoso. 

Nesse meio tempo, em Minas Gerais, na Serra do Caraça, o Irmão Lourenço de Nossa Senhora havia adquirido, em 1770, uma imensa propriedade, edificando uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens e a São Francisco das Chagas, a qual seria destinada às peregrinações, ao atendimento de confissões e aos demais sacramentos. Já na época do Irmão Lourenço, foram construídas duas alas laterais destinadas ao acolhimento dos peregrinos. 

A pequena comunidade, formada pelo Irmão Lourenço e composta de homens movidos pelo propósito de se penitenciar numa vida austera e de solidão, se dedicava ao cuidado e acolhimento de todos os peregrinos que acorriam ao pequeno santuário. 

Nas vésperas de sua morte, o irmão Lourenço, já idoso e doente, foi visitado pela Virgem Maria, que lhe confidenciou que a sua obra não acabaria com o advento de sua passagem para a eternidade, mas seria continuada por zelosos sacerdotes que já estavam a caminho do Brasil. O irmão Lourenço, que foi confortado pela Mãe de Deus e de toda a humanidade, já havia redigido em 1806 um testamento doando toda a sua propriedade à coroa real e solicitando a Sua Majestade que fizesse do Caraça uma “Sede de Missionários e Escola de Meninos”. Depois de cumprida a sua missão neste mundo, o Ir. Lourenço faleceu em 27 de outubro de 1819, aos 95 anos. Foram, ao todo, cerca de 50 anos dedicados ao Caraça. 

Os dois missionários lazaristas partiram de Lisboa em 27 de setembro de 1819. A viagem durou 72 dias até ao Rio de Janeiro. Estavam ainda se preparando para a viagem rumo ao Mato Grosso, quando o Ministro de Sua Majestade lhes comunicou que, para aquelas terras já estavam indo os frades capuchinhos. Entretanto, Sua Majestade lhes oferecia outro campo de missão no Centro de Minas Gerais, no alto da Serra do Caraça. 

O Pe. Leandro leu o testamento deixado pelo Ir. Lourenço, que continha a frase: “Minha vontade sempre foi e é de que esta Casa seja residência de Missionários... e seminário para meninos” (1). Inicialmente o Pe. Leandro teve muitos escrúpulos em assumir uma obra para a qual não fora enviado pelo Visitador, entretanto, foi confortado pelo Ministro que afirmou que Sua Majestade já estava cuidando dos trâmites legais com a Província de Portugal e que logo obteria a licença do Visitador. Assim, em 31 de janeiro de 1820, os dois missionários receberam a Carta Régia que os autorizava a tomar posse, em nome da Congregação da Missão, de todos os bens deixados pelo Irmão Lourenço no Caraça: propriedade territorial, edificações, mobiliários, escravos etc. Esse acontecimento é o marco da fundação carismática da Congregação da Missão no Brasil. 

Os dois missionários partiram para as terras mineiras em março de 1820. Após 45 dias de longa viagem, chegam ao Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, em 15 de abril. Terminado o período de arrumação e reparos na casa, os dois missionários iniciaram logo o trabalho de pregação das missões. A primeira localidade a ser missionada foi o arraial de Catas Altas - MG, a 18Km do Caraça. Em junho do mesmo ano, missionaram também em Barbacena - MG. 

Terminada a missão em Barbacena, o Pe. Leandro se dirigiu ao Rio de Janeiro para uma audiência com o Rei, na qual solicitou verba para a manutenção da Casa do Caraça. Sua Majestade ofertou 100 mil réis para essa finalidade e ainda deu ao Caraça o título de Casa Real. Em seu retorno a Minas Gerais, o Pe. Leandro levou consigo 4 jovens para iniciar os estudos no Caraça. Esses foram os primeiros alunos do Colégio.

Em 1821, chegam, a pedido do Pe. Leandro, os primeiros missionários vindos da Província de Portugal para reforçar a missão no Brasil. São eles: Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo e o Pe. José Joaquim Mendes Moura Alves. Com este reforço, pôde-se abrir oficialmente o Colégio do Caraça e iniciar as atividades com 14 alunos. A situação financeira do Colégio nos seus primórdios não era boa. Os missionários precisaram contar muito com o auxílio da Divina Providência neste primeiro momento da história. O noviciado também se iniciou nesse ano com a chegada do Pe. João Moreira Garcês, como primeiro noviço. Não obstante as dificuldades, Deus ia abençoando os trabalhos dos missionários. Em 1822, o colégio já contava com 30 estudantes. Nesse mesmo ano, houve a libertação dos dez escravos do falecido Irmão Lourenço e a nomeação do Padre Antônio Viçoso como reitor do Seminário em Jacuecanga – RJ. Iniciava-se, assim, o trabalho da Congregação na formação do clero em território brasileiro. Em 1823, chega ao Caraça o primeiro candidato à vocação de irmão leigo, trata-se de Francisco da Cunha Macedo, natural de Catas Altas – MG.

Com a proclamação da Independência do Brasil, a Congregação sentiu fortemente os efeitos do anticlericalismo e da aversão do Império às Instituições religiosas que mantinham a sua ligação com a Santa Sé em Roma.  Assim, em 1823, o Imperador encaminhou ao Padre Leandro uma carta contendo três notícias, sendo uma delas uma recomendação: que “a casa do Caraça está dispensada de pagar o dízimo dos bens da terra; que o novo título do Caraça é Casa Imperial, e que a Congregação deveria ficar independente de toda obediência à Casa de Lisboa” (2)

Os anos que se seguiram foram de grande perseguição às Congregações e às Ordens religiosas. Ocorreram nesse período a extinção e expulsão de diversas delas, tais como: Capuchinhos, Carmelitas descalços e outros.

Mesmo nesse cenário hostil, a Congregação segue realizando o seu trabalho e crescendo em número e em obras. Em 1827 os missionários recebem como doação a Fazenda Paraíso, de um rico proprietário de terras em Campo Belo do Sertão da Farinha Podre, em Minas Gerais, atualmente, Campina Verde. A finalidade da doação era que fosse construída uma Igreja para o atendimento espiritual da população e um colégio para educação das crianças e jovens da região. Nesse mesmo ano, o imperador ordenou que a Congregação assumisse a direção do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo e que abrisse lá um Colégio, à semelhança do Caraça, mas, independente dele. Diante da necessidade de assumir a direção do Santuário e a fundação de um Colégio em Congonhas, as obras missionárias em Campo Belo ficaram para outro momento que virá mais tarde.

Em 1827, ocorre a nomeação do Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo, como visitador, pelo Superior Geral, Pe. José de Wally. Essa nomeação ocorre na contramão das orientações e desejos do Império cujas leis passaram a proibir o noviciado nas Congregações que ainda sobreviviam no Brasil.

Não obstante as pressões imperiais e o espírito de perseguição que havia contra as ordens religiosas, a Congregação teve a grata alegria de celebrar as ordenações de quatro novos missionários no Santuário do Caraça, em 1829: Pe. Antônio Afonso de Morais Torres; Pe. José Afonso de Morais Torres; Pe. Antônio Valeriano Gonçalves de Andrada e Pe. José Tomás Moura Sousa.

Em 1830, perante o proprietário João Batista Siqueira, de sua esposa Bárbara Bueno da Silva e do Pe. Jerônimo Gonçalves de Macedo, foi assinada definitivamente a escritura de doação de três Fazendas na Cidade de Campo Belo do Sertão da Farinha Podre à Congregação da Missão. 

Apesar de sofrer muito com as leis de restrições às atividades dos religiosos no Brasil, a Congregação da Missão gozava de certa simpatia do Imperador, tanto que o mesmo sempre conferia aos missionários novas atribuições dentro do império. Era um sinal claro de que a Congregação era útil ao povo de Deus, ao clero e à sociedade. 

Em 1831, pouco antes de sua abdicação, Sua Majestade Dom Pedro I, dirigindo-se à Ouro Preto, fez uma visita à Casa Imperial do Caraça para aconselhar-se com o Pe. Leandro. Às vésperas de sua partida para Minas Gerais, Dom Pedro I havia sido obrigado a assinar leis severas contra todas as instituições religiosas que fossem submissas a superiores estrangeiros. As leis previam prisão dos superiores e demais membros das Instituições por até 8 anos! 

O Pe. Jerônimo Gonçalves Macedo escreveu ao Superior Geral relatando-lhe toda a situação da Congregação no Brasil. Em resposta, o Superior Geral concedeu ao visitador todos os poderes de Superior Geral, com autorização para nomear seu sucessor.

Em 1834, a Congregação iniciou seus trabalhos em Campo Belo da Farinha Podre com os seguintes missionários: Pe. Macedo, Pe. Antônio Morais e Pe. José Tomás de Sousa. Essa obra se tornou um vasto campo de irradiação de atividades missionárias e educacionais no Triângulo Mineiro. Iniciaram-se, nesse período, as atividades do Colégio em Campo Belo.

Apesar de sofrer com o fechamento do Seminário Interno, por ordem do governo em 1834 e com a crise financeira que não dava ao Colégio do Caraça condições de funcionar com regularidade, a Congregação segue o seu carisma cumprindo sua missão no Brasil em Congonhas (Santuário e Colégio); Jacuecanga - RJ (Seminário diocesano); Campo Belo (Missão e Colégio) e a pedido do Ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos, em 1838, a Congregação também recebeu a missão de organizar e dirigir o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Para essa empreitada, foi nomeado o Pe. Leandro.

Para garantir o futuro das atividades missionárias da Congregação da Missão no Brasil e atender à legislação brasileira, foi necessário convocar uma Assembleia Geral para eleição do Superior Geral. Isso ocorreu no período de 11 a 13 de dezembro de 1839. O Padre Antônio Viçoso foi eleito Superior Geral com todos os poderes e prerrogativas do Superior Geral em Paris. Embora o resultado da Assembleia tenha sido encaminhado a Roma e a Paris, não houve, da parte do governo geral e de Roma, uma resposta confirmando a separação. 

Logo após a Assembleia Geral, o Padre Leandro foi convidado pelo presidente da Província de Minas Gerais, para fundar a primeira escola de ensino médio do Governo de Minas em Ouro Preto, chamada Colégio Assunção. 

Em 1842, a situação da Congregação da Missão no Brasil era de muita instabilidade e insegurança. Isso se expressava por meio da diminuição do número de Coirmãos, precariedade financeira e pela guerra civil que ameaçava as estruturas das instituições. É neste contexto que o Pe. Antônio Viçoso fecha o Colégio do Caraça, em 25 de agosto de 1842 e se dirige a Campo Belo com os alunos que havia no colégio e alguns pertences. A caravana parte para o Triângulo Mineiro sem saber que a guerra civil havia terminado em Santa Luzia no dia 22 de agosto!  

Em março de 1843, o Pe. Antônio Viçoso recebeu um Ofício Imperial nomeando-o Bispo de Mariana. Imediatamente, renunciou ao seu mandato de Superior Geral e passou o cargo para o Assistente, Pe. Jerônimo Macedo, que, imediatamente, cuidou dos trâmites legais para a convocação de uma nova Assembleia para eleição do novo Superior Geral. Feita a Assembleia, foi eleito o Pe. Antônio Afonso de Morais Torres, que logo escreveu ao Superior Geral em Paris, comunicando do resultado da Assembleia. 

Em 1847, o Imperador Dom Pedro II, por meio do artigo 81 do Código Civil Criminal, permitiu à Congregação da Missão do Brasil reatar os laços com o Superior Geral em Paris. Essa notícia foi imediatamente comunicada ao Superior Geral, Pe. João Batista Etienne. A fim de conversarem melhor com o Superior Geral sobre a situação da Congregação, dirigiu-se-se a Paris o Pe. João R. Cunha, com mais dois padres e um seminarista. Ao retornar ao Brasil, Pe. Cunha trouxe mais cinco padres, três irmãos e doze Filhas da Caridade. Estas chegaram a Mariana em 3 de abril de 1849, tendo sido recebidas por Dom Viçoso. 

Os trabalhos da Congregação se iniciam no Seminário Maior de Mariana em 1853 a pedido de Dom Viçoso, sendo nomeado superior, o Pe. Miguel Maria Sipolis. No período de 12 a 14 de maio de 1855, realizou-se, oficialmente, na Santa Casa do Rio de Janeiro, a 1ª Assembleia Provincial da Congregação da Missão no Brasil com a presença dos seguintes missionários: Pe. Antônio Afonso de Morais, Pe. Mariano Maller, Pe. Miguel Sipolis, Pe. João Lamant, Pe. João Issaly e o Pe. Valeriano Gonçalves. Nesta assembleia foi indicado e, em seguida, nomeado Visitador o Pe. Mariano Maller. Temos, então, a partir daí, constituída oficialmente a Província Brasileira da Congregação da Missão. 

Pe. Luíz Carlos do Vale Fundão, CM

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(1) ZICO, José Tobias, CM. Congregação da Missão no Brasil. Belo Horizonte: Líthera Maciel, 2000. P. 19.

(2) Ibidem, p. 22.

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